Made in China


Era uma montanha
Com casario serpenteando a colina.
Era o breu da noite
Cortado por uma luz feita na China.

E não havia gente
Que a gente estava dormindo,
E cortava o frio constante
A luminosa estrela cintilante.

E senti naquilo um prenúncio,
Um aviso de um povo distante,
Um luminoso anúncio
De uma combinação intrigante.

Lá longe, onde se não ouve a Sua palavra,
Há um menino que produz
Esta luz psicadélica e brilhante
Que anuncia a chegada de Jesus.

Morte d'Alma

Ninguém percebeu.
Ninguém viu.
Ninguém suspeitou.
Qualquer coisa se partiu.
Algo em minh'alma se quebrou.

Foi uma coisa despercebida
Que fez um estrondo só meu.
Foi um lenço branco de despedida
Na mão de uma donzela que morreu.

E o navio já lá vai,
Eu lá com ele,
Eu cá comigo.
E pergunto a meu defunto pai
Qual é da vida o maior perigo.

E responde-me com palavras doces e suaves:
"Filho, arrepende-te do que fizeres,
Não queiras arrepender-te do que não fazes.
Procura no peito o que quiseres
E segue-o com gestos ousados e audazes."

Morreu algo em minh'alma
E, no meio da turba, sinto chegar a calma.

Alvorada

Vós, na cama deitados,
Não tendes como saber
Que anda no céu uma nota de alegria.
Junto às sete e trinta,
A luz faz uma finta
Ao breu
E já se vê o dia.
Anda o Sol às voltas
Com as voltas da Terra
E banha-a de mansinho,
E meu visual sentido não erra
Porque se corta a noite devagarinho.
E espraia-se a alvorada,
E isto é tudo
mesmo parecendo nada.
Há luz e vida
Nesta revolta.
Há um anunciar
De Liberdade.
Há almas vivas à solta.
E neste sentido
Que me conduz
Minh'alma nasce para a vida
Para a esperança e para a luz.

O Clã do Comboio - Julieta, porque é que não fazemos amor?


Julieta, porque é que não fazemos amor?
Não é possível ninguém dizer com rigor qual é a sua canção preferida ou a sua música preferida. Quando nos fazem esse tipo de pergunta, em vez de dizermos uma, respondemos com uma imensa listagem. E isso é normal. Dependendo do momento que estamos a viver e da nossa disposição, referimos temas mais tranquilos ou mais exuberantes, géneros mais clássicos ou mais revolucionários. E acontece isto porque a música é uma expressão da nossa alma.
Há, no entanto, um critério que restringe um bocadinho as nossas preferências. É o das músicas e/ou canções que nos marcaram.

Tinha eu 17 anos, estava no auge dos amores, dos sentimentos arrebatados, das paixões, das descobertas, das leituras marcantes, das mulheres para além das roupas, das tristezas profundas, dos desgostos de amor, das saídas à noite, das amizades para sempre, das ideias, dos planos para mudar o mundo, das escolhas que iriam afectar a minha vida para sempre, das borbulhas na cara, das causas e da ideia de que algo no Universo seria diferente por minha causa, quando um amigo me estendeu um par de cassetes e disse:
- Toma, vendo-tas baratas. Isto é do melhor que há. Ouve um bocadinho.
Corri a um gravador e ouvi. Ouvi e apaixonei-me. Aquilo era diferente daquele som tecno e formatado que inundava os anos oitenta. Aquilo era genuíno. Tinha poucas palavras, mas os instrumentos, sobretudo a guitarra, pareciam falar. E aquilo soava como se tivesse uma história e acordava em mim coisas boas. Comprei-as. Era um álbum todo gravado num concerto o que quer dizer que, além da música, eu ouvia a multidão exultante e a sua interacção com os músicos. Aquela música marcou-me de tal forma que nunca mais a deixei de ouvir. As cassetes passaram tantas vezes que acabaram por, literalmente, gastar-se. Mais tarde comprei o vinil e depois, quando surgiu a tecnologia digital, acabei por comprar os CDs que entretanto estão riscados de tanto uso. Ouço-os em casa, no carro, no computador, onde quer que esteja e possa. Depois, quando o vídeo se tornou mais portátil e de melhor qualidade ofereceram-me o DVD do concerto. E mais recentemente com o surgimento dos sistemas de armazenamento de massa, vulgo pen drive, leitores mp3 e mp4, arranjei o ficheiro com o concerto coloquei-o no meu leitor mp3 e volvidos 26 anos continuo a ouvir esta música como se fosse a primeira vez e de cada vez que a oiço sinto esperança e força e fé e volto a querer mudar o mundo e a fazer coisas geniais e a fazer a diferença e a tocar o Universo de bondade. É a minha música da manhã, da tarde, da noite, do levantar e do deitar. É a minha música de rir e de chorar, de pensar e de reflectir e também de brincar.

