O Reflexo Naso-Digital

Ao ler os comentários e e-mails dos leitores, ontem, a propósito do texto "A Síndrome da Cueca Entalada", apercebi-me de que muitos se sentem incomodados por uma outra praga social, de não menor dimensão, ainda que mais aceitável: o Reflexo Naso-Digital, também conhecido por "Limpeza das Fossas Nasais" e carinhosamente tratado por "Tirar Macacos do Nariz".

É um fenómeno que abrange uma vastíssima camada da população portuguesa e a desgraça atinge sem aviso nem discriminação de qualquer ordem. Crianças, adultos, homens, mulheres, de todas as raças e credos, presidentes de república, rainhas, princesas, políticos, médicos, enfermos, altos, baixos, bons e maus e claro, os mais desgraçadamente atingidos: os condutores de automóvel em fila de trânsito!

As crianças perdoam-se por duas razões. Primeiro, porque não sabem o que fazem. Segundo, porque estão, efectivamente, em actividades de limpeza. Já quanto aos adultos, ele há sobretudo três ordens de pacientes. Os que o fazem em privado para limpar, os que se descuidam e o fazem em público, também para limpar, e os que fazem desta prática um entretenimento público e ostensivo, quase um desporto. É para estes últimos que deve ir a nossa preocupação, o nosso auxílio e a nossa compreensão.

Estas pessoas ficam presas no trânsito e aproveitam esses minutos, quiçá horas, para essa nobre actividade que é o pensar. Ora, pode não parecer, mas o pensar dá muito trabalho. E não havendo nada que se mastigue por perto, uma vez que normalmente nada há que se coma num carro, a forma que a mente encontra para distrair o corpo, enquanto pensa, é tirar macacos do nariz. Atroz! Mas verdade!

Os recursos são diversificados. As costas da mão ou de um dedo são recursos muito utilizados por aqueles que adiante designaremos de "Disfarçados". Há os adeptos do mindinho. Estes podem, ou não, ter unha longa e um anel o que é indiferente. O que importa é que, sendo o mindinho mais delgado, permite actividades exploratórias de recolha mais bem sucedida. Há, ainda, a grande maioria que são os adeptos do indicador. Não sendo um recurso digital tão delgado quanto o mindinho, é mais comprido, logo, permite ir mais longe em menos tempo. E por fim, um requintado e conjugado recurso que a ciência apelidou de Pinça Digital. Trata-se de utilizar o indicador e o polegar em forma de pinça. A extraordinária utilidade deste recurso é que permite escarafunchar duas fossas nasais em simultâneo com grande rentabilidade de mão-de-obra, mais exactamente, dedo-de-obra.

As práticas são igualmente múltiplas e variadas. Há os Disfarçados. Estes costumam passar rapidamente com as costas da mão ou de um dedo a ver se naquele fugaz esfreganço trazem consigo o incomodativo macaco. Macaco chamado, precisamente porque é incómodo uma vez que todos sabemos que não é de macacos que se trata, mas de lixo que os pêlos nasais impedem que progrida para o interior do aparelho respiratório. Há os Arrogantes. Estes pacientes, após as actividades exploratórias, atiram violentamente o produto da busca para o chão do automóvel ou para a rua com um gesto semelhante àquele que fazíamos em cachopos quando jogávamos à carica ou ao berlinde e nem se despedem daquilo que ainda há momentos era parte integrante do seu ser. Os Laboriosos, por sua vez, são indivíduos persistentes, com grande capacidade de empenho e trabalho e, normalmente, são pessoas poupadas. Vão recolhendo pequeninos macacos e depois ficam a rodar com eles entre o indicador e o polegar até fazerem bolinhas de tamanho satisfatório. Os Observadores, ao contrário dos Arrogantes, após a recolha, viram para si o dedo com o produto e observam-no antes de o despedirem. Normalmente, estas pessoas têm espírito científico. Gostam de analisar os pormenores do volume, da forma e da cor. Por fim, há os mais requintados. A ciência Naso-Digital resolveu apelidá-los tecnicamente de Gastronómicos. Têm o espírito analítico dos Observadores, mas vão mais longe: degustam requintadamente o produto do seu labor naso-digital. Alguns destes homens e mulheres têm mesmo caderninhos pretos onde registam as notas de prova.

O mais extraordinário deste fenómeno é que pode acontecer entre uma luz encarnada e uma verde de um semáforo ou, simplesmente, até que o veículo da frente progrida mais 5 metros na fila. Nunca se deve confrontar um paciente do Reflexo Naso-Digital de forma repentina com a realidade. É perfeitamente inútil. Estes pacientes são como as pessoas que ressonam, ou seja, vivem em constante negação. Assim, se acordarmos uma destas pessoas dizendo, Então pá estás como dedo no nariz?, ou noutra versão, Então pá, vai haver baile logo à noite?, ou ainda, Então pá, estás a limpar o salão?, ela vai responder invariavelmente a mesma coisa, com um ar dissimulado: Não. Estava a pensar!

E estava. Aliás é aí que tudo começa! É por isso que eu não percebo porque é que Portugal tem problemas dos mais diversos tipos, inclusivamente, ao que parece, de cariz financeiro. A verdade é que o nosso país está repleto de pensadores. Eu sei porque vejo-os todos os dias!

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