Sentes que um tempo acabou

Estava aqui a fazer um trabalho para a minha escola que implicava seleccionar músicas. Uma puxa a outra e acabei dando de caras com a Balada de despedida do 5º Ano Jurídico de 1988/1989, ano em que fui finalista na FLUC. Mais uma buscazinha no Youtube e encontrei o vídeo da serenata em que a balada foi cantada. A imagem em muito mau estado mas, felizmente, com muito boa qualidade sonora. Eu estava entre aqueles milhares de estudantes e digo, com a falibilidade que a análise pode ter, que foi a mais extraordinária serenata de sempre. De ir às lágrimas esta revisitação!
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Em homenagem aos colegas da Toada Coimbrã e num gesto de puro saudosismo aqui fica o vídeo e a letra que continua a dizer-me tanto.
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Sentes que um tempo acabou
Primavera de flor adormecida,
Qualquer coisa que não volta que voou,
Que foi um rio, um ar, na tua vida.

E levas em ti guardado
O choro de uma balada
Recordações do passado
O bater da velha cabra.

Capa negra de saudade
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p’rá vida.

Sabes que o desenho do adeus
É fogo que nos queima devagar,
E no lento cerrar dos olhos teus
Fica a esperança de um dia aqui voltar.

E levas em ti guardado
O choro de uma balada
Recordações do passado
O bater da velha cabra.

Capa negra de saudade
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p’rá vida.
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Letra/Música: António Vicente // João Paulo Sousa / Rui Pedro Lucas

Álbum para o meu primo Gabriel

Link ou ligação... para um álbum de fotos que coloquei no facebook. Trata-se de uma dedicatória a um primo meu que partilha comigo um gosto. E trata-se, também, de uma singela homenagem ao meu pai. Em breve colocarei aqui um texto mais elaborado sobre o assunto.
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para já fica o link ou a ligação:
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O Céu a meus pés.

Viver no Ribatejo tem destas coisas: há de tudo um pouco. Até milagres. Esta manhã aconteceu-me algo miraculoso. O miúdo anda a estudar as noites inteiras. De manhã, antes de ir descansar gosta de desanuviar. Normalmente vamos dar uma voltinha pela serra, contemplar e descansar a alma. Outras vezes, vamos ver o mar. Hoje, por volta das 7h saímos para o pequeno-almoço mais o dito passeio. Resolvi arriscar por uns caminhos mais distantes e por umas estradas mais escusas. E que encontrámos? O que as imagens documentam. A prova provadinha de que há céu na terra! É preciso ser-se um tipo muito sortudo para viver a 30 minutos do céu. Pois se até Cristo levou três dias! Quem quiser saber exactamente onde fica o local é só perguntar via comentário ou mail. E por agora nada de mais palavras que as imagens falam por si!
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"Despertar"- "Um mar de céu"
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"O céu a meus pés"
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"Céu com terra ao fundo"
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"Rolando nas nuvens"
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"Quixote"
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" 'De Negro Vestida' no céu"
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"Revelação"
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De Negro Vestida - XXIX


Despertar – III
Maria de Lurdes gosta de ser a última da casa a ir deitar-se. Não sabe porque é que as coisas são assim. Sabe só que se sente melhor. No fundo, comporta-se como uma guardiã de templo que vigia enquanto os outros descansam. É sempre a última a deitar-se e a primeira a levantar-se. Por isso, quando os filhos recolheram aos seus quartos, esperou um pouco até que a poeira sonora do dia assentasse. E quando sentiu a casa tranquila, agarrou as calças que estava arranjando com uma mão por baixo e outra por cima, pousou-as cuidadosamente no assento de uma cadeirinha em frente da sua e levantou-se. Colocou uma mão ao fundo das costas como quem as ajuda a endireitar-se, fez um esgar de dor que era mais cansaço, olhou o tecto, respirou fundo e abandonou a marquise feita atelier. Comeu pouco. Fez a sua higiene de antes de deitar e foi dormir. Antes de adormecer, arrumou o dia seguinte na cabeça e relembrou-se o propósito de mudar. Cumpri-lo-ia.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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"A Maior Flor do Mundo" por José Saramago

Agradeço, desde já, a uma leitora deste cantinho e muito especial amiga, o ter-me revelado esta pérola.
De toda a narração realço uma frase genial:
"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?"

