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Curtas do Metro – As Razões do Gato Preto



As Razões do Gato Preto

Manhã normal. Comboio normal. Metro normal. Gente normal. Movimento normal. Gato estranho.

O que vou contar-vos hoje é só um apontamento e já aconteceu há três semanas. Durante todo este tempo pensei sempre que era demasiado insignificante para ser contado. Por outro lado, o que o gato fazia, sem uma razão que o justificasse, era absurdo, quase surreal. E, por isso, guardei o apontamento no caderno e chamei-lhe “Gato”, mas não publiquei. Ontem, contudo, ao passar onde o gato andava, vi algo que me fez luz, a tal razão que rouba o absurdo à situação. Não sei como é que as histórias ficam melhor. Se com absurdo, se sem ele. Eu gosto do absurdo e do surreal, sobretudo quando são reais! E sei que as justificações muitas vezes estragam tudo. Acontece que esta justificação é como o fechar de um ciclo. E por isso mesmo, porque o ciclo está fechado e luz se fez, aqui ficam os apontamentos. O do passado e o do presente. Os leitores, agora, hão de ligar os pontos e completar a imagem.

Há três semanas.
Saio do comboio. Apanho o Metro em Santa Apolónia. Mudo em Baixa/Chiado. Saio no Cais do Sodré. Percorro a plataforma. Subo as escadas. Passo no controlador. Quando estou no enorme átrio da estação, vejo ao fundo as escadas rolantes que dão para o exterior. Em relação ao ponto onde me encontro, estão em plano superior. Umas a subir, outras a descer. E é aqui que entra o gato. Vinha nas escadas rolantes que descem. Parei a observá-lo. Deitado, atravessado, ocupava um degrau inteiro. Pensei eu que aproveitava o baloiço das escadas. Quando chegou ao fim da voltinha, o gato preto pôs-se de pé, deu um saltinho para sair das escadas e ficou no chão. Deu meia volta por ali e subiu pelas escadas de cimento. Uma vez lá em cima, voltou a descer! E pronto. Há três semanas era esta a minha história. Um gato preto que usava as escadas rolantes como montanha russa. Pensei, É tão inverosímil que as pessoas vão pensar que se me esgotou o assunto de escrita e resolvi inventar. E foi por isso que não publiquei. Até ontem decidir o contrario.

Ontem.
Saio do trabalho. Apanho elétrico. Chego ao Cais do Sodré. Dirijo-me para a entrada. Desço as escadas rolantes. Chego cá abaixo ao local onde o gato preto dava uma voltinha antes de subir de novo. E que vejo eu? Um pequeno patamar com vista sobre o átrio da estação. Uma proteção de vidro, pela cintura, para impedir quedas. O vidro termina num corrimão inox e em cima dele... pombos!!!

Pois é, todas as coisas têm uma causa. Todos os seres têm uma razão. Esta, foi a razão do gato preto.  

Curtas Do Metro - Violência

Violência


Foi um dos episódios mais violentos a que assisti no Metro e envolve uma só pessoa. Final da tarde. Dia de chuva. Cais do Sodré. Descemos as escadas de cimento que dão acesso à plataforma. À minha frente segue um homem com mais de sessenta anos, fato e gravata, pasta numa mão, chapéu de chuva, dos compridos, na outra. Óculos na cara.

Ao descer, o chapéu de chuva bate num degrau, ressalta para as pernas dele, ele tropeça. Tem à sua frente seis degraus. O primeiro impacto com o chão é feito com os joelhos, três degraus mais abaixo. Não larga a pasta nem o chapéu. O segundo impacto é feito já na plataforma onde bate com estrondo e completamente desamparado com a cara. Neste momento arrepiei-me porque todo o peso do seu corpo ficou, por instantes, suportado pelo rosto! Os óculos resvalam para a testa. Uma daquelas pecinhas que apoiam no nariz esbarra numa ruga da testa e corta. Quando, após uns momentos, o senhor se levanta com a ajuda de alguns de nós, está tonto, não sabe onde está nem como aconteceu aquela queda. Tem os óculos cravados na testa. Tira-os por instinto e o sangue, que já jorrava por cima de uma vista, invade-lhe a cara. Chega apoio qualificado. Devo assinalar que os seguranças foram rapidíssimos a vir ajudar. Chamam uma ambulância e o senhor começa a voltar a si.

Um acidente violento e desnecessário a marcar um fim de tarde chuvoso. O dia seguinte amanheceu alegre e solarengo. Espero que para ele também. Espero que o acidente seja só a memória de um susto.

