Fevereiro


Hoje parece que é dia de falar de números. São 2 da manhã do dia 28 de Fevereiro e, mesmo sendo um mês mais curto do que os outros, já é o melhor de sempre em termos da frequência de Mails para a minha Irmã!!

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Mais de 4000 leituras em cerca de 1900 visitas!
Há coisas fantásticas, não há?

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Obrigado!

576

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É um número como outro qualquer. Todos os números têm seu significado e são mais ou menos relevantes. Este teve significado e deixou marcas.

De Negro Vestida - LXVIII


Abandonar o Negro – VI
As pessoas já não namoram, andam. Já não fazem amor, curtem. Ainda assim, mudem os nomes como mudarem, haja as evoluções e as adaptações semânticas que houver, a fase do encantamento, da descoberta mútua, do Diz-me como preferes, dir-te-ei como prefiro, Mostra-me como gostas, mostrar-te-ei como gosto, sempre se há-de chamar namoro.
Os comportamentos podem tornar-se absurdamente ridículos, namoradamente carinhosos. Inventam alcunhas ou abreviaturas um para o outro, tratam-se por amorzinho, esperam-se à saída do trabalho com flores na mão, dão comidinha à boca um do outro, entregam-se em conversas ávidas de conhecer o corpo e passam imenso tempo falando, sempre falando, basicamente dizendo do que gostam e que gostam um do outro. Fazem juras de amor. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida - LXVII


Abandonar o Negro – V
Fazem coisas estranhas, os amantes.
E só à sua compreensão devem explicações. Estes decidiram não tomar banho. Não foi combinado. Foi só o desejo mútuo de manterem no corpo o cheiro da entrega. De prolongarem o momento para além do momento, a fantasia para além da realidade. E foram para a cozinha como quem vai para um parque de diversões. Colocaram aventais de cozinheiro sobre os corpos nus e ficaram cozinhando omeleta.
Fazem coisas estranhas, os amantes.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida - LXVI


Abandonar o Negro – IV
Maria de Lurdes não o disse a Carlos José para lhe não parecer que estava ansiosa, mas a verdade é que lhe pediu que a apanhasse em casa porque tencionava tirar esse dia para si. E tirou. Algo lhe dizia que ele merecia o tempo que levaria a preparar-se antes do almoço e algo lhe dizia também que a conversa entraria tarde dentro. Não estava ansiosa como se algo determinante estivesse para acontecer, mas queria colocar alguma dedicação naquele almoço. Havia da parte dele uma disponibilidade, uma franqueza no trato e nas palavras, uma abertura na face que pareciam estender-lhe uma carpete e não fechar uma porta.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Curtas do Metro - O Balde

O Balde
Ao longo da plataforma que dá acesso às carruagens e já à beira dela, há uma enorme linha amarela que marca a distância de segurança. Enquanto esperam, as pessoas não devem ultrapassar essa linha.

Normalmente, as pessoas esperam em aglomerados distanciados uns dos outros por alguns metros. Colocam-se onde prevêem que vai parar a porta que lhes interessa. O interesse, no caso do Metro, é diferente do do comboio. Não tem a ver com caras familiares nem rotinas, tem a ver com a proximidade dessa porta em relação à saída na estação de destino. Por exemplo, na estação de Baixa-Chiado, quem entrar e viajar nas últimas carruagens, ao sair no Cais do Sodré, fica mais próximo das escadas e dos controladores de saída, logo, não leva com filas.

Um dia destes, precisamente em Baixa-Chiado, estava um enorme balde branco opaco com uma tampa verde em cima da linha amarela. Aparentemente só, sem ninguém próximo ou a reclamar a sua pertença. As pessoas desviavam-se dele passavam de largo e olhavam umas para as outras a ver se pertencia a alguém mas todas pareciam negar a posse. E foi-se gerando um ambiente de desconfiança. Nas nossas cabeças, entre outras, iam algumas perguntas. De quem era o balde? O que tinha lá dentro? O que estava ali a fazer?
Gerou-se um círculo de gente à volta do balde mas à distância porque toda a gente se foi afastando. E ali estava, sozinho, no vazio, aquilo que fora em tempos um balde de tinta, agora com suspeitoso conteúdo e suspeitosa função.

Quando o Metro chegou, nem de propósito, uma porta parou de frente para o balde. Quem saiu, olhou desconfiado, desviou-se e foi à sua vida. Alguns olharam para trás. Nesse momento, surge do longo banco de pedra ao correr da plataforma uma senhora anafada que trazia na pele as cores e os calores de África, aproximou-se do balde junto à porta deserta, pegou-lhe, olhou para trás, encarou a multidão curiosa e desconfiada e, antes de mergulhar na carruagem, disse em sotaque tropical com ar de gozo, à laia de "já enganei mais um":
- É peixe!

Dama de Espadas - 2

Hoje, no comboio, concluí a leitura do romance. É divertido. É agradável. Zambujal tem melhor. Tem textos com mais espírito. Ainda assim, aconselho a leitura. Acho a tranquilidade do final surpreendente.
E aqui fica uma frase que o romance acaba por confirmar:

"As paixões arrebatadas são como o vinho das melhores castas: primeiro alegram, depois embriagam, um dia azedam."

