João Paulo Videira

Mix Cultural


O que os une
Esta não é uma história exclusiva do Clã do Comboio. O que ela tem de engraçado é que todos os eventos aconteceram no mesmo dia. A razão por que a publico na secção do Clã do Comboio prende-se com o facto do primeiro e último episódios terem acontecido a bordo do comboio. O certo, contudo, é que tem apontamentos de todos os meios de transporte públicos que uso durante o dia. Chamei-lhe Mix Cultural, mas poderia ter sido Mix Educacional. O que une estes apontamentos são questões culturais e educacionais. São traços da sociedade que vamos construindo. Não têm de ser alvo de acordo ou desacordo, de aprovação ou desaprovação. Têm, só, e a meu ver, de ser alvo de reflexão.

Restos da noite
Quando o regional das 7:47 em Riachos chegou a Vila Franca de Xira, eram quase 9 horas da manhã. Entraram as quatro em alvoroço, falando alto umas com as outras e com as pessoas que tentavam entrar com elas. Falavam e gritavam com essas pessoas, visivelmente embriagadas, com roupas de noite, já sem brilho e restos de maquilhagem do dia anterior, e quando um homem parou no meio do corredor, à espera que as pessoas à frente dele avançassem, uma delas disse, Ó senhor, tire daí o rabo. E correram todas na direção oposta, à procura da casa-de-banho num alarido gritado e muito pouco comum. E quando alguém, uma senhora de idade, com idade suficiente para perguntar o que lhe apetece e ter direito a resposta, perguntou donde vinham, e uma delas não hesitou:
- Estamos a chegar da discoteca.

É "mêmo velho"

O 28 estava à pinha. Estávamos todos apertados, encostados uns aos outros. Nos lugares reservados a idosos, grávidas e deficientes iam dois jovens a rondar os quinze, dezasseis anos. Junto a eles um idoso sentado e de pé uma senhora velhinha e dobrada pelo tempo. O idoso falou para o ar, como que para ser ouvido por alguém que se interessasse:
- Se fosse um filho meu, eu obrigava-o a dar o lugar à senhora.
Ninguém reagiu. A impessoalidade leva-nos a isto. Mas o idoso também não deu muito tempo. Virou-se para um dos jovens e disse-lhe:
- Esses lugares são para idosos, ouviu?
- Ouvi, ouvi.
- Então dê o lugar à senhora.
- Está bem, está bem.
Levantou-se. Não falou para a senhora, nem olhou para ela. Ela sentou-se e o velhote repreendeu:
- Esses lugares são para idosos.
- Eu já tinha dado o lugar, não já?
- Deu depois de eu falar...
- Já dei, não dei? Vê lá se te calas, ó velho.
O idoso encolheu-se assustado com o olhar ameaçador do miúdo que, antes de eu sair, ainda disse:
- Eu já tinha dado, ó velho. Óvistes velho? É mêmo velho!


A mim!
Entrámos no metro, ao final da tarde, no Cais do Sodré com destino a Baixa/Chiado, e a carruagem não podia estar mais cheia. Os alarmes das portas já tinham soado, mas havia pessoas que continuavam a forçar a entrada e a conseguir entrar. Uma senhora jovem encostou-se às costas dos bancos para se amparar, cada um se agarrou onde podia e um senhor de meia idade ficou entalado entre as pessoas sem ter onde se agarrar e foi por isso que desabafou:
- Não tenho onde me agarrar!
Ela olhou, sorriu e respondeu:
- Agarre-se a mim!


Mais curta do que curta
De regresso a casa, no comboio, sentei-me e fiquei a ver quem entrava e onde se sentava. Ela tinha trinta e poucos anos, era alta e possuía uma ossatura larga. Casaco de cabedal, meias de lycra castanho escuro, mas transparente, e uma saia curta, tão curta que era quase impossível classificar como saia. Era assim mais da categoria dos cintos.  Quando uma saia é curta, mas, ainda assim, é uma saia, as senhoras sentam-se e conseguem tapar o básico. Esta não conseguia! E lá foi ela, com o básico à mostra e os homens encabulados a olhar e fingir que não olhavam...


