Vermelho Direto - Não Há Ficção que Resista


Vermelho Direto - Não Há Ficção que Resista

Amigos benfiquistas e outros amigos também, caros leitores, família, mãezinha, mana e avô Velez lá onde estejas no céu, venho dizer-vos que ao cabo de 46 anos de benfiquismo estou vai-não-vai para me passar para o outro lado da segunda circular, isso mesmo, tornar-me sportinguista, só falta isto assim, uma coisinha de nada...

Eu gosto de coisas interessantes, gosto que a vida, ela própria, seja interessante, que cada minuto conte, até aqui tudo bem. Mas a verdade, verdadinha, é que a vida de sportinguista está muito mais interessante do que qualquer outra coisa. Os resultados desportivos? Não. Isso continua normal. Já saíram da Taça de Portugal, da Taça da Liga e já perderam o primeiro lugar para o nosso Glorioso. O que anda mesmo interessante é a vida de sportinguista. O reino do leão anda uma polvorosa, um notícia cá, notícia lá, ele é prostitutas, telefones caros, bicicletas, travestis, desertores, enfim, há de tudo e tudo muito interessante. Ali da Luz não chega nada a não ser o tédio das vitórias normais. Agora em Alvalade... isso é que é vida, interesse e pujança! Vamos a factos.

Tempo Psicológico
O senhor presidente do Sporting conseguiu os dois minutos e quarenta segundos mais longos da história. Duraram quase uma semana e só não se continuou a falar desses dois minutos e quarenta durante o resto da semana por causa da prostituta e do travesti, caso contrário, ainda agora estávamos a debater o assunto. Enfim, parece que para o ano o SCP vai inovar e vai mandar os putos da creche para dentro do relvado! Temos de admitir a pujança do seu presidente, conseguiu transformar os dois minutos e quarenta de atraso no começo do jogo Porto-Marítimo em vários dias de conversa. Da treta, mas conversa.

A Prostituta e o Travesti
Eu cá respeito toda a gente e como toda a gente é toda a gente, também respeito as prostitutas. A mais recente aquisição do Sporting é que parece ter uma visão diferente. O rapaz, jogador de boa estampa e afamado lá na rua dele, de sua graça Ousmane Dramé, requisitou os serviços de uma prostituta mas derivado da crise não tinha dinheiro, aliás, percebe-se assim porque vem para o SCP, e pagou à senhora, antes de ser servido, com o seu telemóvel. Tipo troca por troca. Tu dás-me a tua gerigonça, eu ofereço-te o meu telemóvel. Acontece que, assim que se viu servido, rapou do telemóvel com que pagara os serviços da moça e, não satisfeito, porque a vida está cara e um dinheiro de bolso faz sempre jeito, roubou-lhe a carteira. Como se tudo isto não fosse já digno de um filme de Hollywood, o rapaz pôs-se em fuga a cavalo numa bicicleta. Pois, quem tem de roubar uma carteira a uma prostituta, é natural que não ande de Lamborghini. O Pior é que a prostituta tinha um amigo que era travesti e toda a gente sabe que os travestis são danados. Ora, o amigo dela dá em perseguir o pobre do Ousmane e captura-o! Eu sei, parece que estou a regar. Eh pá, mas não. Está tudo confirmadinho. Esta realidade do Sporting é muito melhor que a ficção mais bem acabada que tenho visto. Mas a coisa não fica aqui!

Ao Pré e ao Rancho... Faltarei!
Também esta semana, o clube do leão, anda em negociações com um moço de nome sonante: Shikabala. Quando eu era miúdo e a malta ia ao cinema ver o Trinitá, o Cobói Insolente, por acaso dizíamos o nome deste senhor. Era só o Trinitá disparar um fogacho e a malta largava-se a gritar: Xiii ca bala ele disparou... Bem, mas isso agora não interessa nada. Hoje, na capa de um jornal desportivo, onde vêm escarrapachadas, a letras gordas, as grandes virtudes desta promessa do futebol internacional com 27 anos (!), que só não é chinês por acaso, gozem lá agora com o Futre, mas que é egípcio, essa Meca do futebol mundial, vinha também uma outra virtude deste jovem e cito "Foi preso por não ter cumprido serviço militar..." Eu não sou de me meter na vida dos outros, mas já agora não custa nada dar ideias, se o contratarem mesmo, assim que lhe pagarem, talvez não seja pior atarem uma daquelas bolas de ferro à canela do moço. É que, pelos vistos, ele tem jeito para o piranço!

Eh pá, como escritor, há uma parte de mim que vive da ficção e esta semana sinto-me em baixo, derreado, derrotado, derrocado, enfim... desanimado. É que, com a realidade do Sportém, não há ficção que resista!

Tenho dito.
jpv

Onde Adquirir "De Negro Vestida"



Caros Amigos e Leitores,

A fase de apresentação e distribuição do romance "De Negro Vestida" está em curso e não está a correr mal, felizmente, pelo que podem encontrar o livro nos seguintes pontos de venda:

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Portugal - Online
(Ligações Diretas para o Livro)

Chiado Editora
FNAC
Wook
Bertrand Online

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Portugal - Livrarias
(Compra Direta)

Livraria Les Enfants Terribles
Cinema Nimas
Av. 5 de Outubro, 42B
1050 Lisboa

Livraria Nun'Álvares
Rua 5 de Outubro, n.º 59
7300-133 Portalegre

Livraria Papelaria 115
Praça 8 de Maio, n.º 29
3000-300 Coimbra

Livraria Branco
Rua Dr. Roque Silveira, n.º 95
5000-630 Vila Real

Livraria Caminho
Rua Pedro Santarém, n.º 41
2000-223 Santarém

Representações Online
Praça do Comércio, n.º 108
4720-337 Ferreiros AMR

Livraria Brinco Livro
Rua Alexandre Herculano, 301
3510-038 Viseu

Livraria Universo
Rua do Concelho, n.º 13
2900-331 Setúbal
  
Livraria de José Alves
Rua da Fábrica, n.º 74
4050-246 Porto

Livraria Esperança
Rua dos Ferreiros, 119
9000-082 Funchal

Nazareth e Filho
Praça do Giraldo, 46
7000-406 Évora

Livraria Graça
Rua da Junqueira, n.º 46
4490-519 Póvoa do Varzim

Aliete S Clara Brito
Avenida 25 de Abril, lote 24 R/C
8500-511 Portimão

Livraria Caravana 
Morada Sede: Av. 25 de Abril, Edf. Vila Flôr 6º 
 8100-596 Loulé 

Livraria Papelaria Meneses                             
Rua da Sobreira, n.º 206 Paços de Brandão
4535- 297 Aveiro     

Pode ainda ser comprado em algumas lojas Continente e na Book It de Torres Novas.

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Portugal - Livrarias
(Compra por Encomenda)

É possível, também, encomendar "De Negro Vestida" em qualquer balcão Fnac, Book It e Bertrand.

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Brasil - Online
(Dentro de Dias)






Boas Leituras!
jpv

Apetecia-me Falar de Praxes Académicas



Apetecia-me tanto falar de praxes académicas... mas não vou fazê-lo.
Por duas razões:

1) Já toda a gente o fez. Enfim, quase toda a gente.

2) Não me apetece perder amigos... hehe... nem uns, nem outros...

jpv

O Lobo de Wall Street


O Lobo de Wall Street

O Filme é muito bom. DiCaprio está no seu melhor.

Excelente ritmo narrativo, muito boas interpretações, muito boa produção, grande fidelidade ao livro e aos factos verídicos.

Um senão? Sim. A narrativa em torno de Jordan Belfort está tão entusiasmante que se corre o risco de passar a mensagem errada, ou seja, o vigarista conquistar a simpatia do público, o seu estilo de vida, perfeitamente desonesto, ficar mais apelativo do que uma vida honesta.

Gosta de um bom filme, puro entretenimento? Não perca este.

E, então, Madalena.


E, então, Madalena.

Na distância,
A luz.
No silêncio,
A dor amansada.
Nos teus olhos,
A alvorada da vida.
Nas tuas mãos
A estrada certa
E definida
De amanhã.
No teu sorriso,
um jardim de flores,
Borboletas de todas as cores
Cortando o ar frágil
E incerto.
Na tua recordação,
O longe
Se faz perto.

A vida toda
Podias ser tu.
As alegrias,
As incertezas,
A comoção
De ver-te
Perseguir
Uma bola que rola pelo chão.

Hoje,
Não podes ler estas palavras,
São longas
E complexas
E não rimam
Com a simplicidade ingénua
Da tua idade.

Ainda és frágil
E pequena
Mas, em breve,
Todo o mundo será teu.
E, então, Madalena,
Virás explorar
O peito de um homem que morreu.

Nas palavras
Que se farão curtas
E óbvias.
jpv

Crónicas de África - O Conselheiro Matrimonial


O Conselheiro Matrimonial

Maputo, 16 de janeiro de 2014

Podia começar a história pelo fim e contar já o telefonema, mas a coisa perdia a graça. A história só tem corpo porque existe a naturalidade desconcertante dos moçambicanos, a forma como atacam os assuntos sem preparação nem grandes introduções, e há também o seu sorriso, a sua alegria, a sua tão afamada, e tão verdadeira, boa disposição.

Esta é a história do I e do dia em que me tornei seu conselheiro matrimonial.

O I foi-me recomendado pelo célebre M sobre quem já aqui escrevi. Está com um problema senhor Paulo? Vai aí o I. E veio. Atrasado. Não muito. Não estranhei. Já estranhei o facto de ter ferramentas próprias, de começar e acabar um trabalho sem interrupções, de sacrificar-se para que tudo ficasse pronto no mais curto espaço de tempo possível. Percebi que ele valorizava o negócio que tinha e, como tal, dei-lhe atenção e continuei a dar-lhe trabalho.

