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Leitura de Férias


Por via das tarefas de manutenção, estas férias não li tanto quanto queria. Ainda assim, nas duas últimas semanas, devorei três livros. Embora seja um leitor lento, daqueles que saboreiam, voltam a atrás, releem, divertem-se e só depois avançam, a escassez de tempo para ler, deu-me para despachar a prosa.

Quem me conhece já me ouviu muita vez a frase "prefiro um mau autor português do que um bom estrangeiro". Quero com isto dizer que leio preferencialmente autores de Língua Portuguesa. Também leio estrangeiros, mas procuro e prefiro sempre um português. Não se estranhe, pois, que os três livros sejam de autores portugueses. Aqui fica o elenco e uma breve opinião que não pretende ser uma crítica literária. Só a minha opinião.

Madrugada Suja
Miguel Sousa Tavares

Eu sou professor e, como tal, não gostei de muitas das suas declarações acerca dos docentes. Também sei que muitas das afirmações que lhe são atribuídas não foram por si proferidas. Em todo o caso, não misturo as coisas. Não gosto do comentador, mas gosto muito do escritor. Até hoje li toda a prosa ficcional de Miguel Sousa Tavares e, se bem que tenha gostado deste livro, penso que é o romance mais fraquinho que publicou até hoje. Tem uma prosa escorreita, mas falta-lhe intensidade, as personagens não têm densidade psicológica, e a trama é confrangedoramente previsível. Em todo o caso, considero absolutamente deliciosa a construção do ambiente de Medronhais da Serra, uma aldeia perdida no alentejo e, em particular, da personagem Tomás da Burra, avô do protagonista. A crítica política também está bem urdida mas há momentos em que o texto se desprende do romance e fica a parecer uma crónica para o jornal. Por fim, duas falhas técnicas ou, melhor dizendo, duas mesquinhices minhas. Primeiro, não me parece que uma rapariga violada e atropelada, que passa por um processo de recuperação do andar que dura cinco anos quisesse alguma vez mais ter qualquer tipo de relacionamento com um dos agressores, mesmo considerando que este tinha um estatuto mais "desculpável" que os outros dois. Segundo, era impossível o Tomás da Burra converter uma cadeira de barbeiro, tal como a que está descrita, numa "cadeira de rodas" colocando-a em cima de umas rodas de madeira. Essas cadeiras são pesadíssimas, a rondar os 200kg, e são necessários vários homens para as manusear. 
Em todo o caso, é um livro que se lê de um só fôlego e que aconselho.

Já Não Se Escrevem Cartas de Amor
Mário Zambujal

Este é um autor de quem também li toda a prosa, à exceção de "Cafuné" que vou ler brevemente. É um texto delicioso, quase como uma crónica de época, mas repleto de um humor fino e adaptado à Lisboa dos anos 50. O retrato social está muito bem conseguido e as personagens são divertidas até porque não pretendem ser mais do que isso. O livro é despretensioso e, talvez por isso, se torna cativante e envolvente. De resto, é preciso lê-lo até à última palavra para que toda a trama tenha sentido. É interessante seguir a errância amorosa do protagonista bem como os desconcertantes momentos de sensualidade que a envolvem, como é interessante passear pelos ambientes recriados. Por fim, o livro tem uma característica que encontramos quase sempre nos textos de Mário Zambujal: está povoado de personagens secundárias maravilhosas. Aconselho.

Os Retornados - Um Amor Nunca Se Esquece
Júlio Magalhães

É um texto com interesse histórico e com um valor afetivo e um potencial emocional para quem viveu a realidade que retrata: a ponte aérea que permitiu o regresso a Portugal de muitos dos portugueses que viviam nas antigas colónias. A primeira parte do livro é muito documental e serve, fundamentalmente, para mostrar o drama que viveram esses portugueses, a forma abrupta e trágica como foram despojados da sua vida. Só na segunda parte do livro, "20 anos depois", o autor entra efetivamente no campo do romance. A escrita está conseguida ao nível de um relato. Para romance, falta-lhe muita coisa. Ainda assim, eu acho que todos os portugueses, "Retornados" ou não, deviam ler este livro. Como também sou "Retornado", para mim, emergiu o valor emocional do livro. Às lágrimas. Contudo, reconheço que a escrita é muito incipiente e, por vezes, desnecessariamente redundante, quase pueril, como se fossem as memórias de um menino. E talvez sejam. Se é "Retornado" já leu. Se não é, devia ler.
Pretendo ler outros livros deste autor para não "cristalizar" a minha opinião com base num só texto.

jpv

Resultados da Sondagem sobre "A Paixão de Madalena"


E pronto, terminou a sondagem sobre a "Paixão de Madalena".

E o que nos diz?

Em primeiro lugar, que muito poucas pessoas responderam à sondagem. Efetivamente, os dados do Blogger revelam que os capítulos deste romance são muito lidos e em consonância com isto está o facto de muitos leitores remeterem e-mails a perguntar "pelo próximo capítulo". Em segundo lugar, que, os que responderam, deram respostas  que são, para nós, muito gratificantes e motivadoras.

Este romance não será consensual, será sempre surpreendente e revelará algo que já tínhamos desenvolvido, a espaços, no romance "De Negro Vestida", uma escrita com um ritmo trepidante, uma personagem central sempre capaz de mais e de desenvolver facetas diferentes e personagens que a rodeiam marcadas por percursos notáveis, seja pela positiva, seja pela negativa. Sendo que pensamos não haver negativa. Há só pessoas. Podemos estar enganados, mas acreditamos que este romance ainda vai provocar reflexões de índole ética e moral porque desafiará os parâmetros de ambos os valores.

Pessoalmente, estamos a adorar escrevê-lo. E, uma vez feita a investigação, estamos a demorar o tempo necessário para que o texto assente e se defina. É, por assim dizer, um prazer trabalhado.

Obrigado aos leitores e amigos que votaram. Até ao próximo capítulo que está para breve.
jpv
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Resultados da Sondagem

Pergunta:
Para sabermos a sua opinião acerca da história que temos vindo a publicar, "A Paixão de Madalena", diga-nos o que pensa dela sendo que pode escolher diversas opções como resposta.

Respostas:
Gosto, porque está bem contada.
  5 (55%)
 
Não gosto, porque é demasiado descritiva
  0 (0%)
Gosto, por causa do ritmo da narrativa.
  6 (66%)
 
Não gosto, por ser superficial.
  0 (0%)
Gosto, por ser realista.
  6 (66%)
 
Não gosto, por ser demasiado fantasiosa.
  0 (0%)
Não gosto nada.
  0 (0%)
Não gosto.
  0 (0%)
Gosto.
  0 (0%)
Gosto muito.
  8 (88%)
 
Não leio.
  0 (0%)
O que é isso?
  0 (0%)

A Paixão de Madalena - Capítulo 12


A Paixão de Madalena

Livro II - O Cordeiro de Deus

12. É preciso conhecermos as pessoas para as percebermos. É, sobretudo, preciso conhecê-las antes de as julgarmos. A história que agora se contará não justifica o futuro, mas derrama luz sobre ele.