Stôra
Este foi o momento enternecedor do dia. Aquele que me fez acreditar de novo nas pessoas. Entraram juntas, a aluna e a professora, e ambas podiam e deviam ter deixado o trabalho no trabalho. Mas não deixaram. Continuaram no comboio como se estivessem na sala de aula. A aluna era surda, mas falava de forma perfeitamente percetível. Tinha um semblante feliz e pleno de esperança. A professora já tinha passado os quarenta, mas continuava a brilhar no seu olhar o prazer de ensinar. E foi no comboio que a ensinou a estruturar um trabalho, uma apresentação. Explicou-lhe o que era preciso fazer e como era preciso fazer. Puxou de um papel e foi explicando e exemplificando. Quando terminaram, a miúda atirou-se a uma calculadora gráfica:
- Tens trabalhos de casa?
- Não. É só para lembrar a cabeça.
- Por isso é que tens sempre 18.
E depois saíram e deixaram para trás um clima de entrega e dádiva.


Juízos de valor
Já não faço juízos de valor. Ando cansado da Humanidade. Deixo-os para que possa o leitor fazê-los, mas foi bom regressar a casa com a Stôra e a aluna cúmplices e distraídas no trabalho e pelo trabalho num dia de tanta agressividade.
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João Paulo Videira
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Já gastei as palavras todas!
Já te disse as emoções redobradas.
Já reinventei as vírgulas,
As preces,
Já relembrei os dias
E as noites passadas
Na companhia da tua paternidade.
Já rezei.
Já fingi que falava contigo.
Já falei contigo.
Já te fiz os elogios todos
E refi-los depois.
Já te celebrei o dia.
Já nos cantei
Aos dois!
Já te vi pelos olhos da mãe,
E pelos da mana também.
Já te disse como tu
Nunca encontrei ninguém.

Mas não chega, Pai.
Nada suprime
Esta ausência surda
Esta lâmina longa de desespero
Entrando-me na alma.

Há coisas pequenas, sabes,
O toque da tua pele,
O cheiro do teu corpo,
Os teus cabelos encaracolados no peito
Fazendo de mim criança e menino,
O tom da tua voz,
Os olhos rindo no silêncio das palavras.
O poder das tuas mãos,
A bonomia com a mana
A proteção com a mãe
E a esperança em mim,
Teu infinito rapaz
De realizar-te os sonhos.

Faz-me falta, Pai,
Um homem que acredite em mim!
Faz-me falta que me façam sentir
Assim.
E não há dia 19,
E não há aniversário
Nem celebração
Que comprove
Estar na tua,
A minha mão.

Não chega, Pai.
Só tu te bastas.
Só tu me bastarias
Na passagem confusa
Dos dias
A emergir com vigor
E com força
Da Humanidade perdida e difusa
Prenhe de convicção e Amor.

Não me venham com merdas,
Com outros mundos e outros céus,
Com divindades plenas e com véus
De ilusão
Que dizem ser as perdas
De hoje
Recuperadas amanhã.
Não há vida, amanhã, Pai.
A que havia ontem
Não sei já onde vai.

Desde que te foste e me perdi
Não há vida, Pai,
Num Universo onde a vida seja sem ti!
jpv
João Paulo Videira