Curtas do Metro - Risco e Imprudência


Risco e Imprudência
A vida é feita de riscos. O risco faz parte de estar-se vivo. viver sem riscos não é viver, é sobreviver, passar o tempo, qualquer coisa, mas não é viver. Ainda assim, mesmo eu, que sou um adepto do risco, acho que é preciso calculá-lo, medi-lo e correr o risco com a margem de segurança que permita acreditar na superação, no sucesso. Ou seja, correr riscos é uma coisa, e é saudável, imprudência é outra.

Hoje assisti a uma imprudência arriscada. Quando mudei de linha na Baixa Chiado e apanhei o Metro para o Cais do Sodré, já lá estava uma composição parada. Tendo em conta a distância a que ela estava de mim e o facto de já toda a gente ter entrado, percebi que já não a apanhava. Sobretudo porque, uma vez toda a gente lá dentro, é muito curto o período de tempo até que toque o alarme sonoro de fechamento de portas e as ditas se cerrem. Decidi continuar a caminhar calmamente e esperar pelo próximo.

O alarme soou, passou por mim, a correr desenfreadamente, um jovem com menos de vinte anos, as portas começaram a fechar, quando ele chegou junto delas, as duas portas já tinham percorrido mais de metade do percurso até se encontrarem, ele já não cabia, até porque levava uma mochila, colocou uma mão em cada porta e começou a fazer força para que recuassem, as portas estavam a ganhar e cada vez se fechavam mais, ele não desistiu, quando as portas estavam quase fechadas, as costas das mãos dele encostaram-se uma contra a outra, ele continuou a fazer força, as portas cederam um pouco até que ele conseguiu meter a cabeça dentro do comboio, continuou a fazer força até que o corpo passou completamente lá para dentro, as portas fecharam-se, a composição partiu.

Fiquei aterrado porque vi o corpo dele meio dentro, meio fora do comboio, entre a plataforma e o interior da máquina.

Importa dar aqui seis simples informações:
1) Na plataforma há uma linha amarela para além da qual não se deve passar exceto se as portas estiverem abertas.
2) Há um alarme sonoro que indica o fechamento das portas.
3) Há um aviso sonoro que solicita às pessoas para não forçarem as portas.
4) Há um autocolante EM CADA PORTA que avisa para não se forçarem as mesmas após o alarme de fecho.
5) Há um autocolante EM CADA PORTA que avisa para os passageiros não colocarem o corpo entre as portas durante o fechamento.
6) Há um aviso sonoro que alerta e previne para o espaço entre a plataforma e o comboio.

O rapaz lá foi à vida dele. Deve ter ganho quatro minutos (!), mas podia ter perdido tudo naqueles instantes. Correu um risco. Mas, para quê? Por quê? Quatro minutos?
Importa referir que, mesmo não se registando acidentes muito graves, todos os anos há centenas de acidentes com o Metro, quase todos causados por imprudência na utilização do recurso. Há sistemas de segurança, mas com este tipo de atitude não há sistema de segurança que funcione.

Curtas do Metro - A Senhora Gira


A Senhora Gira

Uma destas manhãs frias, a Rapariga do Riso Fácil, a Rapariga com Brinco de Pérola e o Escritor saíram do comboio para o Metro em perfeito alvoroço. Iam bem dispostos. Quando entraram, havia vários conjuntos de quatro lugares com três assentos livres e um ocupado. Uma delas perguntou, Onde é que sentamos? E o Escritor, com seu natural atrevimento, respondeu, Neste aqui, esta senhora é mais gira. E era!

Alta, pele clara, com um pouco de blush a dar uma corzinha, casaco vermelho com enormes botões negros, saia de fazenda cinzenta, curta, deliciosamente curta, sem exagero, e usava daquelas meias com buraquinhos... cabelos alourados e os olhos pequeninos e sorridentes. E foi isso que ela fez. Sorriu.

Demos-lhe os bons-dias, apresentámo-nos e envolvemo-la na nossa conversa mesmo sem ela dizer nada! Ela estava exatamente entre achar-nos piada e pensar se estaríamos a exagerar, mas o facto é que não costuma começar os dias com tanta jovialidade a rodeá-la. Tratámo-la sempre por senhora e o Escritor, justificou o facto, É que apesar do aspeto jovem, é melhor termos cuidado com o que dizemos, porque, vai-se a ver, e tem um namorado musculado com 1,80m. E finalmente ela falou: Não é namorado, é marido! Nós largámo-nos a rir e o Escritor completou: Vêem como é a vida? Tanto tempo sem dizer nada e quando abre a boca é para me ameaçar com o marido dela!

