O Clã do Comboio - Eh pá, deslarga-me!


Eh pá, deslarga-me!
É o mundo que temos. É a sociedade que temos. São os costumes que vamos tendo e a que nos vamos submetendo. A pequena conversa que vou transcrever-vos aconteceu pela manhã de uma segunda-feira sendo que havia estas caraterísticas: o primeiro interlocutor queria muito falar. Acordou activo e dinâmico. O segundo ainda estava no resto do fim-de-semana e queria mais dormir do que falar. Como eram amigos, teve de falar. Acontece que a sintonia era muito... assíntona!
------- Então, já foste ver o Continente?
------- Eu não. Quero lá saber disso.
------- Eh pá, é grande. Tem muita coisa.
-------Não são todos assim? Quando lá tiver alguma coisa para fazer, vou lá. De propósito não vou.
------- Eh pá, mas este está mesmo grande!
------- Pois...
------- Então e o Domingo, como foi?
------- Foi bom. Estive em casa a descansar. Andei por ali, vi televisão, estive com os miúdos. Nem saí de casa.
------- Eu fui ao Lidl!

O Clã do Comboio - A Mulher Vampiro


A Mulher Vampiro
As pessoas com que entramos para o interregional das 7:18h. não são as mesmas com que saímos. Embora entremos sempre com as mesmas e saiamos sempre com as mesmas. Há vários dias para cá que sai em Santa Apolónia uma mulher vampiro que não sei onde entra.
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O título do texto bem como a atribuição à senhora do epíteto "mulher vampiro" podem ser enganadores. Que eu saiba, a senhora não mordeu ninguém. Chamei-lhe assim porque ela retrata, mais do que isso, ela encarna, o aspecto destes vampiros do século XXI que nasceram na literatura romântico-negro-vampiresca que depois passou para o cinema e finalmente acabou nas telenovelas. Há vampiros bons, maus, galãs e heróis, vilãos e horríveis, criminosos e vítimas.
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É todo um universo paralelo onde as personagens são como qualquer um de nós mais o pormenor de morderem pescoços e sugarem sangue. Ora, essa tribo tem também suas modas de vestir e pentear. A mulher vampiro foi assim chamada por via do aspecto que a seguir se descreve.
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Antes de chegarmos a Santa Apolónia, ela dirige-se para a porta. Gosta de ser a primeira a sair. Sapatos pretos. calças de fazenda pretas ao longo das pernas. Uma camisola de lã preta e um casaco de grossa fazenda... preta. Acima de todo este negrume emerge uma face esguia e longa muito pálida, muito clara, onde brilham olhos intensamente azuis. O cabelo não é castanho nem ruivo. É comprido por cima dos ombros a descair para as costas e está pintado de uma cor fulva que faz lembrar uma labareda. E mais não sei. A não ser que podia estar num cartaz de cinema em vez de viajar no interregional das 7:18h.

De Negro Vestida - LI


De Negro Vestida – XV
Manuel Matos Vasques, o inquieto, nem na morte descansou. A verdade, por estranha que pareça, é que teve de ser sepultado duas vezes antes do eterno repouso. E, mais curioso ainda, duas vezes duas famílias dele se despediram. Duas vezes dois padres diferentes o encomendaram ao Senhor e, por isso mesmo, duas vezes por ele choraram.
Nada há a imputar em sede de responsabilidades ao Senhor que, não só é do universal conhecimento que não erra, como, ainda que tal impossibilidade fosse possível, a este caso se não aplicaria pois se tratou de inequívoco e claramente detectado erro humano. Uma distracção, como sucede na maioria das vezes que um de nós se engana.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio - Perder o Comboio

Perder o Comboio.
Pois é. Acontece. É uma incrível sensação de impotência. E não falo de perder o comboio por meia hora. Falo-vos do seguinte.
Sexta-feira. Véspera de fim-de-semana. O trabalho complica-se um bocadinho. Nem penso no comboio. Quando acabo o que estou a fazer são 18:55h. Há um intercidades às 19:30h. Só falta ir da 24 de Julho até Santa Apolónia. Uma pessoa que tenha passe, como é o meu caso, paga só 4€ por um bilhete de intercidades. Vale a pena. A viagem demora menos. O autocarro chegou às 19:15h. Pensei que tinha perdido o comboio e tirei daí o sentido. Acontece que àquela hora não havia trânsito. Em várias paragens não havia ninguém a entrar nem a sair o que significou não parar. Chegámos ao Terreiro do Paço e são 19:25h. Telefono para casa a dizer que o perdi. Mas daí em diante o autocarro faz a marcha contínua quase sem parar. Só uma paragem na Casa do Conto. São 19:29h. e chegámos a Santa Apolónia. Atravesso a rua a correr. Tenho de comprar o bilhete. Há duas pessoas na fila. A primeira sai. Olho o comboio. Está lá! A segunda tira o bilhete. Ouço um sinal sonoro forte. Tenho o homem da biheteira a perguntar-me:
------- Diga...?
Olho o comboio. Está a deslizar.
------- Não é nada, obrigado.

O Clã do Comboio - A Mulher que Sofria da Visícula

A Mulher que Sofria da Visícula
Por vezes gosto de escrever os textos limitando-me à reprodução do diálogo. E a razão é simples. A sua riqueza dispensa descrições. Ainda assim, é melhor dizer-vos como era esta senhora.
Uma saia de fazenda cinzenta abaixo do joelho, meias de lã grossa, o cabelo apanhado atrás com um tótó, um casaco castanho claro de fazenda grossa com botões em castanho escuro, óculos, um envelope grande com exames no colo e em cima dele uma mala preta enorme. E falava! Falava com as pessoas que estavam de frente para si como se as conhecesse e explicava-lhes coisas como se lhe tivessem perguntado. A determinada altura, alguém começou a responder-lhe mais para a senhora não parecer tão alucinada do que para saber coisas ou conversar com ela. O marido, pequenino, rosado e cheio, num fato cinzento onde mal cabia, ia sentado ao lado dela mas parecia não ter autorização para falar.
------- Vou ao médico, sabe. Estou muito doente. É a vesícula. Sofro muito da vesícula.
------- Leva exames...
------- Levo, são raios X.
------- À visícula...
------- Não, credo, não se fazem raios X à visícula. É ao torax. O médico diz que esta tosse é esquisita, mas não tenho nada nos pulmões. Tenho esta tosse desde miúda. Já a minha mãe a tinha. Foi de andar no campo. Mas eu sofro é da vesícula.
------- Já fez exames...
------- Já. Tantos! Olhe, ainda há duas semanas me picaram todinha. O médico diz que os ossos estão fracos. Falta de cálcio. Mas não pode ser. Eu sempre fui rija. Foi de ser criada no campo. Sabe, eu sofro muito é da vesícula.
------- Então e os exames?
------- Olhe, inda há pouco tempo fiz um taco. Parece que tenho qualquer coisa na cabeça. Mas não, eles sabem lá... sempre tive boa memória. As coisas que eu me lembro!
------- Mas já te vais esquecendo...
------- 'Tá calado, homem, não serves p'ra nada. Já a minha mãe tinha boa memória. O meu problema é a vesícula.
------- Então, mas fez exames à visicula ou não?
------- Eu não! Nem preciso. Uma pessoa sente-se e sabe o que tem...
------- E o médico, o que diz da visícula?
------- Diz que não tenho nada, mas eles não percebem nada. Eles agora saem tão novinhos das universidades. Podem lá agora saber, não podem! Eu é que sei o que eu sofro com a vesícula. Trago aqui uma pontada há anos. Se ao menos algum médico me visse isto e me receitasse qualquer coisa... mas a gente às vezes vai ao médico e eles nem um comprimido p'rás dores receitam... não sabem nada.