Mário Zambujal in A Dama de Espadas

Curtas do Metro - O Significado


[Pensei muito se deveria, ou não, iniciar uma secção sobre as minhas viagens no Metro. Há mais de um mês que faço o percurso Santa Apolónia - 24 de Julho e volta em regime misto. Metade autocarro, metade Metro. Torna-se mais rápido, mais confortável e as mudanças de transporte obrigam-me a fazer exercício físico. Ora, acontece que, no Metro, quase não há histórias e a razão é simples: os percursos são muito rápidos, o tempo em trânsito é muito fugaz para que algo de significativo aconteça. Hoje, contudo, aconteceu uma breve e curta história que merece ser contada e é por isso que inicio esta secção. Chama-se "Curtas" porque as histórias serão forçosamente breves e chama-se "do Metro" por razões óbvias. Se nunca mais acontecer outra, paciência, ficamo-nos por esta. De resto, Mails para a minha Irmã só tem a ganhar com a diversidade de secções e motivos de publicação. Boas leituras e... vamos lá à primeira Curta do Metro.]

O Significado.
Entrei. Havia muita gente, mas não estava "à pinha". Encostei as costas ao varão e virei-me de frente para o sentido em que o Metro ia avançar. Assim, o varão amparava-me as costas no momento do arranque. No último instante, já as portas estavam a apitar, entrou de salto uma mulher nos seus quarenta, não muito bonita nos meus critérios de beleza, mas bem arranjada. Calças de ganga justas, uma blusa encarnada e, por cima, um colete em pele de coelho ou imitação da dita. Cabelo arranjado. Quando entrou, abriu um desses jornais gratuitos, pôs-se a ler e não se agarrou a nenhum varão vertical, nem horizontal (por cima dos bancos), nem a uma pegadeira do tecto. Ficou de pé de frente para mim. A ler o jornal. Eu estranhei que não se agarrasse, mas pressupus que tivesse bom poder de "fixação". Pressupus mal.

Quando o Metro arrancou, ela foi projectada pelo impulso para cima de mim, agarrou-se ao varão onde eu tinha as costas dando-me um forte e apertado abraço que me colou as costelas ao varão e me tirou, momentaneamente, o ar. Até aqui, isto é esquisito, mas acontece todos os dias no Metro. O que ela disse a seguir é que me intrigou. De tal forma que tive de responder-lhe.

Enquanto recuava e me soltava do seu apertado abraço, perguntou:
- Acha que este encontrão significa alguma coisa?
- Acho. Significa que tem de se agarrar!

Quando vier a Primavera


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Natureza em Mudança

Cais forte e vigorosa
Dum céu negro
E fechado
Em manhã chuvosa.
És água
E és pedra
E fustigas a superfície
Da enorme e antiga serra.

E fecha-se a luz,
Banhado está o universo
Em tamanho breu
Que não cabe em verso
O medo que me deu.

E estavas assim,
Assustando-me o coração
Quando se abre
O brilhante astro
Como uma canção
À Primavera
À alegria, ao calor.

E agora já tenho tudo.
Só me falta
O meu amor.
jpv

The Platters

"Se esta música não te fizer sentir nada, então estás com um problema sério no sistema nervoso central"
jpv

Post Perfumado

As coisas que se aprende com a Internet.
Sabem que ainda se fabrica o perfume que Napoleão usava?! Ah, pois é!!!
Um dia destes, andava nas pesquisas, neste caso sobre Napoleão, e descobri que ainda se fabrica o perfume que Napoleão usava que, de resto, qualquer um de nós pode comprar... enfim, não sei se com a crise...
Jean-Marie Farina foi o seu criador, a casa Roger & Gallet comprou o segredo e os direitos a Farina e desde então nunca mais deixou de produzir o aroma com que Farina perfumava o imperador...
Bons aromas!