O melhor é calar-me um bocadinho, vê-se mesmo que ele vai a fazer o frete de me ouvir. No que diz respeito a carros, o maridinho trata-se bem. Este é muito giro. Nem sei o que isto é, mas gosto dos estofos e do design. Pelo aspeto deve ser bom. De resto, o que é importante é que seja bonito e este é liiindo! No que toca a carros, só gosto de escolher a cor. Só espero que ele não repare que estes sapatinhos Blahnik são novinhos em folha, senão vem logo com a conversa do dinheiro. Mas ele hoje está charmoso... e cheiroso... espero que se atire a mim no final da noite com aquela avidez que o carateriza. Já vou tendo pouca paciência para ele e a sua claque de seguidoras, mas na cama... na cama... é do mais afanoso e engenhoso e... como é que é aquela palavra... laborioso, é isso, é do mais laborioso que tenho visto... e se eu tenho visto muito! Aquelas delambidas é que me enervam... ele é sms, ele é telefonemas, ele é reuniões, saídas, visitas, inaugurações, vernissages... mas porque é que será que onde quer que ele esteja, aparece sempre uma das amiguinhas? É a Sandra, a Andreia, a Joana e a pior de todas... a Marlene... só me apetece arranhá-la toda... o telefone? Quem será agora? Hugo?! Este garoto enlouqueceu! Agora como é que disfarço isto?! Calma, Belinha, calma, tu consegues.
- Estou? Mané, querida, como vai? Então, rica, passa-se alguma coisa?... estou aqui com o Mário, o meu marido, vamos ao jantar de beneficência... não vai, rica? Que pena, pensei que íamos caturrar um bocadinho as duas... beijinho, beijinho.
Enfim, esperemos que ele não tenha reparado. Cá estamos, já chegámos, esta noite vou arrasar. A Mané está cá! Ai meu Deus, a bronca. Mas não era suposto ter ido à festa da Tété Barroso? Ai o Mário vai falar...
- Boa noite Mané, que surpresa, pensei que não viesse, aliás, ia jurar que a Belinha tinha falado consigo há uns instantes.
- Hã? Comigo? Claro, claro, sabe como são as mulheres, mudam de ideias rapidamente.
- E de roupa!
Meu Deus, ela bem tentou safar-me, mas agora tenho um problema pela certa... o melhor é mudar de assunto, vou falar das Maldivas, tem de ser em público, à mesa, sempre quero ver se em frente aos amigos se põe a dizer que não pode ser, não temos dinheiro, ou se come e cala... não tem dinheiro, não tem dinheiro, mas tem orgulho... e carros caros. Olha, olha, tentou chutar para canto a dizer que as Maldivas não estão na moda. Nem precisei fazer nada, foi abafado pelo resto da mesa a contradizê-lo. O Marecos Valdez até o desafiou para irmos juntos por causa da pesca grossa em alto mar... toma, toma... ai vai ser tão bom, tão bom... o meu cartão de crédito, amigo secreto,  tem de ser discreto em Portugal porque nas Maldivas vai dar-me um jeitão.

Olha a Marlene... esta, topo-a eu à distância, olha-me aquelas roupas, tudo a ver-se à transparência... já é falta de decoro... os brincos são giros, tenho de descobrir onde é que os foi desencantar... lá vem ela distribuir beijinhos, mas só no ombro do Mário é que a cabra pôs a mão... a etiqueta do sutiã visível sob o tule no ombro... o que é aquilo? Aquilo é o que eu penso? Chantal Thomass?! O mesmo que eu trago!!! Que o meu maridinho me ofereceu?! Não me digas que o tipo compra disto à dúzia...
- Olá Marlene, como está rica?
- Bem, muito bem, então como é que havia de estar numa festa?
- Um Chantal Thomass... não dá para não reparar...
- Foi um presente.
Cabra, cabra, mil vezes cabra. E este mentiroso vai pagar-mas todas! Ai andas com dificuldades e compras lingerie de luxo à Marlene, ai é? Ai é assim? Então espera, espera que não tarda estas dívidas vão parecer-te poucas! Ora, deixa lá ir à casa-de-banho fazer um telefonemazinho...
- Estou? Hugo? Como está o menino?... bem, enfim, quase bem. A festa está uma seca. E esses músculos? Continuam firmes? O menino é uma tentação... olhe, querido, lembra-se daquele fatinho Armani de que me falou?... é seu! E a gravatinha CK, lembra-se?... é sua! E aquele relógio, como é que era a marca? Aquele do nome difícil de dizer... isso, isso, esse, o tágue auér, aquele esquisito com os brilhantes... olhe, fazemos uma loucura, é seu! Caro? Quanto? O quê? Dois mil euros no seu pulso não é caro, é um prazer! Olhe, querido, saímos amanhã à tarde? Claro, vamos pela linha, compramos-lhe uns miminhos e depois vamos verificar o estado dessa musculatura... que me diz? Claro! Beijinho, beijinho...