Já estiveram os três à mesa. Agora está só o pai, perna cruzada, jornal aberto, e o filho olhando o que resta da refeição, girando o garfo sobre a comida, um braço estendido ao longo da mesa e a cabeça sobre ele. Carne de jardineira não lhe agrada. Sobretudo não percebe o que veem os adultos no feijão verde e, como não está autorizado a sair da mesa antes de terminar, vai espalhando a comida no prato e, de quando em vez, pergunta:
-Já posso?
-Come o que tens no prato!
E aquela frase, assim contundente, caiu-lhe em cima como uma espada de cortar esperança. Não lhe resta mais do que continuar a remexer a comida fria à espera que o pai se canse. Numa reviravolta que dava a um pedaço de feijão verde cortado aos quadradinhos, o vegetal saiu-lhe disparado do garfo, bateu-lhe no peito, tabelou no joelho e anichou-se no chão, mesmo por baixo dos seus pés. A primeira reação foi olhar para o pai. Felizmente tinha a cara por trás do jornal e não tinha visto. Enganou-se no juízo. Saiu da cadeira e foi abaixo da mesa buscar o pedaço de feijão verde e era lá que estava quando tudo recomeçou. Lembra-se do sabor a sangue logo após o primeiro pontapé a encher-lhe a cara e a cortar-lhe os lábios, lembra-se de bater com a parte de trás da cabeça na perna da mesa e depois não se lembra de mais nada. Erguido pelos cabelos, esbofeteado e esmurrado ao som de uma letra que variava pouco, Julgas que ando a matar-me a trabalhar para te pôr a comida na mesa e tu depois a atirares para o chão? Hã? Hã? Responde-me! Não! Não quem? Não, papá! E achava que tinha respondido bem e por isso não percebeu a sequência de bofetadas e murros após a resposta. A voz da mãe ao longe gritando, depois pegando nele, serenando-o, os cuidados e a humilhação numa próxima refeição em família:
-Aquele ainda esta semana levou uma tareia à moda antiga. A deitar-me a comida para baixo da mesa, o sacanita… depois lá veio a mãe com falinhas mansas e paninhos quentes. Não me importa. O pai dá a educação, a mãe dá os mimos. Sempre assim foi, sempre assim será.
Quando entrou na escola, Mário Só não pôde evitar a pergunta da professora:
-O que te aconteceu Marinho?
-O meu pai bateu-me, disse o miúdo com inocência e verdade.
Bernandino Só foi chamado à escola e quando lá chegou ralhou com a professora, reclamou para si a função de educador, ela que se limitasse às tabuadas e às cópias que o pai era ele, sabia muito bem o que estava a fazer, filho seu nunca lhe haveria de faltar ao respeito. À noite, chegou a casa, fechou-se num quarto com o miúdo, gritando-lhe que o que se passava em casa não se contava na rua porque só à família dizia respeito, tirou o cinto e descarregou na criança a humilhação de ter sido chamado à escola. No dia seguinte a professora percebeu que a cavalaria da besta Bernardino Só havia de novo carregado sobre a pobre criança e já não lhe perguntou nada. De tempos a tempos aparecia com marcas visíveis do calvário que era o seu quotidiano e a professora aprendeu a rezar e a pedir que não se repetisse muitas mais vezes. Mário Só não tinha irmãos, razão porque colhia todas as atenções do pai que jurara fazer dele um homem. E o seu conceito de fazer dele um homem era ensinar-lhe palavrões, comprar-lhe cadernetas com os cromos da bola e verificar se ele já tinha decorado os nomes dos jogadores do Varzim e do Farense e perguntar-lhe, em público, Olha lá, pá, já apalpastes o cu a alguma gaija lá da tua escola? O coitado não respondia e, quando chegava a casa, a mãe apressava-se a fechar-se com ele no quarto a dizer-lhe que aquilo eram brincadeiras do papá, para não levar a sério, nem repetir aquele palavreado.

Certo dia, estavam os três à mesa, a mãe acabara de sentar-se. Como habitualmente, fizera tudo sozinha, o jantar, a cozinha arrumada que Bernardino não queria ninguém à mesa com a casa de pantanas, a mesa posta, as sobremesas prontas, a sua comida quase fria, o marido e o filho quase comidos e bebidos. E assim que se sentou, Bernardino atacou:
-Traz-me os palitos!
Num momento de cansaço e inusitada ousadia, Maria das Dores respondeu-lhe, educada, mas declinando o pedido:
-Ai, Bernardino, vai lá tu que ainda agora me sentei.
As costas da mão dele voaram e assentaram-lhe com violência tal que a senhora caiu desamparada. Bernardino percebeu o ar perplexo do filho e disse-lhe como quem ralha:
-E tu vê lá se aprendes a ser homem. Homem que é homem não admite certas coisas.
E quando Mário Só faz menção de levantar-se para ajudar a mãe, foi impedido por verbal e inequívoco comando:
-Deixa-te estar no teu lugar! A tua mãe sabe levantar-se sozinha.
Mais tarde, Bernardino abordou o miúdo:
-Mário, ouve o pai, o pai gosta muito da mamã, mas a vida é difícil, tem de haver rigor e respeito e o que hoje te pode parecer mal, amanhã vais perceber e valorizar, o pai não faz nada que não seja para bem da mamã e de ti, percebeste?
-Sim, papá.
-Então vá, vai lá dormir.
E Mário Só foi deitar-se e adormeceu nessa noite anestesiado pela violência dos gestos do pai. De manhã percebeu que a mãe estava marcada na face e deu-lhe um abraço mais demorado. Maria das Dores percebeu e recuperou a vontade de viver.

Enquanto andou na escola, Mário Só foi um miúdo submisso e cumpridor, mas sem qualquer ponta de imaginação. O medo, por vezes, tolhe as almas e elas, por defesa, encolhem-se e podem nunca chegar a nascer para o mundo. Mário Só era um jovem profundamente respeitador, mas nunca soube o que era o respeito. Encolhia-se por medo e foi por via desse mesmo medo e desse encolhimento que nunca foi aluno para além do sofrível. Aos dezasseis anos, assim que pôde, saiu da escola e foi trabalhar de servente para as obras. E foi aí que aprendeu a fumar um cigarro, a beber meia dúzia de minis numa tarde, a puxar pelo cabedal, a erguer a espinha e a trabalhar a vida. Sempre submisso, quase sempre discreto, a evitar os palavrões que usava de quando em vez e com parcimónia só para que ficasse claro que era tão homem como os outros. E começou a sair à noite, sobretudo ao fim de semana e uma dessas noites trouxe-lhe o primeiro corpo de mulher. Pago, bem entendido, mas, ainda assim, a melhor oferta que o Universo e a vida lhe haviam feito em quase vinte anos de existência. Cedo se apercebeu que transportar era com ele. O carro de mão, o empilhador do armazém de construção, a moto do Joaquim, mais tarde, uma carrinha de caixa aberta, muito velha, que o empreiteiro usava para materiais de menor porte. Era rápido e eficaz nas suas escapadelas ao armazém para ir buscar vinte e cinco quilos de cimento cola, uma caixa de azulejo que tinha faltado nas contas, são tramados, os cortes, geram muito desperdício, duas pontas de ferro de doze, meia palete de blocos. Um dia, a polícia mandou-o parar e ele parou e respondeu a tudo com verdade e submissão e o patrão viu-se e desejou-se para se safar da enrascada de ficar com a carrinha apreendida e uma multa monumental. Propôs pagar-lhe a carta e ir descontando no vencimento, mês a mês, em pequenas parcelas. Mário Só sorriu e aceitou. Não falhou o código e menos ainda a condução. Depois, quem o queria ver, era montado na carrinha velha a acartar materiais de um lado para o outro. O próximo passo que lhe pareceu lógico foi tirar a carta de pesados e, no mesmo dia em que a conseguiu, teve uma oferta de emprego. Pediu um avanço para pagar uma dívida. Deram-lho e ele foi ter com o empreiteiro e acabou de pagar o que lhe devia. Puseram-lhe um carro pesado nas mãos, um mapa, uma listagem de fornecedores e clientes e a sua tarefa era ir buscar e distribuir caixas de bacalhau. Não tinha horário. Tinha fretes por dia. Se os acabasse cedo, saía cedo. Se os acabasse tarde, saía tarde. Descansava um dia por semana e recebia dez vezes mais do que a acartar baldes de massa e carros de mão de areia nas obras. Alugou uma casa velha e pequena onde ia dormir e via televisão nas folgas. Passava algum tempo em bares frequentados por camionistas e os seus afetos entregava-os às prostitutas de beira de estrada. Um dia estranhou porque uma delas segurou-lhe a cabeça entre as mãos e disse:
-És só um menino cheio de medo.
Ele estremeceu:
-Que dizes?
-Esquece. Não é nada. Eu tenho a mania que conheço os homens pela maneira como…
-Bebeste?
-Sim, bebi! Que parvoíce a minha, estar para aqui a dar conversa a clientes. Estou paga, estás servido, até à próxima, se a houver.
Passou a procurá-la. Encontrou-a umas poucas de vezes. Gostava da forma como ela lhe acariciava a nuca enquanto ele suava em cima dela e gostava, sobretudo, dela ter sempre uma palavra no fim. Uma provocação. Uma observação.
-Olha lá, já pensaste em ter uma namorada a sério?
-Já.
-E…
-Não sei o que dizer, não sei o que fazer… e esta vida de um lado para o outro com o camião também não ajuda…
-Tens medo das mulheres?
-Não. Tenho medo de mim ao pé das mulheres.
-Tu é que sabes, mas isto não é vida.
-A tua?
-Não. A minha faz todo o sentido. Escolhi-a. A tua! A tua é que está uma baralhada. Não te percebo, miúdo, não te percebo.
-Não há nada para perceber. Sou um tipo burro que gosta de conduzir e teve a sorte de conseguir ganhar dinheiro com aquilo que gosta de fazer.
-Não sei… há qualquer coisa baço no teu olhar…