Ela desabou a rir, a Rapariga com Brinco de Pérola arranjou papel e uma caneta e demos-lhe o endereço do melhor blogue do mundo. Perguntamos-lhe o nome e a jovem senhora respondeu, Sou a... E nós somos a.. a... e o... pode dar-me o seu número de telemóvel? Nova gargalhada. Quando nos separámos na Baixa/Chiado, para os elementos do Clã tinha sido só mais uma viagem, para a Senhora Gira, foi a viagem incomum, aquela que ainda não lhe tinha acontecido, o dia em que se sentaram ao pé dela por ser a mais gira. E era! Ai o 1,80m!!!

Curtas do Metro - Solidariedade


Solidariedade


Ainda há gente boa.
O trabalho traz-me alguns dias mais comuns e, na generalidade, traz-me dias muito intensos. Todos os dias lido com diversas áreas de atuação, todos os dias lido com dezenas de pessoas e todos os dias uso diversas ferramentas de trabalho. Por vezes, não tão raro quanto gostaria, saio mesmo muito cansado do trabalho. E é por isso que esta história existe.

Arrastei-me até ao Metro. Era tarde e ainda tinha pela frente duas horas e meia de viagem. Sentei-me e quase de frente para mim, uma senhora de avançada idade seguia olhando o vazio. Baixei a cabeça e segurei-a entre as mãos. Antes de chegar ao comboio, onde queria dormir um pouco, decidi não ver luz, passar pelas brasas momentâneas do Metro. Alguns instantes depois, um segurança toca-me no ombro e quando levanto a cabeça, ele diz-me, Está-se a sentir bem? Estou sim, obrigado. Só um pouco cansado. A senhora não se conteve, Olhe que não, olhe que não, este senhor ia mesmo a sentir-se mal... se não ia, parecia...

Apercebi-me, depois, pela conversa do segurança, que a velhinha se levantara do seu lugar e fora cambaleando carruagem a fora até encontrar um segurança para me ajudar. Até queria que eu chamasse uma ambulância, veja lá! E eu perguntei, Mas estou assim tão mal encarado? Não! Há pessoas que gostam de ser solidárias...

Não disse mais nada. Antes de sair, agarrei as mãos da senhora e beijei-lhas. Muito Obrigado, disse. E depois fiquei a pensar naquela frase, Há pessoas que gostam de ser solidárias... O mundo ainda não está perdido. Pelo menos entre a Baixa/Chiado e Santa Apolónia!

Curtas do Metro - Elegância Monocromática

Elegância Monocromática

Sem história. Só uma pessoa. E há pessoas sem história? Não! Mas esta pessoa não tem história para mim e, contudo, é fantástica! Tão fantástica quanto discreta.

Quase todos os dias nos cruzamos ali algures entre a Baixa/Chiado e o Cais do Sodré onde apanha um dos autocarros que uso para chegar ao trabalho.

É magra e quase alta. Tem uma silhueta esguia e fina. Uma pele claríssima donde emergem os olhos tristes e os lábios bem definidos, desenhados com precisão geométrica fazendo um W invertido. E, a emoldurar este quadro, o cabelo. Uma cabeleira longa e lisa de um negro espesso e brilhante. Tem sempre um ar sério, de dia por começar, o passo é miudinho e despachado e desliza deixando para trás a marca da sua suave presença.

Mãos largas, pulsos finos, um deles tatuado sem excesso e com gosto, música nos ouvidos. Sempre.

O traço que a distingue das outras pessoas no turbilhão do quotidiano, é vestir integralmente de negro. Sempre. Botas negras, sapatos rasos negros e, no verão, sandálias negras. Calças de ganga ou sarja, sempre negras. Pode trazer saias compridas, a rasar o chão. Sempre negras. Por vezes, junta uns apontamentos em renda ou tule, mas sem nunca mudar a cor. As blusas são negras, como são negros os casaquinhos de malha que, uma vez por outra, veste a cobrir-lhe os ombros. Normalmente, traz uma mala negra, tem uma original, de que gosto particularmente, com uma teia de aranha. Óculos de sol, largos e redondos. Negros!

Os poucos apontamentos de cor que lhe notei são discretos. Uma blusa encarnada a despontar cor por baixo de uma outra negra com transparências, assim como que a anunciar, no escuro, o fulgor do vermelho. Uma renda azul-petróleo, discreta, a tornear os ombros cobertos de negro.

Há ali todo um culto, uma devoção monocromática, uma simplicidade na continuidade da escolha. E, no entanto, quando passa, arrasta luz consigo.

E lá vai ela para o trabalho, passo pressuroso e miúdo, corpo esguio e definido, elegância monocromática a despertar-me para o dia, ali ao Cais do Sodré, com a pele alva a sobressair-lhe do negrume das roupas.