A prima nova

Eu habito um clã. Tem as características de qualquer clã. Para mim só é especial porque é o meu. São as minhas pessoas. E não fujo a esse sentido de posse.
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Este fim-de-semana recebemos uma prima nova. Não, não é dessas primas novas que usam fralda e choram e fazem ó-ó em vez de dormir e chegaram numa chegonha que as trouxe de Paris de França. É mais velha. Sendo nova. Enamorou-se por um simpático e garboso encalhado do clã cujo principal mistério era, até ao momento, o de estar encalhado. E chegou. E é nova para nós. Não sei bem se é prima. Acho que não. Acontece, porém, que em Portugal os primos não são os únicos primos. Há este saudável hábito de chamar primo a pessoas que tenham uma relação familiar difusa, próxima mas distante, e quando não sabemos muito bem como as classificar, e vai disto, é prima. Ou primo. Para perceberem a coisa, esta prima nova, em abono da verdade, é namorada do filho dos pais do marido da irmã da minha mulher. Mais coisa, menos coisa.
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É corajosa. No mesmo fim-de-semana conheceu 10 de nós mais o encalhado que ela já conhecia, mas fora de contexto. Chegou com graciosidade no olhar, simpatia no sorriso, delicadeza no andar, e uma fragilidade feita força que lhe atravessa o timbre feminino da voz. Chegou sabendo que quem chega há-de ocupar espaços e ter lugares e há-de passar a contar e chegou sabendo, também, que a olharíamos, que falaríamos com ela, perguntas, muitas perguntas, e que brincaríamos com ela, pequenas provocações, palavras ousadas a tentear a fibra da prima. E teve-a. A fibra. Aliás, estou a dar-me ao trabalho de escrever umas linhas sobre a prima nova por uma rzão simples. Quando acontecem estes momentos iniciáticos, estas primeiras fusões de afectos, as coisas podem correr melhor ou pior, mas, normalmente, perde-se a naturalidade. Ora, esta prima nova foi sempre singela e natural. Nunca se defendeu. Não quis marcar terrenos porque marcados estavam. E não ensaiou medições inúteis do que não é mensurável: o como estamos uns com os outros.
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Esteve tão natural e tão integrada que nos arrancou a nossa naturalidade e genuinidade sem grande esforço. Quando se depediu de mim disse "Gostei muito de vos conhecer" e foi-lhe respondido "Nós também gostámos muito de te conhecer" mas o interessante é que não era bem isto o que eu estava sentindo. Era algo para além disto. Era algo mais parecido com "Ainda agora te conhecemos e parece que já te conhecemos há muito". E foi esta harmonia a mais interessante de todas as coisas. Isso e o desencalhar do primo!
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Eu, que percebo pouco de pessoas, arriscaria, acerca desta prima, uma paráfrase de um anúncio velhinho: veio para ficar e ficou mesmo!
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Bem-vinda, prima.

Verdade Incontornável - IV

O som do silêncio perante a pequenez e a impotência humanas.
Por vezes, quanto mais são as palavras e quanto mais alto são ditas, gritadas, mais o silêncio se ouve. Se apodera do espaço. E depois resta nada. Só a ausência de tudo. A imposição de coisa nenhuma. O vazio.

Perda irreparável

Um dia um jornalista disse que José Saramago não tinha meio-termo nos sentimentos que despertava nas pessoas. Ou se gostava, ou não se gostava. Ou se era um leitor assíduo, ou recusava-se liminarmente a leitura. Eu leio Saramago desde que me conheço. Sempre li e sempre gostei. Antes do Nobel, durante o Nobel e depois do Nobel.
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Não é o Nobel que interessa. O que interessa é o extraordinário património cultural, literário e humano que deixa como legado. Cada um fará a sua análise. Uns dirão umas coisas, outros dirão as coisas opostas. A mim, não me interessa nada disso. Fica-me só um sentimento de vazio, de perda irreparável de um homem que me deliciou a mente, me fez sentir mais gente, mais humano. De um homem que retratou a minha condição e a condição do meu povo de forma ímpar.
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Estes dias disse a uma pessoa de família "Qual será o próximo livro do Saramago?" Parece que não será nenhum. Li, sem vaidade, só como constatação, todos os seus romances. Tenho um preferido, como toda a gente. É uma espécie de livrinho de revisitações. Chama-se "Levantado do Chão". E como não haverá um próximo, é chegado o tempo das releituras!
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Curiosamente, agora que faleceu, Saramago já está na minha mente, muito acima do chão dos homens. Está no lugar dos visionários, dos solidários, dos homens que estavam à frente dos outros. Perdeu-se um homem e um escritor ímpares. A obra, e ele através dela, perdurará para sempre.
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Por ironia, numa fase em que estamos a ser agredidos pela subjugação do pensamento humano à finança e à tecnologia, numa fase em que a visibilidade se assume como um valor mais do que a honestidade e a integridade, parte de nós um símbolo da essência. Um símbolo daquilo por que temos de lutar.
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Obrigado, José Saramago. A única coisa que me ocorre dizer-te é que o nosso povo seria um povo mais pobre se não tivesses existido. Resta-nos a sensibilidade e a inteligência para reerguer-te o propósito todos os dias. Assim tenhamos a coragem.
João Paulo Videira