Nunca mais o viu. Nem poderia. Ele emigrou. Um dia, a mãe, com quem falava de tempos a tempos, a quem mimava às escondidas do pai que decidira não rever desde que fora trabalhar, disse-lhe com esperança na voz:
-Tenho uma novidade.
-Ai sim? Conta.
-O tio António perguntou por ti.
-O da Suíça?
-Sim. Queria saber como estavas e eu disse que bem, que estavas um homem, tinhas trabalho, eras independente, e ele perguntou o que fazias e eu contei um pouquinho da tua história, mas isto já foi há tempos…
-E só agora me contas?
-Na altura não dei importância, mas esta semana ele voltou a ligar, diz que tem lá trabalho para ti, que apareceu lá um emprego de motorista, acho que é para andares com um senhor que é advogado, carro bom, alojamento e alimentação e o ordenado é muito melhor do que aqui… querem um português. Dizem que somos de confiança e tio conhece-o e falou em ti…
-Isso é a sério?
-É. Achas que a mãe gosta de dar-te esta notícia? Vais para lá e nunca mais te vejo, mas o teu bem é o meu bem e se tu fores para melhor, eu fico feliz…
-Dá cá um beijinho.
Mário Só abraçou a mãe, beijou-lhe as faces e poucas emanas depois desembarcou em Genebra.

O salão está escurecido. É banhado por ecos de luz emanada da mesa central sobre a qual pende uma lâmpada longitudinal que ilumina o pano verde. As bolas está já muito distribuídas. Por cima de um sussurrar abafado, ouve-se o silêncio que invade a sala. Madalena está debruçada sobre a mesa de snooker, o taco na mão direita assente sobre os dedos da esquerda que ela apoia na mesa. É preciso que a bola branca vá ao fundo da mesa tabelar com efeito e volte para trás a empurrar a bola preta para dentro do buraco no mesmo topo onde se encontra agora a bola branca, mas no canto oposto. Estão separadas por uma bola inoportuna e será preciso arriscar esta longa viagem. A branca já lá vai, Madalena ergue-se, , respira fundo e reza para dentro. Se falhar é o seu fim. Se ganhar, são quatro mil francos. Uns meses a respirar melhor o quotidiano, alguns bens fundamentais para as crianças. E a bola rola serena, quase lenta, a sala está suspensa da sua trajetória, o adversário e a assistência esperam quase impacientes. Nunca uma mulher havia participado no torneio de Genebra, quanto mais ganhá-lo. A bola já encontrou a tabela lá ao fundo, faz a viagem de regresso descrevendo um vê. Falta saber se é um vê perfeito. Ela aí vem…

A vida tem sido difícil. Não lhe tem dado tréguas. Madalena decidiu procurar todas as saídas, experimentar todos os caminhos. Enfim, quase todos. Pediu autorização para ficar meia hora a treinar numa das mesas de snooker depois de fechado e limpo o pub. Só pelo facto de ser tão pouco habitual ver uma mulher jogar, foi-lhe concedida permissão. E ela ficava, no fim de um dia de trabalho, espreitando tabelas, traçando percursos, ensaiando efeitos. Um dia pediu dinheiro emprestado ao patrão para se inscrever num torneio, era ao sábado, ao final da tarde, sem conflituar com o seu horário de trabalho. Ele não lhe emprestou o dinheiro, pagou-lhe a inscrição:
-Pago para ver até onde vais.
O prémio contemplavam os primeiros quatro classificados. Madalena terminou essa longa jornada em quarto lugar, fez questão de devolver o dinheiro da inscrição e guardou o resto. Era pouco. Para os outros. Para ela e os seus meninos representou imenso. Mais três competições deste tipo nos primeiros quatro lugares e poderia inscrever-se no torneio de Genebra. Jogou cinco para conseguir a qualificação. Sempre pedindo e devolvendo a verba da inscrição. Da única vez que não chegou ao prémio, pagou com horas extra. Via um pouco menos as crianças, mas o torneio de Genebra rendia quatro mil francos. Treinou mais intensamente nos últimos tempos. Um dos frequentadores do pub, que ainda conhecera e confraternizara com Kyle, ofereceu-lhe um estojo com um taco desmontável:
-Tome, nunca fui bom nisto. Ganhe o torneio por nós, pela malta aqui do bairro.
Sabia que teria de estar ao seu melhor nível para chegar à final e, chegando, tudo poderia acontecer. O seu fraco… o seu fraco era ter pena do adversário e, por isso, falhar em momentos cruciais. O patrão ralhava sem cessar:
-Tens de manter o nível até ao fim, a precisão na tacada, o instinto de vitória, não podes amaciar, desfaz os tipos, imagina que são teus inimigos, pensa nos teus filhos, faz o que quiseres, mas não tenhas pena dos gajos!