O Clã do Comboio - A Face Humana da Mulher Vampiro

A Face Humana da Mulher Vampiro
A Mulher Vampiro continua a viajar no seu banco e nunca mudou o seu aspecto nem a sua atitude. Sempre no banco lateral, sempre completamente vestida de negro com aquela variação pontual em castanho, sempre dormindo a viagem toda, sempre com os phones nos ouvidos, mergulhada na sua música, sempre sem dizer uma palavra. Sempre no sentido Entroncamento - Lisboa. Ao contrário de outros passageiros, nunca a encontrei numa viagem de regresso.
Foi hoje. E foi fantástico.
Regressei no regional das 18:48. Entrei numa carruagem semi-vazia e esperei. Estava a colocar a música nos ouvidos quando ela entrou. Não me viu. Ao contrário do que acontece pela manhã, entrou fazendo muitos e decididos gestos. Tirou a capa, tirou o casaco, colocou tudo num banco ao lado do seu. Poisou nele a carteira e uma mochila e uma pasta de documentos. Sentou-se. Tirou um computador pequenino da mochila, colocou-o no colo e só depois arrumou a capa e o casaco também no colo, por baixo do computador.
Quando me viu, abriu-se num sorriso e disse:
- Olá, é a primeira vez que o vejo no regresso.
- Pois é!
- Trago trabalho.
- Olhe que isso transforma-se num hábito.
- Já é!
E riu, riu abertamente e sonoramente e para além de todo este à vontade, havia cor.
Sem a capa nem o casaco, a Mulher Vampiro exibia uma camisola de lã verde-escura, um casaquinho de malha no mesmo tom, um enorme colar com pedras em tom esmeralda forte e um anel grande com uma pedra a condizer com o colar mas num tom mais aberto. E, imagine-se, trazia o cabelo apanhado o que lhe dá um ar mais executivo e deste mundo, menos etéreo. E o mais interessante e o mais fantástico é que olhava para ela e não conseguia ver a Mulher a Vampiro. Via só uma mulher bonita em trajes práticos de ir para o trabalho com espírito no olhar e expressão no sorriso. Havia toda uma humanidade que se esconde pela manhã. Se é verdade o que dizem dos vampiros, que andam de noite, hoje devo ter visto os últimos minutos da Mulher Vampiro pela manhã e os últimos minutos da sua face humana ao fim da tarde...

Curiosidades de Mails para a minha Irmã

Amigos,
para além de agradecer-vos a atenção, a paciência e as leituras no dia em que perfazemos dezasseis mil (16000) visitas e mais de trinta e sete mil e seiscentas leituras, é preciso dizer-vos que a nossa comunidade de leitores tem crescido imenso. Este blogue já teve 20 leituras por dia. Hoje em dia tem, normalmente, mais de 100. Muitas vezes mais de 150 e há mesmo dias com mais de 200 leituras. Temos de ter em conta que não é um blogue de assuntos muito populares e nem sempre de leitura fácil. Para se ser leitor de "Mails para a minha Irmã" é preciso gostar de ler, de saber ler a multiplicidade de sentidos e a exigência que alguns textos deste blogue contêm. Tudo tem crescido muito, sobretudo desde Outubro último. A inclusão das citações e as histórias do Clã do Comboio bem como as do Autocarro 28 ajudaram bastante a este crescimento. Neste momento, até já nem se nota grande diferença entre os dias de semana e os fins-de-semana que antigamente eram dias de baixa consulta. Também crescemos geograficamente. Para além de Portugal continental e regiões autónomas, temos leitores assíduos, ou seja, diários, no Brasil, nos Estados Unidos da América, no Canadá, em França, na Suíça e na Alemanha...
Um dos romances aqui publicado, "Estórias ao Acaso: Noite Fria" foi alvo de uma oferta de publicação que estamos a equacionar.
As pessoas entram aqui de diversas formas mas há três que se destacam: escrevendo directamente o endereço do blogue; a partir do Google; a partir do Facebook.
Os períodos de maior consulta são entre as 13h e as 14h, entre as 20h e as 21h e entre as 00h e as 02h.

Um obrigado grande à minha mana por ser sempre uma inspiração e uma proximidade em relação ao nosso pai. Um obrigado imenso a todos os leitores e amigos que nos têm incentivado e lido. Isto não é meu, é nosso.

Boas leituras e até... ao próximo post!

JPVideira

As Cores da Primavera

Anuncia-se a Primavera na intensidade da luz, na duração dos dias e nas cores que despontam. Hoje, enquanto passeava o Bronco, ou ele a mim, deparei-me com este colorido. Não partilhar era crime! Quem se der ao trabalho de fazer um zoom à terceira imagem, há-de reparar que lá ao fundo, depois do monte de lenha, está um enorme corvo posando para a foto. São as cores e as gentes da Primavera anunciando-se...



De Negro Vestida - LXV


Abandonar o Negro – III
Não foram necessárias outras apresentações.
Ambos sabiam que haveria muito a dizer e que poderiam dizê-lo ou não. Talvez o olhar e os sorrisos e as feições e toda essa linguagem do corpo que está antes e depois das palavras dissessem o que elas não conseguiam.
Há dois tipos de relacionamento no que respeita ao uso das palavras. Aquele em que elas são muito precisas para explicar as ideias e os comportamentos e em que têm de ser escolhidas com todo o cuidado evitando más interpretações e aquele em que as palavras vêm só confirmar o que os olhos estavam dizendo. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida - LXIV


Abandonar o Negro – II
Eu, caro leitor, sou um humilde desenhador de palavras e de imagens com elas e reconheço essa minha condição. Não tenho, por isso, qualquer pretensão de, sequer, fingir que sou Deus ou controlo a vida. Nem mesmo a vida dentro destas linhas. Nem a vida, nem a morte. E, se alguma coisa puderdes aprender com esta história, que seja o inestimável valor da vida e da morte que não é mais do que um passo daquela. Aprendereis, se quiserdes, que não há existências boas nem más, não há vidas vãs e não há mortes em vão. Tudo se conjuga em pequenos sentidos num sentido mais lato e global.
É por isso que Manuel Matos Vasques não deixou de agir quando morreu.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Dia em que Conheci Lola


Estava exausto.

