Histórias do Autocarro 28 - Pitty

Pitty
8:55h. O 28 está cheio. Não cabe mais ninguém. Aparece o eléctrico 15. As pessoas vão entrando umas atrás das outras e depressa o espaço fica preenchido. No meio da turba entra uma moça jovem, cabelo escuro encaracolado, uma trela pela mão e na ponta dela um cão rafeiro de pêlo longo branco e preto. Ela ficou de pé. Ele teve o cuidado de ir deitar-se praticamente debaixo de um banco. Assentou o queixo no chão entre as patas e olhava para cima como quem não percebe o que está a passar-se, mas tem paciência para esperar porque a sua dona está ali. E confia.

Na paragem seguinte entra mais gente, com o pé, ela empurra-o ligeiramente e ele enfia-se todo debaixo do banco e continua, paciente, à espera. Tudo aquilo deve parecer-lhe agressivo. Um carro de gente muito alta, sons e ruídos inúmeros e ele junto ao chão, o espaço a fugir-lhe e ele paciente à espera, confiando o seu destino no meio da selva de pernas àquela que o guia. E não quer nada de volta. Enfim, talvez uma festa.

E fiquei contemplando aquela paz e aquela paciência e aquela confiança de estar, de se entregar nas mãos de outrem. E perguntei:
- Como se chama?
- Maria.
- Não, ele...
- Pitty.
- Como se escreve?
- P-i-t-t-y.
- Obrigado.

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