Natureza Viva


Este blogue também faz serviço público, nomeadamente, procedemos à publicação de textos de amigos e conhecidos que no-lo solicitem. Outras vezes, deparamo-nos com os textos e pedimos autorização para os publicar aqui. Foi o que aconteceu com este. Ora digam lá que não valeu a pena?
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Natureza Viva
Pela estrada, caminhei energicamente porque o ar estava fresco e, até, ligeiramente frio... Mal deixei de ver as casas e mergulhei na verdura das árvores que ladeavam o caminho, percebi que estava já imersa na mundivivência do bosque e que a floresta me acompanhava. As raras viaturas que passavam pontualmente deixaram de existir. Estava bem agasalhada, mas ainda assim, calcei as luvas, puxei o pelinho do casaco junto às faces para proteger as maçãs do rosto e os lábios do frio, e desci até ao vale, metro após metro...
Por toda a parte, do meu lado da estrada, mais perto, do outro lado ainda, mas bem audíveis, chegavam ao meu tímpano sensível milhentos sons esfuziantes do canto matinal das aves que não distinguia, abrigadas nas belas ramagens outonais de tons verdes diversos, amarelos, laranjas e castanhos. Eram estridências, guizos e assobios delicados ou viris, mas sempre diferentes, dando eco aqui e ali a um apelo, um som encantatório, uma mensagem cruzada e secreta...
Junto aos meus pés, uma bola pequena de uma cor pungente de cereja, ela própria revestida por minúsculas bolinhas de aspecto quase aveludado. Caí em tentação, olhei a árvore donde provinha o fruto promissor: a árvore do medronho.
Sem pensar, ajoelhei-me, peguei delicadamente no fruto, percebi que estava limpo e pelo tacto, muito maduro... Num impulso de sofreguidão, desejei prová-lo. Com a língua, abri-o facilmente e descobri que estava, como parecia, maduríssimo. Suguei com fervor a polpa macia, de um amarelo alaranjado vivo. Sabia maravilhosamente bem, evitei comer a pele por prudência e ansiei por mais. Olhei para cima. Havia na árvore bolinhas de um vermelho apetitoso, lá no alto... E eu cheia de pressa, sem a possibildade de improvisar trepar pelo muro coberto de hera até à árvore esguia...
Prossegui a caminhada e nem me senti tonta, o efeito do álcool não deve aparecer no fim da estação...Ou será por só ter tido a ocasião de pecar tão pouco?
TR

Balanço


Tenho recebido imensas mensagens de correio electrónico com perguntas diversas. Vou responder às cinco mais frequentes?
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Como fazes para conseguir manter o blogue actualizado ao longo do dia?
Simples. Escrevo no comboio e em casa e onde calha. À noite passo os posts para o programa de edição, mas não publico todos, só alguns. Activo o sistema de publicação por telemóvel e, ao longo do dia, com uma simples sms publico os posts que estão editados para publicação. São as tecnologias no seu melhor!
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Há mais textos sobre o comboio e o autocarro?
Isso nem se pergunta. Ultimamente tenho ouvido música para não me aperceber de tantas histórias porque não consigo acompanhar o ritmo a que acontecem e assisto, pois a escrita dá muito trabalho. Para escrever ou para passar para o blogue estão as seguintes: a mulher que queria estar em privado no comboio; a mulher que sofria da vesícula; a mulher que dizia palavrões; a mulher vampiro; elegância enlatada; o rapaz com cabelo espetado; o casal desigual; doenças a bordo.
Tudo isto será aqui publicado, só não sei quando!
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Como vai o romance "De Negro Vestida"?
Vai bem. Já tem 50 capítulos publicados como sabem e já estão mais 11 escritos que falta passar e publicar. Começa a caminhar para o fim embora ainda falte um bocado. Não publico mais porque dá muito trabalho passá-los do manuscrito para o processador de texto e depois para o blogue.
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Onde vais buscar as citações?
Umas são-me ditas em conversas. Outras oiço na rua ou nos transportes, outras retiro de e-mails que me escrevem e outras emergem das minhas leituras.
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Como é que tens tempo?
Durmo pouco! Mas não me arrenpendo. Apesar de gostar de dormir, detesto a ideia de desperdiçar vida dormindo. Prefiro viver. Durmo entre 6h e 1,5h. por noite.
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Nota: a escrita é maravilhosa e viciante, mas dá, efectivamente, muito trabalho! Boas leituras.

A pedido

Histórias do Autocarro 28 - A vida dela em 20 minutos

O autocarro 28 que liga o Restelo à Portela e volta anda a surpreender-me.
Será possível conhecer a vida privada e íntima de uma pessoa entre a Av. Infante Santo e Santa Apolónia num percurso que demora entre 20 e 30 minutos?
Claro que sim. Desta vez havia pouco trânsito, não chovia, logo, a coisa foi breve. Vinte minutinhos apenas. Tinha uma voz serena e um olhar tranquilo. O telemóvel pendurado ao pescoço, um fio para onde falava e outro com phones por onde ouvia. Assim que entrou, a geringonça apitou e a conversa começou. Falava olhando para a rua como se estivesse a conversar com o vidro. Não sei se chegou a aperceber-se de como se estava a expor, mas ficámos todos a saber o seguinte:
- Estado civil.
- O que pensa do ex-marido e família.
- De como o processou.
- Porque o processou.
- Que indeminização espera.
- Quantos filhos tem.
- Como se chamam.
- Porque não quer de novo homens na sua vida.
- Que companheiros tem.
- Como se encontra com eles.
- Onde se encontra com eles.
- Como se chama a pessoa que propicia os encontros.
- Onde vai estar no próximo fim-de-semana.
- Com quem vai estar no próximo fim-de-semana.
- O que pensa da vida.
- Como pensa que as pessoas se devem comportar umas com as outras.
- O que pensa da amizade e o que vale para si.
Tudo enquanto falava com, e cito, "O cota mais curtido que existe" que, também se soube, era seu tio e se chamava... sim ela disse!