À medida que se aproxima da bola preta, a branca perde velocidade, vai acariciá-la, terá de ter ainda a força suficiente para empurrar a outra que está a meia dúzia de centímetros do buraco… toca-lhe de mansinho, a preta desliza suavemente, a direção é perfeita, chega junto do buraco e parece parar, hesita, suspende-se como a respiração da sala e… tomba! Está lá dentro! A sala explode em aplausos, o patrão vem abraçá-la, Albertina corre para ela, segura-lhe a cabeça entre as mãos enquanto grita, Conseguiste! Conseguiste! Até o homem que emprestou o nome a Jacob a veio felicitar. Sessão de fotos e entrega do prémio, garrafas a salpicar champanhe, as felicitações do adversário. Madalena espera que os ânimos acalmem um pouco e vai arrumar o taco no estojo. Estava de costas para a multidão em festa quando sentiu uma mão no seu ombro. Era Mário Só.
-Parabéns, Madalena.
-Obrigado, Mário.
E não foram precisas outras palavras, pendurou-se no pescoço dele e beijou-o apaixonadamente com o coração a bater forte como não julgara até esse dia que pudesse voltar a acontecer. Daí a seis meses estariam casados e daí a outros seis divorciados. Foi simples e fulminante a história.

Foi quando fazia uma jogada de precisão. Baixou-se sobre o tapete verde da mesa. Tinha a bola branca alinhada com a preta. Era uma tacada distante mas limpa. Só necessitava de uma pancada forte, seca e precisa. Olhou a bola branca, aqui perto, moveu o taco para a frente e para trás com vigor em movimentos de aproximação à bola, levantou os olhos sem levantar a cabeça e procurou a preta ao fundo da mesa para traçar a linha imaginária que as haveria de unir e, por cima dela, ao fundo da sala, em visão enevoada e periférica, a zona pélvica dele, do adversário que assistia suspenso aos seus movimentos. Num relance, lembrou-se de que Kyle chamava àquilo, na intimidade, o "pack" ou ainda "um rei e dois súbditos", levantou um pouco mais o olhar e encontrou o tórax definido e os braços musculados encimados por um olhar verde e cristalino cheio de promessas. Ainda não havia reparado nele. Aquele olhar continha promessas de risco e a vida tem sido tão dura e tão repetitiva que um pouco de risco só poderia ser o sal que lhe vinha faltando. E desceu-lhe um calor de desejo que depois lhe aflorou à cara, era inacreditável, tanto tempo depois de ter feito amor pela última vez, emerge-lhe na mente um pensamento erótico que lhe rebenta na face no meio de uma jogada que valia cem francos. Foda-se!, pensou. Puxou o taco atrás, bateu a bola. Falhou. Ele concluiu o jogo com serenidade e no fim, quando os presentes faziam conversas e desenhavam teorias acerca do que poderia ter acontecido, ele veio felicitá-la:
-Parabéns. Jogou muito bem.
-Mas perdi.
-Pois… essa foi a parte que não percebi.
-Claro que percebeu. Você colocou-se à frente do meu campo de visão para me distrair.
-Não sabia que constituía distração para si.
-Na altura constituiu.
-E agora?
-Agora, depende do que disser…
-A única coisa que me ocorre dizer é que não ganhou o melhor jogador, você joga muito melhor do que eu, talvez lhe falte certo instinto assassino.
-Pois, mas eu sou mãe de duas crianças.
-Pense que o que está a fazer salvaria a vida delas.
-E salvaria…
-Ah… joga pelo dinheiro.
-Entre outras coisas.
-Levante o prémio. Você mereceu-o.
-Jamais! Nunca aceitei uma esmola, nunca recebi nada que não tivesse conquistado.
-Compreendo, mas posso pagar-lhe o jantar?
-Se não tiver melhor companhia…
-Tenha ou não tenha, neste momento, não quero outra coisa que a honra da sua companhia.
-Disse as palavras corretas, senhor…
-Mário Só.
-Mário. Tratei-o por senhor porque não o conheço, nunca fomos apresentados.
Mário Só soltou uma gargalhada e acrescentou:
-Pode e deve tratar-me só por Mário, mas não foi isso que eu quis dizer quando revelei o meu nome. Eu chamo-me Só de apelido.
-Ah! Mário Só!
-Exato! E a senhora…
-Só Madalena.
-Mau…
-No meu caso, o só era para não usar a senhora…
Jantaram. Madalena revelou-lhe que estes pequenos torneios no pub eram uma simpatia do patrão para ela ter com quem treinar uma vez que estava para inscrever-se no torneio de Genebra. Mário Só confessou-se admirador da sua forma de jogar e custasse o que custasse, estaria no torneio para apoiá-la. Levou-a a casa. Despediram-se educadamente e com algum pudor e passaram a conversar com regularidade no pub, sobretudo, porque ele esperava pela hora dela sair e levava-a a casa. E foram partilhando o que pensavam da vida, algumas coisas sobre os seus percursos até chegarem ali. Ficaram amigos de conversa com o desejo latente não consumado por prudência de ambos e particular contenção dele. As suas vidas haviam sido demasiado complexas para acreditarem, assim, de repente, no amor e uma cabana. Andaram neste bailado das palavras e das conversas cúmplices cerca de seis meses até que um dia Mário Só se encheu de coragem e lhe disse:
-Madalena, tu tiveste a tua vida, eu tive a minha, já percebemos que nos entendemos, que gostamos da presença um do outro, não quero desconcentrar-te do torneio de Genebra, mas não achas que merecemos um pouco mais do que conversar à noite depois do teu trabalho?
-As conversas são boas…
-Por isso mesmo, porque são maravilhosas, porque és quem és, porque sou quem sou… pensa!
-Já pensei.
-Já pensaste?!
Mário Só não conhecia a Madalena determinada, decidida e até impetuosa que o leitor vem conhecendo e não sabia, também, que esta mulher estava ansiando mudança e risco. Por isso se surpreendeu com ela:
-Estás a pedir-me em casamento?
-Talvez não tenha usado as melhores palavras, mas queria ir para aí.
-Faltam três semanas para o torneio. Se eu ganhar, beijo-te e casamos.
Mário Só ficou perplexo. Será que tudo não passava de um jogo?
-E se não ganhares?
-Beijas-me tu e a seguir casamos.
O homem respirou de alívio. Abraçaram-se. E foram para suas casas sonhando acordados.