Eu trato-o por I, ele trata-me por boss. Tudo normal, portanto. Mas um dia surpreendeu-me. Fora um trabalho complexo. Dois dias de volta daquilo até deslindar o problema, encontrar a solução e aplicá-la. E nesse dia eu notava-o mais calado. Ele gosta de trabalhar e ir explicando o que está a fazer, mas naquele dia estava apreensivo. Olhava para as coisas demoradamente, olhava para mim, e parecia engolir. Foi depois de ter terminado que o I explodiu:

- Boss... preciso da tua ajuda.
- Como assim?
- Eh boss vou-me casar.
- Eh pá, grande notícia. E para quando é isso?
- No sábado, boss...
- No sábado? Mas já hoje é quarta!
- É boss, mas ela não quer aquela pessoa que eu arranjei para cozinhar e tenho de ir buscar outra e preciso ir comprar... xiii boss, 'tá complicado.
- E precisas de ajuda?
- Preciso, boss...
- Diz lá...
- Como é isto do casamento boss? Eu não sei estar casado. É, nós namoramos faz um tempo, mas deve ser diferente de estar casado, não sei bem como fazer... tu estás casado há muito tempo, podias dar-me aí umas dicas, uns conselhos... mulher não é fácil boss...

Tremi! Não estava à espera e a responsabilidade do que dizemos numa altura destas, a partir de uma pergunta colocada com tanta naturalidade e tanta necessidade, assustou-me, mas o I estava aflito e não me apeteceu vacilar nem mostrar-lhe complexidades. A vida ensina, pensei, agora é só dar umas orientações.

- Ouve, I, não há receitas. O que te vou dizer pode resultar com uns e não resultar com outros. Cada situação tem de ser avaliada. A primeira coisa que te vou dizer é para não te assustares quando surgirem problemas, os problemas são normais. Não podes desistir ao primeiro problema porque é a superação deles que fortalece uma relação.
- Mas os problemas doem, boss.
- Claro, mas a dor é uma força. A segunda coisa que te digo é para falarem sempre e de tudo. Nunca guardes uma conversa, não deixes azedar um assunto, um desentendimento, nunca te vás deitar zangado com ela.
- Eh boss, não dá...
- Dá, dá, basta que seja a tua vontade, a tua prioridade.
- Eh boss, mas ela às vezes não me quer ouvir.
- Quer pois.
- Quer?
- Quer. Ela diz-te que não te quer ouvir, mas quer. É como quando lhe dizes que vais sair com os amigos sem ela. Ela diz-te que está bem, mas não está.
- Eh boss, não dá, tá mal... ela diz ao contrário.
- Claro!
- Para quê?
- Para ver se tu descobres por ti o que ela quer... se vais ao encontro dela...
- Como fazer boss?
- Simples... sempre que começas a falar com ela, dás-lhe razão e pedes desculpa. Como princípio genérico, entendes? Não interessa sobre o que é a conversa, dá-lhe logo razão. Ouve lá, quando têm uma discussão, quem é que acaba a ter razão?
- Ela.
- Pronto. Aí tens. Se lhe tivesses dado razão à partida, não tinhas discussão.
- Mas e o que eu penso? Eu posso ter razão, não é boss?
- Podes, mas ela vai-te reconhecer essa razão mais rapidamente se primeiro lhe deres razão a ela!
- Não pode!
- Pode, pode... experimenta... Por exemplo, para que é que tu queres um sofá?
- Para sentar.
- Certo. Então o que é te interessa a cor do sofá?
- Nada.
- Pois, mas a ela interessa! Logo, quando forem comprar um sofá para que é que hás de estar a discutir a cor do sofá se tu só o queres para te sentar e beber uma geladinha?
- Tá certo, boss... e o dinheiro?
- Partilha tudo! Ou são um casal ou não são. É como sair com os amigos... se ela é a tua dama porque não há de ir... A única coisa que te posso dizer é para não gastares tudo de uma vez... ires poupando porque podes precisar ao longo do mês...
- Pois é boss, ela pode entrar aí num supermercado ou numa loja e de repente foi-se tudo e depois como é amanhã?
- Lá está... sei lá, se tiveres 8 para gastar, combina gastarem 4.
- E resulta?
- Mais ou menos.
- Ai...
- Pois... ela vai gastar os 8 na mesma só que vai levar mais tempo. Tempo que tu precisas...
- Xiii boss, é isso mesmo, como não lembrei disso...
- Olha, e não te esqueças que o sexo é muito importante.
- Claro...
- Mas não é só para ti...  tens de... como dizer... tens de ter a certeza de que não és egoísta, também pensas nela, és carinhoso com ela. E falem, falem sobre o que gostam e o que não gostam... comuniquem... Queres ter filhos?
- Claro.
- Já pensaste quando?
- Não...
- Lá está... já pensaste que uma criança dá muito trabalho e é muito absorvente e tu ainda agora estás a casar... talvez fosse melhor dares um tempo para a conheceres e criares intimidade e depois pensas em filhos, mas isso são vocês que avaliam...
- Eh boss e há assim alguma coisa proibida, que a não se pode fazer?
- Há.
- O quê?
- Violência. Nunca podes ser violento. Nem com os gestos nem com as palavras. As mulheres são sensíveis a isso e tu deves ser o primeiro a respeitar a tua mulher, afinal de contas escolheste-a...
- Ou fui escolhido!
- Tens razão! Mesmo assim...
- Tens razão boss. Violência é má onda...

A conversa foi assim, crua, pura, sem preconceitos, sem rodeios, direta, positiva... E o I lá foi à vida dele um pouco mais seguro. O tempo passou. Já lá vão mais de dois meses e, ontem, à hora do jantar, o telefone tocou, vi o nome do I no visor e voltei a estremecer, Ai meu Deus, se ele me está a ligar... o que se terá passado...

- Sim... Estás bem I?
- Tudo bem boss. Tinha dado um sinal, mas o teu telefone estava morto. Pensei que tinhas viajado.
- E viajei, mas já estou de volta.
- E correu tudo bem por lá?
- Sim, graças a Deus. Tudo fantástico. Estive com o meu filho, família, amigos...
- Boss estou-te a ligar para desejar um bom ano e para te agradecer...
- Então? A vida de casado é boa? Está tudo a correr bem?
- Muito boa boss! E as tuas dicas foram muito eficazes, boss, resultam na perfeição... está tudo tranquilo... então aquela de dar razão para começar a conversa... eh boss, comecei a ter razão mais vezes...

E largámo-nos os dois a rir e percebi que o I está numa fase feliz da sua vida. Uma fase de crescimento. Uma fase de aprendizagem. E assume isso com naturalidade, receios, poucas expectativas, mas a mesma esperança e a mesma alegria que inundam o olhar, o sorriso e os gestos das gentes moçambicanas. Há menos conceitos por aqui. E isso faz com que haja menos pré-conceitos... E as coisas que dizemos, se vierem do coração, são assim interpretadas e são intuídas e postas em prática como se a vida fosse fácil. E talvez seja, nós é que, por um sinuoso processo mental de justificação da nossa própria existência, andamos a inventar que é complexa. Mas não é. Os moçambicanos não inventam nada disso. Eles sabem que a vida é simples. É só para viver. E têm essa verdade mais segura do que qualquer outra.

jpv

Crónicas de África - O Terceiro Pesadelo


O Terceiro Pesadelo

Maputo, 14 de janeiro de 2014


Quem faz viagens intercontinentais de avião, sobretudo se houver escalas em África, tem três pesadelos. A descolagem, a aterragem e a recolha da bagagem!

Por incrível que pareça, o mais terrível dos pesadelos é o terceiro. E, de certa forma, é o único que realmente existe. Isto parece complicado, mas explica-se rápido. Se houver problemas com a descolagem ou com a aterragem, não só não podemos fazer nada, como ninguém pode fazer nada. São problemas resolvidos à partida. Encomendam-se as almas ao Criador, missa do sétimo dia e siga a vida. Já o terceiro é um verdadeiro pesadelo. Em primeiro lugar, significa que sobrevivemos aos outros dois, em segundo lugar, estando vivos temos direito àquilo que nos pertence, ganho com o suor do nosso trabalho. Ou melhor, achamos que temos direito.

Desta vez a viagem foi Lisboa - Acra - Joanesburgo. Saída de Portugal, escala no Gana e destino final na África do Sul. O voo era rapidinho. Quase parecia um direto e, por isso mesmo, a transição em Acra demoraria somente 55 minutos. A malta da TAP fez um serviço limpinho e lá descolámos, voámos e aterrámos em segurança. Correu tudo bem, exceto ter de levar vista adentro com os sapatos do ganês que ia na fila do lado. Era, sem exagero, meio metro de sapato em tons de encarnado vivo misturado com pérola e uma ponteira em cabedal preto aí com uns quinze centímetros. Para se recostar, teve de tirar os sapatos porque eles empeçavam no fundo do banco da frente. O aeroporto de Acra é um barracão com portas de alumínio cinzento em mau estado como há naqueles escritórios em apartamentos que cheiram muito a tabaco. Saímos do avião, subimos por uma escada de incêndio, passámos num detetor de metais desligado e, como estávamos em trânsito, logo, sempre dentro do aeroporto, não podíamos ser revistados. Mas fomos! Quais normas, quais quê! Foi só passar o detetor morto e ei-los a apalpar-nos muito bem apalpadinhos e malas esventradas, computadores, livros, cuecas, pasta dos dentes, tudo ali revelado à luz do barracão. Houve um tipo que se armou em engraçadinho. Disse ele, A mim não me podem abrir a mala porque eu tenho passaporte diplomático. O outro olhou para ele, nós percebemos que aquela jogada, ali, estava votada ao fracasso, um passaporte contra um colete verde pirilim, no Gana, está visto que ganha o colete, sorriu e disse, Pois, tem razão, mas nesse caso não é por aqui, tem de ir ao fundo do aeroporto, identificar-se, fazer prova da validade do passaporte, preencher a papelada e voltar para aqui, mas entretanto nós já fomos, deixe lá se não apanhar este, vai no próximo. Abriu a mala! Havia uma gift shop. Era assim uma barraquinha em madeira como aquelas das feiras comerciais e industriais, só que não dizia "Morcelas Ermelinda", dizia "Gift Shop". Neste aspeto, Maputo dá cartas. Tem um aeroporto que é bonito, moderno e funcional. Ora toma!