Hoje, calhou-me este.

Consequências financeiras do fluir do tempo


Sequência cronológica de pensamentos na manhã de cada dia 23. Isto já não devia constituir surpresa, mas surpreende-me sempre. É no que dão as novas tecnologias e os e-bankings e o diabo a quatro. Qualquer dia, todas as palavras começam por e-. Por exemplo, uma e-conversa no e-banco. Boa tarde, o meu nome é e-João. Boa tarde, eu sou a e-Mónica, e sou a sua e-gestora pessoal. O que faz uma e-gestora pessoal? e-inventa e-maneiras de e-sacar-lhe a massa e... toda!

Cá vai:
08:20h. - Eh pá, isto está mesmo mau.
08:30h. - Eh pá, talvez haja esperança para a Humanidade. Afinal até nem ganho mal. Este mês podia...
08:40h. - Eh pá, isto está mesmo mau.

De Negro Vestida - L


De Negro Vestida – XIV
Pode um homem sentir-se profundamente apaixonado e não estar à altura dessa paixão?
Pode!
Acontece que os sentimentos, por serem fortes, não têm de extravasar-se ou dar-se a conhecer ou levar a caminhos de sucesso. Precisamente por serem fortes, podem inibir. E é assim que está vivendo Alberto Vieira e Amaral seu turbilhão interior. No mesmo momento em que decide entregar-se completamente àquela paixão e dedicar-se de novo a Maria de Lurdes e fazer-lhe juras de amor, lembra-se da face de Sandra, da sua reacção reprovadora e irascível, da invocação da mamã que provavelmente não aprovaria nada daquilo e encolhe-se. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Teoria Vagabunda sobre o Telemóvel

Andava um pensamento solto na minha mente. Irrequieto. Há pensamentos assim, nem saem, nem param. Interrogava-me a verdadeira necessidade de utilizar um telemóvel. Resolvi ignorar. Afinal de contas, com tanta gente a utilizá-lo, com tanta gente a possuir mais do que um, com tanta operadora vendo os lucros subir, quem seria a minha pobre e perdida alma para interrogar-se acerca do assunto?
Mas, sabem como são as ideias, quando germinam, irrompem e nascem, quer queiramos, quer não. A minha interrogação e a reflexão com ela, não nascera ainda porque ainda não adquirira forma nem vida. Hoje, contudo, enquanto regressava a casa, no comboio, com a música nos ouvidos, reparei que várias pessoas foram sucessivamente atendendo e chamando outras com seus telemóveis. A determinada altura, tinha cinco desses mágicos e pequenos telefones a funcionar à minha volta. Resolvi tirar a música dos ouvidos para escutar com clareza o que de tão importante e inadiável estava sendo comunicado.
Nada. Nem uma ideia! Rigorosamente nada que acrescentasse nada a nada. Meras trocas de palavras de circunstância que nem conversas se podem chamar. E havia até uma pessoa que já tinha o cabelo colado à face com o suor de ter o aparelho encostado ao ouvido dizendo nada, ouvindo nada. Combinaram-se umas horas, umas esperas, combinaram-se à distância umas coisas que podiam perfeitamente ter esperado para serem combinadas em presença.
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E fiquei pensando na minha comichão mental. Os telemóveis trazem-nos a todos combinadinhos, controladinhos, acertadinhos e estão a formatar os gestos das pessoas e a aniquilar a sua espontaneidade. Já ninguém espera por ninguém, já ninguém surpreende ninguém e já todos sabemos onde estamos todos e por isso mesmo não estamos sentindo a falta uns dos outros. E era importante que esperássemos uns pelos outros e nos preocupássemos e tivéssemos medo do que poderia ter acontecido. Esse sofrimento é um pilar do Amor. E já não se fazem surpresas nem há desculpas para que se não avisem todos acerca de onde estamos a fazer o quê, com quem. E que falta faz à vida humana o improviso, a surpresa e o sentimento de perda! Precisamos sentir a falta uns dos outros para valorizarmos a presença quando chegamos a estar presentes.
Hoje, por via deste contacto constante, as pessoas cansam-se umas das outras e depois, quando estão juntas, recolhem-se e refugiam-se na busca de alguma intimidade e reclamam de nunca estarem juntas! E o irónico é que não estão porque estão sempre!
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Estamos sempre achados e encontrados e andamos esquecendo que ninguém se encontra sem se ter perdido primeiro, que não há encontro sem desencontro.

Le Toi du Moi

Je suis ton pile
Tu es mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l’envie et moi le geste
Toi le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la guitare et moi la basse

Je suis la pluie et tu es mes gouttes
Tu es le oui et moi le doute
T’es le bouquet je suis les fleurs
Tu es l’aorte et moi le coeur
Toi t’es l’instant moi le bonheur
Tu es le verre je suis le vin
Toi tu es l’herbe et moi le joint
Tu es le vent j’suis la rafale
Toi la raquette et moi la balle
T’es le jouet et moi l’enfant
T’es le vieillard et moi le temps
Je suis l’iris tu es la pupille
Je suis l’épice toi la papille
Toi l’eau qui vient et moi la bouche
Toi l’aube et moi le ciel qui s’couche
T’es le vicaire et moi l’ivresse
T’es le mensonge moi la paresse
T’es le guépard moi la vitesse
Tu es la main moi la caresse
Je suis l’enfer de ta pécheresse
Tu es le Ciel moi la Terre, hum
Je suis l’oreille de ta musique
Je suis le soleil de tes tropiques
Je suis le tabac de ta pipe
T’es le plaisir je suis la foudre
Tu es la gamme et moi la note
Tu es la flamme moi l’allumette
T’es la chaleur j’suis la paresse
T’es la torpeur et moi la sieste
T’es la fraîcheur et moi l’averse
Tu es les fesses je suis la chaise
Tu es bémol et moi j’suis dièse