Verdade Incontornável - III

Como se de água se tratasse.
Para todos os gostos!
E a música? Já repararam na música? Ai não? Então porquê?

O 25 de Abril a 26!

Um dia, ainda inicio aqui um espaço chamado "No país do faz-de-conta". Não sei porquê, ou talvez saiba, anda-me a apetecer. O ridículo a que se chega é tamanho e tão bacoco que até apetece zurzir.
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Não é que tenha particular prazer em zurzir, é que há gente que se põe mesmo a jeito.
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Vem isto a propósito de uma notícia que li hoje no JN online. Diz-se lá que os "Socialistas querem acabar com quatro feriados e eliminar 'pontes'".
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Acaba-se a maioria dos feriados civis e religiosos e transferem-se feriados que sucedam à quinta-feira e à terça-feira para a segunda com o intuito de pôr fim às ditas "pontes".
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Se, por um lado, me irrita e fere a amputação cultural que a medida pode significar, por outro, não vejo que o país vá produzir em dois ou três dias por ano aquilo que não produz no ano inteiro. Portugal está, a meu ver, modesto e humilde, a optar por políticas suicidas e salazarentas de empurrar as coroas para baixo do colchão e esquece que a única forma de superar as dificuldades que enfrentamos consiste na revitalização dos mercados, na produção, na valorização do trabalho. Admito, sempre o disse, que seja necessário poupar em determinadas áreas, mas parece-me mais importante produzir.
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Fica-me um último pensamento, o mais importante na minha muito pessoal hierarquia de ver as coisas. É que não só não acredito na eficácia da medida, não só repudio as consequências culturais, como, sobretudo, me enoja esta política de faz de conta, estas medidas de fazer ver aos senhores estrangeiros lá de fora que perpetuam os mesmos incompetentes nos mesmos cargos. Caros amigos, alguém tem de dizer isto: são os mesmos tipos que diversas e variadas vezes adormecem na AR, os mesmos tipos que desertificam o local de trabalho, os mesmos que praticam gestões danosas, os mesmos que compram submarinos para combater inimigos fantasma, os mesmos que compram aviões a jacto e carros de luxo em época de crise, os mesmos que são dos mais bem pagos do mundo para fazer pouco e mal, que nos dizem a nós, que trabalhamos diariamente com dedicação e zelo, que pagamos religiosamente os nossos impostos que eles, entretanto, aumentaram, que temos de sacrificar alguns oásis de descanso ao longo do ano.
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Mas há mais, a notícia termina assim: "Pode, por isso acontecer que o 25 de Abril possa ser comemorado, por exemplo, a 26. 'O importante é que se comemore a Liberdade e não o dia exacto', justificou Ricardo Rodrigues." Apetece-me replicar, então, se não interessa o dia, juntem todos os feriados num dia aleatório, por exemplo, num domingo de Páscoa, e comemoramos tudo ao mesmo tempo! O que importa é o espírito com que se comemora! Ora, ide-vos educar e instruir, senhores que ditais as leis! O tempo da acção humana é marcado por fases e patamares e estágios e estes têm momentos específicos e acontece que alguns desses momentos são de sintonia cultural, humana, fraterna, solidária e religiosa, e acontece que a data importa porque representa o momento em que as nossas vidas ficaram marcadas porque mudaram em razão do acontecido. Não perceber isto é entrar na política do vale tudo, na política do venda-se Portugal e a sua Cultura e a sua Língua que o rei é outro e outra é a nação. Europeia, para uns, global, para outros. Pois, meus senhores, percebam ou não, aquilo de que vos falo não é mutável. E é por isso que o vosso ridículo pode estender-se até onde quiserdes mas o 25 de Abril será sempre a 25. Jamais a 26!
João Paulo Videira

Verdade Incontornável - II

Mas só o chapéu!!!