Mil novecentos e noventa e oito. De Portugal chegam ecos de uma exposição internacional de grande impacto. Em Genebra, Madalena ganha um torneio de snooker , beija um homem e casa-se recatadamente. Só alguns amigos e familiares de ambos a presenciarem o momento. A mãe de Mário Só chora de alegria, Albertina vive numa intrigante e saudável desconfiança em relação ao rapaz das falas mansas, Jacob e Mariana parecem conviver bem com a presença do novo homem da casa. O quotidiano é desafogado e feliz sem ser apaixonado, mas, honestos sejamos, nunca se confessaram paixões entre estes dois. Ele trabalha. Ela trabalha, deixou de novo o pub, fica com mais tempo para os miúdos e à noite pode continuar, agora no conforto do lar, todas as conversas que havia iniciado com Mário Só quando ele a vinha pôr a casa após o turno nu pub. Aos fins de semana passeiam e dedicam-se a dar algumas alegrias aos miúdos. Ao domingo, Madalena entra na cozinha e prepara uma refeição esmerada. Foi num desses domingos, durante uma dessas refeições especiais. Madalena andava numa roda viva a preparar tudo, estava impaciente, as coisas na cozinha não correram como esperara. Mariana, normalmente uma ajuda preciosa, estava impaciente e até um pouco rabugenta, Jacob agia fazendo justiça à condição de criança, batia com os talheres nos pratos e gritava que queria comida, não era de birra, mas enervava. Madalena conseguira servir a refeição, mas a sobremesa complicara-se  e ela andava para cá e para lá, Mário Só estava irritado com aquela inusitada barulheira à mesa de uma refeição que costumava ser tranquila e não comera descansado. Junto ao final da refeição, por entre o barulho e a movimentação atarefada de Madalena, disse:
-Trazes-me os palitos?
-Não posso, levanta-te e vai buscá-los.
Ele franziu o sobrolho, levantou-se contrariado e foi. Poderia não ter-se cruzado com ela e tudo teria sido diferente, mas cruzou-se com ela na cozinha:
-Podias ter levado a merda dos palitos à mesa.
-Podias ter levantado o cu da mesa para ajudar.
Ele já tinha passado por ela quando ouviu a resposta. Uma coisa antiga e má, uma semente ruim de gestos impróprios, acordou em si, cresceu, fez-se gigante no seu peito:
-Vê lá como é que falas comigo…
-Como tu mereces.
As costas da mão dele rebentaram-lhe os lábios, o tabuleiro de vidro que tinha nas mãos caiu ao chão, ela deu dois passos desamparada, ele cresceu para ela e esbofeteou-a quantas vezes lhe apeteceu. As crianças fugiram para o quarto, ele levantou a mão de novo mas apercebeu-se de que ela já não estava consciente. Saiu de casa. Só voltou à noite. Já não encontrou ninguém. Madalena acordou. Olhou em volta e tudo lhe parecia irreal. A vida voltara a testá-la, a surpreendê-la. Havia entre ela e as forças da natureza humana este constante medir de resistência. Estava cansada. Sangrando dos lábios. Colocou-se de frente para o espelho do guarda fatos toda nua e fotografou-se. Telefonou a Albertina. Colocou as coisas mais essenciais em dois táxis e enquanto a avó levou as crianças para sua casa, Madalena foi à polícia e apresentou queixa. Mário Só não negou nem rebateu as acusações. Foi condenado a serviço comunitário, não aproximar-se menos de quinhentos metros da residência de Madalena e a pagar-lhe uma indemnização imediata. Ou o faria com meios próprios ou o Estado o faria por si e Mário Só ficaria devedor do Estado com juros. Pagou com dinheiro próprio. Madalena abriu uma conta separada da sua conta à ordem e considerou aquele dinheiro um findo para a educação das crianças e a sua própria. Pressentiu que estas coisas aconteciam por deformação de caráter, mas também por falta de formação e não quis, nunca mais, viver dificuldades por via da falta de formação. Voltaram os dias difíceis, as refeições parcas, os recursos escassos, mas, agora, Madalena sabia que tudo isso tinha um fim à vista. O tempo de concluir o curso técnico de contabilidade e administração em que acabar de matricular-se. Era um curso de cinco anos, mas o sistema suíço permitia que pudesse fazer-se em menos caso os estudantes se auto-propusessem para exames. Madalena traçou um plano para concluir o curso em três anos. Era arrojado. Exigia um duplo sacrifício. Ter de estudar mais horas e não poder trabalhar no pub. Era para isso, para suprir a falta da verba que daí advinha, que o dinheiro da indemnização de Mário Só serviria. O seu coração ficaria marcado para sempre pela desilusão, mas a sua dignidade mantinha-se intacta. A sua batalha com a vida continuava. A primeira vez que casara, a doença levara-lhe o príncipe e deixara-lhe um filho como resgate desse amor. A segunda vez que casara, a violência trouxera-lhe uma desilusão mas trouxera-lhe uma lição. Dependeria sempre e só de si. Seria, enquanto vivesse, absolutamente livre. Nada valia a hipoteca do mais precioso bem da Humanidade. Estava aberta a amar, sim, agora mais do que nunca, mas sem preconceitos, sem papéis, sem formalidades, só com as pessoas que quisessem amar tanto e tão livremente como ela. Qualquer homem que a quisesse, que desejasse o seu amor, teria de respeitar a sua liberdade. O homem que não compreendesse isto, não poderia amá-la.

Madalena não voltará a casar. Amará de novo. Sempre com a mesma entrega que Kyle lhe ensinara e sempre com a liberdade que Mário Só a levara a compreender como imprescindível e intocável. É sinuosa, a vida, os caminhos que percorremos pelas nossas próprias passadas levam-nos, por vezes, a lugares e pessoas surpreendentes. O pensamento de Madalena em relação ao amor e a quem pudesse merecê-lo havia-se centrado, naturalmente, em homens e, contudo, seria uma mulher, a primeira pessoa a merecer esse amor. Marcelle Deschamps.

Foi na faculdade. Madalena matriculou-se no regime noturno para poder trabalhar de dia e, não obstante o cansaço de um dia de trabalho, tirava apontamentos que nem uma louca. Tentava captar tudo o que era dito, registar todas as demonstrações, pedia aos professores para colocarem os cálculos no quadro. Um dia, uma mulher alta e bem constituída, longe de magra, mas não gorda, de cabelos loiros a derramarem oiro sobre os ombros, tentou ajudar:
-Não precisas correr atrás dos apontamentos dos professores, está tudo disponível na reprografia.
-É gratuito?
-Não.
-Então tenho de correr atrás dos apontamentos dos professores.
Mais palavras não foram ditas porque não foram precisas. No dia seguinte, Marcelle aproximou-se dela, estendeu-lhe com discrição um saco escuro, e disse:
-Toma, são os deste semestre.
-Obrigada. És muito generosa, mas não aceito nada de ninguém. É uma questão de dignidade.
-Parece mais uma questão de orgulho.
-Admito que possa parecer, mas não é essa a razão.
-A vida tem-te tratado mal?
-Tem os seus momentos, mas quando me castiga, exagera sempre na força.
-Faz assim, guardas os apontamentos, estudas por eles e no próximo semestre oferece-los a alguém…
-É a mesma coisa.
-Não é não. A capacidade de dar dignifica o que se recebe.
-E porquê este gesto? O que queres de mim?
-Irra, a vida tem-te tratado mesmo mal!
-Como disse, teve os seus momentos…
-Olha à nossa volta. O que vês?
-Homens.
-Exato. Uns privilegiados. Nascem com uma coisa pendurada entre as pernas e estão automaticamente em vantagem em todos os campos...
-E…
-E eu pretendo equilibrar um pouco a balança. Considera que o meu motivo é solidariedade feminina. Devemos ser um caso de estudo, duas mulheres a estudar contabilidade na mesma faculdade…
-Com uma condição.
-Qual?
-No próximo semestre ajudas-me a escolher a beneficiária.
-Feito.
Foi o suficiente para começarem a conversar com frequência. Entre as aulas, nos trabalhos de grupo. Começaram por partilhar conhecimento e ideias e pistas de solução para problemas, primeiro, e depois, tudo o que havia para conversar entre duas mulheres, deve ter sido conversado por Madalena e Marcelle. Passaram a encontrar-se também ao fim de semana para estudarem e fazerem trabalhos. Marcelle conheceu as crianças e ajudava a cuidar delas nesses dois dias de descanso que dão sentido ao resto da semana e rápido se apercebeu que Madalena se deslocava de casa para a escola e da escola para casa caminhando um longo troço do percurso e fazendo o restante de autocarro. Era uma forma de poupar. Começou a levá-la, Conversamos no caminho, disse, e de qualquer forma não preciso desviar-me. Foram trocando histórias. Ambas trabalhavam, ambas adoravam a contabilidade e a gestão, ambas eram adeptas do rigor e acreditavam no controlo dos números. Constituíam, uma para a outra, uma interlocutora motivante e desafiante das suas próprias capacidades, uma interlocutora válida que obrigava a outra a estar atenta e a não falhar. Tiveram ambas excelentes notas no final do primeiro semestre. Numa noite fria, coberta pelo manto branco da neve, em que levou Madalena a casa, estavam já à porta, ainda dentro do carro, e Marcelle aconchegou-lhe as mãos entre as suas como que para aquecê-las:
-Tens as mãos frias.
-Em Portugal diz-se que é amor todos os dias, mas deve haver algum problema com esse provérbio…
-Ou não.
E puxou-a para si e beijou-a nos lábios. Madalena afastou-se num impulso:
-Eu não sou…
-Não és humana?
-Humana sou, só que nunca…
-Nem eu. E também não sou o que tu não és e também sou humana e será preciso outro requisito, uma palavra que te certifique, um rótulo, para beijares quem amas?
-Acho que não.
Aproximaram-se lentamente e encostaram os lábios rosados e sentiram o calor e a emoção que passava através deles. Não falaram do que acontecera. Permaneceram amigas verdadeiras e cúmplices mas não voltaram a beijar-se nem a trocar qualquer outra carícia do corpo. Era como se as suas almas se bastassem. Pelo menos, até encontrarem o homem que viria a pôr à prova todos os seus limites. Essa fantástica criatura que completaria o inseparável grupo dos três emes.