A vida de um detective particular é dura. Muito fustigada por esperas em carros à custa de cafés cujos copos de plástico se amontoam no chão à frente do banco do passageiro, dos hambúrgueres semicomidos, sacos de batatas fritas e tudo o que indicie a alimentação menos recomendável possível. Ultimamente já nem o trabalho era motivante. Resumia-se a deslindar casos previsíveis de adultérios mal dissimulados, umas fotos flagrantes e o resto seriam discussões em que, felizmente, já não tomava parte. Também lhe apareciam recentemente muitos casos de cobranças, de descobrir onde é que os supostos devedores tinham dinheiro ou o gastavam. O clima exótico e a empolgação de deslindar um caso difícil com um crime envolvido já não lhe aconteciam há anos. Em casa, o ambiente degradara-se devido à sua ausência e à clara falta de paciência para ser um chefe de família de uma família com uma sogra decrépita, um filho todo vestido de preto com piercings pelo corpo todo e um cigarro nojento na ponta dos dedos amarelos e uma mulher mal arranjada, sempre a cheirar ao óleo de fritar pastéis de bacalhau para vender a umas pastelarias e depois gastar em arranjos de unhas e cremes para a cara que era suposto rejuvenescerem-na mas cada vez a deixavam mais pateticamente envelhecida.

Foi por isso que não hesitou em dar meia volta ao seu velhinho mas estável e fiel Mercedes D190 de 1988 ainda com os cromados originais e dirigiu-se para a pousada "Repouso Tranquilo". Passava ali dezenas de vezes por semana e interrogava-se sempre quem seriam os sortudos que ali ficariam e com quem ficariam. Desta vez seria a sua vez. Um telefonema, Querida tenho uma vigilância e hoje não vou dormir a casa, puta de vida. E assim se desculpou e tirou aquela noite só para si. Queria estirar-se no conforto limpo e asseado de um quarto de pousada e dormir como se o mundo fosse acabar e ficar só e isolado do resto da Humanidade ruidosa.

A pousada tinha um portão com uma estrada estreita e arborizada que desembocava num enorme largo com uma fonte no meio de frente para umas escadas antigas que davam acesso ao interior do "Repouso Tranquilo". As rodas do Mercedes pisaram a estrada de brita e fizeram aquele som de comprimi-la semelhante a milhares de sardinhas presas na rede quando esta sai do mar. Estacou. Saiu do carro.

Colocou o chapéu de feltro a fazer lembrar Bogart e emergiu a sua figura alta com a gabardina a cair-lhe ao longo do corpo por cima de um fato de fazenda castanho escuro e visivelmente desgastado e amarrotado. Ainda assim, mesmo com a curva do hambúrgueres a anunciar-se, era uma figura evocativa e interessante que guardava por dentro um homem em destroços. Entrou. Pediu um quarto. Entrou na banheira cheia de água, deixou um braço de fora, pendurado com um copo de uísque na mão e um cigarro enfiado na boca. Adormeceu. O copo caiu ao chão e só não se partiu porque a toalha de receber os pés o amparou. O cigarro ardeu-lhe na boca até que a cinza se lhe espalhou pelo peito e pela água. Quando acordou, resolveu reagir. Estava mais descansado. Tomou um duche revigorante e demorado, vestiu a roupa interior, as calças e a camisa e desceu para o bar. Não sabia ainda, mas era aí que conheceria Lola.

Sentou-se ao balcão do bar. Era um enorme balcão de madeira exótica em semicírculo com bases para copos espalhadas e um tecto falso em madeira de onde pendiam centenas de copos de pé em fileirinhas organizadas. Era enorme o bar. Tinha uma zona com um snooker onde não estava ninguém e um amplo espaço cheio de sofás confortáveis em tons de cereja com ramagens douradas. A um canto, uma lareira e uma televisão. Todo o espaço estava obscurecido e em profundo silêncio. Pediu um martini e ficou a saboreá-lo bem como ao repouso. Tudo aquilo estava perfeito. Pensou ficar por ali a saborear a vida e a bebida quando chegou a turba, o ruído, as vozes altercadas, os risinhos. Sem se virar para a rua diria que eram umas dez pessoas, quando se virou reparou que eram só três. Espanholas!