É daquelas pessoas que marca. Um dia destes não me cruzei com ela e senti uma falta. Decidi escrever. Quando nos faz falta uma pessoa que não conhecemos é porque, quer queiramos, quer não, já nos marcou. E esta eu percebo porquê. Consegue, dentro da restrição da cor, transportar leveza e elegância. É curiosa esta cidade. São curiosas as pessoas nela. Pode acontecer que não nos pertençam, não as conheçamos, sequer, e nos façam falta. Quando a não vejo, sinto falta do colorido da sua elegância monocromática.

Sem história. Eu disse.

Curtas do Metro - Medições


Medições

Nada de extraordinário, hoje, no Metro. Por isso dediquei o tempo a medições e fiquei surpreendido. Entre o Cais do Sodré e Baixa/Chiado, o Metro demora cerca de 1m 35s. Depois, entre Baixa/Chiado e St.ª Apolónia demora cerca de 3m 45s. É evidente que se torna necessário somar algum tempo que se gasta na mudança da linha verde para a azul na estação de Baixa/Chiado.

Mesmo assim, não erro muito se disser que é possível ir de Metro desde o Cais do Sodré até St.ª Apolónia em cerca de 8 minutos. Só há uma palavra para isto: imbatível!

Curtas do Metro - O Legado de Eva

O Legado de Eva

O Metro anda diferente. Pelo menos, em algumas estações. Acho que, através de um acordo com a PT, foi instalada uma linha de luz intensa de cor azul metálica ao longo da plataforma. A ideia é, por um lado, fazer publicidade à PT cuja cor publicitária relacionada com as zonas de acesso WiFi é o referido azul e, por outro, criar um alerta luminoso entre o espaço entre a plataforma e a carruagem. O efeito é engraçado porque a luz acende-se quando o Metro chega e apaga-se assim que parte. Faz lembrar o ambiente tecno e metálico criado no filme "Tron Legacy", ou seja, "O Legado de Tron".

Estava nestas reflexões, sobretudo a pensar em tirar uma foto, que tirei mesmo, e passar a colocá-la nas Curtas do Metro em vez da que tenho usado, quando o Legado de Eva se sobrepôs na minha atenção e no meu campo de visão ao do Tron!

Chegou uma moça, aí com os seus 18 anos, mais coisa, menos coisa, blusa de cavas, sandálias destas novas que quase só têm a sola e uns calções de ganga muito curtos, desfiados, com pedacinhos de tecido pendentes. Tinha um tom de pele bronzeado, era magra, olhos verdes, cabelos escuros, lisos e compridos.

Tudo isto é normal. O que não era normal é que levava uma folha como, ao que parece, Eva trazia no Jardim do Éden. Com uma diferença. Esta folha não estava à frente, estava atrás, por cima dos calções, teimosamente enfiada entre as nádegas. Algumas pessoas repararam e entreolharam-se, mas ninguém teve coragem de lhe dizer, Olhe, desculpe, tem uma folha enfiada no rabo!

Ninguém, não é bem assim. Houve um jovem que se aproximou dela cheio de coragem e com um ar sério e apreensivo lhe disse:
- Desculpe, tem uma folha aí atrás.
E quando disse aí atrás, apontou com o dedo para o rabo dela. E foi então que se revelou o Legado de Eva. Há coisas que herdamos e não acontecem por acaso. Ela olhou-o, sorriu e respondeu:
- Ah, não faz mal. É de propósito!

Curtas do Metro - Contradição Vocabular

Contradição Vocabular


Há já muito tempo que não presenciava um daqueles fugazes, mas insubstituíveis momentos no Metro em que, da amálgama de normalidade, emerge uma situação digna de nota. Esta, vale pelo requinte vocabular.

Foi ao fim da tarde, na plataforma da linha amarela no Marquês de Pombal. Eram três senhoras com a idade situada ali no fim dos trinta, princípio dos quarenta. Duas estavam muito bem vestidas, cabelos arranjados, maquilhagem aprumada. E vociferavam para a terceira que estava vestida de forma mais humilde e penteado mais descuidado. Tentavam provar-lhe por A mais B que uma colega lá da clínica era desleixada, preguiçosa, não colaborava nem fazia nenhum e, ainda por cima, era queixinhas. E falavam para ela como se estivessem a ralhar com a outra. O discurso era audível e algumas pessoas sentiram-se incomodadas. Outras sorriram. E os sorrisos tinham a ver com o facto de os berros irritados delas serem produzidos em tom elevado e exaltado, mas com um sotaque afectado de "tia".

Ora, o verdadeiro contraste aconteceu quando a moça de aspecto mais humilde e desgastado fez uma última tentativa para defender a ausente. Aí, nesse momento, a mais produzida das queixosas levantou a voz e exclamou em tom muito VIP:
- E a tipa foi fazer queixa ao Dr. Ricardo, que eu não estava lá!... Então uma gaja já não pode ir fazer xixi?!