O mundial deste país foi ao poste.

Quem me conhece sabe que eu, à semelhança de mais uns quantos portugueses, gosto muito de futebol. Quem não me conhece ficou agora a saber. Quem me conhece sabe também que gosto de pensar e escrever o que por si só não atesta a qualidade do pensamento e muito menos da escrita. Joga a meu favor a prática. E, por fim, quem me conhece sabe que eu gosto de ver a nossa selecção jogar bem e ganhar. Como é sabido de todos e já não só dos que me conhecem, hoje não vi uma coisa nem outra. E, garanto-vos, uma delas me bastaria, independentemente de qual fosse.
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Escrevo estas linhas porque estou convicto de que aquela bola que o Cristiano Ronaldo atirou ao poste mudou o presente e o futuro próximo do nosso país. Se tivesse entrado, estávamos bem mais tramados do que estaremos. A nossa selecção está velha, usada, sem ritmo, cansada, sem ideias e, sejamos francos, é muito fraquinha, joga muito pouquinho. Está muito longe do que fez em 2004 e em 2006 e, sejamos de novo francos, pensar que passará a fase de grupos só para quem foi a Fátima no passado dia 13 de Maio e crê em milagres. Felizmente não passará!
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Porquê felizmente? Ora não é óbvio!? Vejamos. Se a selecção nacional de futebol passasse a fase de grupos ou mesmo ganhasse um jogo, os prejuízos para a nação contribuinte e trabalhadora seriam incalculáveis. Se ganhasse o que quer que seja, o povão gastaria ainda mais acima do que pode e gastaria dinheiro emprestado pelos mesmos tipos a quem anda a pagar com acréscimo de impostos a má gestão política, financeira e estratégica da nação. Se ganhasse, muitas mais festanças haveria com excessos gastronómicos, já para não falar nas bebidas alcoólicas, com respectivas consequências na saúde de cada um e o enterrar definitivo da saúde pública em termos financeiros. Poderia mesmo haver mortes agora que o INEM já tem menos ambulâncias e helicópteros. De resto, para que é que a gente quer esses recursos se a malta ainda tem força para bufar na vuvuzela. E por falar em vuvuzela e saúde pública, se ganhasse, também na área otorrino haveria um inusitado acréscimo da despesa. Sempre com os mesmos inconscientes gastadores a pagar: a malta que paga religiosamente os impostos. Mas isto não é o mais grave. O mais grave é que, se a selecção ganhasse algum jogo ou passasse desta fase, a distracção que a euforia da vitória causava nas nossas pacatas gentes permitiria ao engenheiro Sócrates, devidamente coadjuvado por Teixeira dos Santos, espetar-nos com um PEC3 em cima e, pior do que isso, colocaria nas letras pequeninas do texto, as coisas que quer fazer mas ainda não foi capaz. Ora, enquanto a malta se distraía e depois voltava à vidinha, nos diversos sectores, far-se-iam pequenas e imperceptíveis mas danosas alterações legislativas. Coisas ao género do ME que, em período de férias, publicava documentos importantes. O outro ME. Este ainda não teve o ensejo. E a nossa sorte foi a bola ter ido ao poste. Desta maneira, voltaremos ao rame-rame quotidiano da labuta, concentrar-nos-emos rapidamente nos assuntos sérios e evitaremos que quaisquer avanços de subversiva intenção nos apanhem desprevenidos.
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O nosso país é demasiado pequeno, não só geograficamente, para participar numa coisa que no nome tem a palavra mundial. Nós somos assim de amplitude mais distrital ou mesmo concelhia do mundo. E depois, como se vê pelo distinto seleccionador, somos uma raça esquisita. Ele é a relva que não presta, o vento que é forte, a chuva que é molhada, e até o diacho do adversário que quer a bola só para ele. Ora, se não temos estrutura para uma coisa mundial, o melhor é não nos distrairmos com ela. Quando o Cristiano chutou, se a bola tem entrado, a euforia tinha-se espalhado qual praga e o PM estava já esfregando as mãos de contente. A nossa sorte foram duas: uma, o capricho dos deuses e dos ventos e do destino e essas coisas todas que fez com que a esférica borracha fosse ao poste e voltasse para trás. Outra, o facto de o Mário Nogueira ter imediatamente consultado o Secretariado Nacional da FENPROF sobre a matéria tendo sido aconselhado a que se fizessem todos os esforços para que a gracinha se não repetisse não fosse a bola entrar. Fez-se uma extensa reunião com representantes da FPF, uns quantos telefonemas para a África do Sul e, como puderam presenciar, não houve mais bolas ao poste, nem tão pouco o risco do remate. Acredito que fizemos (SN) um favor ao país. Claro que vai já haver quem diga que queria que a selecção ganhasse e, como tal, muito haverá quem dirá mal da FENPROF. Mas desses há sempre quer a selecção ganhe ou perca, faça sol ou chuva, haja PEC ou não. Haverá mesmo um conjunto de cépticos que negará que os sindicalistas tenham feito alguma vez tal esforço de salvação dos pátrios destinos. Mas, para esses, teremos sempre as actas negociais a comprovar a veracidade das nossas boas acções!
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O mundial deste país foi ao poste? Não faz mal, conquanto vamos marcando pontos cá dentro!
João Paulo Videira