T’es le Laurel de mon Hardy
T’es le plaisir de mon soupir
T’es la moustache de mon Trotski
T’es tous les éclats de mon rire
Tu es le chant de ma sirène
Tu es le sang et moi la veine
T’es le jamais de mon toujours
T’es mon amour t’es mon amour

Je suis ton pile
Toi mon face
Toi mon nombril
Et moi ta glace
Tu es l’envie et moi le geste
T’es le citron et moi le zeste
Je suis le thé, tu es la tasse
Toi la putain et moi la passe
Tu es la tombée moi l’épitaphe
Et toi le texte, moi le paragraphe
Tu es le lapsus et moi la gaffe
Toi l’élégance et moi la grâce
Tu es l’effet et moi la cause
Toi le divan moi la névrose
Toi l’épine moi la rose
Tu es la tristesse moi le poète
Tu es la Belle et moi la Bête
Tu es le corps et moi la tête
Tu es le corps. Hummm !
T’es le sérieux moi l’insouciance
Toi le flic moi la balance
Toi le gibier moi la potence
Toi l’ennui et moi la transe
Toi le très peu moi le beaucoup
Moi le sage et toi le fou
Tu es l’éclair et moi la poudre
Toi la paille et moi la poutre
Tu es le surmoi de mon ça
C’est toi qu’arrives des mois si ?
Tu es la mère et moi le doute
Tu es le néant et moi le tout
Tu es le chant de ma sirène
Toi tu es le sang et moi la veine
T’es le jamais de mon toujours
T’es mon amour t’es mon amour.

Máxima de Autocarro


"Nunca se devia trabalhar depois de um dia de descanso!"

Anónimo do 28

Café da Manhã


07:06h. Estação de caminho de ferro de Entroncamento. Bar.

- Um café cheio, por favor.
- Estes são os meus três?
- São!

Um Pequeno Milagre Chamado Madalena


A carinha laroca e bem reguila que está na foto é a Madalena.
A Madalena é um doce de menina e, ao mesmo tempo que é um doce, é de uma insuperável energia e de uma vontade muito forte. Os primos que o digam!

O giro da coisa reside em como vim eu a ser padrinho da Madalena.
É interessante porque não foi uma obrigação daquelas em que se escolhe uma pessoa de família porque tem de ser ou porque ainda não é padrinho de ninguém ou porque está mais à mão. A verdade é que não sou da família. Pelo menos não sou da família de sangue. Tenho a certeza, no entanto, que sou da família dos afectos. O pai da Madalena é um amigo antigo, um homem honesto e trabalhador que conhece o valor verdadeiro e intrínseco da amizade. A mãe da Madalena veio a ser minha amiga mais tarde mas a sua generosidade e o seu sentido de família rápido me acolheram no seu seio.
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Por razões que se prendem com a vida agitada e cheia de horários que todos levamos, eu não vejo a Madalena muitas vezes, pelo menos, não a vejo as vezes todas que queria e devia. Acontece que isso não tem nada a ver com o que eu gosto dela porque é das pessoinhas que mais amo e admiro. E porquê? Porque acho que ela é uma criança adorável, muito disponível e cheia de génio. De resto, vinda da família que vem, seria sempre fácil gostar dela.
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Ora, ontem, fui visitá-la porque tinha feito anos esta semana e tinha uma festinha no sábado. O pai telefonou-me na sexta-feira e colocou a menina ao telefone e a vozinha meiga dela a dizer, Padrinho vem à minha festa!, era absolutamente incontornável. O milagre deu-se quando cheguei. Como a vejo pouco, ia no caminho a pensar como é que haveria de fazer para mostrar a uma criança de 4 anos que o facto de a ir ver poucas vezes não tem nada a ver com o que gosto dela porque gosto dela um mundo inteiro de carinho e ternura... Pensei usar uma linguagem próxima dos valores que as crianças com 4 anos dominam melhor e dizer-lhe que gostava dela daqui até ao céu o que, além do mais, é a mais pura verdade. Ora, as crianças parecem ter uma sensorialidade diferente e, ao contrário dos adultos, sentem muito, sentem bem, interpretam muito melhor e, mais do que tudo, sabem agir de acordo com esses sentimentos de forma simples e clara. Eu não via a Madalena há 6 meses, imaginei que me reconheceria mas estava preparado para uma recepção pouco efusiva. Acontece que ela resolveu surpreender-me. Quando me viu, gritou:
------- Padrinho!
Correu para mim, atirou-se para o meu colo, enrolou os seus bracinhos frágeis à volta do meu pescoço com quanta força tinha e apertou-me a cintura com as pernitas finas mas cheias de energia. Depois ficou ali, agarrada a mim, como se não quisesse sair, e os minutos iam passando e eu comovido, quase envergonhado, sem saber bem como reagir resolvi fazer como ela, ser simples, e devolvi-lhe o abraço apertadinho, caminhei com ela abraçada a mim e disse-lhe simplesmente, O padrinho gosta muito de ti!
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Foi o meu milagre. Um milagre chamado Madalena. Esqueci-me das coisas que tinha para lhe dizer e só passado um pedaço de tempo é que me lembrei de lhe dar a prenda. Já mais nada interessava. O mais importante já tinha acontecido e uma menina de 4 anos tinha acabado de me ensinar que se pode amar com o coração todo, em dádiva plena, sem regras, só com reconhecimento. Não chorei ali. Fiz um esforço porque estava mais gente. Mas no regresso, no carro, as lágrimas que havia contido, resolveram ganhar a batalha.
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Obrigado Madalena, por seres uma menina que faz milagres de Amor. O padrinho gosta muito de ti e da tua família e isso não tem nada a ver com as vezes que o padrinho te vai ver. O que importa é que cada vez que o padrinho te vai ver leva o coração cheio de luz e alegria e amor puro. O que interessa é que o padrinho gosta muito de ti os dias todos. O que interessa é que o padrinho está a aprender contigo que o Amor puro e a dádiva dele não têm regras.
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Beijinho do padrinho.

Parabéns a Você!

