O Ofício da Memória - 2 - Verão

Verão


Toda a primavera dá lugar a um verão. E o nosso também chegou. Quente, por sinal. E com o verão chegou o fim das aulas. Há já algum tempo que pairava entre nós certa apreensão mesmo que não confessada. Era a incerteza de não sabermos como seria a vida depois do final das aulas. Era a antecipação de que poderíamos não sobreviver a essa separação porque as nossas vidas tinham caminhos diferentes. Muito diferentes. Fiz um exame importante e a MJ esteve sempre a meu lado. No fim, quando nos despedimos, ambos sabíamos que não havia qualquer razão para voltar à escola. Era verdade, um facto incontestável, que nos amávamos profundamente como só na adolescência se ama, que gostaríamos de passar o tempo das nossas vidas lado a lado. Mas era também verdade que ambos queríamos outras coisas da vida, mais coisas da vida. Caminhadas de aventura com outras pessoas, noutros locais.

E, com a mesma espontaneidade com que começáramos a namorar, assim terminámos. Não houve juras. Não houve promessas. Fomos juntos até onde o caminho nos separava. Abraçámo-nos longamente. Não nos beijámos. Todos os beijos haviam sido dados com toda a intensidade possível. Uma vez mais decidimos não decidir nada. Dissemos qualquer coisa desacertado como Até breve, Até já, Vemo-nos por aí, Vemo-nos por aí.

Lembro-me de que tínhamos as mãos dadas e lembro-me do momento em que as soltámos e as minhas ficaram de novo vazias no extremo dos meus braços caídos ao longo do corpo. E quando voltámos costas, levávamos a esperança de nos reencontrarmos depois das aventuras que havia para viver. Perdemo-nos ou encontrámo-nos nessas aventuras. O que foi não interessa para esta história. Interessa que nunca mais nos vimos. Passaram vinte e oito primaveras e vinte e oito verões de saudade e ternura. De memórias gratas. De revisitações frequentes à fantástica mulher que me engatou com uma Bolacha Maria, que caminhou a meu lado por montes e cabeços, que me beijou apaixonadamente e com volúpia, que me preencheu as mãos, que me iluminou os dias, que chegou suave e suave me viu partir. O tempo, inexorável, não volta atrás, não devolve o que se viveu nem oferece o que não se viveu. Só a memória pode ser um doce lenitivo para as ausências e para as falhas do que não se viveu porque se não quis ou não pôde. Mas a memória desvanece-se. A escrita pode, contudo, reter estilhaços, preservar o que se sentiu, o que se experienciou. E por isso escrevo estas linhas. Para oficiar a memória. Para não deixar escapar entre os dedos a grata recordação de um amor tão intenso quanto puro, quanto ingénuo, quanto efémero. Escrevo-te, MJ, para te não perder. Assim como quem grava uma tatuagem na alma.

À MJ,
primavera de sempre.

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