Lá seguimos para o avião da South African Airways, uma companhia com um serviço excecional e tudo correu às mil maravilhas, descolagem, voo e aterragem. Mostrámos os passaportes e lá fomos para a pista nove recolher a bagagem mas malas viste-las, 'tá quieto ó mau, não mora cá ninguém. O mais engraçado é que, enquanto uns partiam contentes, desta já me safei, fomos vários os que ficámos para trás a olhar desconsolados o tapete abandonado. Lá fui a um guiché e a menina disse-me toda sorridente que andava a aprender a falar português e só queria falar português, mas não se percebia nada do que ela dizia e sorria despreocupada como se as nossas malas não andassem em parte incerta. Não se preocupe, as malas vem amanhã. Mas eu amanhã estou em Maputo. Não se preocupe, nós metemo-las num avião e dentro de dias estão lá, talvez mesmo amanhã ou no outro dia ou no final da semana... E eu a pensar na roupinha que lá ia, nos livros e, sobretudo, em certo queijinho da serra... ai o meu queijinho da serra... Olhe, dizia ela, entretanto se ninguém do aeroporto de Maputo entrar em contacto consigo, telefone para nós. Tudo aquilo me soava a suspeito. Cá para mim, àquela hora, o ganês dos sapatos vermelhos estava a morfar queijo da serra e a rir-se de mim.

As malas apareceram em Maputo. Mas tive de ser eu a dar com elas. Não telefonei para a África do Sul coisa nenhuma. Meti-me no carro, dirigi-me ao aeroporto, indicaram-me um guarda que me indicou um segurança que me indicou uma menina que me indicou um responsável de armazém. A sua bagagem ainda não chegou, senhor Videira. E tem ideia de quando chega? Há de chegar, logo, logo, está aí. Logo, logo, quando? Eh, um dia, dois, na semana que vem. Não me deixei abater. Entrei armazém dentro e ainda não tinha dado o segundo passo quando vi um celofane rosado no chão por baixo das prateleiras. Olhe, aquela ali é minha. Não pode. Pode, pode, veja lá o nome. Ele baixou-se e leu: Videira. Ué, como é que isso veio parar aqui? Para aquela pergunta, eu não tinha resposta. Talvez a bagagem tenha vindo pelos seus próprios meios. Senhor Videira, o senhor é um homem de sorte. Pois sou. Assinaturas, muitas assinaturas, um senhor da alfândega a fazer perguntas e a dizer que tinha de abrir as malas, um breve namoro, um nkombela* açucarado, as malas no carro, o queijo na mesa, huummmm... Vinham lá valores, mas quem é que, no seu perfeito juízo, prefere um fato de treino, um romance do Dan Brown, Os Maias do Eça, a um bom queijinho da serra...

E pronto. Valeu como experiência. A viagem pelo Gana é rapidinha, mas dá o seu trabalho. Para a próxima, queijos na mala e Frankfurt com ele. Sempre se evitam os sapatos vermelho vivo. Então se aquilo brilhava...
jpv

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PS: respondendo aos muitos que perguntaram: regressar a Maputo foi espetacular. Esta terra tem magia. Estas gentes são formidáveis.

* Nkombela: Changana. À letra, "estou a pedir", equivalente ao português "por favor".

De Negro Vestida - Primeiros Pontos de Venda

Caros leitores e amigos,

Embora ainda esteja a decorrer a fase de distribuição, o romance "De Negro Vestida" já está disponível em alguns pontos de venda online, sendo que, de acordo com as promoções, cartões e outros que tais, o preço pode variar.

Até ao momento pode encontrar-se nos locais listados abaixo a que pode aceder diretamente clicando nos nomes ou logótipos.



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Boas Leituras
jpv

Lamento do Viajante Solitário


Lamento do Viajante Solitário

Já te sinto ao longe,
Ó sol redondo e grande e vermelho
Que nasce ao contrário
E se põe nas minhas costas.
Já te sinto sob os pés,
Ó terra de sangue
Que cheira a vida
E brota meninos descalços.
E amo as tuas cores
E as tuas gentes
E sinto tudo
O que sentes.
Já te pressinto a humidade
E o calor,
Já te vejo a bátega torrencial
De impiedosa chuva,
E já oiço as saudações
Dos vizinhos e dos amigos.
E já escuto o que o povo canta
O que o puto anónimo diz.
E sou feliz.
Por ti. Em ti. Contigo.
És minha essência
E minha verdade.
És meu chão,
Minha pátria de vencer,
Acolhimento e aconchego.

E choro.
Há outra terra.
Escura e fria.
Onde chove de noite
E neva de dia.
E há uma lareira ardente
Que se paga,
Uma porta que se tranca,
Uma janela que se fecha,
Um cão que baixa a cabeça
E chora por dentro.
E há um filho órfão de mim,
E uma família acenando
Um incerto e chorado adeus.
Há amigos que sorriem de dor
E querem atenuar os meus
Pecados.
Esses,
Cometidos estão.
E só se redimem de verão em verão.

Amo uma e outra
E não há nesse amor
Culpa nem perdão.
Mas há a distância.
Há a errância.
Há a solidão.
Há um estar sempre
Onde se não está,
Esse constante cá e lá
Que dói e fulmina
A intenção.
E cresce em mim a intraduzível saudade
Um peito que se enche
E esvazia,
Um não saber que querer
Querendo tudo,
Um poeta, 
Um bardo no peito,
Um estar sempre sem jeito.
Uma viagem
E um viajante para ela,
Homem tisnado e forte
Que estende e iça a vela
E chora seu fado,
Lamento solitário...


jpv

Lua-de-Mel com Eusébio


Lua-de-Mel com Eusébio


Como benfiquista e, sobretudo, como português, sinto tristeza pela morte do grande Eusébio. Jogador ímpar do meu Benfica e da nossa Seleção. Uma figura mítica cujos golos já vimos centenas de vezes em imagens de arquivo, mas revemos sempre com entusiasmo tal a energia e a magia desses momentos.

O homem e o jogador de futebol tem o valor que tem, um dos melhores de sempre, e haverá muito quem fale disso melhor do que eu porque o conheceu de perto, contactou e conviveu com ele. E é por isso que me escuso a essa função. Contarei, como quem rememora, porque acredito que os homens perduram na memória uns dos outros, um episódio em que percebi a dimensão internacional de Eusébio.

Foi em setembro de 1988. Há vinte e cinco anos. Casei-me, enfiei-me num comboio com a minha noiva e fomos correr essa Europa com um bilhete de Inter-Rail no bolso. Ir do Entroncamento a Istambul e vir, de comboio, era o desafio. E, com as dificuldades inerentes àquele tempo, conquistámos cumplicidade, vencemos contrariedades e realizámos o sonho de, pelo caminho, visitar Atenas.

Na altura não havia Internet. A televisão não dava as notícias do mundo segundos depois de elas terem sucedido, não havia cartões multibanco, não havia telemóveis. A moeda de troca não eram retângulos de plástico, era mesmo dinheiro, as notícias viajavam, sobretudo, pela rádio e pelos jornais. Portugal tinha dois canais de televisão. A RTP1 e a RTP2.

Estava algures no meio da Jugoslávia, é verdade, na altura, esse país ainda existia, num comboio internacional que havia sido transformado num regional que parava em todas as estações e apeadeiros. O comboio estava à pinha com famílias inteiras e, sobretudo, jovens militares fardados. Não sabíamos, em Portugal, mas na Jugoslávia havia começado a guerra e o ambiente era muito tenso. As famílias despediam-se dos jovens nas estações e havia abraços e choros. Ora, no meio deste ambiente, éramos um estranho e jovem casal de portugueses, apertado entre pessoas sentadas, em pé e deitadas pelas carruagens, falando em línguas que não percebíamos. A certa altura, alguém perguntou, misturando francês com inglês e russo, ou algo parecido com russo, de onde éramos. A resposta foi óbvia:
- Portugal.
- Ah, Portugal... Eusébio!

E pronto. Tantas e tão vastas referências tinha a nossa nação, tantos séculos de História a produzir feitos e figuras conhecidas, mas foi com Eusébio que identificaram Portugal em língua estranha, comboio apinhado, algures, num país prestes a deixar de existir!

Onde Adquirir "De Negro Vestida"?


ONDE PODE ADQUIRIR "DE NEGRO VESTIDA"?

A compra do romance "De Negro Vestida" poderá fazer-se após a fase de distribuição. Essa fase vai durar cerca de 6 semanas, ou seja, por volta da SEGUNDA SEMANA DE FEVEREIRO, o livro estará disponível nos seguintes locais:

Portugal - online:

Site da Chiado Editora (http://www.chiadoeditora.com/);
Wook (http://www.wook.pt/);
Bertrand Online (http://www.bertrand.pt/)
Sitio do Livro (http://www.sitiodolivro.pt/)

Brasil online:

Livraria Saraiva (http://www.livrariasaraiva.com.br/)
Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/index.asp)

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Portugal Livrarias:

Livrarias do comércio tradicional e grandes grupos comerciais, FNAC, SONAE (Worten e Book It), ECI, Bertrand e Bulhosa que terão a obra disponível ao balcão ou sob encomenda.

Brasil Livrarias:
Livraria Saraiva e Livraria Cultura que terão a obra disponível ao balcão ou sob encomenda.

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Assim que souber os locais exatos, comunico a todos os amigos, familiares e leitores.