Era todo um folclore, toda uma luz e uma cor e, sobretudo, era todo um ruído de saltos altos a bater no chão, pulseiras e colares a chocalhar e as vozes, as vozes entusiasmadas tentando falar umas por cima das outras naquele sotaque áspero, arrastado e cantarolado que é a voz da Andaluzia. Uma delas trazia uma blusa estampada em pele de tigre, muito colada ao corpo, por cima dela um pequeno colete de pele com tiras pendendo das mangas, calças de ganga muito justas, cós baixo, a abrirem em boca de sino a partir do joelho fazendo umas pregas, botas de pele castanha, de cano alto e com uns saltos a desafiarem as leis da física, teriam aí uns onze centímetros, era alta e esguia e tinha o cabelo castanho com madeixas loiras, a enfeitarem-lhe um rosto longo onde se destacavam os olhos castanhos brilhando sobre a pele morena. Vinha muito maquilhada e enfeitada e trazia uma mala de mão. A outra trazia uma mini-saia preta, muito curta por cima de umas meias pretas em rede que terminavam num sapatos de saltos íngremes que tinham uma fivela de fingir em brilhantes também de fingir, uma camisola bege de gola alta mas muito larga, de tal forma que era possível ver-lhe o tentador vale entre os seios redondos e grandes, tinha um gancho castanho a prender-lhe o cabelo loiro. Vinha muito maquilhada e enfeitada e trazia uma mala de mão. A última delas, um pouco mais reservada nos comentários trazia um corpete encarnado como se fosse uma peça de roupa exterior, meias de rede, uma saia preta travada um pouco abaixo do joelho, dava passadinhas pequeninas e apressadas, a pele muito clara e uns olhos de água, verdes, a completarem um sorriso amplo e bonito, cabelo encaracolado, castanho clarinho com madeixas loiras, as ancas bem definidas, sapatos de salto alto pretos, um colar com pedras de formas diferentes pretas e um anel dourado com a forma de uma flor. Vinha muito maquilhada e enfeitada e trazia uma mala de mão.

Ele ficou indeciso. Não sabia se queria continuar o seu pacato martini e a sua noite de repouso ou assistir àquele espectáculo de luz e cor. Ficou. Elas encostaram-se ao balcão, pediram bebidas generosas e ficaram à conversa, falando alto, dando risadinhas e olhando de lado para o detective particular. Uma delas, a do corpete encarnado, aproximou-se dele, tirou uma cigarreira prateada da mala de mão, puxou de um cigarro, apontou-o à boca, esticou-se para ele e disse:

------- Por favor, caballero.

------- Por supuesto.

Acendeu-lhe o cigarro, reparou nos seios que, não sendo grandes, eram muito bem formados, jovens, mais jovens do que a própria.

------- En viaje?

------- No, no, nosotras somos… Maria… como se dice en portugués lo que hacemos nosotras…

------- Lo dices como en todo el mundo, chica, somos putas!

A do corpete encarnado não queria bem aquela resposta mas, uma vez dada, teve de servir. Ela queria dizer qualquer coisa como acompanhantes mas a verdade é que tudo se resumia àquela palavra seca e embriagada. E teve de servir. Ela quis traduzir-lho. Confirmar-lho mas ele não deixou.

------- O que você faz é nobre. Rouba os homens à solidão e à impotência, retira-os das vidas mesquinhas que vivem e transforma-os em reis por uma noite.

------- Lo que dices eres sensillo, aunque no sea castelhano!

E largaram-se a rir. O detective falhado e triste e a puta espanhola que queria ser acompanhante. E ficaram conversando toda a noite, sobre os homens, as mulheres, as bebidas, as marcas dos melhores charutos. E as outras foram saindo acompanhadas por homens que as vinham buscar e ela foi ficando, e foi desperdiçando uma noite de negócio em troco de alguma atenção, alguma dignidade. Ele perguntou-lhe se ela o queria acompanhar. Ela disse que sim, por quinhentos euros em notas. Ele foi-se à máquina Multibanco no átrio, levantou-os, pediu um envelope na recepção, colocou-os no envelope e quando chegou ao pé dela estendeu-lho e disse:

------- Tome. Venha.

E ela foi. E continuaram conversando. Ele pegou no telefone e pediu uma garrafa de espumante e estiveram beberricando e conversando. E ele explicou-lhe a miséria de uma vida falhada, de sonhos desfeitos e ela contou-lhe como se sacrificava de cada vez que fazia dinheiro, de como desejava que tudo acabasse depressa, as manias dos velhos e a presunção dos novos. E quando lhe disse:

------- Usted ha pagado. Hemos que hacerlo.

------- Hagame un masaje.

E ela fez. Virou-o de barriga para baixo, sentou-se no rabo dele e massajou-lhe as costas e o pescoço e quando o relaxe estava a atingir o ponto de não retorno, o do sono, ele perguntou:

------- Como te llamas?

------- Lola.

E adormeceu.

Na expectativa de merecer o dinheiro do envelope, ela ainda lhe disse:

------- Cariño…

Ele dormia profundamente. E assim ficou.

-

O dia nasceu solarengo e frio. Um raio de sol rasga a escuridão do quarto. Um homem dorme profundamente e uma espanhola bonita sai da casa-de-banho com um duche no corpo e os pulsos perfumados. Veste-se. Espreita o dia pela janela. Beija o detective adormecido na testa. Pega no telefone, pede um pequeno-almoço generoso. Espera por ele, recebe-o. Coloca-o junto à cama do detective sem lhe tocar. Pega numa folha daqueles bloquinhos de hotel e escreve “Gracias!”. Quando sai, tudo fica calmo. A roupa dele espalhada pelo chão, o perfume dela serpenteando o ar, e um envelope com o símbolo do hotel em cima da mesa-de-cabeceira. Lá dentro estão quinhentos euros.