Se vires bem, contam-se os anos vividos de acordo com a lógica das voltas que a terra dá em torno do sol e sobre si mesma e, se quisermos ser honestos, os anos de vida tanto se poderiam contar assim como de outra forma qualquer e, nesse caso, talvez até nem se chamassem anos. Imagina, seria possível que um dia fosse um ano, como seria possível que dez anos fossem um ano. De resto, as pessoas raramente contam a sua vida pelo anos. Raramente dizem, "Isso foi quando eu tinha 34 anos..." Normalmente dizem "Isso foi no ano em que mudámos de casa", "Isso foi no ano que o nosso filho nasceu", "Isso foi quando comprámos o carro", "Isso foi quando fizemos aquela viagem à Grécia", "Isso foi quando o Faísca veio cá para casa", "Isso foi quando o miúdo entrou para a escola", "Isso foi quando o meu pai morreu", "Isso foi ..."
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E isto é importante. Importante porque não interessa nada quantos anos foram. Os anos de fora não têm nenhuma, mas mesmo nenhuma importância. O que tem importância são os marcos. E hoje que fazes os anos que fazes, venho dar-te os PARABÉNS, não pelos anos, mas pelos marcos e por um outro assinalável marco: é que na minha vida, assim como na tua, já há mais marcos em conjunto do que dos outros e, curiosamente, todos aqueles que escrevi ali em cima, à laia de exemplo, já nos aconteceram. Não faças anos. Colecciona marcos e ao coleccioná-los constroi uma história de vida.
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Todos te reconhecem a generosidade, a lealdade e o amor que pões nas coisas. Eu sou o tipo que tem tido a sorte de conviver com elas!
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Muitos Parabéns, sempre.

João Paulo

O Clã do Comboio - Onde é que ela mete aquilo tudo?


Só por doença, meu Deus, só por doença.
Era uma ave de arribação, ou seja, não tinha passe. Passageira pontual, muito provavelmente de ir ao médico. Fica desde já esclarecido que não vou gozar com a pessoa. Longe de mim. Só escrevo sobre ela porque me impressionou. Um destes dias, sentou-se à minha frente uma senhora pequenina, tão pequenina que, sentada no banco do comboio, mal chegava com os pés ao chão. Ao lado dela, a filha tomou também seu lugar. A senhora tinha o olhar meio revirado. Coloquei a música nos ouvidos e pensei: "Sem história". Enganei-me.
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Passados uns minutos, ainda o cheiro a Entroncamento devia ocupar o ar, ela começou a comer. Pacotes de açúcar. Não contei porque não estava à espera do que iria seguir-se mas, pelo baixo, engavetou aí uns dez! Ao mesmo tempo foi bebendo água. Quando pensei que a senhora tinha reposto os níveis de açúcar e tinha dado por terminada a "refeição", atacou uma sandes de queijo que parecia maior do que as suas mãos conseguiam abarcar. Pronto, é de muito alimento, pensei. Só não sabia que ela ainda não ia a meio. Que me lembre e tentando repeitar a sequência, a senhora pequenina que bebia muita água ainda conseguiu engolir mais meia dúzia de pacotes de açúcar, um iogurte líquido, outra sandes XL e um saquinho de plástico cheio de rebuçados, caramelos e chocolates.
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Não sei, sinceramente, não sei como é que uma pessoa que não chega com os pés ao chão no banco do comboio consegue enfiar tanta coisa goela abaixo. Logo pela manhã! Quando chegámos, a filha perguntou-lhe, Queres mais alguma coisa?
E eu pensei, Mas onde é que ela mete aquilo tudo?

O Clã do Comboio - O Treinador

Eu acho que o fenómeno José Mourinho é interessante no sentido de que vai para além do futebol e contagia as grandes massas. Ora, sendo o comboio o manancial de vida que é, não podia, de maneira nenhuma, ficar imune a esse facto. Ainda não se joga à bola no interregional das 7:18h mas já se operam transferências de treinadores e jogadores.
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O treinador é um tipo novo, nos seus trinta, moreno, alto e, pela expressão e pelas palavras que dela saem, diria que é um gozão ou, no mínimo, um tipo bem disposto.
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A revelação deu-se ao telefone. Íamos todos em silêncio, ouviu-se uma estridência polifónica, ele atendeu e, quando menos se esperava, ali mesmo fez a sua transferência de clube, pôs o interlocutor a par da situação profissional dos outros treinadores da região, descreveu o seu próprio perfil de treinador, sinalizou os miúdos que mais lhe interessavam para certas posições e quando desligou o telefone, o panorama regional do futebol juvenil estava completamente alterado. Ou seja, o interregional das 7:18h também é um centro de decisão. É no que dá termos cá o Mourinho dos comboios!

O Clã do Comboio - A Rapariga que Veste um Sorriso

Tal como todos os outros, é uma pessoa de hábitos. Normalmente veste calças de ganga de cós baixo e um cinto preto ou castanho, largo, encima essas mesmas calças. É larga de ancas e volumosa mas está longe da obesidade. Traz sempre uns óculos escuros daqueles que ocupam a face toda e quando entra no interregional das 7:18h tira-os e deixa transparecer o olhar meigo e tranquilo dos seus olhos cor de amêndoa. Normalmente veste casacos cintados. O cabelo castanho cai-lhe por cima dos ombros e completa o quadro de uma moça jovem vestida de forma prática mas elegante para cada dia de trabalho. A vestir daquela forma deve haver umas dezenas no comboio pelo que não foi essa a razão por que me detive nela.
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A razão é simples.
É daquelas pessoas que acorda sempre feliz e sorridente e difunde essa luz e essa alegria à sua volta. Pela manhã, o clã tem a tendência para ir sossegado e quieto, excepto a rapariga que veste um sorriso. Cumprimenta quem se senta ao seu lado, fala com as pessoas, brinca com as crianças e, mais do que tudo, sorri.
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Ela é das pessoas que se senta ao fundo da carruagem. Eu, ao meio. Já equacionei um dia destes ir ao fundo para vê-la sorrir mais de perto, mas, sabem como é, ando a ficar como o clã, um tipo de rituais e faz-me falta a companhia dos meus desconhecidos. Há, contudo, esta marca matinal da rapariga que veste um sorriso. Vê-la é como se fosse uma mensagem de esperança para o dia a viver. E isso é precioso. Espero, sinceramente, que continue a viajar na "minha" carruagem. É que assim até os dias de chuva brilham um bocadinho.

Conversa de surdos ou isso!

Esta conversa aconteceu mesmo e garanto que os intervenientes na dita perceberam tudinho. A nossa língua é uma maravilha. Não é preciso dizer muito para dizer tudo. Ora vejamos:
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- Então, tudo bem?
- Tudo bem.
- Já me viu isso?
- Eh pá ainda não vi isso.
- Eh pá não me diga que ainda não me viu isso?
- Eh pá não tive tempo de lhe ver isso.
- Olhe que estou preocupado com isso.
- Eu sei, eu também ando preocupado com isso.
- Eh pá, veja-me isso.
- 'Tá bem, eu vejo-lhe isso.