Verdade Incontornável

Não dá! Sem tirar...

De Negro Vestida - XXVIII


Despertar – II
Voltou. Mas não foi já.
Não alteremos a ordem dos acontecimentos que é esse um abuso dos contadores de estórias. Um abuso e uma prepotência. Trazer os leitores perdidos procurando o fio à meada narrativa. Contemo-la onde ia. Quando a mulher se levantou para ir à casa-de-banho. Nessa altura estava o leitor curioso por saber se ela falaria com o homem de fato azul-escuro.
Pegou na sua mala. Universo curioso, o das malas das mulheres. Autênticos ecossistemas de sobrevir a necessidades. Pasto fértil para curiosos olheiros da vida alheia. Não raro, os homens que gozaram com as malas das mulheres e as inutilidades que nelas viajam, terminaram envergonhados servindo-se de improvável instrumento numa improvável situação. Salvos por um objecto habitante da mala com que gozaram. Normalmente, quando menos se espera, a mala de uma mulher resolve um problema. Linhas, agulhas, batons, cremes, corta-unhas, tesourinhas pequeninas, uma pinça, um dedal, um pacotinho com pensos rápidos, uma caixinha de plástico amarelo com dois tampões que vinha numa promoção, dois pensos higiénicos, um frasquinho de verniz para as unhas e outro com acetona, dois pacotinhos de lenços de papel, um para usar, outro para emprestar, as chaves de casa, as outras chaves de casa, uma carteira com cartões de débito, crédito, de identificação, dinheiro e uma foto dos filhos, facturas e talões diversos, um caderninho para apontar e fazer listas, uma caneta, um lápis, ultimamente uma pen drive, as chaves do carro, os óculos de sol, um pacotinho de plástico transparente com quatro bolachas de água e sal, uma caixinha de comprimidos para a gripe e outra de comprimidos para as dores, quaisquer que sejam, uma caixa de chicletes, um lápis de contorno para os lábios, um pincel de rímel, fotografias diversas, o comando do portão, um rebuçado que vinha com uma bica no fim de um almoço rápido, e envelopes amarrotados e amarelecidos com restos de vida que não voltou.
E quando uma mulher pega na sua mala como fez esta que ainda agora disse às amigas que ia à casa-de-banho e já vinha, sente-se segura porque leva consigo o seu próprio universo de soluções. E esta mulher leva a sua mala e leva também a aventura a saltitar-lhe no olhar e a balançar no ritmo certo do passo firme com que cruza a sala.

De Negro Vestida - XXVII


Despertar – I
A verdade é que não nos conhecemos. Enfim, sabemos quem somos, como nos chamamos, que roupas gostamos de vestir e que comida preferimos comer mas, de tempos a tempos, surpreendemo-nos a nós próprios com um pensamento, uma frase, um gesto. Esta ignorância de nós, cristalizamo-la com expressões simples e vulgares do dia-a-dia que dizem pouco, parecem dizer pouco, mas que emanam esse inconfundível perfume de desconhecimento em relação àquilo de que somos capazes. E é por isso que estando, por vezes, a falar, os lábios e a língua e o céu da boca articulam sons que são palavras e podem elas dizer verdades que não esperávamos.
- Onde é que eu estava com a cabeça?
- Nem parece coisa minha!
- Como é que fui capaz?
- Nem acredito no que fiz!
E outras tantas e tantas mais ainda andam bailando nos lábios e no ar dizendo-nos que não nos conhecemos. Que não percebemos a origem de certos pensamentos em nós. De onde vêm sentimentos inesperados. Comportamentos inusitados. Palavras desabituadas.
A mulher de que vos contarei agora está vivendo um desses momentos.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Um humor de crise.