Expressões Genuínas

A minha irmã, quando a chamaram, já estava há seis meses debaixo da terra. A minha sobrinha até deitou no jornal!"
Vizinha da S.

Eu também gosto de Brincadeiras...

... mas não telefonei porque já tenho cães. Um golden amarelo e um cocker preto. Mas admito que qualquer um deles faz isto tudo que aqui está!
Já agora, onde é que este país anda com a cabeça? Então há um jornal diário que publica esta coisa? Enfim...
Nota: obrigadinho ao amigo que mandou isto por mail. Espero que não fosse uma sugestão!

Jogo em Diferido, Emoções em Directo

O resultado interessa pouco. Dois a um, três a um, um a três ou sete a zero, nestas circunstâncias, valem exactamente a mesma coisa.
Hoje não pude ver o jogo do Benfica com o Estugarda. O trabalho deu para tarde, ultimamente dá sempre, e vinha no comboio quando o jogo estava a decorrer. Vai daí, ouvi o relato pelos auriculares enquanto regressava a casa no regional das 18:48.
Quando cheguei a casa, fiz como qualquer benfiquista minimamente interessado, vi os resumos. E foi aí que nasceu a razão deste texto. Eu, que detesto ver os jogos quando já sei os resultados, aliás, não sou mesmo capaz de o fazer, hoje, tinha pedido para me gravarem o jogo e, após os resumos, decidi ver a segunda parte mesmo sabendo o que ia passar-se. E é disso que estou a escrever. Aquela forma de jogar à bola, como se não houvesse amanhã, com garra, como se o campo estivesse inclinado para a baliza do adversário e o vento a favor, aquela forma de jogar é que é jogar à Benfica. Era assim quando o meu avô me ensinou esta doença que é ser benfiquista e tem sido assim ultimamente. O Benfica poderia ter perdido por quatro ou cinco, isso interessaria pouco. Não há nada, não há resultado nenhum que iguale a emoção e a empolgação de ver o Benfica jogar à Benfica. Não é do resultado magro que escrevo hoje. É do rolo compressor e pressionante, do cheiro a golo a pairar no ar, do saber, em cada minuto, que, mais tarde ou mais cedo, vamos marcar e vamos ganhar.
Numa época de tanta táctica e prudência futebolística, é bonito ver o arrojo deste Benfica que ataca o adversário, em vários momentos, com oito jogadores! Sim, vi a segunda parte em diferido mas foi como se fosse em directo, tal a envolvência. E o engraçado é que levei as mãos à cabeça com as defesas do alemão e gritei golo com a bomba fulminante do Tacuara.
Está aí o Benfica da minha infância. O resultado interessa pouco. A jogar assim, é sempre como se tivesse ficado sete a zero.

Ofício da Memória

Dão-se alvíssaras a quem provar pertencer! Ou a quem souber identificar...
Só se aceitam contributos devidamente identificados!

Citação do Farol

"Onde estás querido? No meio da noite procura o farol que tem orientado as nossas vidas, as nossas promessas, o nosso crescer juntos... eu estou lá, à espera, lutando contra ventos e tempestades e esperando a força do teu amor e optimismo para que juntos sejamos um só."
AC

M


M de Momento
de Mulher
de Mãe
de Magnífico
de Mudança
de Melhor
de Múltiplo
de Murmúrio
de Morada
de Místico
de Mistura
de Mistério
de Missanga
de Merengue
de Memória
de Mimos
de Meio
de Mediterrâneo
de Másculo
de Macho
de Masculino
de Marinho
de Manga
de Magnetismo
de Maçã...
MV

Uma Noite Nicola


Hoje, calhou-me este!

Perguntas de Algibeira

Porque é que andamos dias sem fim com um chapéu-de-chuva sem precisar dele e no dia em que decidimos deixá-lo em casa chove SEMPRE?

De Negro Vestida - LXIII


Abandonar o Negro – I
Fugiram da cidade. É o que fazem os jovens. Um carro. Uma carta de condução. Um recanto escuro e o amor acontece. Ele desejava-a, queria tê-la entre os braços, beijá-la, cheirá-la, possuí-la sob o seu corpo jovem e atlético. Ela queria ser possuída, ser tomada pelo seu braço forte, brincar com ele. Naqueles momentos de frente para o mar, o carro era o mundo inteiro e foi aí que se entregaram, que suaram e gemeram seus amores, e foi aí que ficaram saboreando o momento, brincando com o que cada um gostava de fazer. E quando estavam saciados da noite, regressaram. Piso molhado. Olhos dele nela. Mãos dele nela. Curva da estrada e do destino. Despiste. Uma pancada seca no pescoço e a morte imediata.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Ilusão

Pela fortuna
Pela fama
Pela ambição
De ver o mundo girar
Na palma da sua mão

Assim se move meio mundo
Meio vivo, meio morto
Meio triste, meio contente
Neste mundo meio torto
Entortado pela gente

Meio podre, meio são
Lá vai resistindo, só,
No meio da multidão

Assim… meio sóbrio
Meio embriagado
Tenta acompanhar o mundo
Que brilha e gira apressado

Mas…meio sábio ou meio louco
Meio tarde ou meio cedo
Há-de enxergar pouco a pouco
E desvendar o segredo
O que gira na palma da sua mão
É apenas uma bola de sabão
Que se desfaz
E… escorre por entre os dedos

Rosinha

Lisbon By Night

Trabalhar até tarde pode ser extenuante, contudo, com uma vista assim, qualquer alma se sente abençoada... no trabalho. Lisboa é uma cidade bonita a qualquer hora, em diversas zonas e dimensões, mas à noite fica mágica!