Risos abafados em volta.
Eu achei piada à contradição vocabular. É que a acompanhar com "gaja", "fazer xixi" é muito suave. Ou bem que endurecia a formulação do "fazer xixi", ou bem que suavizava a "gaja" e dizia, por exemplo, senhora gaja...

Curtas do Metro - Um Certo Odor


Um Certo Odor

Eu tenho um olfacto apurado. E sou muito sensível aos odores. Não esquisito. Só sensível.

Todos os dias faço o trajecto de Metro entre o Cais do Sodré e Baixa/Chiado ao final da tarde ou ao princípio da noite. Nunca tinha pensado em Lisboa como uma cidade balnear, mas há muito quem pense. São muitos, muitíssimos, os passageiros que entram àquela hora no Metro do Cais do Sodré e que, claramente, vêm da praia. Vai um homem encarcerado no fato e enforcado na gravata e eles passam de chinelos, areia nos pés e nas pernas, calções, toalhas ao ombro, t-shirts... algumas raparigas ainda com o top do biquini e uma saia, sacos de praia, chapéus-de-sol, pranchas, peles encarnadas e peladas do sol e conversas de...mar! É de fazer inveja. É curioso observar o Metro atravessado pelo folclore da praia à mistura com saltos altos, fatos e gravatas, pastas de trabalho penduradas das mãos.

Ainda não tinha decidido escrever sobre isto porque, sendo interessante, não me marcara. Hoje, contudo, senti um odor familiar, adocicado e inconfundível. Pairava, suave, na carruagem onde eu ia e, de repente, foi como se a praia fosse ali comigo, a envolver-me o espírito e o corpo. Quis perceber o que me transportava para a tranquilidade nostálgica das férias, que mar era aquele a entrar-me pelas narinas e a provocar-me os sentidos.

Concentrei-me e rapidamente o identifiquei. Viajávamos envoltos pelo odor espesso e suave de... protector solar!

Curtas do Metro - Reminiscências do Padre Borga

Reminiscências do Padre Borga

Hoje, quando cheguei ao trabalho por volta das 9h da manhã e fui cumprimentar a minha equipa de sala em sala como sempre faço, ia cantarolando, sem me aperceber, uma cantiga do Padre Borga. Sim, aquele padre do Entroncamento que grava discos e aparece na televisão. Era uma coisa de que não conheço bem a letra, mas cuja melodia fica facilmente no ouvido: Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia...

E, de repente, parei e perguntei a mim mesmo: Mas porque carga de água é que eu estou a cantarolar uma cantiga do Borga? Em pensamento nunca digo Padre.Tentei consciencializar. E consegui.

Entrei no Metro pouco depois das 8:40. Era o trajecto Baixa/Chiado - Cais do Sodré. A carruagem estava muito cheia junto às portas. Dirigi-me para o meio do corredor. Segurei-me ao varão horizontal de um banco. Ela tinha uma idade respeitosa. Os cinquenta já lá iam, por certo. Talvez até os sessenta. Nunca olhei para ela, mas pelo reflexo do vidro pude reparar que era uma mulher muito bem posta, com poucas rugas. O cabelo um pouco ralo. Ia de pé ao meu lado e segurou-se ao mesmo varão que eu. A sua mão, que não ficou a mais de um dedo de distância da minha, rápido deslizou e se encostou. Senti-lhe o calor. Pelo reflexo do vidro vi que olhava muito para mim. Tive o cuidado de não olhar de volta e fui fugindo com a mão, mas a dela foi-se sempre encostando. Até que cheguei ao fim do varão. A mão dela encostou-se e depois, sabendo que a minha estava encurralada, agarrou-ma completamente. E ficou ali, com a sua mão aberta envolvendo a minha. Eu estava indeciso entre o direito de não querer ser agarrado por uma estranha e o facto de não querer parecer rude ou discriminatório por tirar a minha mão daquele aperto forçado. Olhei de novo pelo reflexo do vidro. Ela continuava a olhar-me. Quando chegámos ao Cais do Sodré, eu saí, ela também. Nunca mais a vi. Era cedo. Estava bem disposto e não me apetecia interpretar aquilo. Veio-me à cabeça a cantiga do Borga em reminiscência longínqua, mas presente e, agora que penso nisso, acho que a cantei desde o Cais do Sodré até à 24 de Julho, elevador acima e depois no corredor onde me surpreendi cantarolando Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia...

Curtas do Metro - Não Mexas Nisso, Pá!