3 de janeiro


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3 de janeiro

Se o meu pai fosse vivo, faria hoje 80 anos. Não é. Mas faz na mesma. Nos nossos corações.

Este ano não vou escrever nenhum poema, nenhum texto saudosista a realçar a falta que ele nos faz. Faz-nos a falta toda que é possível um ser humano fazer, sobretudo tratando-se de um homem que nos orientava e preenchia e os afetos.

Hoje, mostro uma foto. Nessa foto está toda a minha vida. A que houve antes de mim. A que haverá depois de mim.

Essa foto, para mim, é uma espécie de calendário cósmico, uma sinopse de toda a existência, pelo menos a que vale a pena! É o meu pai, orgulhoso por ter o neto ao pé. Olhando a televisão, segurando o miúdo com a pouca força que lhe restava. E é o meu filho, com a curiosidade no olhar, usufruindo da tranquilidade que o avô lhe passava. O meu pai não chamava o neto para o pé dele. Aliás, o meu pai não chamava ninguém para o pé dele, nem mesmo os animais, mas fazia com que nos sentíssemos bem ao pé dele quando lá estávamos e depois éramos nós que queríamos voltar para o seu pequeno universo de afetos. Até nisso, era diferente. E talvez por isso, havia uma pomba que o visitava todos os dias à janela da sala de jantar sem a ele a chamar. Por isso e pelos pedacinhos de pão. Os mesmos que faziam toda a gente, em particular, as minhas tias, quererem sentar-se ao lado dele à refeição. É que, antes de começar a comer, o meu pai, partia pedacinhos de pão e fazia uma fileirinha deles ao lado do prato...

Estava aqui a pensar, e tomei consciência de que morreu há quinze anos. Fez ontem quinze anos. E ficámos com esta cronologia estranha. Falecido a dois, nascido a três, sepultado a quatro. Há qualquer coisa de místico nesta sequência pois que ao longo dos últimos quinze anos o tenho tentado sepultar, mas persisto em vê-lo renascer. Em mim, na minha irmã, na minha mãe, na minha mulher, no meu filho, nos demais familiares, nos amigos... e vem sempre com a mesma tranquilidade, a mesma serenidade. Talvez seja isto que este homem era mais farol do que homem. Pois, farol seja, farol permaneça!

In Memoriam Jaime Neves Videira, 3/01/1394 - 2/01/1999

jpv

Agradecimento Público


Caros Familiares, Amigos e Leitores,

A todos um profundo e sentido agradecimento pelo dia de ontem, 28 de dezembro de 2013. O dia em que apresentei publicamente o primeiro romance que publico, "De Negro Vestida".

Foi um dia de emoções fortes. Tantas e tão inesperadas amizades me visitaram, revisitaram, apoiaram... foi a tarde dos abraços! Tantos e tão longos, demorados, reconhecidos e reconfortantes abraços.

Tenho 46 anos, vivo, portanto, a minha quinta década e tive comigo, ontem, amigos de todas as décadas da minha vida! Absolutamente fabuloso!

Amigos da Gabela, a terra que me viu nascer. Alguns deles eu não via há 40 anos!
Amigos dos meus tempos de liceu, do saudoso Liceu D. Duarte, em Coimbra.
Amigos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, dos meus tempos de capa e batina.
Amigos de Coimbra.
Amigos do tempo em que vivi no Entroncamento e onde semeei tantas amizades.
Muitos amigos de Torres Novas, terra que me acolheu e de que gosto tanto!
Amigos e colegas da minha escola, a Secundária de Alcanena a cujos colegas devo muito do meu crescimento como homem e professor.
Amigos do tempo do velhinho DES, Departamento do Ensino Secundário, onde trabalhámos tanto e trocámos tantas ideias e fizemos nascer tantos projetos.
Amigos do IEFP de Santarém e também do Porto com quem tanto se sonhou e realizou.
Amigos e colegas do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa que abracei com comoção e saudade.
Amigos e colegas da DGRHE/DGAE cuja capacidade de trabalho sempre admirei e sempre souberam aliar a uma postura cúmplice, cooperante e afetuosa.
Amigos do Clã do Comboio, esses incansáveis e simpáticos companheiros de viagem dos tempos em que trabalhei em Lisboa na DGRHE/DGAE
Amigos e colegas da escola onde trabalho atualmente, a Escola Portuguesa de Moçambique!
Ex-alunos que ficaram amigos para sempre. Sementes de saber e amizade que ontem floriram em sorrisos e abraços.
Amigos que nunca tinha visto pessoalmente, mas que seguem o que escrevo no Blogue do Costume, Mails para a minha Irmã, e vieram saudar-me e adquirir "De Negro Vestida".
Amigos da minha terra em Portugal, a Zibreira!
A minha doce afilhada, de quem gosto tanto!
Amigos, familiares, leitores... todos juntos à volta de um texto que foi pretexto para muitos abraços. Espero que venha a ser um livro com um percurso interessante, que o público se interesse por ele e o leia e divulgue, mas, mesmo que não seja, só pelos abraços que despertou, já valeu a pena!

E ainda, amigos da Chiado Editora e da Book It de Torres Novas que tornaram o evento possível.

Muito Obrigado a todos! Do fundo do coração!


João Paulo Videira

Nota: em breve deixarei informação sobre locais online e físicos para aquisição do livro.

De Negro Vestida - Aproxima-se a Hora do Lançamento...


[Clique na Imagem para Aumentar]

Caros Familiares, Amigos e leitores, 

Está quase na hora do lançamento de "De Negro Vestida"

A todos os que me têm apoiado, encorajado e ajudado neta aventura de começar uma vida nova, aquela que sempre sonhei, a da escrita publicada, o meu muito sentido agradecimento. 

Só posso prometer continuar a escrever. Até amanhã! 

jpv

De Negro Vestida Chegou a Maputo


Caros amigos e leitores,

De forma antecipada em relação ao esperado, "De Negro Vestida" chegou hoje a Maputo.

Foi um momento de realização, mas foi, sobretudo, um momento de comoção.

Agradeço publicamente a generosidade da Escola Portuguesa de Moçambique pelo seu transporte, na pessoa da sua Diretora, e estendo o agradecimento a todos os que trataram do processo burocrático!

A obra chegou, finalmente, às mãos do seu autor.

Agradeço, também, à Chiado Editora pela remissão dos volumes.

Agora, avançamos para o lançamento no próximo dia 28 de dezembro de 2013, na livraria Book it, em Torres Novas, pelas 16:30h, no edifício do Centro Comercial Modelo.

Depois, ainda tentaremos uma sessão em Lisboa no início de janeiro e para o final do mês, a sessão de lançamento nesta deliciosa África, neste acolhedor Moçambique!

Árvore: check! (muiiitas!)
Filho: check! (liiiindo e muito amado!)
Livro: check! (De ficção e em papel é o primeiro!)

Pai Natal, apesar da lista estar completa, se possível, não queria morrer já. É que estou a redigir outro romance e já tenho mais dois na gaveta! Ah pois...
jpv


Clique para aumentar. Se quiser, claro. Não é uma ordem! Hehehe...

Lançamento do Livro "De Negro Vestida"

Caros Familiares, Amigos e Leitores,

Venho convidá-los a todos para um importante momento da minha vida, o realizar de um sonho, um momento para que todos os leitores contribuíram. 

No próximo dia 28 de dezembro de 2013 vou lançar o meu primeiro livro, o romance "De Negro Vestida" que tantos de vós acompanharam neste mesmo blogue.

O lançamento será na livraria Book it, em Torres Novas, pelas 16:30h, no edifício do Centro Comercial Modelo.

Aqui fica o Convite:


Nota:
Estamos a tentar agendar uma sessão promocional em Lisboa, no dia 4 de janeiro, mas até ao momento a Chiado Editora ainda não conseguiu providenciar um espaço. Esperemos poder vir a dar-vos essa boa nova em breve.

Mulheres de Quelimane, Homens de Maputo.


Histórias a Preto e Branco

Mulheres de Quelimane, Homens de Maputo.

A história conta-se em poucas palavras. Homens que nunca daqui saíram, mulheres que vieram de longe. Quelimane. Quem vem de Quelimane diz que é onde brotam os melhores ananases, onde ficam as praias mais tentadoras, onde nascem as mulheres mais dotadas e onde se cozinha a melhor mucapata de caranguejo que as gentes de Moçambique alguma vez provaram.

Chamaram-lhe Virgínia a conselho de um padre português que vivia em Inhambane desde antes de ter barba até a ter grisalha da velhice e amarelada dos cigarros vespertinos sugados debaixo de uma acácia sem idade. Dissera o pároco que o nome significava pureza, virgindade e que aquela menina deveria ser guardada para o Senhor, entregue às Carmelitas da Missão e criada com Avé Marias e Padre Nossos numa vida dedicada ao espírito e à Divindade. Bem intencionado foi o pároco, mas desconhecedor das forças e premências da Natureza, ou, sendo conhecedor, subestimador delas.

Virgínia foi-o enquanto pôde. Aos catorze anos partiu para Maputo com o pai da criança que levava na barriga. Depois dessa, teve outra e depois dessa está tendo outra aqui nesta cama onde se encontra deitada, abrindo as pernas ao mundo e esperando que a sogra lhe tire o filho do ventre. Estranhou, pois, as palavras da velha que, quando lhe tirou o filho e lho deu para o colo, disse:
-Toma, este é o primeiro.
-Primeiro?

E por ser o primeiro a ver a luz do sol nesse dia, Primeiro lhe chamou e ao que veio a seguir, com a lógica inquebrantável de quem vive a Natureza como sua casa de ser, Segundo lhe chamou. Primeiro cresceu um rapaz forte e bonito e fisicamente dotado. Tudo o que tivesse a ver com ferramentas, ar livre e futebol e fazer com as mãos era com ele. Ímpeto forte e palavra larga. Segundo cresceu um rapaz sereno, muito replexivo, fechado nos seus próprios pensamentos, muito dado às contas, às letras, aos livros. Tudo o que tivesse a ver com pensar, com palavras, esquemas e táticas e fazer com o cérebro era com ele. Força serena e gesto comedido.