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A Paixão de Madalena - Capítulo 11


A Paixão de Madalena

Livro II - O Cordeiro de Deus

11.Madalena nunca pôs luto. No corpo, bem entendido. Que na alma ficou-lhe para sempre essa sombra cinzenta. Pense o leitor o que entender, o facto é que não houve só uma razão. Foi porque Kyle não era um homem de lutos, mas de coloridos. Não era um homem de abatimentos, mas de lutas e causas e de acreditar. Foi porque era demasiado nova para isso. Madalena enviuvou com vinte e um anos e essa não é a idade de escurecer a pose, antes de a iluminar. E outra razão houve, a mais importante de todas. Vai para cinco anos que Liberta bateu à porta de Madalena que lha abriu e lhe aceitou nos braços uma menina de semanas, por uma semana. Passou a dita semana e outra e mais outra e outra ainda e já vamos em cinco anos sem que de Liberta se tenha tido mais notícia. E dessa relação, a de Madalena com a menina, tem sabido pouco, o leitor. Soube que a menina ficou e soube que andou por terras de África com Madalena a quem, com muito propósito, chama de mamã. São engraçadas, as crianças, menos complicadas que os adultos. A sua justiça é imediata e é a da vida. Não precisou de mais nada senão saber que era daquela jovem mulher que lhe vinham os cuidados, os afetos e os ralhetes, que são outra forma de cuidado, e chama-lhe mãe, por mãe ser, sem mais juízos de valor com intrincados raciocínios sobre a biologia da maternidade. E pode dizer-se, em ambígua, mas verdadeira formulação, que foi Madalena mãe, antes de ter sido mãe. Foi em Mariana que aprendeu a mudar fraldas, foi com ela que aprendeu os cuidados com as refeições, as horas, incluindo noite dentro, os alimentos indicados para isto e para aquilo e os contra indicados para aquilo e para isto, foi a ela que aturou birras e as acalmou, foi com ela que aprendeu a ver febres e a medicá-las, foi com ela que passou noites em branco, que conheceu as urgências do hospital, a ela ensinou os primeiros passos, correndo dos seus braços para os de Kyle e voltando aos seus com um sorriso a espelhar medo e vitória, foi a ela que ensinou as primeiras palavras, por esta universal ordem: não, mamã, papá. E por aqui se vê quão funda vai a relação entre elas, mesmo estando Mariana em tão tenra idade. A primeira vez que Mariana disse mamã, chamava por Madalena e não por Liberta e à medida que foi dizendo outras palavras e apropriando-se, com elas, do mundo à sua volta, fê-lo com a orientação e o amparo de Madalena. E agora, venha de lá o cientista, o médico, o juíz, o cidadão comum, mais certificado, com diplomas de insígnias douradas emoldurados e pendurados na parede, convencê-la de que mãe é aquela que a pariu. Saiu de dentro dela, é certo, mas não foi com ela que cresceu.

Brincavam ao fim de semana, sobretudo ao domingo. Iam ao parque, faziam corridas e Madalena ouvia-a dizer, Olha, mamã, olha, é um pato! É sim, minha pequena, é sim. Respondia-lhe reforçando o entusiasmo da descoberta. E ao longo dos últimos quase cinco anos fizeram-se cúmplices. Nota-se essa cumplicidade nas coisas pequeninas do quotidiano, por exemplo, quando Madalena chega a casa do trabalho e vem cansada e abatida e segue para a cozinha a aquecer o jantar e sente a mão pequenina dela puxando a saia:
-'Tás triste mamã?
Outras vezes, no supermercado, a menina põe-se em bicos dos pés, segura o carrinho das compras e tenta empurrá-lo:
-A Maiana leva, a mamã 'tá cansada.
Quando Kyle faleceu, explicações foram necessárias. Madalena optou pela simplicidade nas respostas:
-Onde 'tá o papá?
-O papá foi para o céu.
-O céu do Jesus?
-O céu do Jesus.
Levou-a à janela, mostrou-lhe o céu e disse:
-Vês aquela estrelinha pequenina, ali em cima?
-Sim.
-Quando ela piscar, foi o papá que te piscou o olho.
-O papá vê a Maiana?
-Claro!
-Olha mamã, olha, o papá piscou o olho!
Inexplicável força têm as crianças. Muito para além do seu tamanho e da consciência que lhes atribuímos, porquanto, não raro, foi Mariana que amparou Madalena na dor e no sofrimento. Parecia perceber os momentos em que era necessário o seu olhar doce, a sua voz apaziguadora ou a sua mão pequenina encostando-se à face de Madalena:
-Não chores, mamã!
E assim têm sido conforto uma da outra, alegria uma da outra, amparo uma da outra, e por esta razão, sobretudo por esta, Madalena não pôs luto. Não se cria uma criança no degredo. E sorria quando lhe apetecia chorar, brincava quando lhe apetecia enterrar-se na cama para nunca mais sair. Nos últimos meses intensificou-se esta relação, a barriga de Madalena parece um balão, já pode sentir-se o bebé pontapeando a vida e Mariana costuma conversar com ele e fazer planos para a sua chegada. Madalena tem sentido algumas dificuldades, mas tem conseguido trabalhar e Kyle deixara-lhe algum dinheiro que, entretanto, se está acabando. Vive entre o entusiasmo de receber neste mundo a mais preciosa herança que o seu amado irlandês lhe poderia ter deixado e as dificuldades que se preveem. Cuidar de duas crianças não é o mesmo que cuidar de uma e o início da vida de um ser humano requer muita atenção, muita energia e muitos recursos. Recursos que Madalena não tem. Jacob vai nascer na Primavera de mil novecentos e noventa e cinco e os anos que se avizinham anunciam-se difíceis.