Não Mexas Nisso, Pá!
Estação de Baixa/Chiado, sentido Santa Apolónia.
Mais uma vez saí tarde do trabalho. São mais ou menos 20:30h. Venho a chegar à plataforma. Acabei agora mesmo de descer as escadas que lhe dão acesso. Do outro lado da linha, no sentido Amadora-Este, vinda do cimo das escadas, oiço uma voz feminina que grita de forma bem audível e em tom zangado, muito zangado:
- Não mexas nisso, pá!

Olho para trás no sentido do som e vejo um corpo de homem bem constituído, a rondar os quarenta anos, a voar e a rebolar escada abaixo até se estatelar no patamar intermédio com um estrondo surdo. Com ele rebolou uma mochila e um saco de papel que acabaram junto ao corpo. O homem ficou caído, imóvel. Uma rapariga de mini-saia azul-escura e uma blusa às riscas desce a escada. Ao lado dela vem um rapaz musculado com calças de ganga e uma t-shirt cinzenta. Apressa o passo. Quando passa junto do homem estatelado, o rapaz coloca o dedo em riste, baixa-se e grita-lhe:
- Nunca mais mexes no que não é teu!

Os dois acabaram de descer as escadas tranquilamente. Algumas pessoas rodearam o homem caído. Uma levantou-lhe um braço, mas ele não reagiu. O meu Metro chegou. Entrei, espreitei pelo vidro e vi o homem levantar-se amparado à parede. Parecia apontar no sentido do casal. O meu Metro arrancou. Troquei umas palavras de circunstância com uma senhora, mas nenhum de nós sabia mais do que isto. Gritos, um corpo caindo escada abaixo, mais gritos.

Curtas do Metro - Incógnita

Incógnita
Entre o Cais do Sodré e a Baixa/Chiado pouco depois das 18h.
Um casal em pé, lado a lado, encostado às costas de um banco do Metro. São ambos altos. Ele é um pouco obeso, calças de ganga, pólo encarnado, casaco de ganga, sapatos de vela castanhos. Ar abatido, barba por fazer, óculos redondos daqueles sem aro à volta da lente. Ela é um pouco obesa, chinelos de enfiar no dedo, calças leves, de linho verde, blusa preta colada às curvas cheiinhas da barriga e por cima um casaquinho do mesmo linho verde das calças.

O presente texto foi escrito por via das poucas, mas perturbantes palavras que trocaram um com o outro. Começou ela:
- Vais para casa?
- Não.
- Então?
- Oh, o que é que eu vou fazer para casa? Não está lá ninguém à minha espera! E tu?
- Também não.
- Então?
- A mesma coisa!
Fez-se um silêncio longo até que ela o quebrou:
- Olha lá...
- Sim...
- Porque é que a gente se divorciou?
- Sei lá!

O Metro parou. Tive de sair e não pude ouvir mais. Nem era preciso, a incógnita estava lançada.

Curtas do Metro - Lapsus Linguae

Lapsus Linguae
8:4o da manhã. Esperamos o Metro para o Cais do Sodré. Chega. Ao entrarmos, o baralho de gente que esperava entra e distribui-se. Como estamos todos à procura de um espaço onde possamos seguir de pé, nem olhamos uns para os outros. Só quando estamos lá dentro é que olhamos uns para os outros. Desta vez calhou-me um 13 no totobola, um poker de mão. Entro na carruagem, dirijo-me à porta oposta que está fechada, sou apertado pela multidão, levanto a cabeça e vejo quem está em volta. À minha direita uma moça muito interessante, formas muito bem definidas, pernas altas e redondas e peito muito generoso. Tem meias de vidro, calções brancos curtos, um casaco de cabedal lilás e o cabelo castanho encaracolado e com madeixas loiras. Pintou as unhas de azul. À minha esquerda uma moça um pouco mais magra mas cujas formas são igualmente perfeitas. Calças de sarja pretas, blusa com decote em vê às listas horizontais verdes clarinhas e brancas, sapatos lisos, cabelo preto liso e compriso, óculos rectangulares muito sensuais e um olhar castanho e doce. À minha frente a mais velha e generosa das três. Túnica branca colada aos seios redondos e generosos, calças de malha pretas coladas ao corpo, cabelo escuro e olhos muito bem definidos por um lápis firme. Era a mais velha, mas não era a menos interessante. E ali fico eu, entalado entre a visão do paraíso e a tentação do inferno. Tento desviar o olhar, mas não é fácil. Para onde quer que olhe há uma mulher atraente. A curta viagem chega ao fim. As portas abrem-se. Todos saímos. Ao sairmos, um homem pequenino, anafadinho, enfiado numas calças de ganga, numa camisa às riscas azuis e brancas fininhas e num casaco de cabedal coçado pelo tempo e pelo uso, vira-se para mim e diz:

- Ó chefe, hã, você ia bem tóreado!
- Toureado? Quer dizer torneado, rodeado...
- Ó isso!

