O escravo coloca uma medida de água para
cada três de vinho numa ânfora e serve copiosamente os convivas. Primeiro, é
servido um prato de peixe. São robalos assados, servidos com verdura e passas
de uva. Depois, um extraordinário lombo de javali recheado com ameixas secas e
acompanhado com castanhas cozidas. Há pão e carnes de aves frias. Há mel e
queijos e há fruta. Os escravos vão servindo as iguarias e os convivas, seis
homens e três mulheres, vão conversando, comendo e bebendo. Bebendo muito. Os
escravos vão trazendo tabuleiros de comida donde os convivas se servem com as
mãos que limpam aos guardanapos e esses tabuleiros são levados e substituídos
por outros e o vinho continua a jorrar. Conversam, debatem, contam histórias
libidinosas e chegam as frutas que são despejadas no triclínio em taças enormes
e é nesse momento que o gesto acontece, que se dá o evento, que se inicia uma
sucessão de acontecimentos que não têm como ser parados.
Cornélia estende um braço para as uvas e
estica um pouco o corpo para chegar-lhes e, no momento em que se encontra tombada
para a frente, a visão do seu peito sardento e sensual abre-se para Marco
António, um companheiro e amigo de Terêncio. Ele vê o que há para ver e deixa
os olhos presos à visão. Ela apercebe-se do que mostra e, mais do que tudo,
apercebe-se que ele vê observando-lhe a excitação colada no olhar.
E chegam as dançarinas e bailam à volta dos
homens simulando carícias. Ela sorri. E chegam os dançarinos e bailam à volta
delas, um deles poisa um pé na beira do assento dela e oferece-lhe a perna
musculada à visão. Ela trinca o lábio inferior, encolhe os ombros em sinal de
traquinice e passeia dois dedos ao longo da perna do dançarino. Marco António
está excitado, entusiasmado, e os seus olhos faíscam cólera por não estar ele
no lugar do dançarino.
É a hora nona. Os banhos públicos começam a
encher-se de gente. Marco António estava a levantar pesos e agora está deitado
de barriga para baixo à espera que os rapazes lhe façam uma massagem retemperadora.
Está nu. Cornélia passou umas ligaduras à volta dos seios para os disfarçar,
apanhou os cabelos, subornou quem devia e entrou na sala de massagens. Estava
com dois rapazes massajando o corpo musculado e bem definido de Marco António
que quase adormecera. Ela dispensa os outros massagistas com um aceno de cabeça
e com as mãos lubrificadas empreende uma massagem forte e tonificadora. Sem
abrir os olhos, sem mexer um músculo, Marco António pronuncia em tom pausado:
- Quem pensas tu que enganas Cornélia?
A surpresa ruboresce-lhe as faces e quando
recupera o fôlego, ela responde tentando continuar a simulação de que é um
rapaz:
- Como disse, meu senhor?
- O teu senhor é Terêncio. E deixa-te de simulações. Eu conheceria
essas mãos em qualquer circunstância.
- Perdão, meu senhor, creio que estas mãos nunca lhe tocaram.
- O corpo não, mas têm remexido a minha alma desde o momento em
que passearam na perna do dançarino. Conheço-te a forma das mãos, a espessura,
sei qual a pressão que pode fazer na minha carne e conheço-lhes o toque mesmo
que não me tenham tocado.
Cornélia não respondeu com palavras no início.
Continuou a massajar-lhe as costas, depois as nádegas, depois as coxas, em
movimentos até ao joelho e de regresso às
nádegas e de cada vez que regressava a elas estendia mais os dedos até acabar
por acariciar-lhe os testículos e o pénis. Quando o sentiu ereto e excitado,
quase levado à loucura, falou:
- Amanhã, à hora quarta no caldário.
Ele percebeu que o convite para aquela hora
significava que ela queria estar a sós consigo, acabar o que começara. À hora
quarta, os banhos estavam desertos.
Marco António entrou, despiu-se na sala de
óleos e massagens, untaram-lhe o corpo e rasparam-no para que ficasse limpo e
suave. Ele dirigiu-se para o caldário. A sala estava já repleta de vapor, quase
não se via nada, na piscina não havia ninguém e no anfiteatro à volta dela,
aparentemente, também não. Ele sentou-se e esperou.
Ela fê-lo esperar. Ele duvidou. Tinha a
cabeça entre as mãos olhando o chão, ouviu um restolhar de passos e olhou em frente. Da névoa densa
do vapor emerge Cornélia com seu corpo esguio e sardento, traz somente uma
túnica transparente. Vem andando devagarinho, medindo cada passo. Quando está a
um passo dele deixa tombar a túnica. Marco António vê-lhe os seios, o abdómen
perfeito, um triângulo de seda geometricamente desenhado no púbis, arde em
prazer e sabe que ela também. E diz-lhe:
- Vem.
- Irei.
Dá o passo que falta, senta-se no colo dele,
estão frente a frente olhando-se nos olhos, e é olhando-se nos olhos que o sexo
dele mergulha lentamente no universo quente e húmido que ela tem para
oferecer-lhe.
A poderosa Roma estava, finalmente, a seus
pés!