Não foi de repente. É sempre assim. Um problema pode surgir de repente. Uma fase negra na nossa vida não. Um aviso aqui, um sinal dias depois, uma dificuldade mais à frente e, quando olhamos à nossa volta, estamos imersos numa teia de aborrecimentos que nos prende à materialidade da existência. Há mesmo vidas que se enredam neste processo e se perdem para todo o sempre. Não será o caso de Madalena. Ainda assim, quando Albertina lhe bateu à porta num dia de semana, noite tardia, Madalena deveria ter suspeitado do que a esperava. A avó trazia cara de caso, um ar preocupado e sério, e quando perguntou o que perguntou estava genuinamente preocupada e quando Madalena respondeu o que respondeu estava a ser genuinamente verdadeira, perdoe o leitor a redundância se conseguir, resulta a mesma de ainda caber neste nosso retorcido pensamento a ideia de genuína falsidade.
-Olá, filha, como estás?
-Bem e tu vó Bé?
-Preocupada…
-Hummm, por essa cara… muito preocupada… que se passa vó Bé?
-Ora, que se passa… diz-me tu!
-Está tudo bem…
-Madalena, querida, vim aqui para te fazer uma pergunta…
-Então faz, vó…
-Já pensaste como é que vais criar essa criança que trazes na barriga e mais essa outra que, a bem dizer, te deixaram na soleira da porta? Como vais fazer, Madalena?
-Ora, vó Bé, um dia de cada vez. Vou criá-los um dia de cada vez. Enquanto houver para mim, haverá para eles…
-Mas é isso mesmo, Madalena, como é que haverá para ti?
-Vou voltar a trabalhar mais…
-Sim, meu amor e a atenção que as crianças precisam…
-Terão toda a que eu conseguir dar-lhes e essa, muita ou pouca, terá de chegar.
-Tu não vês os problemas, Madalena?
-Os que vejo, vó, preparo-me para eles, os que não vejo é porque não merecem a minha atenção, está descansada que, se merecessem, vinham ter comigo. Um problema não nos poupa, vó. Se nos poupa, não é um problema, é um erro de julgamento nosso.
-Tu assustas-me, filha…
-Pois, mas olha que tudo o que sou, foste tu que me ensinaste…
-E julgas que essa ideia não me atormenta… não sei se encorajar-te com o Kyle foi uma boa ideia…
-Para! Para já com isso! O Kyle aconteceria na minha vida com ou sem o teu consentimento, é e será sempre o homem da minha vida.
-Tu és tão nova, filha, ainda tanta coisa te vai acontecer.
-Nada do que vier a acontecer-me apagará o que já aconteceu… vó… não te arrependas tu daquilo que para mim foram os melhores anos da minha vida vivida e a viver…
-Pois… mesmo assim, os problemas estão aí… estou preocupada…
-Com o quê?
-Precisas de um pai para essa criança.
-Albertina, que se passa contigo? Esta criança tem o melhor pai que alguém poderia desejar. Não o conhecerá em vida, mas eu me encarregarei de que o pai viva em cada respiração do filho…
-Não é isso, Madalena, é a questão da paternidade. Tens de registar a criança quando nascer e dar-lhe um nome.
-Dou-lhe o meu.
-Não podes, filha, tens de indicar um pai…
-Hã… indico o Kyle.
-Não podes, filha, por mais injusto que te pareça, essa criança tem de ter um pai vivo… o teu filho precisa ser adotado para ser registado…
-Que estupidez, as leis dos homens são estúpidas, os homens são estúpidos… tinhas razão quando aqui entraste, havia um problema, mas repara como eu tinha razão também, por problema ser, encontrou caminho até mim… e se bem te conheço... esse ar preocupado… não é por causa do problema, pois não?
-Como assim, filha?
-Tu tens uma solução, não tens vó Bé? E temes que possa não aceitá-la…
-Eu conheço-o. É um bom homem. Trabalhador, respeitado e, tanto quanto sei, respeitador, é português, aceita mesmo acolher-te juntamente com as crianças…
-E o que quer ele em troca?
-Nada…
-Então, agora é a tua vez de ser ingénua? Ninguém faz nada por nada…
-Ele enviuvou… está um pouco perdido… se trouxeres a casa cuidada e lhe tratares da roupa…
-Mas ele quer uma empregada ou uma segunda mulher? É que lá tratar-lhe da casa e da roupa ainda é como o outro, mais do que isso…
-Não sejas tonta… é só mesmo isso…
-Posso conhecê-lo, falar com ele, perceber o que quer…
-É que, além do nome para a criança, ele pode dar-te algum conforto, filha, não terias de pagar renda, a água, a luz…
-Veremos.

E viu. E gostou do que viu. Um homem mais novo do que a avó, pacato, austero, de poucas falas e trato delicado. Estava há muito na Suíça. Tinha vindo como servente, passara a pedreiro e há já uns anos tinha uma pequena empresa cujo propósito único e único trabalho era produzir caixilhos de alumínio para janelas. Não trabalhava em portas, não colocava vidros nas janelas, não punha as colas, de manhã à noite, quatro pessoas selecionavam os perfis, traçavam as medidas, levavam à serra, aplicavam as esquadrias e montavam os caixilhos e depois duas pessoas e uma carrinha de caixa aberta procediam às entregas. A sua companheira de sempre, porteira há vinte e cinco anos, desde que haviam chegado à terra do frio e da neve, fora assassinada num assalto ao prédio de que cuidava. Moravam lá os dois, como era normal. Foram atados a duas cadeiras, de costas um para o outro, e foram agredidos. Ele sobreviveu. Ela sucumbiu. Teve direito a uma foto pequenina no Correio da Manhã com meia dúzia de linhas imprecisas e um título enorme na página 9. O homem ficara desesperado, desleixou o negócio e esteve quase para desistir desta vida. A pouco e pouco foi acordando para o quotidiano, mas nunca lhe saiu a tristeza do peito, nunca mais viu o sol, mesmo nos dias em que parecia brilhar. Se brilhava, era para os outros. Aceitou dar o nome ao filho da jovem viúva. Albertina explicou-lhe que a menina não tivera nenhum azar, mormente, o da desonra. Fora mesmo casada. Muito nova se tomara de amores por um estrangeiro doente. Viveram bem, mas a doença consumira-o e deixou-a com uma filha emprestada nos braços e um filho do defunto no ventre. A mais velhinha era, de facto, sobrinha. Uma sobrinha que ela criara desde as duas ou três semanas de idade como se de uma filha se tratasse, aliás, a pequenina chama-lhe mamã. É trabalhadora, a pequena, e pode ajudá-lo com a lida da casa. Nada mais, bem entendido. E, para bom entendedor, "nada mais" bastou como explicação dos limites todos. Bastou durante algum tempo. Seis meses. Depois, a ele apeteceu-lhe mais que nada era muito pouco. A verdade é que, assim que viu Madalena entrar-lhe pela porta dentro com os olhos cheios de vida azul e os cabelos louros esvoaçando e prendendo-se-lhe ao canto da boca, o homem sobressaltou-se. No seu peito houve um pequenino estrondo como se, estando longe do Japão, tivesse ouvido da bomba atómica um rumor longínquo e abafado. Aguardou. Sossegou-se. Recolheu-se ao seu canto e aos limites da sua promessa: "nada mais". Nada mais seria.