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Não sou muito dado a estas coisas da divulgação. E nem é por razão nenhuma em particular. É só porque me perco na minha escrita e, embora veja imensas coisas de outros, em geral guardo-as para mim.

Um dia destes, de uma forma perfeitamente casuística, apareceu-me na net, no Google mais especificamente, uma imagem do António Louro. Não sei quem é. Sei só que é fotógrafo e gosta de pintar com a luz.

Dei-me ao trabalho de visitar o site dele e, não obstante ser muito simples, ou talvez por isso mesmo, agradou-me imenso. Tem umas fotos de nú artístico absolutamente fantásticas que, sendo sensuais, não são nada agressivas. Muito Bom.


Pode visitar-se aqui:
http://www.antoniolouro.com

Uma Noite Nicola


"Hoje, calhou-me este"

Líquido Elemento

Líquido Elemento

Tamborila a água
No telhado
E no mesmo instante
Salpica a vidraça.
Jorra em abundância
Pelas ruas
E molha a gente que passa.

Mitiga a sede
Ao sedento.
Dos rios enche o caudal
Que corre suave
Sob o vento.

Lava o corpo
E limpa a alma,
E mora na sua frescura
A fonte da calma.

É vida e movimento,
É luz e brilho.
E tem em si a energia
De perpétuo elemento.

Passa pelas mãos
Da lavadeira,
Pelos pés do caminhante.
É bênção dos céus
Para a terra germinante.

Vive dela o agricultor
Vive com ela o pescador
E vive no seu poder
De multiplicação
Um segredo de libertação.
Conta-lhe os teus segredos,
Homem que passas e bebes,
Deixa-a levar os teus medos
Enquanto o teu sonho segues.

De Negro Vestida - Abandonar o Negro


Amigos leitores, para os que têm acompanhado a evolução do romance "De Negro Vestida", venho prevenir-vos para o facto de ter acabado o segmento cujo título era "De Negro Vestida", ou seja, o segmento que deu nome ao romance. A partir do próximo capítulo entramos no segmento que designei por "Abandonar o Negro". Divirtam-se.
jpv

De Negro Vestida - LXII


De Negro Vestida – XXVI
Maria de Lurdes leu a crónica. Várias vezes. Releu alguns parágrafos. Deteve-se em palavras e momentos específicos e, sobretudo, saboreou. Qualquer coisa naquele texto a deliciava e não era, só, o seu nome no fim. Não era essa vaidade que a movia. Era mais o hino à sua condição. A justiça que lhe pedira havia sido feita. O texto entusiasmou-a e fê-la acreditar de novo na Humanidade e em particular na masculinidade. Esse universo tão próprio, tão acessível ao corpo, tão inacessível na alma. Engana-se quem pensa que os homens são básicos, pensou, são básicos na carne. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida - LXI


De Negro Vestida – XXV
Há jornais abertos nas paragens de autocarro, nos bares e cafés, nos eléctricos e no Metro, há um homem que parou a caminhada que ia fazendo no passeio e ficou a ler, nos restaurantes, nas salas de professores, nas repartições de finanças, nas salas de espera e entre duas torradas com doce de maçã e uma chávena de chá. E muitos não estarão lendo a crónica de Gabriel, mas muitos haverá, também, que o estão fazendo. O texto é simples e fluido. Despretensioso. Mas faz demorar alguns olhares, faz reflectir algumas consciências. Normalmente, não reproduziríamos aqui o texto para não sermos acusados de concorrência desleal por parte do Jornal onde trabalha Gabriel. Acontece que... 

De Negro Vestida - LX


De Negro Vestida – XXIV
Ultimamente os homens andavam com uma séria tendência para agarrá-la por um braço e arrastá-la da igreja para fora. Carlos José levara-a gentilmente para a sacristia e aí a beijara. Gabriel pegava-lhe firme num braço, arrastava-a para a rua e vociferava palavras de repreensão e raiva. Era a véspera do funeral de Maria da Graça, alguns familiares e amigos estavam velando a falecida na casa mortuária contígua à igreja e Maria de Lurdes andava distribuindo pelos bancos umas ramagens que decidira colocar a expensas próprias para que, ao menos, se simulasse alguma compostura do espaço. Quando chegou à rua, arrastada por Gabriel, sabia que não iriam trocar-se beijos, o olhar dele flamejava indignação:
- Mas quem é que a senhora julga que é? 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio - Faz o que Quiseres

