Data da primeira publicação: 27 de Junho de 2003]
Bons Malandros
Querida Mana,
Lembras-te de como te li a “Crónica dos Bons Malandros”?
No quarto em que partilhávamos o quotidiano, no mesmo quarto em que adoecíamos e recuperávamos juntos, naqueles nove metros quadrados de partilha em que trocávamos segredos e brincadeiras. Foi lá que abri, desconfiado, a crónica que se seguiria e que, sem saber, viria a mudar a minha vida. A cama tinha um dos lados encostado à parede coberta de papel de fantasia de fundo azul muito claro sobre o qual vadiavam umas florzinhas de um azul mais escuro e outras de cor-de-rosa como que a sugerir, esta combinação cromática, que o quarto não era teu nem meu mas dos dois. De muito grossa, a parede tornava-se fresca e eu oferecia-lhe as costas deixando o resto do corpo atravessar a cama até que os pés ficassem suspensos. E lembro-me de rirmos de satisfação com as venturas e desventuras das suas personagens. Lembro-me de voltar atrás em alguns parágrafos para os saborearmos de novo.
O entusiasmo era de levar a mãe a chamar para mesa uma vez, duas e três e a refeição era apressada para voltarmos à aventura. O que eu realmente gostava e queria partilhar com todos à minha volta era a boa disposição, o imprevisto, o caricato e por vezes, porque não, o arrojo da linguagem que assumia traços de vernáculo. O fenomenal, para mim, era o contraste! Eu só não sabia defini-lo e traçar-lhe os contornos exactos mas apercebia-me claramente de que havia ali um contraste. Hoje percebo que residia, fundamentalmente, na antítese entre o formalismo e a seriedade como me apresentavam a Literatura na escola, sempre tão longe da vida, e a fluência de viver que aquele pequeno livro me escancarava à frente dos olhos, às portas da alma. Cheguei a estranhar alguma linguagem. Como era possível um livro ter a palavra “preservativo”, como era possível as personagens serem tão parecidas com as pessoas que se cruzavam comigo no caminho para a escola, tão humanas, tão cheias de defeitos? … Cheguei a duvidar ser Literatura aquele arrazoado de maravilhas surpreendentes que me faziam rir e comover e me impeliam a ler-te o livro.
O entusiasmo era de levar a mãe a chamar para mesa uma vez, duas e três e a refeição era apressada para voltarmos à aventura. O que eu realmente gostava e queria partilhar com todos à minha volta era a boa disposição, o imprevisto, o caricato e por vezes, porque não, o arrojo da linguagem que assumia traços de vernáculo. O fenomenal, para mim, era o contraste! Eu só não sabia defini-lo e traçar-lhe os contornos exactos mas apercebia-me claramente de que havia ali um contraste. Hoje percebo que residia, fundamentalmente, na antítese entre o formalismo e a seriedade como me apresentavam a Literatura na escola, sempre tão longe da vida, e a fluência de viver que aquele pequeno livro me escancarava à frente dos olhos, às portas da alma. Cheguei a estranhar alguma linguagem. Como era possível um livro ter a palavra “preservativo”, como era possível as personagens serem tão parecidas com as pessoas que se cruzavam comigo no caminho para a escola, tão humanas, tão cheias de defeitos? … Cheguei a duvidar ser Literatura aquele arrazoado de maravilhas surpreendentes que me faziam rir e comover e me impeliam a ler-te o livro.
O que eu percebi, mana, naquele dia em que me encostei à parede do nosso quarto e te li a “Crónica dos Bons Malandros” foi que há coisas que o Homem não pode separar porque estão unidas na sua natureza intrínseca, porque são elementos de uma mesma força. Alma e Corpo num só ser.
Aliás, que ofereceremos nós aos alunos que só aprenderem a Língua? Deixamos-lhes a ferramenta mas negamos-lhes o golpe de asa de que falava o poeta. E aos outros? Àqueles a que só ensinarmos a Literatura? Que lhes ofereceremos nós? Oferecemos-lhes o golpe de asa, o milagre da vida, mas vedamos-lhes o caminho para lá chegar…
Se isto chega acontecer, mana, começo a acreditar que os malandros são menos bons do que pensava!
Beijito,
Mano.