Auto-Citação

"Ler-te sobre mim é como ver-me ao espelho da alma!"
JP

De Negro Vestida - XLIX


De Negro Vestida – XIII
------Caro leitor, se chegou até aqui pare ou salte para o próximo capítulo. O que vai escrever-se a seguir não deveria ser escrito. O que está prestes a ler, não deveria ser lido. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio - Lezíria com Bruma e Antena ao Fundo

O interregional das 7:18h não é só virtudes. Às vezes pára. Pára e fica parado e não avisa quando vai retomar sua ruidosa rota. Os motivos são vários. Para passar outro comboio, para não se cruzar com outro comboio, por razões técnicas de diversa ordem, porque se apaga todo, vai abaixo e depois é o cabo dos trabalhos para retomar a marcha, e ainda por um outro e interessante motivo: pára sem sabermos o motivo!
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Por vezes pára ali um pouco antes de Vila Franca de Xira e eu não me importo muito. Vê-se a lezíria, a bruma matinal sobre ela, o sol espelhando-se no rio langoroso e, ao fundo, uma antena. Nunca soube porque é que pára ali, nem tenho grande interesse em saber. Já tinha reparado na beleza da paisagem com a antena fina, esguia e altíssima emergindo da bruma. Era bonito. Mas era uma paisagem sem história.
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Hoje ganhou vida.
O homem tinha, seguramente, mais de 60 anos. Forte. Com a barriga redonda e grande a denunciar petiscos bem comidos e melhor regados. A pele estava marcada pelo tempo e pelo trabalho e ele apoiava-se na bengala preta com a ponta de borracha e o cabo em forma de tê. De frente para ele sentou-se a esposa. Era a ruralidade em pessoa num banco de comboio. Não falavam. Nunca falaram ao longo da viagem excepto quando parámos junto à paisagem da lezíria com bruma e antena ao fundo. Ele olhou pela janela e tomou-lhe conta da face certa expressão saudosa de Não era bom mas quem dera lá voltar e ficou olhando, tamborilando os dedos no cabo da bengala e quando terminou de saciar a vista, disse num tom tranquilo de quem constata um facto e tem a missão cumprida:
- Quando foi o 25 de Abril, passei uma noite ao relento de guarda àquela antena.
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As coisas que herdamos e nem damos conta! O sofrimento que foi preciso sofrer para aqui chegarmos. A vida que as coisas têm ou adquirem. Naquele momento, para além do respeito que me conquistou, aquele senhor de aspecto humilde e gasto alterou para sempre a minha percepção da lezíria com bruma e antena ao fundo um pouquinho antes de Vila Franca.

Histórias do Autocarro 28 - O Maluco


É jovem. Tem menos de 40 anos. É baixo, atarracado e forte. A proeminência que traz à sua frente e a que chama barriga quando lhe dá uma palmada a atestar que está cheia indica bons tratos e más escolhas. Veste um fato-de-treino azul com duas riscas brancas e nada disto faz dele maluco. Nem a forma como se movimenta porque anda pelo autocarro 28, da Portela para o Restelo ou ao contrário, como qualquer um de nós, os outros todos. Não fui eu que o baptizei de maluco do autocarro. A primeira vez que o vi estava eu a meio da viatura e, ainda ele entrava à porta, quando um passageiro ao meu lado disse em tom de desabafo:
- Lá vem o maluco do autocarro!
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O problema dele é quando abre a boca. Acontece que foi precisamente por ter aberto a boca que resolvi escrever este texto. O maluco do autocarro diz palavras impronunciáveis, interrompe as frases, volta ao início, salta para outras ideias sem acabar as primeiras, enfim, o caos discursivo total. A juntar a isto, mistura vocabulário regular com vocabulário erudito e rebuscado sem que as frases façam sentido e, para cúmulo, introduz obscenidades no discurso como se estivesse dizendo umas palavras como outras quaisquer. E até talvez sejam.
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Acontece que, no meio de um discurso imperceptível, faz parágrafos de perfeito inglês e quando digo perfeito, refiro-me à correcção vocabular e à estrutura frásica. Do mesmo modo, consegue também umas frases em português ou mistas, português e inglês, onde, no meio do caos, dos palavrões, da ausência de significados coerentes, produz um parágrafo correcto, uma ideia acertada. Ora, é uma dessas que aqui me traz hoje. É que não foi só um parágrafo acertado. Foi uma síntese de um complexo problema educacional que vivemos na sociedade moderna. O maluco do autocarro condensou num só parágrafo o que teses inteiras na área das ciências da educação ainda não conseguiram discernir.
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Ia no 28 um grupo de jovens entre os 15 e os 17 anos. Alguns beijavam-se afanosamente querendo gastar os beijos todos que vinham com o bilhete do autocarro, outros diziam parvoíces propositadamente audíveis em toda a viatura e, no conjunto, faziam aquele alarido próprio da idade da acne. O maluco do autocarro contemplou-os, tirou-lhes as medidas, fez-lhes a raiz quadrada e, depois de uma série de frases palavrosas e imperceptíveis, disse:
- Sabem qual é o problema da juventude? O problema deles é que só querem computers mas depois não sabem fritar um ovo! Teoria? A teoria tenho-a eu toda, home, o que é preciso é a prática, é quem saiba fazer. ‘Tá tudo f…
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E pronto. Engavetei. Levei para casa e se um dia vier a fazer uma tese de doutoramento em Ciências da Educação, fica aqui prometido que arranjo maneira de citar o maluco do autocarro. Excepto a parte do f…, claro!