Curtas do Metro - Perdida

Perdida
Esta "Curta" esteve para chamar-se "Capuchinho Vermelho". Acontece que a pessoa sobre quem vou escrever, sendo absolutamente igual e invocativa do Capuchinho Vermelho, não tem nada de Capuchinho Vermelho. Eu sei, parece confuso. Mas não é. O Capuchinho Vermelho era uma jovem com um vestidinho, um capuchinho vermelho, um andar saltitante, uma cestinha na mão e um ar inocente e perdido.

A pessoa que encontrei, de Capuchinho Vermelho, só tinha o ar inocente e perdido que, a avaliar pela invocação que logo se formou na minha cabeça, devem ser os aspectos mais importantes daquela personagem. Vejamos. Tinha os olhos azuis e cintilantes, uma tez muito alva, vestia um vestidinho cor-de-rosa com folhos pelo joelho e os mesmo folhos por cima do peito onde o vestido terminava pois era, como dizem as senhoras, um "cai-cai". Não tinha uma capa com capuz, mas um casaquinho branco de malha. Usava umas pérolas singelas nas orelhas. O seu andar saltitante não era porque fosse aos saltinhos, mas porque tinha umas sandálias muito altas que lhe davam um caminhar desequilibrado. E transportava, de facto, algo na mão, mas não era uma cestinha para levar à avozinha. Era uma mala preta com rodinhas dessas que se arrojam pelo chão. Ou seja, o meu Capuchinho Vermelho tinha tudo para o ser e tudo lhe faltava para que o fosse. Contudo, tinha o essencial. Um olhar admirado e perdido e um ar cândido e inocente.

Claro que, assim que a vi na estação de Baixa/Chiado, quis escrever sobre ela, mas, durante toda a viagem até Santa Apolónia, ela não me deu nenhuma razão para que o fizesse e, como os leitores sabem, as "Curtas do Metro" são histórias, não são meras descrições. E foi então que toda a minha sorte, o meu positivismo e a minha protecção divina funcionaram. Aconteceu algo de absolutamente extraordinário. O Metro parou em Santa Apolónia e como se trata de uma estação terminal toda a gente sai. Sai porque não há mais e sai porque é obrigatório sair do comboio nas estações terminais. Mas ela ficou sentada como que a tentar perceber porque é que todos saíam, depois ficou olhando o desenho das linhas como que à procura de uma resposta. E não saía. Eu percebi que ia haver coisa e atrasei um bocadinho o passo. Ela lá se resolveu a sair. Foi a última. E cá fora continuou a olhar para cima e para as paredes com ar inocente e perdido. Quase não andava. Eu esperei e perguntei:
- Precisa de ajuda?
- Sim, por favor. Estamos onde?
- Em Santa Apolónia.
- Mas isto não é a linha azul?
- É.
E a frase que disse a seguir justificou este texto. Foi fantasticamente reveladora. Ela era mesmo o Capuchinho Vermelho! Sabem o que disse? Disse-me para onde queria ir:
- Ah! Eu queria ir para o Jardim Zoológico.
Eu ainda lhe respondi:
- Pois. É na linha azul, mas na outra ponta da linha!
Saquei do mapa do Metro e mostrei-lhe que ela tinha de andar sete paragens na direcção oposta.

Ela agradeceu e desapareceu dentro da carruagem com a cestinha, o andar incerto, o ar cândido e inocente e o olhar perdido a caminho do Lobo Mau! Ou não!

Curtas do Metro - "Sandui-Chita"


"Sandui-Chita"

Não é bem uma curta do Metro. É mais à porta do Metro.
E também não é uma história. É só um apontamento.

Na estação do Cais do Sodré há um pequeno bar, daqueles feitos em materiais pré-fabricados, fica ali na confluência da saída do comboio, do barco e das escadas rolantes do Metro. Conclusão: tem muito boa frequência. Servem cafés, meias-de-leite, galões, bolos, sandes, croissans, chás, enfim, pequenos-almoços e refeições ligeiras. Chama-se "Sandui-Chita".