Faz o que Quiseres.
Não é passageira frequente.
Chegou rosada e anafadinha com as carnes a esticarem-lhe a napa encarnada do casaco. Tem mais de 50. Menos de 60. Umas calças de ganga com o tecido propositadamente arrepanhado numa imitação de feira dessas que estão na modinha. Apresentou-se com o cabelo preso atrás com um gancho de plástico a imitar osso de baleia e trazia um chapéu-de-chuva e três sacos. Um verde pequenino, uma mala de mão que mais parecia um saco de viagem em tons de castanho e lilás e um enorme saco às flores brancas e cor-de-rosa que colocou aos meus pés ocupando todo o espaço entre nós. Íamos de frente um para o outro. Óculos de ver ao perto. Unhas pintadas de encarnado já com pouco encarnado. Tirou do caso pequeno uma toalha turca de cozinha amarela com uns limõezinhos verdes estampados, linhas e uma agulha de croché e começou a bordar uma renda a toda a volta da toalha que lhe dava um ar mais... rendado.

Depois deu-se a conversa. Foi ela que ligou. Poisou a toalha no colo, coçou a cabeça com a agulha de croché que a seguir pôs na boca enquanto falava ao telefone em tom audível em toda a carruagem.
- Sim, és tu?
- (...)
- Entrei há 5 minutos.
- (...)
- Este não é o regional. Chega mais cedo.
- (...)
- Faz o que quiseres, mas está lá à hora.
- (...)
- Olha, faz o que quiseres, mas já que lá vais, traz o detergente p'rá roupa.
- (...)
- Faz o que quiseres, mas não te esqueças das minhas luvas.
- (...)
- Faz o que quiseres, mas prepara o jantar. Estão aí as coisas.
- (...)
- Não. Chego mais cedo. Este é mais rápido.
- (...)
- Não sei.
- (...)
- Faz o que quiseres, mas não te esqueças das minhas luvas.
- (...)
- Não sei. Faz o que quiseres. Desde que estejas lá à hora.

Butterfly

Deslizas pela vida
À procura de te entregar
E fazes um sorriso
Ao mundo
E às pessoas
E transportas contigo
As soluções fáceis
Para as decisões difíceis.
E curas.
E sofres.

E sempre que a terra completa
Uma volta estelar
É tempo de anunciar
Aos homens
Que renasceste
E és de novo dádiva,
Luz,
Caminho aberto.
Mão dada.
Apoio
E conforto.
E curas.
E sofres.

E os homens
Perdidos e pequeninos
Não podem
Senão maravilhar-se
Com tua doce presença.
Ver-te esvoaçar,
Cortar o espaço
Com elegância
E gentileza
No teu voo
De cura.
De sofrimento.

O Clã do Comboio - A Greve

A Greve.
Hoje, o interregional das 7:18 foi às 9:43. E não foi interregional, foi regional. Ou seja, um trabalhador que, normalmente, chegue ao local de trabalho por volta das 9h, hoje não o conseguirá antes das 11:30h.

A razão é a greve da CP. Esta composição não substitui só o interregional das 7:18, substitui tudo o que havia antes uma vez que é o primeiro comboio do dia a ligar o Entroncamento a Lisboa.

Sobre a legitimidade da greve nem falarei. A democracia tem os seus mecanismos de participação, a greve é um deles e, quanto ao resto, são razões e motivos legítimos que uns apresentam de uma forma e outros de outra. Esta é uma consequência inevitável da gestão de um país mergulhado numa profunda crise financeira e social.

O comboio está cheio!
As pessoas conversam sobre a greve e a crise e ninguém fica indiferente a este estranhamento que é estarmos a sair a uma hora em que já costumamos ter a viagem feita e algum tempo de trabalho realizado. Outros brincam, passam pelos colegas e dizem, Isto é que são horas? E depois riem-se e brincam com a situação.
Vai aqui muita gente das 7:18, mas também vai aqui muita gente de outras horas. Vêem-se algumas caras conhecidas e muitas desconhecidas. Todos com os lugares trocados, como alguém disse, Hoje não há reservados! E, imagine-se, ninguém dorme. É um comboio em alvoroço com conversas altercadas, jornais abertos e o sol alto e quente a iluminar a composição. Emerge algo das conversas: é que nenhum de nós sabe a que horas volta ou mesmo se volta porque não há garantias de haver transporte. É a primeira vez que coloco os óculos de sol. Sabem, acho que toda esta diferença traz algo de positivo. É uma pedrada nas rotinas, um desalojar de repetições. Lembram-se quando éramos miúdos e, por qualquer razão, chegávamos de manhã à escola e não havia aulas. A miudagem não arredava pé. Ficávamos ali a usufruir da companhia uns dos outros e da diferença de um dia desusado. Ou porque havia uma greve, ou um congresso na escola, ou porque tinha nevado, ou porque se tinha rompido um cano de esgoto, ou porque os portões não abriam, ou porque tinha morrido alguém importante. E isso, sendo diferente, era saboroso. É esse o sentimento que noto neste estranho interregional-das-7:18-9:43-cheio-de-gente-que-sendo-de-cá-não-é-de-cá.

E logo? Logo, se vê!

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