Ultimamente tenho procurado muita coisa escrita e dita que me possa esclarecer os contornos da dita crise, se é que existe. Disso ainda ninguém me convenceu. Lá vou percebendo a conjura e quanto mais a conheço mais me convenço de que não há crise a não ser para alguns: os que a pagam. E convenço-me de outra coisa: interessa muito, a alguns, que haja uma ideia aterradora de crise.

Dito isto, vamos ao que interessa. Exceptuando alguns discursos e textos mais lúcidos, o que de mais interessante e esclarecedor (!!!) tenho encontrado sobre o assunto são textos humorísticos. O humor parece estar eivado de verdade e lucidez. É por isso que vos deixo um clip interessante, bem disposto, crítico, sarcástico, que só tenho pena não seja português. E a razão é simples. A nossa Língua tem uma riqueza semântica inultrapassável... e presta-se ao humor.


Como é que diz que disse?

Caros leitores,

como sabem, este blogue é, fundamentalmente, um blogue de publicação de escritos provavelmente literários. Não é um blogue sobre Educação. Ainda assim, de quando em vez, não me coíbo de deixar aqui uma ou outra reflexão sobre alguns temas relacionados com a dita. Deve ser defeito de profissão. De professor, a profissão, não o defeito. Esse é meu. E hoje apeteceu-me fazê-lo mais como quem reage perplexo do que propriamente como quem comenta reflectidamente. E admito que haja bondade na medida sobre a qual vou pasmar já a seguir. E se a houver agradeço que algum leitor mais informado ma esclareça. Ora então vamos lá a pasmar: é mesmo verdade que um aluno que chumbe no oitavo ano pode passar para o décimo? É que nem a realização de exames pelo meio nem a sua comprovada veterania etária me convencem da bondade da coisa. Deixem-me aqui escrever um pensamento para quem quer que seja que o venha a ler: a realização de exames não substitui o processo de aprendizagem!!! Irra que é mouco! Já quanto à idade, eu percebo o constrangimento de ter jovens muito mais velhos do que outros nas turmas e também percebo que não é por muito insistir que se obtêm resultados mas, nesses casos, talvez o indicado fosse deixar o jovem viver, contactar com o mundo do trabalho, adquirir experiência e perspectiva e proporcionar-lhe uma oportunidade quando já tivesse mais estrutura para a aproveitar. Sei lá. Isto sou eu a pensar alto. Assim de repente soou-me àqueles prémios de carreira que se dão nas noites dos globos não sei de quê! Uma coisa do tipo. Não conseguiste? Passa a frente que isto é uma perda de tempo! Mais, falta ainda saber que tipo de exames seriam esses... Se forem como aqueles de aferição...
Bem, já destilei. Agora fico à espera de comentários. Ou não!

[Sobre este assunto leia também isto, isto e isto. Já agora, fica mais informado do que com os meus arrazoados. Este blogue chega a ser uma instituição de serviço público sens fins lucrativos!]

E, se lhe apetecer, ouça isto:

De Negro Vestida: XXVI

Solidão – VII
Há entre nós, os humanos, independentemente da condição, da raça, do género, da cultura, da religião, da idade, da posição social, da estrutura financeira e do carácter, diversos impulsionadores de pensamento e acção. E há um, aquele que agora desperta em Maria de Lurdes, pouco valorizado, subestimado mesmo, mas que, em nossa opinião – que o leitor poderá aprovar ou rejeitar – é o mais importante de todos. Não escondendo a importância do dinheiro, não é dele que falamos. Reconhecendo o valor da educação, não é a ela que nos referimos. Nem à alimentação, nem ao sexo, nem à religião, nem à segurança, nem à solidariedade, nem à investigação, nem à saúde, nem à família, nem a nada que tenha um motivo. O móbil principal da acção humana é o saber a pouco. A insatisfação. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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