Estórias ao Acaso: Noite Fria (VII)

Em boa verdade não foi ele que surpreendeu a vida. Foi a vida que o surpreendeu a ele.
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José António tem a porta do seu quarto aberta. Não reage. Não sabe como. Nunca se preparou para uma situação assim porque nunca se imaginou nela em nenhum dos lados da fronteira. O único sentimento que lhe atravessa a mente e o corpo é a ausência de tudo. Sente-se suspenso da vida, como se a realidade se tivesse, de repente, alheado de si. Ainda lhe rondou uma vertigem pela cabeça, um enevoar de vista mas durou pouco. O quadro era demasiado vivo, demasiado denso e intenso para admitir vertigens.
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Os actores da sua desgraça não o vêem, não o podem ouvir porque se queda mudo e, isso sim, espantou-o, não o pressentem. Ofende-o aquele à-vontade, aquela desplicência. Maria de Fátima tem as costas coladas à cama e os braços abertos repuxando os lençóis. O homem deita-se sobre o seu corpo alvo, pontilhado aqui e ali de pequenos sinais, e entrega-se, laborioso, libidinoso, a um repertório de carícias que parece satisfazer Maria de Fátima. Um suor brilhante salpica-lhe a pele enquanto acaricia o corpo da mulher que é hoje sua, sendo de outro. Este homem que lhe rouba a vida tem as costas voltadas para si, por isso não vê José António e retira à amante o campo de visão. De resto, mesmo que lho não retirasse pouco importaria. Ela não está aqui, tendo aqui o corpo. Cerra os dentes e fecha os olhos e tenta absorver a vida que lhe entregam.
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Num segundo, como que acordando do torpor da funesta surpresa, José António desperta para os sentimentos que o tomam e lhe ocupam as ideias todas: raiva, ódio, desespero, desilusão, impotência, ofensa. Uma profunda e silenciosa ofensa. Superada a turba de sentimentos que o assolou num repente, começam a afastar-se uns dos outros, José António começa a diferenciá-los e percebe que há um mais forte que todos os outros. Invadiu-lhe a mente o mais improvável de todos: a culpa!
Algo lhe dizia que também ele havia sido pintor daquele quadro, naquela obra existia também acção sua, activa ou passiva, por excesso de atenção ou por falta dela. Enquanto o coração tinha batido mais forte na erupção de ideias que acabara de dar-se pensou que tudo aquilo era uma imensa imoralidade, um pecado inominável. Agora já não está pensando assim. Pensa que aquela mulher deseja aquele homem e que aquele homem possui aquela mulher por vontade e consentimento de ambos. Gritar, bater com portas, esmurrar, esfaquear, balear, nada disso apagará o que está feito porque feito está. Nada disso apagará a vida que ali acontece. Não é a infidelidade em si que o magoa, é não ter percebido onde falhou quando falhava, é não ter lido os sinais, são as suas insuficiências que hão-de, que têm, de estar nalguma génese do que agora presencia. Pensou, então, num repente, com um temor imenso que o pressentissem contemplando-os, que a sua vida com Maria de Fátima dependia de ser visto vendo-os. Pensou que, em meio desta situação precária, alguém tinha de ser nobre e segurar com a firmeza das suas convicções a família que ainda era a sua. Por ela, pelos filhos e por si mesmo, iria digerir sozinho este nó que se lhe formava na garganta. Iria viver e contemplar Maria de Fátima com outros olhos, mais atentos, mais despertos, iria buscar em si as falhas e apagá-las da sua existência... Era o seu contributo. O seu sofrimento silenciado resgatando a família.
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José António não fechou a porta e Maria de Fátima, ao passar para a casa-de-banho mais tarde, haveria de jurar de si para consigo que a tinha fechado, e saíu silencioso e abatido. Colou os olhos no chão como que envergonhado da sua existência e da sua distracção, reentrou no casaco e saíu para rua mergulhando desprotegido na chuva à espera de que a água dos céus lhe lavasse a alma. Só voltaria à hora a que o esperavam.
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Abriu o rosto aos céus e deixou-se banhar pela água fria. Esteve assim, esperando acordar. Quando se des-sonhou, encolheu os ombros dentro do casaco, devolveu os olhos ao chão e deambulou pelas ruas e pelas ideias. Andou assim, distraindo-se de si, por momentos extensos e passadas curtas, molhadas, pesadas, arrastando a realidade agrilhoada a si. A palavra divórcio andou ali a tentá-lo mas de que teria servido, então o sacrifício do silêncio? E seria isso uma solução ou uma fuga à solução? Estava tentando convencer-se de que aquela saída não era uma saída quando a consciência o lembrou da única verdade que não ousara ainda pensar: não tinha coragem para divorciar-se. Nunca fora um homem de rupturas. Tinha a covardia do amor, do hábito e dos rituais com Maria de Fátima. Crescera ansiando uma família. Uma família construíra. Não seria ele o agente da sua destruição.
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Admitiu, com coragem, que algo estava profundamente errado para ter chegado àquela noite deambulante, chuvosa e fria. Acreditou ter prescrutado as razões na origem do mal. Ergueu os ombros como que reagindo à adversidade, recordou os filhos rindo e brincando à sua volta, rumou em passada firme na direcção convicta do seu lar.
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José António havia tomado uma decisão importante na sua vida...

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