Em maio, Jacob apresentou-se ao mundo. Poderá Madalena esquecer muita coisa, mas nunca o inigualável momento de parir o seu filho. A dor, o corpo a rasgar-se por dentro, a sensação de se perder o controlo da nossa vida para se trazer outra ao mundo. Quando a criança chorou, a mãe chorou com ela e pronunciava, Já está, seu irlandês teimoso, já cá está o nosso filho, podias ter esperado mais este pouco que seria tanto. Que diz a menina? Perguntou a enfermeira. Rezo. Faz muito bem. Tem aqui um belo rapaz, mas agora vamos levá-lo connosco. Passa-se alguma coisa? Não, rotinas. Passava, mas isso são histórias de outro rosário. Lá iremos. Nunca se conhecerão completamente as consequências da maternidade, contudo, com pouca margem de erro se pode dizer que a Madalena mudou-lhe por completo a perspetiva que tinha da vida, da morte, da existência, da dedicação e a própria noção que tinha de si mesma antes de ser mãe se alterou radicalmente. As crianças estavam a maior parte do tempo com ela e o tempo que restava ficavam com Albertina que não morava longe. Madalena trabalhava muito, mas as dificuldades sérias surgiram seis meses mais tarde quando o generoso pai adotivo de Jacob decidiu que "nada mais" era muito pouco. Tomou-se de amores por Madalena. Fez-lhe propostas diversas, tentou persuadi-la a uma relação mais séria, mais íntima, e vivia entre a doçura das flores e dos presentes que lhe oferecia e a raiva de não conseguir perceber porque lhe dizia ela que não. E, contudo, a razão era simples. Não o amava. E, sobretudo, o idílio da vida com Kyle estava ainda muito próximo. A sua tarefa mais imediata, a mais urgente, a que lhe consumia as atenções e as energias todas, era criar aquelas duas inocentes almas. E no dia em que ele, insistindo, pareceu querer cobrar o facto de ter dado um nome de pai à criança, assim que lhe aflorou aos lábios o argumento de estar a dar-lhe guarida, ela sentiu-se presa e reagiu como sempre reagia a essa condição, libertou-se. Numa tarde em que chegou do trabalho e procurou por ela, o homem que emprestou o apelido a Jacob não encontrou nada. Nem Madalena, nem Mariana, nem Jacob, nem as roupas deles, nem as coisas… nada. E nada fora tudo o que lhe sobrara. Acontece muito a quem quer tudo.

Madalena não disse nada a Albertina. Porque era uma decisão só sua, porque não queria ouvir a avó pedir-lhe para pensar duas vezes e, sobretudo, porque era previsível que o homem que emprestou o apelido a Jacob entrasse em contacto com Albertina, eventualmente, julgasse que teria alguma coisa a ver com a decisão de Madalena. Deixá-la na ignorância protegia-a desses julgamentos. Por outro lado, a decisão era sua, as consequências teriam de ser por si suportadas. Talvez fosse orgulho, no seu íntimo sabia que também era orgulho, mas era um orgulho de sobrevivência e o facto é que o homem que emprestou o apelido a Jacob foi ter com Albertina e perguntou-lhe onde estava Madalena e esta reagiu dizendo que deveria estar com ele, o que se passava, e ele lá disse que não estava e Albertina lembrou-se de ir ao anterior apartamento e é verdade que Madalena estivera lá, acontece que o andar está já ocupado e mesmo que não estivesse, a renda havia subido e Madalena confessara não poder-lhe chegar. Saíram de lá os dois com a as mãos vazias e a preocupação do peito espelhada no olhar. Madalena é um espírito livre, comentou Albertina, tentar retê-la, é perdê-la para sempre.

Percebeu finalmente o que eram responsabilidades, percebeu finalmente o que era lutar combatendo as dificuldades sem poder vacilar e, sobretudo, mostrando às crianças que a vida é esperança. Sorriu sempre. Brincou sempre com eles. Viveram de forma magra e austera. Nunca tiveram fome. As crianças. Por vezes, ao final do dia, Madalena preparava-lhes a refeição e comia um tomate. Refogava o tomate em sal e comia-o com pão. Era o que podia. Depois deitava-os, pedia a Mariana que olhasse pelo mano, lhe mudasse a fralda que ela quando chegasse haveria de lavar a suja. Nesses dois anos, Madalena sobreviveu com pouco mais do que duas mudas de roupa. Tinha um trabalho ao longo do dia. Voltara ao pub, à noite, servindo às mesas, e aceitava trabalhos de contabilidade para fazer. Eram sobretudo emigrantes que lhe confiavam os sinais de mais e de menos e os impressos e seguiam à risca os seus conselhos de como orientar a vida e os negócios, onde gastar, onde não gastar, onde estava fugindo o dinheiro, de onde estava chegando. No fim de um dia de trabalho, tinha a hora de jantar com as crianças e depois disso o pub e depois disso a lida da casa e as refeições do dia seguinte e aos fins de semana as limpezas e os trabalhos de contabilidade e ao sábado à tarde corriam ao parque e respiravam ar sem teto, corriam, mostravam o mundo a Jacob apontando-lhe as coisas e dizendo-lhe os seus nomes. Passou fome, sim. Muita dela por orgulho. Acontece que o orgulho é parte da massa com que se fabrica uma espinha dorsal íntegra e erguida. Muitas vezes pensou no homem que emprestou o apelido a Jacob, em como seria fácil pedir-lhe ajuda, ao menos uma refeição de jeito, mas isso seria a negação de si própria, seria abdicar de si e nunca mais confiar-se nada. Muitas vezes pensou em socorrer-se de Albertina, pedir-lhe dinheiro emprestado, mas de novo a assaltava a urgência de sobreviver por si, de se bastar. E se não houvesse Albertina? E se não conhecesse o homem que emprestou o apelido a Jacob? Preferia deitar-se com fome do que deitar-se com a vida hipotecada. Por vezes comia no pub. Às escondidas. Restos. Pão, sobretudo. Saciava-se com o que os outros desperdiçavam. Nesses dias abençoou o desperdício alheio. Fazia as contas dos outros e as suas. A renda da casa, a água, a luz, o gás, as mercearias, os detergentes, o dinheiro dos transportes públicos, da farmácia, o dinheiro para as necessidades das crianças, e adiava as suas. E, sempre que conseguiu, leu. Deu graças aos homens pelas bibliotecas públicas e, às vezes, ao sábado à noite ou mesmo ao domingo à tarde, quando as crianças tombavam no sono, ela mergulhava nos fantásticos mundos que não podia viver, mas que não se dispensava de ler. Têm esse poder, os livros, permitem-nos viver mais do que uma vida ao mesmo tempo.

Ao cabo de dois anos, corria o ano de mil novecentos e noventa e sete, Madalena tinha interiorizado este ritmo de sacrifícios, esta austeridade forçada, as passadas limitadas do dia a dia e, contudo, não se sentia oprimida. Pelo contrário. Estava a conseguir. Jacob tinha dois anos. Era um menino meigo, com um olhar azul e infinito de ternura. Mariana era mais do que filha. Era uma amiga cúmplice do quotidiano, das opções no supermercado, dos truques de poupança, da alegria encontrada nas coisas pequeninas. Foi então que conheceu, quase por acidente, Mário Só. Seria seu segundo e último marido e uma das mais fugazes relações que viria a ter em toda a sua vida. Mas foi também um ponto final nas dúvidas. Mário Só seria breve, mas absolutamente fundamental na aprendizagem que estava fazendo acerca das pessoas, absolutamente fulcral na forma como se estava formando o seu caráter. Mário Só seria o fechamento do processo de crescimento de Madalena. A definitiva passagem de menina a mulher. Teria de morrer com ele para ressuscitar depois dele. Teria de iludir-se e desiludir-se. E só depois estaria pronta para todas as coisas que ainda lhe faltava viver. Contaremos essa morte e essa ressurreição que anda enganado quem julga que é exclusivo de Cristo, tal fenómeno. A vida tem pedras arremessadas para todos nós, e tem para todos nós alguém que se curva e nos lava as feridas. A vida tem uma Cruz para todos nós e para todos nós tem alguém que nos espera quando nos descem do madeiro. Entre o momento de soçobrar e o de reerguer há um átomo de tempo que só no peito de cada um se mede e se encontra. Chama-se Paixão.

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