19

19

Já gastei as palavras todas!
Já te disse as emoções redobradas.
Já reinventei as vírgulas,
As preces,
Já relembrei os dias
E as noites passadas
Na companhia da tua paternidade.
Já rezei.
Já fingi que falava contigo.
Já falei contigo.
Já te fiz os elogios todos
E refi-los depois.
Já te celebrei o dia.
Já nos cantei
Aos dois!
Já te vi pelos olhos da mãe,
E pelos da mana também.
Já te disse como tu
Nunca encontrei ninguém.

Mas não chega, Pai.
Nada suprime
Esta ausência surda
Esta lâmina longa de desespero
Entrando-me na alma.

Há coisas pequenas, sabes,
O toque da tua pele,
O cheiro do teu corpo,
Os teus cabelos encaracolados no peito
Fazendo de mim criança e menino,
O tom da tua voz,
Os olhos rindo no silêncio das palavras.
O poder das tuas mãos,
A bonomia com a mana
A proteção com a mãe
E a esperança em mim,
Teu infinito rapaz
De realizar-te os sonhos.

Faz-me falta, Pai,
Um homem que acredite em mim!
Faz-me falta que me façam sentir
Assim.
E não há dia 19,
E não há aniversário
Nem celebração
Que comprove
Estar na tua,
A minha mão.

Não chega, Pai.
Só tu te bastas.
Só tu me bastarias
Na passagem confusa
Dos dias
A emergir com vigor
E com força
Da Humanidade perdida e difusa
Prenhe de convicção e Amor.

Não me venham com merdas,
Com outros mundos e outros céus,
Com divindades plenas e com véus
De ilusão
Que dizem ser as perdas
De hoje
Recuperadas amanhã.
Não há vida, amanhã, Pai.
A que havia ontem
Não sei já onde vai.

Desde que te foste e me perdi
Não há vida, Pai,
Num Universo onde a vida seja sem ti!
jpv

NetWorkedBlogs