Cresceram juntos, comeram o mesmo pão, a mesma manga, a mesma banana, o mesmo arroz. Eram iguais. Um rosto simpático, os dentes largos em cima e fininhos em baixo, as mãos longas e as pernas esguias. Adoeceram nas mesmas semanas, tiveram as mesmas faltas de apetite e os mesmos desejos vorazes de ananás polvilhado com açúcar. Foram cúmplices na escola, na rua e em casa e diziam os amigos e os familiares que só Virgínia, a mãe, os conseguia, de facto, diferenciar.
-Como faz dona Virgínia?
-Ora, olho para eles.
-Mas são iguais!
-Não são nada! Bem diferentes, até.
E depois testavam o saber da mãe:
-Qual é aquele ali?
-Aquele é Segundo.
E chamavam:
-Segundo!
E o rapaz virava-se.
-Xiii, dona Virgínia, como faz para saber?
-Já disse, olho.
-E o que vê diferente?
-Ora, Primeiro tem fogo e luz e movimento no corpo. Um sol que lhe sai dos olhos e ilumina o mundo. Segundo tem nuvens no olhar e um lago azul no corpo que ele empurra a custo.
-Xiii, dona Virgínia, isso não são coisas de ver.
-São sim, são coisas de uma mãe ver.

A areia branca da praia sob os pés, entra dois passos na água calma do Cuacua e fica com o rio pelo artelho, olha-o intenso, a luz da madrugada vem despontando por cima do azul transparente e límpido do Índico, a barriga redonda e grande, prestes a rebentar, sente falta do som da vela do dow ao vento, a água chapinhando o casco do barco, e diz para ele:
-Josué, leva-me no mar!
E ele levou, desceram com suavidade aqueles vinte quilómetros até ao grande oceano e assim que lá chegaram as ondas das águas que trazia no ventre sincronizaram-se com as do mar salgado, e foi sem destino e veio naquele bailado até à praia e quando chegou, sentou-se na areia e pariu. O sal da água ficou na pele da menina a que ela chamou de Estrela como a que estava semi-enterrada na areia onde o mar se vem deitar.

Ainda duas semanas não tinham passado, dormia ela com a criança em cima do peito, levava-a para todo o lado enrolada numa capulana que lhe passava por cima de um ombro, por baixo do outro e atava à frente, sob os seios enormes de leite de que ela, religiosamente, duas vezes por dia, tirava umas gotas e colocava no sexo da bebé, sem saber porque fazia aquilo, eram gestos que vinham de um tempo lá longe, antes de tudo o que ela conhecia, e Josué começou a querer partilhar o peito da mulher com Estrela, chegava-se a ela com o sexo empertigado e pedia, Dá para mim. Ela conseguiu escorraçá-lo durante uns dias, mas acabou cedendo nas intenções e, aproximadamente um ano depois de Estrela, nasceu Flora.
-Eh, mulher, só me dá meninas.
-Eh, homem, só me faz meninas.
Em Quelimane viviam poucos portugueses. A cidade era muito longe dos interesses. Eram meia dúzia de famílias e um viúvo que perdera a sua na guerra, mulher, filhos, irmãos, cunhados, sobrinhos, e resolveu cobrar à terra que levara os seus, a sua própria morte. Um homem austero e rigoroso, alto e fendido de rugas longas pelo rosto abaixo, que viu as meninas crescerem por ali com cestos de mangas à cabeça, caranguejos atados por cordéis, ananases pendurados em paus atravessados nos ombros e tudo o mais que duas crianças com pouco mais de dez anos pudessem tentar vender. O português nunca tinha tratado nenhum moçambicano pelo nome próprio. Usava tu para tudo. Resolveu mudar.
-Josué, essas meninas não vão à escola?
-Não tem como, senhor.
-Hão de ir. Manda lá para minha casa.
-Mas eu preciso…
-Eu pago.
E pagou. Pagou o tempo delas. Assim, Josué podia pagar a quem o ajudasse quando elas não estavam que era quase sempre pois que, embora haja notícias contrárias, a verdade é que a escola é coisa que requer muito tempo, muito trabalho e algum sofrimento. E pagou também as despesas com elas. E viu o seu investimento dar frutos. Mas não todos. Pouco antes de fazerem o exame da décima segunda classe, o português sentiu uma dor no peito, vazou mais um uísque para acalmar, recostou-se na cadeira e partiu deste mundo. Foi ter com a família que já lá estava.

Josué viu que as meninas tiveram boas notas. Agradeceu, no seu íntimo, ao português, e decidiu pô-las a trabalhar. Não foi bem sucedido na intenção. Por esses dias, apareceu em Quelimane um homem de fato escuro, pasta de cabedal castanho e papéis a saltar dela e a ditar a vida das pessoas. O português tinha morrido, mas continuava vivo. E esse homem foi batendo de porta em porta, em havendo porta para bater, ou chamando pelo nome das pessoas:
-Senhor Josué! Senhor Josué Nhangave!
-Josué Nhangave sou eu, o Senhor não mora aqui, está no céu.
-O senhor é pai das meninas Estrela e Flora Nhangave?
-Dessas e mais uns quantos que por aí andam.
-Temos de conversar.
-Ah sim? E porquê?
-O senhor Madeira…
-E quem é esse?
-O falecido.
-Ah, o português!
-O senhor Madeira.
-E quem é esse?
-O falecido.
-Ah, o português!
-O senhor Madeira.
-Madeira, agora que está num caixote, mas foi de carne e osso...
-Chamava-se Madeira.
-Por aqui toda a gente o chamava de português.
-Por ser de Portugal...
-Não. Por ser o nosso português de Portugal. O senhor também há de ser de Portugal e ainda não lhe chamei de português.
-Enfim, o senhor... o português deixou em testamento expressa a vontade de que meninas Estrela e Flora estudassem.
-E quem paga a vontade dele?
-O próprio.
-Mesmo depois de morto?
-Mesmo!
-Como assim?
-Pois, o dinheiro para a educação das meninas não lhe é entregue...
-Mas podia!
-Pois, mas o senhor Madeira, o português, deixou instruções precisas. Todos os meses se transfere uma importância para a conta das meninas...
-Conta? Senhor, a única conta que há cá em casa é a da mercearia e isso é porque a Faustina vende fiado.
-Senhor Josué, o importante é que o senhor saiba que o português me deixou a responsabilidade de gerir essa verba. Eu abrirei as contas para as meninas num banco, elas irão estudar e todos os meses eu faço as transferências. A única regra é que não podem reprovar, caso contrário, interrompem-se as transferências.
-Português sabido. E como é que o senhor sabe isso tudo? Acaso o português fala consigo do além?
-Não. Mas deixou tudo escrito. Há vários anos, de resto. Assim que as meninas passaram no exame da quarta classe.
-E não disse nada?
-Não sei. Pelos vistos, não.
-Porquê?
-Lá teria as suas razões...
-Português sabido! E elas vão estudar o quê?
-Elas devem saber a sua vocação.
-É?
-É!

E lá foram as duas para Maputo estudar contabilidade na Eduardo Mondlane e ainda o curso não estava acabado, já tinham propostas de trabalho que não puderam aceitar para não quebrar a regra do português defunto. Quando terminaram, a colocação foi rápida. Escolheram ambas o BCI. Podiam ter escolhido outra instituição, mas a farda do BCI, saia cinzenta, camisa laranja e uma chapinha com o nome do funcionário, fez a diferença. Estrela e Flora vivem bem. Ajudam os pais naquilo que podem e de quando em vez vão a Quelimane visitá-los, passear no rio Cuacua, tomar um banho de azul no mar, comer ananases irrepetíveis e a melhor mucapata do Universo. Da próxima vez que lá forem, levarão seus recentes namorados. Estrela namora com Primeiro e Flora com Segundo.

Tudo começou numa tarde de tédio. Primeiro via televisão. Segundo lia. O programa não era bom. O livro era técnico.
-Segundo…
-Sim, mano…
-Vamos sair.
-Onde?
-Vamos na Costa do Sol. Apanhamos um pouco de mar.
-Primeiro…
-Sim, mano…
-Sabe o que nos faz falta?
-O quê?
-Namoradas.
-Você não quer! Estou sempre a encontrar namoradas para nós e você não gosta de nenhuma.
-Primeiro, você não encontra namoradas, você providencia encontros fáceis com moças fáceis que têm dificuldade em pronunciar um dissílabo.
-Um quê?
-Vê? Vê? Nem você sabe o que é um dissílabo! A professora explicou.
-Quando?
-Na segunda classe!
-Xiii, mano, faz tempo, muitos anos, como é que eu ia lembrar?
-Eu lembro.
-Pois, mas você veio ao mundo para não esquecer nada.
-E você, Primeiro, veio ao mundo para quê?
-Para nos encontrar namoradas!
-E porque não encontra?
-Falta um plano.
-Não seja por isso.
Segundo puxou um caderno e traçou um plano original, tão original como o pecado na Terra. Iam andar com roupas de correr pela marginal acima e abaixo, para lá e para cá, e quando se cruzassem com duas amigas interessantes, seguiam-nas e metiam conversa invocando que tinham em comum o hábito de correr.
-Segundo…
-Sim, Primeiro…
-Você não tem o hábito de correr!
-E depois? Mero pormenor. Um detalhe… por uma namorada eu corro!
-Ela há de chegar láááááá na Aldeia dos Pescadores ainda você está no Naval.
-Primeiro, não brinque. Eu corro.
-Pronto, tudo bem. E quando vamos?
-Já?
-Já!