Perguntas

Para as perguntas que me fizeste
Encontras a resposta em ti
E é por isso que não percebo
Porque mas fizeste a mim.
JP

O Clã do Comboio - A Grande Família


A Grande Família.
Depois de um pequeno texto que escrevi e aqui coloquei sobre uma conversa que se passou no comboio e como tenho vindo a coligir informação sobre este extraordinário manancial de vida, venho hoje trazer-vos um texto que apresenta, na generalidade, este clã. Quem são, que hábitos têm, como se comportam. Faço-o como homenagem aos passageiros diários do comboio. Não o usam para férias, nem esporadicamente para ir ao médico ou ao teatro ou à bola. Usam-no todos os dias para ir trabalhar. Importa, desde já, esclarecer de que percurso se trata. O clã de que vou falar-vos viaja todos os dias entre Entroncamento e Lisboa, seja Oriente, seja Santa Apolónia. Mais para a frente mostrar-vos-ei algumas personagens individuais. Para já, fica uma fotografia de grupo da grande família.
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Qual comboio?
Aqui começa a seriação. Quem precisa estar muito cedo na capital, apanha o das 6:18h, quem pode estar um pouco antes das 9h, usa o das 7:18h. A hora não é tão dura e continua a ser um interregional, ou seja, só faz duas paragens entre o Entroncamento e Lisboa. Também há o das 7:40h, mas esse é regional e ir no regional significa parar em todas as capelinhas e chegar muito tarde. Cheguei a experimentá-lo. Leva muita gente, é lento e chega tarde. Definitivamente, o meu clã, a minha família é a do interregional das 7:18h na linha 5.
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Onde?
Onde se espera? Onde se entra? Onde se senta? Onde se sai?
É interessante, o homem é mesmo um animal de rituais. A maioria das pessoas deste clã espera todos os dias no mesmo sítio, entra todos os dias na mesma carruagem, senta-se todos os dias na mesma zona dela e sai todos os dias no mesmo local. O comboio é longo. São nove ou dez carruagens a entrar pela estação dentro e a parar mais ou menos no mesmo local. Ao metro! O mais engraçado é que há pessoas que vão esperá-lo lá à frente, outras ficam cá atrás, outras esperam-no frente ao bar, outras frente ao quiosque, outras junto ao relógio e até as há que se sentam todos os dias no mesmo banco de espera. Há pessoas que são amigas e conversam antes do comboio chegar, algumas trabalham juntas, mas quando a grande lagarta metálica chega, separam-se porque cada um vai para a “sua” carruagem. Por exemplo, ultimamente comecei a cumprimentar um senhor porque todos os dias esperamos o comboio exactamente no mesmo sítio, de frente um para o outro, em lados opostos da linha. Lá dentro, há quem fique junto às portas, ao centro da carruagem, há os que escolhem o fundo da mesma, há os que se sentam em bancos de dois lugares e os que se sentam em bancos de três. Tudo isto seria muito menos interessante não fosse o facto de serem quase sempre os mesmos a sentarem-se na mesma zona. É como sair. Os que escolhem as portas da frente da carruagem são, geralmente, os mesmos, tal como os que escolhem as portas mais recuadas. Do mesmo modo, há pessoas que se chegam às portas muito antes do comboio parar, como as há que ficam sentadas para serem as últimas a sair. E também estes não variam. São invariavelmente os mesmos.
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Moda.
A moda do clã é, fundamentalmente, a moda do trabalho. A variedade aqui é determinada pela idade, pelo gosto pessoal, mas, sobretudo, pelo tipo de trabalho que se exerce. Nos homens, a coisa é mais formatada. Da calça de ganga ao fato e gravata, a moda varia pouco. Já a moda feminina entra e sai do comboio ao ritmo da mudança das estações, das cores que se usam, das peças que estão em voga. Curiosamente, tenho reparado que a maioria das mulheres, mesmo as que seguem a modinha, não brinca com o calçado. Vistam lá o que vestirem, em 90% dos casos optam pelo conforto, primeiro e pela estética, depois.
O meu grande destaque, em sede de moda, vai para o pessoal da bicicleta. Há passageiros que trazem uma bicicleta para o comboio e uma mochila. Quando chegam a Lisboa, não usam transportes, andam de duas rodas. A mochila leva a roupa de trabalho que vestem à chegada ao mesmo. Estes andam de fato de treino e até de calções de licra.
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Grupos.
Esta malta junta-se, normalmente, em três grupos. Os espontâneos que se formam num dia e nele se desfazem. Os que se juntam informalmente porque se sentam mais ou menos no mesmo local do comboio e os que se juntam porque trabalham no mesmo local. Em todo o caso, seja qual for o grupo, quando chegam à estação para apanhar o comboio, ou quando se sentam e se procuram com o olhar é como se estivessem verificando se está tudo bem com o universo. A crise é má? Chove muito? Há problemas sociais? Há falta de emprego? O Benfica perdeu? Nada disto importa quando aquela pessoa que não conhecemos de lado nenhum entra na “nossa” carruagem e se senta. Isso quer dizer que, afinal, o fim do mundo não foi hoje!
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Conversas.
Há dias em que não oiço música para ouvir as conversas e há uma coisa curiosíssima, ou melhor, duas. Uma é que o leque de assuntos é limitado. Outra é que ele evolui sempre da mesma forma ao longo da semana. Futebol e família são sempre no início da semana, sobretudo à segunda-feira. Depois, ao longo da semana fala-se de trabalho, de política e de saúde. De trabalho para contar pequenos episódios e dizer que vai bem ou mal. De política para dizer mal do Governo e apresentar todas as soluções para os males do país. Se eu fosse político e quisesse resolver os problemas da nação, passava a andar regularmente de comboio. De saúde para expor as maleitas próprias e, em muitos casos, as doenças esquisitas de que sofre a sogra ou um familiar distante.
Já assisti, em situações particulares, sobretudo no comboio de regresso, 17:18h ou 18.18h, a alguns grupos de homens olharem em volta, certificarem-se de que não há senhoras nas redondezas e falarem de miúdas. Nessas conversas costuma haver expressões como “avião”, “helicóptero”, “Ferrari” e “topo de gama”. Sim, estão a falar de miúdas!
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Telemóvel.
Não nos livramos desta estridência. Há dois tipos de toque no comboio. O discreto e o polifónico com um sucesso musical da época que acorda meia carruagem. Mas, o mais giro é a forma como se fala ao telefone. Neste aspecto não há “normais”. Só há dois grupos. Os que colocam a mão à frente da boca e tentam manter a conversa privada e os que gritam para o telefone como se estivessem a falar para a pessoa que está na outra ponta da carruagem. É deliciosamente embaraçoso. Embaraçoso porque ficamos todos constrangidos por ouvir o que não queríamos ou, pelo menos, não é nada connosco. Delicioso porque a malta fica a saber o que vai ser o jantar, qual é o código do cartão multibanco, em quanto é que aumentou a prestação da casa e quem é que vai buscar o puto à escola. Tudo isto salpicado com beijinhos e olás e a frase mais repetida de sempre ao telefone no comboio: “Repete lá isso outra vez, é que eu vou no comboio!”
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Leituras.
A malta lê e a malta é diversificada nas leituras. Há quem leia documentos do trabalho, há quem leia livros da mais reconhecida literatura, de Saramago a Tolstoi já vi de tudo, há quem leia revistas cor-de-rosa, estes são a maioria, há quem leia o jornal desportivo e depois há uns muito engraçados que trazem o livro, a revista ou o jornal mas nunca os lêem. É como se os trouxessem para um passeiozinho de comboio. Coisas!
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Música.
Eu não sei que música se ouve no comboio, mas sei que se ouve muita. Alguns dizem que é porque gostam de música, outros dizem que é para não ouvir o matraquear do comboio nos carris. Há três tipos de pessoas. Os que não ouvem música. Os que ouvem tapando os dois ouvidos mergulhando no mundo das melodias e aqueles que têm um olho no burro e outro no cigano em versão ouvido que é como quem diz, num ouvido levam a música e com o outro vão à espreita do que se diz. A música também tem modas em relação às formas de reprodução. Há os que trazem um computador portátil e ouvem a partir dele com auricular, há os que têm leitores de MP3 e há os modernaços que trazem a música no telemóvel e ouvem a partir daí. Também os auriculares davam uma tese. Brancos, pretos, cinzentos, metálicos, de enfiar no ouvido ou de tapar a orelha. Isso não interessa nada. Interessa é ir a curtir um som.
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Refeições.
Pois, se pensavam que a vida do clã do comboio é uma vida de barriga vazia, enganaram-se. Esta malta trata-se bem. As refeições têm, normalmente, três tipos e uma variação. Fruta, para a malta das dietas. Barras de cereais, para a malta das dietas a sério. E sandes de queijo com fiambre e alface para os alarves. A variação exige uma ginástica e um treino que não pode ser para principiantes. Vai um tipo muito bem, todo descansadinho, e há uma senhora, são sempre as senhoras, que abre a sua mala e de lá consegue tirar um iogurte, um pacote de açúcar, uma colher, um guardanapo e um saquinho de plástico. Eu sei, ela só tem duas mãos! Mas a verdade é que, com o comboio em movimento, abre o iogurte, desfaz-se da tampa, põe o açúcar, mistura, morfa-o, limpa-se ao guardanapo e coloca os despojos no saquinho de plástico. E, claro, volta tudo para a mala. Tudo, menos o conteúdo do iogurte!
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Conclusão.
A palavra que emerge de toda esta vida e de todos estes rituais é democraticidade. Aqui somos todos abençoadamente iguais. Pessoas à procura de um banco para irem confortáveis até ao trabalho. Eu gosto desta gente porque é gente de trabalho, porque faz uma viagem cansativa para ir trabalhar e outra para poder regressar e porque incorpora nos seus hábitos o facto de ter de fazer a deslocação partilhando o espaço e o ar que se respira. Este texto foi escrito com o comboio em movimento ao lado de uma pessoa que é exemplo de um outro grupo, um grupo que deixei para o fim de propósito, são aqueles que continuam aqui o que estavam fazendo na cama. Dormem que nem uns justos e não acordariam nem que viesse o comboio. Ainda assim, chegada a sua estação, abrem um olho, confirmam que acordaram no sítio certo e lá vão eles à vidinha. Olha, este que estava aqui ao meu lado a ressonar, já lá vai. Bom trabalho, amigo!