Lá volto àquela maldita mesa, deixa-me lá fazer uma entrada arrasadora...
- Ó maridinho, você está um gatão. Hoje quero dançar consigo. Aqui e lá em casa também!
João Paulo Videira

João Paulo Videira
Da Net
João Paulo Videira

Dia interessante. De muito trabalho, mas de partilhas muito ricas. Fiz uma comunicação no seminário “20 ANOS DE FORMAÇÃO CONTÍNUA DE PROFESSORES: CAMINHOS PARA O FUTURO". O fim-de-semana ficou mais curto, mas valeu a pena. Em momentos assim, a esperança no meu país renasce.

João Paulo Videira

Caros Leitores e Amigos,

tenho andado assim... amanhã publicarei algo de novo... hoje... hoje podiam vasculhar aí os cantinhos da casa...

Obrigado!
João Paulo Videira

AVISO
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João Paulo Videira


Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo II de "Por causa dA Dívida" no Crazy 40 Blog.

Iremos continuar a história em breve nestas páginas com o Capítulo III.


Boas leituras!
João Paulo Videira
No Comboio:


"Há muita justiça injusta!"
João Paulo Videira


Será a casa do homem invisível?

Da Net
João Paulo Videira


Na padaria do Intermarché:


"Só tenho seis bolas e um cacete"
João Paulo Videira

"Se queres o pequeno-almoço na cama, dorme na cozinha!"

Da Net
João Paulo Videira

- Ai meu Deus, ai meu Deus, é a visão do Paraíso, é a perfeição, morri e fui para o céu... ai Maria Isabel Teixeira de Sousa Morais e Nóbrega, mais conhecida entre todas as tuas amigas e seguidoras por Belinha, o que vais tu fazer agora? Como reagir a esta revelação?  E decidir? Como decidir?

Ai Jesus, estou aqui a falar alto no meio da rua de frente para uma montra, ainda vão pensar que sou maluca... enfim... não sei o que fazer. Os Gucci são fantásticos, soberbos, divinais, calçar aqueles sapatos deve ser como caminhar nas nuvens. Os  Blahnik são irrecusáveis, que elegância! Uma mulher como eu calça aquelas beldades e deixa de ser uma mulher como eu, passa a ser uma mulher com Blahnik. O melhor é ligar à Mané Titá, ela pode ajudar-me. Deixa cá ver, foto com telemóvel, mais foto com telemóvel e agora vamos lá enviar isto... mas porque é que põem tantos botões nos telemóveis? Esqueçamos as fotos.

- Mané, olá rica, como vai? Olhe, preciso da sua ajuda. Estou dividida entre uns Gucci fabulosos e uns  Blahnik soberbos... para a vida? Não querida, são para uma festa de beneficência do grupo do Mário... paga ele, querida... Só espero é que não saiba... no meio de tanta porcaria que ele paga, não vai notar uns míseros 1437,60 euros que eu investi nuns sapatos, nuns sapatos não, os  Blahnik não são sapatos, são Deus na Terra aos nossos pés. Aliás, foi ele que me convidou, Tens de ir, disse ele, eu vou, calçada, muiiiito bem calçada... ai querida, sei lá como é que ele os vai pagar, quando estiver com problemas de dinheiro pode passar um cheque ao banco! Adeus, rica, beijinho, beijinho.

Detesto ter de pensar em dinheiro, mas é um facto que o Mário recentemente começou a falar-me nisso, que assunto mais maçador. Porque é que não fala de futebol como os outros homens todos? Assim, posso ir pensando na vida enquanto ele fala. Ainda bem que aceitei aquele cartão de crédito dourado... e está só em meu nome, ou seja, 007 licença para gastar. Vou arrasar.