Primeiro não se enganou muito. Segundo era uma lástima na corrida. Ele ia e vinha, corria duzentos metros para lá e voltava para cá a buscar o irmão. Como quase sempre acontecera em toda a sua vida, vestiam de igual, ou quase igual, mas, não obstante a incrível semelhança física entre ambos, quem os olhasse de longe, havia de reparar na vitalidade com que um corria e na lentidão com que o outro se arrastava. Primeiro decidiu transformar os seus avanços em investidas exploratórias. Ele iria para a frente, procurava um par de moças interessantes e interessadas, voltaria correndo, preveniria Segundo para o encontro e exigia dele que produzisse, entretanto, aquelas frases geniais para captar a atenção das desconhecidas. Quando propôs isto ao irmão, a reação não podia ter sido melhor:
-Excelente ideia, Primeiro. Vá lá explorar que eu fico a congeminar frases fabulosas.

Estrela e Flora, como era hábito todas as manhãs e também ao fim-de-semana, vinham correndo pela marginal. Deixavam o carro no parque do Clube Naval, iam até à Costa do Sol e regressavam pelo mesmo caminho. Vinham já no último terço do percurso, quando se cruzou com elas um rapaz que ia em sentido contrário.
-Viu esse, Flora? Estava olhando para si.
-Eu acho que era para si, mana.
Ainda não tinham acabado de comentar a passagem dele, já ele estava regressando, ultrapassando-as.
-Flora…
-Sim, mana…
-Ou esse é Super Homem e foi lá na Costa do Sol e regressou em menos de um minuto, ou voltou por sua causa.
-Não me parece o Super Homem, Estrela, falta-lhe a capa. Mas foi por sua causa que ele voltou. Aposto que vai olhar para trás em menos de cinco segundos.
-Aposta fácil!
Enganaram-se as duas. O rapaz, não só não olhou para trás, como desapareceu no horizonte. Alguns momentos depois, viram-no voltar, mas trazia um igual ao seu lado.
-Flora…
-Sim, mana…
-Esse daí, se não é super homem, é milagreiro. Olha lá, ele foi um, vem dois.
-É, tem razão, Estrela, mas o clone dele é meio desajeitado a correr.
-É. Tão iguais e tão diferentes. Aposto que vão falar.
-Aposta fácil!
Eles passaram sem dizer nada.
-Como é, mana, não acertamos uma aposta com o Super Homem e o clone desajeitado?
Mas acertaram. Ainda mal tinham passado por elas, Primeiro e Segundo voltaram para trás.
-Segundo, agora precisamos da sua frase.
-Não se preocupe.
Os jovens correram, alcançaram-nas a custo, elas perceberam que eles se aproximavam, olharam para eles e Segundo, pleno de confiança, arriscou:
-Olá meninas, boa tarde, gostam de correr?
-Não. Fazemos isto por obrigação! Disse Estrela.
E arrancaram a correr, deixando-os para trás.
-Que coisa previsível!
-É mana, falta de originalidade.
Não tiveram tempo de comentar mais nada. Ouviram um estrondo e um grito e voltaram-se para trás.

Os irmãos tinham reagido de imediato trocando o passeio pela estrada por haver menos obstáculos e pessoas e acelerando o passo, Segundo, o desajeitado, tropeçou numa das inúmeras arcas congeladoras espalhadas ao longo da marginal repletas de Coca-Colas, Sprites, 2M, Manicas e tudo o que possa refrescar as agruras do calor à beira-mar, uma garrafa de Coca-Cola, dessas que ficam em cima das arcas anunciando o que por ali se vende, tombou e caiu ao chão, Segundo desviou-se dela e, ao fazer esse gesto, ficou mais dentro da estrada, vinha passando um chapa que, surpreendido pelo gesto súbito, não foi a tempo de emendar a rota e o espelho da Toyota Hiace embateu com estrondo nas costas de Segundo que se estatelou. Ficou de costas, a boca muito aberta da surpresa e os olhos a olharem o azul do céu como que a certificarem-se se era o céu dos vivos ou dos mortos. Primeiro acorreu de imediato e em pavor:
-Segundo, Segundo, meu irmão, você está bem? O que aconteceu?
-Acho que atropelei o chapa!
Estrela e Flora aproximaram-se. Flora, com a preocupação estampada no rosto, perguntou:
-Você caiu?
-Não. Estou aqui a admirar a vista!
Rebentaram todos numa gargalhada, mesmo atordoado, Segundo ripostara a tempo de fazer justiça ao que se havia passado há uns minutos atrás. Ela aconselhou:
-Vamos ao hospital!
-Segundo, ainda no chão, a recuperar lentamente todas as capacidades, não se conteve:
-Mano, não só chamei a atenção delas, como as fiz voltar para trás!
-Mas não era preciso quase morrer por isso!
Voltaram a rir e Estrela resolveu fazer as apresentações. Estendeu a mão e disse:
-Estrela.
-Primeiro.
-Primeiro o quê?
-Eu sou Primeiro.
-Estamos fazendo uma corrida?
-Não. Meu nome é Primeiro.
-Primeiro do que o meu?
-Xiii, sempre a mesma coisa! Eu me chamo Primeiro! Primeiro é o meu nome!
-Não diga! E o clone desajeitado é o…
-Segundo.
-Minha nossa! E tem um terceiro?
-É, tem… mas não se chama assim…
-Perderam a conta…
-Mais ou menos isso…
Flora interrompeu:
-Eu sou Flora e acho que devemos levar o seu irmão ao hospital.
Apanharam um táxi e foram. Não havia nada de mais. Ao cabo de umas horas de espera, já tinham conversado o suficiente para que a disposição de Segundo estivesse ótima e, a haver alguma coisa grave, já se teria anunciado. Como não anunciou, decidiram ir esperar para a esplanada do Mundus que é ali perto. E, ao fim da noite, percebia-se claramente que o caráter mais expansivo e resoluto de Estrela pendia para a determinação de Primeiro, enquanto que o recato e a prudência de Flora se inclinavam para o tipo reflexivo de Segundo. E os casais ficaram feitos. Seleção natural. E muito tempo assim duraram e durariam mais tempo ainda não tivessem eles decidido trocá-los!

Estrela está atravessada na cama com a cabeça assente numa mão e o cotovelo espetado no colchão. As longas pernas negras oferecem a sua beleza ímpar ao primeiro homem que entrar pela porta do quarto e a vir semi-nua, só com a lingerie estonteante. Esse homem será Primeiro. Chega do trabalho, coloca a chave na porta, entra, ela pressente-o e chama-o, ele sente o odor do incenso no ar, a tarde cai, há só dois ou três candeeiros de pé acesos, a casa está à meia luz, ele percebe, precipita-se para o quarto e quando a vê nem se apercebe que ela disse, Vem cá meu homem, vem ser o meu Primeiro, atira-se a ela à medida que se despede das roupas, beija-a avidamente na boca e incendeia os seios dela com a sua língua voraz e ardente, procura-lhe o ventre e lambe-o com volúpia, coloca-a de quatro, procura-lhe a carne rosada por entre o ébano da pele e quando a encontra, enterra-se nela, segura-lhe as ancas, movimenta-se em ritmo vigoroso, derrama-se nela e dez minutos depois adormece a seu lado.

Flora seria incapaz de esperar semi-nua em cima da cama por Segundo. Combinaram entre si que quem chegasse primeiro a casa adiantaria o jantar e é o que ela está fazendo. Segundo entra, pousa as chaves, vai à casa-de-banho, aproxima-se dela por trás e beija-lhe o pescoço. Trocam impressões sobre o dia de ambos, sentam-se na sala a ler um pouco e quando Flora pressente a hora de se irem deitar, levanta-se, vai à casa-de-banho fazer a sua higiene, veste o pijama e entra na cama. E é lá que está quando Segundo chega, poucos minutos depois. Deita-se, apaga a luz e começa a sua longa e demorada sinfonia. Dá-lhe beijinhos pequeninos atrás da orelha, depois beijos gordos e generosos no pescoço, as suas mãos percorrem-lhe o interior das coxas, a língua dele procura a dela e as mãos sobem aos seios que ele acaricia com suavidade, e beija-lhos, e deixa-os humedecidos, e desce ao ventre que beija devagarinho, e brinca com o sexo dela e segura-lhe uma mão e tocam-no juntos e quando ela já arqueia o corpo de desejo e solta pequenos gemidos, Segundo deita-se sobre Flora e penetra-a devagarinho e é devagarinho que fica fazendo amor com ela e fica cuidando do seu corpo de mulher jovem enquanto os minutos voam. É já tarde quando explodem em uníssono e os seus corpos vibram de êxtase. Depois, Segundo recosta-se na cama, acolhe a cabeça dela no seu ombro e pergunta:
-Gostou?
-Hum, hum…
E ficam conversando a intimidade até adormecerem nos braços um do outro.