Correntes

"Às vezes, as correntes que nos impedem de sermos livres são mais mentais do que físicas."

Anónimo

Citação lírica

"Avidement toute ma peau
réclame
la caresse,
la chaleur,
la vigueur,
la douceur de l’eau,
sa purification même…"
TR

De Negro Vestida - XLVIII


De Negro Vestida – XII
------O ríspido e a agressividade latente das palavras manteve-se:
------- Então as pessoas que carregam os caixões e enterram os mortos não são os cangalheiros?
------- Uma menina com a sua formação e a sua vivência já deveria ter aprendido que não se chamam caixões, mas urnas, que não se enterram os mortos, mas se sepultam e que quem tem a difícil tarefa de o fazer são profissionais com experiência ou habilitação e, em muitos casos, com experiência e habilitação, que dão pelo nome de… deixe lá isso, fica como trabalho de casa, será a forma de retratar-se da sua indelicadeza. Perdoe-me Alberto.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Pensamento por causa de um cão

Um dia destes, na minha hora de almoço, caminhava junto ao rio onde há uma imensa zona pedonal e fui surpreendido por um rapaz que atirou um skate para o chão, saltou para cima dele e, de imediato, começou a rolar a boa e estável velocidade porque numa das mãos tinha uma trela que um cão rafeiro começou a puxar como se o futuro do universo dependesse disso.
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Quem me conhece, sabe que gosto muito de animais, em particular mamíferos. Os cães têm esta particularidade de darem tudo por nada ou só pelo gozo da coisa. De serem felizes com a felicidade dos outros. De viverem para realizar os desejos de quem os rodeia e serem felizes com isso.
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Este é um estágio do desenvolvimento a que nós, humanos, ditos os mais desenvolvidos, nem sempre chegamos.

Citação

"Escreve o mundo enquanto ele gira!"
JP

De Negro Vestida - XLVII


De Negro Vestida – XI
------Maria de Lurdes não gostou dele. Reparou de imediato que estava perante um homem abjecto, sem modos nem maneiras, deseducado nos gestos e nas palavras, arrogante e, sobretudo, palavroso. Nem tão pouco lhe passou despercebido o seu carácter lascivo. Há coisas que se pressentem no primeiro contacto e quando José dos Santos Silva entrou na agência funerária, logo seguido do filho, Maria de Lurdes percebeu que o olhar do velho desafiava todos os limites. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Obrigado, mamã!

Bom dia mamã!
Lembras-te de quando eu era pequenino e te pedi para não ir à tropa porque tinha medo? Lembras-te de quando era pequenino e fiquei doente e não deixei que ninguém me tratasse antes de tu chegares?
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As razões porque a criança que veio a ser homem fez o que fez, sentiu o que sentiu e viu em ti a exclusividade da sua salvação ainda existem. Não interessam os cargos, nem a idade, nem as responsabilidades. Dentro de mim ainda habita a criança que te ama e te trata por mamã!
E é essa criança e o homem com ela que vem hoje dar-te os parabéns. Mas não são uns parabéns quaisquer. São de reconhecimento, são de amor.
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Sabes, mamã, tu como todas as outras pessoas, hás-de ter teus defeitos e hás-de ter cometido tuas faltas enquanto nos criaste e educaste, mas uma coisa foi miraculosamente constante em ti: o teu incondicional amor por nós! E foi esse amor que aprendemos e é esse amor que andamos distribuindo no mundo.
Obrigado, mamã! E parabéns!
Filhote

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