"De Negro Vestida" está de volta!

Caros leitores e amigos,
depois das férias e da publicação do Diário de Bordo que delas resultou, retomarei a publicação de "De Negro Vestida".
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O romance evoluiu bastante e traz muitas novidades quer no conteúdo quer na forma e ritmo de narração. Acontece que as férias sempre fazem esquecer um pouco as coisas e por isso mesmo venho dar-vos três informações relacionadas com a continuidade do texto.
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1) Aqui por baixo republico, para que possam reler sem ter de procurar, o último capítulo publicado em Julho.
2) À vossa direita colocarei um índice do romance que passará a estar por cima do arquivo do blogue. Assim, a busca de capítulos anteriores tornar-se-á mais fácil.
3) Entre hoje e amanhã, retomarei a publicação de novos capítulos, fresquinhos e, espero, surpreendentes.
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Faço votos de que gostem e deixem sempre os vossos comentários seja aqui, seja via mail.
Um abraço,
João Paulo
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De Negro Vestida - XXXII
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Despertar – VI
Maria de Lurdes regressou à sua mesa no passo mais firme que conseguiu. Ainda não sabe mas o encontro com António Pedro não terminou. Assim que chegar junto das colegas fará um ricochete, um caprichoso arco de bumerangue e regressará à promissora conversa com um sorriso nos lábios.
Que estás aqui a fazer Lurdinhas? Pareceu-nos que a conversa estava agradável ali com o jeitoso do fato azul. E estava, mas seria incapaz de deixar-vos. Afinal de contas este jantar é uma simpatia vossa em minha homenagem. Olha, Lurdinhas, em primeiro lugar, este jantar era para veres gente. Agora que viste, não faz sentido estares aqui. Em segundo lugar, nem compreendemos como é que trocas o jeitoso por nós. Nenhuma de nós hesitaria em fazer a troca ao contrário. E, por fim, deixa-me dizer-te uma coisa. Estamos curiosíssimas em relação àquela conversinha que tiveste ali, mas preferimos ouvir amanhã uma estória inteira do que ouvir já só meia estória… Então vocês não se importariam… É que ele de facto convidou-me para tomar café… Lurdinhas, não vivas a vida pela metade. Senta-te. Acaba o jantar. E corre para o desconhecido. Neste caso o desconhecido tem muito boa figura!
E foi isso que fez. Quando se sentou, piscou o olho por instinto na direcção da mesa do homem de fato azul que respondeu com um sorriso. Estava combinado. Palavras não foram precisas. E continuaram a não ser precisas quando se levantou para cobrar a promessa de café e as outras todas que vinham embaladas no olhar e no sorrir. Ele percebeu e levantou-se também. Não a quis a atravessar a sala sozinha pela segunda vez. E veio ao seu encontro. E a meio do caminho se encontraram.
- Então, Maria de Lurdes do olhar brilhante, já tomou café?
- Ainda não, António Pedro do sorriso promissor. Prometeu-me um café, venho cobrá-lo.
- E as suas colegas?
- As minhas colegas quase querem mais do que eu que tome café consigo.
- Muito simpáticas. Merecem uma recompensa.
António Pedro chamou o empregado de mesa e disse-lhe, tratando-o pelo nome, que oferecesse um café e um porto às senhoras.
Por cima do olhar, António Pedro tinha uma cabeleira farta e encaracolada que lhe dava um ar de certa irreverência e lhe tirava anos ao aspecto. As mãos eram largas e a voz grave. E foi com ela que sugeriu tomassem o café na esplanada. Era uma estrutura assoalhada em ripas de madeira tratada, delimitada por cabos de aço atravessando prumos inox de dois em dois metros. Ficava nas traseiras do restaurante e dela se via uma parte da cidade iluminada salpicando de luz o breu da noite.
Começaram conversando de pé, junto ao gradeamento que o não era. Só uns cabos de aço pós-moderno. E ficaram trocando as primeiras palavras, aquelas que sempre surgem desbloqueando os silêncios atrevidos que incomodam nestes momentos. Incomodam porque são uma ameaça à continuidade do que quer continuar-se. Seria terrível duas pessoas sentirem-se atraídas e não conseguirem conversar. E falaram da coincidência de estarem na mesma sala, de estarem em mesas frontais, de olharem na direcção um do outro. E desenvolveram a teoria que os amantes sempre desenvolvem das forças superiores que unem quem querem unir sem perguntas nem preparações. E falaram assumindo à partida a sua consonância, a sua coragem. E recordaram os momentos que os trouxeram ali, as dúvidas, as incertezas e os impulsos. Maria de Lurdes perguntou-lhe como é que, estando ele de costas, soubera quando virar-se para a cumprimentar. Pedi ao colega que estava de frente para mim que me avisasse. E avançaram algumas frases começadas por eu… Anunciando características pessoais, comportamentos previsíveis, gostos, como que recolhendo aprovações, dando a conhecer virtudes e defeitos porque um e outro queriam que, o que quer que se aproximasse, viesse com clareza e transparência. Fundamentos sólidos na fraca estrutura dos relacionamentos humanos.
Expostos os primeiros argumentos, traçadas as primeiras linhas de entendimento, conquistada a seara quente da harmonia atravessada pela brisa das palavras e, não menos importante, chegados os cafés, mais uma água com gás para ela e um uísque sem gelo para ele, puderam finalmente sentar-se. Olhar-se de frente. Conversar com os olhos, com os sorrisos, com as expressões, com o volume e a forma que o corpo dá às palavras. O momento adivinhava-se perfeito. Temperatura amena, breu cortado pela lua gorda, brisa apropriada, um pouco antes de vento, local a pedir conversa e conversa a pedir para acontecer. E aconteceu.

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