Desde que não estivessem a correr, Primeiro e Segundo eram mesmo muito parecidos. O mesmo formato da cabeça, o mesmo olhar, o mesmo jeito de inclinar ligeiramente o tronco para a frente, as mesmas mãos largas e suaves, até a voz era praticamente igual. Quando estavam no trabalho, a caminho dele, num almoço de amigos, numa viagem de lazer, havia sempre alguém que, dirigindo-se a um deles, perguntava:
-E qual é você?
A verdade é que eles gostavam da confusão e encorajavam-na, ora usando as mesmas roupas, ora dizendo as mesmas frases, ora trocando papéis propositadamente para confundir as pessoas. Em pequenos pormenores do quotidiano, chegaram mesmo a reparar que até Estrela e Flora tinham momentos de hesitação. E foi por causa de uma dessas hesitações que tudo começou. Estrela aproximou-se de Segundo julgando que era Primeiro, abraçou-o por trás, beijou-lhe o pescoço e disse:
-Está tranquilo, meu bem?
-Muito tranquilo. Disse Segundo estremecendo.
-Espero que sim. Esta noite estou contando consigo.
Ele não lhe disse que era o irmão errado, não foi capaz. Mas contou a Primeiro:
-Mano, no outro dia sua namorada me abraçou e me beijou.
-Como?
-No pescoço.
-Não é isso, como é que ela fez isso?
-Ora, pensou que eu era você. Chamou-me Primeiro.
-E você aproveitou, seu safado!
-Não. Mas tive uma ideia.
-Você e as suas ideias…
-Mano, preste atenção. As relações sempre se desgastam, as pessoas sempre se cansam e as relações começam a ser vítimas da rotina e a definhar e depois morrem e há traições e problemas… ora, quem sabe se nós não temos aqui a solução… de vez em quando, sei lá, quando um de nós andasse num momento da relação mais aborrecido, podíamos trocar.
-Quê?! Você é maluco!
-Não concorda?
-Claro que concordo! Mas elas vão reparar.
-Não vão nada.
-Como não vão nada?
-Eu explico. No dia combinado, saímos de casa exatamente com a mesma roupa, meias, cuecas e perfume incluídos.
-Nós já usamos o mesmo perfume.
-Eu sei, foi só para avisar.
-E…
-E à noite cada um regressa para casa do outro. Só temos de partilhar alguma informação sobre elas, o que elas gostam, você sabe… no ato da intimidade, os planos do casal, do que elas andam a falar… que me diz?
-Que você é um maluco chapado! E um génio. Vamos lá trocar namoradas.
-Não, mano, não é trocar namoradas, é trocarmos um ao outro.
-E não é a mesma coisa?
-Tecnicamente não.
Nos dias que se seguiram, Primeiro e Segundo conversaram mais um com o outro do que com as próprias namoradas. A caminho do trabalho, no trabalho, pelo telefone, à noite, trocaram e-mails e lá se iam informando intensamente acerca dos hábitos delas. E assim se urdiu e preparou o plano. E foi como a seguir se conta que se pôs em prática.

Saíram de casa pela manhã. No trabalho trocaram as chaves dos carros e das casas e as carteiras com os documentos e quando a tarde caiu dirigiram-se para a sua escapadela amorosa de dissimulação.

Primeiro conhecia bem aquela entrada, aquelas escadas, aquele elevador que só parava nos pisos ímpares. O facto é que, quando os dois casais decidiram juntar-se, Primeiro e Estrela ficaram na flat que era delas e Segundo e Flora foram morar na flat que era dos rapazes. E é por isso que não há para ele qualquer efeito de estranhamento. O que está fazendo, fingindo, fez muitas vezes a sério. Mas não se engana, hoje leva um fogo no peito, uma palpitação e uma antecipação. Não pode negar, pelo menos a si próprio, que já tivera uns pensamentos atrevidos envolvendo a namorada do irmão. Ficara-se por aí, contudo. Ora, a ideia de Segundo viera reanimar esse desejo. Chave na porta, porta aberta, chaves no aparador, Boa noite, amor, casa-de-banho, cozinha, aproxima-se por trás e beija-a no pescoço, estremece, ela vira-se, olha-o nos olhos e diz, Bem-vindo, meu amor, e beija-o longamente. E enquanto o beijava, ele saboreava o beijo e repetia para si próprio, Devagar, devagar, devagar, nada de pressas. E controlou a sua voracidade. Por momentos. Jantaram e Primeiro esperou que ela se fosse deitar, mas sempre foi dizendo que estava cansado a ver se a apressava com subtileza. Não resultou. Flora estranhou que, nessa noite, ele visse televisão em vez de ler, ainda por cima canais de desporto, mas pensou que eram assim os homens, volúveis e instáveis. E tinha razão. Foi-se deitar. Fechou-se na cama após a higiene e pouco depois, Primeiro, feito Segundo, chegou ao pé dela e lembrou-se das palavras do irmão, Com calma, mano, muita calma, com carinho, com ternura, e pensou que seria assim, com carinho, ternura e calma. Acontece que, após os primeiros beijos no pescoço, depois de trocarem as línguas e assim que Flora lhe ofereceu os seios à visão e ao tato, Primeiro começou a arfar, lambuçou-lhos com vigor, abocanhou-lhe o sexo como se o fosse engolir, pô-la de quatro, segurou-a pelas ancas e cavalgou-a como num filme de cobóis e adormeceu dez minutos depois. Flora, surpresa, pensou que o seu gentil e amoroso namorado se tinha transformado numa locomotiva e, porque é mulher inteligente e sabida,  ocorreu-lhe que talvez ele estivesse tendo outras experiências e foi quando pensou nessa possibilidade que se lembrou, E se sou eu quem está tendo outras experiências?!

Segundo, já de si propenso aos nervos, estava mais nervoso do que nunca. Tremia das mãos e estremecia do coração. E levava aquela ideia colada na mente, Ser enérgico, ser enérgico, ser enérgico, você é que comanda. Chave na porta, dá meia volta, outra meia, ainda, cheira-lhe a caril de amendoim, entra e diz, Boa noite! Estrela apressa-se na resposta, Boa noite? Não tem beijo hoje, não? Claro que tem! Avança para ela que está de volta dos tachos, dá-lhe uma palmada no rabo com a convicção que consegue inventar, roda-a para si e beija-a longa e ternamente. Juntou alguma sofreguidão ao beijo. A suficiente para ela não desconfiar. Jantaram. Estiveram na sala. A certa altura, ela levantou-se e disse:
-Vou dormir. Você vem para o quarto?
-Claro. Claro que vou para o quarto. Me aguarde.
Ela estava a despir-se quando ele entrou e começou a despir-se também.
-Primeiro…
Fez-se um silêncio. A verdade é que Segundo não estava habituado a ser tratado por Primeiro. Estrela levantou a voz e ele acordou:
-Primeiro!
-Sim, amor…
-Então? Você não me vai atacar?
Outro silêncio. Apesar das conversas com o irmão para preparar este encontro, Segundo não sabia bem o aquilo queria dizer. Respondeu com uma pergunta:
-Atacar?
-Claro. Ser minha locomotiva. Arrasar este corpo de pecado…
E já não acabou a frase. Ele atirou-se a ela, beijou-a na boca, acariciou-lhe os seios desnudos com os lábios, com um puxão firme e seco arrancou-lhe as cuecas diminutas e atirou-a para cima da cama, mas todo aquele impulso frenético se acalmou assim que a viu de costas sobre os lençóis. Estrela era uma mulher bonita e pujante, uma fonte de prazer, e ele queria bebê-la, não secá-la, tomá-la gota a gota, não atacá-la, e quase sem se aperceber dobrou o seu corpo sobre o dela, beijou-lhe o pescoço, atrás das orelhas, passou-lhe uma mão pela testa e beijou-lhe as faces devagarinho, depois os lábios, as mãos dele procuraram uma floresta e encontraram um pequeno arbusto e deixou-se ficar a acariciá-lo e tocou-lhe os mamilos muito ao de leve com a língua e foi com ela que lhe incendiou o ventre e o sexo e quando entrou nela, já ela o estava ansiando. Estrela estranhou todo o delicioso tratamento, mas o que mais a espantou foi o facto de ele não ter caído para o lado a dormir. Deitou-se, recostou a cabeça dela no seu ombro e perguntou:
-Gostou?
-Hum, hum.

O dia amanheceu claro e brilhante, o sol nasceu lá longe, para lá da Xefina, emergiu do mar azul e pendurou-se no céu a iluminar Maputo. Quando se encontraram, nenhuma delas sabia se haveria de falar. Flora, por prudência e timidez. Estrela, por ter medo de estar com razão. Ela sabia que a obra de arte da noite anterior não fora da autoria de Primeiro, mas não se importaria de ser enganada outra vez. Acontece que o apelo fraterno foi mais forte. Segurou as mãos de Flora entre as suas e perguntou-lhe:
-Tudo bem consigo?
-Claro. E consigo?
-Tudo bem. Me diga, mana, como estava Segundo ontem?
-Estava… arrasador.
-Como?
-Não interessa… e como estava Primeiro?
-Normal. Tudo bem, Graças a Deus.
-Safada! Você gostou! O meu desajeitado é melhor do que a sua locomotiva!
-Ai mana, será que eles…
-Claro! Até uma cega via! Me diz como foi ele?
-Divinal. O melhor de sempre. Que sedução! Que carinho! Você ficou com o melhor dos dois nesse departamento. Quem diria que esse desajeitado a correr teria tanto jeitinho… e Primeiro, como foi?
-Tentou parecer-se com Segundo, mas acabou a atropelar-me.
-Mana Flora…
-Sim, Estrela…
-Devíamos estar zangadas com eles.
-E estamos!
-Então porque falamos com essa calma sobre o assunto? Nós dormimos com o namorado uma da outra!
-Sei lá. Acho que por duas razões. Primeiro porque isso é uma coisa que se espera dos gémeos, nossa, eles até as doenças partilham! E depois porque talvez também nós desejássemos essa troca secretamente.
-Você quer trocar comigo?
-Não! Eu referia-me a experimentar trocar, por uma vez. Sabe, Segundo é inconfundivelmente melhor amante, mas não me importo de ser atropelada uma vez por outra.
-É, acho que tem razão. Eu prefiro a energia de Primeiro, mas esse mel de Segundo, de vez em quando, para quebrar a rotina, cai muito bem!
-Mas… mana…
-Sim, Flora…
-Há um pormenor…
-Qual?
-Esses dois acham que nos enganaram.
-Você acha que eles pensam que nós não reparámos?
-Claro! Caso contrário teriam revelado.
-Xiii, safados! Como assim? Eles não são nem parecidos na cama.
-Nem um pouquinho. O que fazemos em relação a isso, Estrela?
-Xiii, nem sei… espere lá, esses dois podiam levar uma lição…
-Como assim?
-Me oiça com atenção…

Dois meses passaram até que o episódio da troca de namoradas se começou a esfumar no tempo e os rapazes baixaram a guarda, descansaram a desconfiança e as cautelas e pensaram que a troca tinha funcionado. E foi por essa altura que as mulheres de Quelimane resolveram dar uma lição aos homens de Maputo.