O telefone a tocar? Deixa cá ver quem é... O Hugo? Ai querem ver que o garoto se apaixonou?
João Paulo Videira
Por acaso, moro perto. Não conheço o hotel nem ninguém ligado a ele.
Divulgo só porque considero a frase muito feliz bem como a sua adequação ao propósito para que é usada. É o meu fetiche com a publicidade...
João Paulo Videira

Gaivotas em terra...

Carapau no mar!
João Paulo Videira

João Paulo Videira
(Clique para aumentar)

Nota Explicativa

Caros/as Leitores/as,
Dulce Morais e João Paulo Videira, autores dos blogues “Crazy 40 blog” e “Mails para a minha Irmã” iniciaram o projeto “Escrita a Duas Mãos” com “A Dúvida”.

A aceitação e as críticas dos leitores, nos jornais, nas rádios e nas diversas televisões foram tão positivas que Manoel de Oliveira decidiu realizar o filme de “A Dúvida” para comemorar o seu 150º aniversário.

Ora, com um sucesso tão retumbante, estes escritores decidiram retomar o projeto “Escrita a Duas Mãos”. Desta feita vão contar-vos uma história intitulada Por causa dA Dívida”

Esta história terá 18 capítulos e desta vez será João Paulo Videira a contar o primeiro e Dulce Morais a narrar o último. Sabem como é, as senhoras têm sempre a última palavra. E quando essa última palavra calha aos homens, é bom que seja “Sim, querida!”, caso contrário temos o caldo entornado.

Tal como em “A Dúvida”, cada um dos autores adotará uma perspetiva, feminina e masculina, de encarar a vida, os problemas, a escrita e… as dívidas!

Por causa dA Dívida” será um texto despretensioso cujo único objetivo é explicar à Humanidade porque é que tem problemas e, de permeio, resolver a grave crise financeira que assola o mundo ocidental.

Sempre que um capítulo for publicado num dos blogues, o outro blogue apresentará um link para o mesmo. Desta forma, os leitores não perderão pitadinha da história independentemente de qual seja o blogue que sigam com mais regularidade.

Boas leituras e… divirtam-se (de preferência sem recurso ao cartão de crédito!).

Dulce Morais
João Paulo Videira
João Paulo Videira

Primavera, mas não tanto!


Ainda há pouco tempo escrevi e publiquei neste blogue dois apontamentos sobre a chegada da Primavera. E, lembro-me bem, publiquei com eles algumas fotos da flor de amendoeira.

Esta sexta-feira, à porta do autocarro 28, presenciei uma cena que pode ser invocadora da Primavera, mas noutro plano, digamos, num plano mais humano. Estava uma radiosa manhã de sol primaveril, daquelas em que uma pessoa até acredita que vai tudo correr bem. Contudo, e por isso estas linhas fazem sentido, estava um frio cortante, que entrava na pele, sob as roupas. Não estranhei, pois, que as pessoas vestissem camisolas de lã e casacos e blusões e sobretudos. Já não é tempo de garruços na cabeça, mas ainda não é tempo de deixar o casaco em casa. E foi então que a vi. Eu e toda a gente que por ali passava.

Uma senhora junto aos cinquenta, cabelo claro, muito curto, a pele alva como lençóis depois da lixívia, óculos de massa retangulares e encarnados, sapatos encarnados de salto alto e... vestia pouco mais do que isto. Eu sei, parece um exagero. Mas, bem vistas as coisas, não é. Além do já referido, a senhora só tinha no corpo um vestidinho encarnado de algodão. De cavas, com um decote generoso, sem costas e a dar por cima do joelho, muiiiito por cima do joelho! A roupa interior era de uma marca pouco comum, mas que já se tem visto: "Ausente".

E assim, nos primeiros dias de março, num amanhecer solarengo e frio, houve uma alma que enfiou um vestidinho diminuto e esqueceu-se do resto. Como que a antecipar a Primavera.

Eu, por acaso, até penso que podemos ir antecipando a Primavera, mas não tanto!
João Paulo Videira

Mails para a minha Irmã superou hoje as CEM MIL (100000) leituras!

Obrigado a todos pela vossa dedicação.

jpv