Em Lisboa deve haver centenas de pequenos bares destes o que não justifica esta curta do Metro. O que a justifica então? Dois aspectos. A eficiência das senhoras que servem e a extrema simpatia do senhor que está na caixa. Ele é daquelas pessoas que marca a diferença porque faz das pequenas coisas, coisas especiais. Uma pessoa chega ali pouco depois das 8:30 da manhã, pede um café duplo e uma merenda, ele tem dúzias de merendas num tabuleiro, todas quentinhas porque acabadas de fazer, mas é bem capaz de dizer "Sai um café duplo e uma merenda quentinha bem especial para este senhor que está cheio de fome!" E aquela merenda deixa de ser mais uma em vinte e passa a ser a especial merenda quentinha. Tenho reparado que, das pessoas de circunstância, ele vai observando os hábitos de consumo das que lá vão passando mais vezes e quando faz os pedidos invoca a particularidade de cada um. Ora, no meio da turba de milhares de pessoas que chegam, que partem, que passam, nós deixamos de ser mais um e passamos a ser aquele, o tal, o da merenda especial.

Esta atenção e este cuidado merecem uma referência neste cantinho. Porquê? Óbvio. Porque vivemos tempos de impessoalidade e agressividade e no "Sandui-Chita" somos todos especiais e com especial simpatia tratados! Com merendas quentinhas!

Curtas do Metro - Separados


Separados
18:01h. Estação do Cais do Sodré na direcção Santa Apolónia.
O Metro está parado fazendo um compasso de espera antes de se pôr em marcha. Está cheio. Não cabe nem mais uma pessoa. Ou melhor, vai caber mais uma. Duas é que não. Chegou um jovem casal de namorados, a rondar os 17, 18 anos. Ele entra, o alarme de fechamento de portas soa, ela não entra, ele estende-lhe a mão, ela estende-lhe a mão, depois encolhe-a, ela não entra, seria difícil, mas não impossível, ele não sai.

E é isto que eu não percebo. Isto e o que se passou a seguir.

Ela acenou-lhe e fez uma cara triste. Ele acenou-lhe e riu-se. Mas, afinal, o tipo estava a rir-se de quê?

Curtas do Metro - Passa! Passa!

Passa! Passa!
Fim de dia. Chego a Santa Apolónia. Saio do Metro. Não vejo ninguém conhecido nem nada interessante. Quando me aproximo do controlador magnético para passar o meu cartão, quem é que está mesmo à minha frente nos seus característicos trajes negros? A Mulher Vampiro!

O cartão dela não quer abrir a porta. Coloco-me atrás dela, passo o meu cartão, a porta abre e eu digo:
- Passa! Passa!

Ela passou e eu logo atrás dela. Os dois duma vez. Já do outro lado, rimos a bom rir. Tinha sido o nosso pecado, a nossa pequena irreverência do quotidiano:
- Olhe lá, sabe que uma vez por mês é preciso pagar o passe?
- Engraçadinho!

Curtas do Metro - The F Word

The F Word
Cais do Sodré. Caminhamos para os controladores. Atrás de mim vêm duas vozes novas, bem dispostas e bem falantes, falando de compras e tratando-se por "amiga". Passam-me. Vão com calções brancos de sarja, camisolas de cavas, uma castanha e outra verde-escuro. Usam sandálias. Têm um aspecto elegante e polido e, na minha avaliação, educado.

Ao passar pelo controlador, ultrapasso-as. Depois do controlador volto a ouvi-las atrás de mim. Estamos ao cimo das escadas. O Metro está lá em baixo e elas dizem:
- Corre, corre, ainda o apanhamos.
- Achas? Vamos lá!

Os alarmes de fecho de portas soam. É a partida. Para qualquer um de nós é impossível apanhá-lo e elas dizem uma a seguir à outra:
- F***-se!
- Que se F**a!

Moral da história: erros de avaliação!

Curtas do Metro - Tentativa de Assassinato por Esmagamento


Tentativa de Assassinato por Esmagamento
Manhã muito bem disposta. Conversa animada entre a saída do comboio e a entrada no Metro. Vou eu, o RB e a Mulher Vampiro*. De repente, quando nada o fazia prever, sem motivo aparente, a Mulher Vampiro atira-se violentamente para cima de um simpático e incauto passageiro que fica esmagado entre a figura negra e sólida da Mulher Vampiro e as costas do banco. Por momentos, pensei que ia mordê-lo no pescoço!
Ela reequilibrou-se como pôde e nós, como bons cavalheiros, pedimos desculpa ao senhor em nome dela. Fizemos ali um bocado de conversa a ver se ele percebia que ela não era má pessoa. enfim, teve um momento de excesso... ou de fraqueza! Viro-me para o RB e digo:
- Achas que foi de propósito?
- Não. Desequilibrou-se com o arranque do Metro.
- Ah, pois. És capaz de ter razão!

Demos um cartão do blogue ao passageiro que, quando saiu, levava um ar bem disposto. Ou isso, ou estava aliviado por se ver livre da fúria da Mulher Vampiro!

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*Para quem a não conhece aqui das Curtas do Metro, trata-se de uma personagem do Clã do Comboio. Para a conhecer melhor, clique aqui.

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