Primeiro vem cansado. Coloca a chave na porta e abre-a. Ao entrar, sente o cheiro da comida pairando no ar e a azáfama de um dia de trabalho começa a ser vencida pelo acolhimento do lar, apressa-se para a cozinha, quer os lábios de Estrela, e quando lá chega encontra Flora.
-Olá, você por aqui?
-Sim. A mana pediu. Coisa chata. Ela hoje vai ficar até muito tarde na agência. Talvez só chegue daqui a umas três ou quatro horas de tempo.
-Então? Algum azar?
-Não. É um inventário. Coisa séria. Têm de estar incontactáveis e tudo.
-E você?
-Deixei Segundo comendo. Ele vai dormir já, já, também está cansado e eu prometi à mana que tratava de si.
-De mim? Disse ele com a interrogação no olhar e a insegurança na voz.
-É, eu disse que vinha-lhe fazer o jantar, mas... - avançou para ele com olhar sorrindo, mordendo o lábio inferior, e as ancas baloiçando um pouco mais do que a conta - se você precisar algo mais é só dizer. Não quero que lhe falte nada… nadinha mesmo. E pousou-lhe um dedo sobre o nariz que deixou escorregar para os lábios dele.
-Mas… Flora, tenha calma, sua irmã, ela vai-se zangar… afinal, nós somos cunhados, quer dizer, uma espécie de cunhados…
-Ai é? E no outro dia quando você me atropelou nós éramos o quê?
-Quando eu o quê?
-Quando você entrou em minha casa, me beijou, me atropelou e me fez sua…
-Você sabe?
-claro que eu sei! Estrela não reparou, acho que seu irmão é melhor imitador. Acontece que eu, não só notei a diferença, como adorei… você é uma máquina sexual, uma bomba orgásmica!
-Ai sou?
-É! E eu quero disso! Muito. Todos os meses. Que estou a dizer? Eu quero você todas as semanas!
-Mas…
-Mas nada. Ou isso, ou conto para ela!
Beijou-o na boca enquanto lhe apertava o sexo mostrando-lhe quem estava no comando. Quando terminou o beijo, virou-lhe costas em direção à porta de saída e disse:
-Coma o seu jantar. A festa começa amanhã!

Segundo chegou a casa, nessa mesma noite. Chave na porta, o odor da comida a invadir-lhe o cérebro, levanta o nariz, inspira fundo o cheiro da sua casa e do seu jantar, sorri e fecha os olhos. Está assim quando ela se aproxima por trás, tapa-lhe os olhos com as mãos e diz:
-Xiiiiiiiiu!
Coloca-lhe uma venda, leva-o para o sofá, senta-o, faz-lhe uma massagem nos ombros e depois vem escancarar-se no colo dele, passa-lhe uma mão pelo sexo e beija-o longamente. Durante o beijo, ele estranhou alguma coisa, tirou a venda com brusquidão e:
-Estrela! Você?
-Porquê o estranhamento? Não lhe sou familiar?
-Como assim?
-Ora, como assim? Acha que eu não notei sua surpresa naquela noite?
-Notou?
-Claro! Você é um poço de mel. Sem fundo! Não há igual a você. Segundo, só no nome.
-E sua irmã? Deve estar a chegar…
-Não. Hoje está de inventário. Vem bem tarde… dá tempo para a gente combinar…
-Combinar o quê?
-Ora o quê? Quando nos vamos ver, onde nos vamos ver, quantas vezes nos vamos ver…
-Mas, Estrela, isso é impossível. Aquilo foi uma brincadeira. Uma vez sem exemplo.
-Pois olhe que, para mim, você foi exemplar! Flora nem notou a diferença.
-Não?
-Não.
-E agora?
-E agora eu estou viciada em seu mel, sua doçura, e vou querer ela para mim, para sempre.
-Sempre?
-Pois, quer dizer, para sempre também não. Todas as semanas!
-Como? Todas quê?
-Semanas.
-Mas… mas…
-Mas nada. Ou isso ou conto para ela.
Caiu sobre ele, beijou-o um beijo lânguido e demorado, encostou os seios aos nariz dele e, súbito, saiu de cima dele, pegou na mala e dirigiu-se para a porta.
-Xau, meu doce, até amanhã!
-Amanhã?
-Amanhã!

Foram vinte e quatro horas infernais. Nem Primeiro, nem Segundo sabiam se haveriam de dizer um ao outro, queriam estar com elas, mas não obrigados e, mais certo do que tudo, não podia permitir, nenhum deles, que a sua própria namorada soubesse que a sua irmã estava viciada e que tudo começara… ah… se arrependimento matasse! Passaram o dia taciturnos, a murmurar respostas desencontradas com as perguntas, a não ouvir o que lhes diziam os colegas e até os chefes, o que custou a Segundo a primeira reprimenda da sua vida profissional. As suas mentes vaguearam na indecisão, sem saber que opção tomar. A brincadeira da troca tinha-lhe saído cara, pensara cada um por si. Segundo foi o primeiro a decidir-se. Ligou a Estrela.
-Olá.
-Olá.
-Estrela, hoje não vou poder.
-Nem se atreva! Flora está aqui ao pé de mim. Quer que ela saiba?
-Não! Não! Quer dizer, não sei… mas não posso… não sei como iludir meu irmão, muito menos minha namorada… Estrela, me desculpe! Me desculpe! Eu imploro seu perdão! Foi uma brincadeira de mau gosto.
-Mau gosto? A mim, soube-me muito bem, cunhadinho…
-Fique séria, Estrela, por favor.
-Eu estou séria, machão, e você está onde eu queria! Me guarde. Vou-lhe dar um sinal ainda esta tarde.
E desligou-lhe o telefone na cara.

Primeiro aguentou-se um pouco mais. Quando resolveu ligar a Flora, tinha um plano. Não lhe apetecia bater em retirada ainda que lhe apetecesse retirar-se.
-Olá.
-Olá.
-Flora, meu amor, estamos combinados para hoje, certo?
Ela estremeceu, mas não se mostrou abalada:
-Claro que sim. Não falte!
-Pois... isto está um pouco complicado no trabalho, mas quero ver se não falho…
-Safado! Quer ver? Quer ver? Eu é que quero ver você nos meus braços, hoje! Ah, e… Primeiro…
-Sim…
-Descarte-se de seu irmão!
-Mas, Flora, o que você pede é impossível.
-Ou fica possível, ou conto para ela.
-Não. Isso não. Flora, me perdoe!
-Como? Não se está ouvindo bem, acho que não tem sinal…
-Perdão! Eu peço perdão. Me perdoe aquela brincadeira tola. Fomos um pouco longe de mais…
-Um pouco longe? Se bem me lembro, você foi bem fundo! E eu adorei. E agora quero mais!
-Flora…
-Me aguarde. Vou-lhe dar sinal ainda esta tarde.
E desligou-lhe o telefone na cara.

Poucos minutos depois estavam as duas mulheres de Quelimane na rua contando palavra por palavra as conversas ao telefone, as súplicas deles, e riam, riam como há muito não se lembravam de rir.
-Flora…
-Sim, mana…
-Que fazemos com esses dois?
-Tenho uma ideia…

Daí a momentos, cada um deles recebeu uma mensagem de SMS da cunhada combinando um copo no Mimmos da 24 de Julho. Elas foram juntas e estacionaram o carro no separador da avenida de frente para o restaurante e ficaram a vê-los chegar. Primeiro tinha-se descartado de Segundo, Tenho de ir ter com a minha dama. Segundo deixou-se descartar e considerou aquilo uma bênção dos céus. Ainda respondeu, Eu também tenho o que fazer lá em casa. Sabe como é, manutenção. Segundo chegou primeiro. Sentou-se e esperou por Estrela. Quando viu chegar Primeiro, ficou sem pinga de sangue.
-Mano, você aqui? E sua dama?
-E sua manutenção?
-Decidi parar aqui para uma geladinha
-É. E já não gosta de uma geladinha comigo?
-Gosto, mas você disse que ia para casa?
-E ia, mas não fui… oiça, Segundo, precisamos falar…
E ia continuar quando se aproximaram duas figuras femininas que não precisavam de apresentação.
-Podemos saber o que estão os senhores aqui a fazer?
-Ah… nós…
-Mana Flora, acho que estes dois devem estar a preparar alguma…
-É, mana Estrela, devem estar a pensar em engatar duas irmãs para depois as trocarem na cama!
-Flora, nós... eu…
-Cale-se! Mana Estrela, qual é o seu?
-Nem sei bem, mana Flora… acho que é esse machudo aí da esquerda, mas ultimamente isso varia com os dias.
-É? Consigo também?
-Verdade…
-Pois o meu devia ser aí o desajeitado jeitosinho da direita, mas ultimamente ele vira locomotiva de vez em quando…
-Meninas, por favor…
-Por favor? Você disse por favor? Não queria dizer outra coisa?
E eles curvaram-se, desculparam-se, desdobraram-se em explicações, que fora uma brincadeira, uma ideia maluca, uma coisa para não se repetir, e quando a situação roçava a humilhação, elas decidiram aceitar as desculpas, Flora dirigiu-se propositadamente a Primeiro e pegou-lhe por um braço, Estrela fez o mesmo com Segundo.
-Vamos, meninos. Para casa que se faz tarde!
Segundo ainda disse:
-Mas… nós estamos trocados!
-Não estão nada. Hoje fica assim!
-Hã?! Assim?! Vocês vão-nos trocar na cama outra vez?
-Cama? Quem falou em cama? Hoje, vocês vão cozinhar para nós!

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