O colega que me vendeu as cassetes chamava-se José Sioga, morreu dois meses mais tarde num acidente de automóvel, mas deixou-me esta herança de vida. E eu fui ser feliz, fui namorar, fui casar, fui ter um filho e criá-lo, fui tirar um curso, fui ser professor, fui ser outras coisas, fui fazer um mestrado, fui ver a minha irmã crescer, fui ver o meu pai morrer, fui ver o meu filho fazer-se homem, fui celebrar-lhe os aniversários, fui marcar as férias com a minha mulher, fui construir uma casa, fui traçar um caminho de vida e sempre, mesmo sempre, em momentos de exultação e acabrunhamento, o meu som de fundo esteve lá a acompanhar-me, a ajudar-me a fazer de mim o homem que sou.

Ia aqui no interregional das 7:18, com seis ou sete pessoas à minha volta com música nos ouvidos, e ia a pensar o que é que estariam a ouvir e porquê. E, de repente, pensei nas minhas próprias motivações e na minha própria música e, como tantas vezes na minha vida, escrevi ao som dela. Só que, desta vez, escrevi também sobre ela...


Este Natal quis homenagear o jovem que me apresentou esta música e faleceu tragicamente dois meses depois. Faleceu mas continuou vivo. É que o simples facto de me ter apresentado o concerto "Alchemy Live" dos Dire Straits mudou por completo a minha existência. Não sei como teria sido a minha vida, mas sei, com a certeza do meu crer, que teria sido algo completamente diferente, infinitamente mais pobre.
E queria homenagear o Mark Knopfler e os Dire Straits por me terem transmitido essa energia e essa força e por terem sido o meu canal de contacto e comunicação com a Divindade ao longo dos últimos 26 anos.

Eu não sei o que é que os outros passageiros do interregional das 7:18 vão a ouvir, embora sinta essa curiosidade. Eu cá vou escrevendo enquanto a guitarra chora, suave e doce, e o Mark entoa:
- Juliet, why don't we make love?

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO

Por vezes fazem-se estes votos de formas diferentes para não soar sempre ao mesmo. Acontece que, por aqui, acreditamos e assumimos que há fórmulas tão bem conseguidas que não vale a pena mexer-lhes. Por isso mesmo, "Mails para a minha Irmã" deseja a todos os seus leitores, com sinceridade e reconhecimento:
UM FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO!
João Paulo Videira

Histórias do Autocarro 28 - Ai, desculpe, desculpe, desculpe...


Ai, desculpe, desculpe, desculpe...

De todas as histórias que escrevi até agora sobre o Clã do Comboio e o Autocarro 28, esta é a primeira que envolve contacto físico... à farta.

Importa saber entre quem foi o dito contacto. Ora, nem mais nem menos do que entre a minha pessoa e uma passageira... Para ser mais exacto, entre a passageira e eu que, na verdade, fui ampla e generosamente abraçado.

A história não se passou no 28, mas tudo começou com ele. Chegou depois! Em vez de se ir no 28 de Santa Apolónia à Infante Santo, pode apanhar-se um autocarro expresso, assim chamado porque só faz uma paragem, que vai de Santa Apolónia ao Cais do Sodré. Daí à Infante Santo qualquer um serve e há muitos. Em dias de muito movimento pode ser bem útil.

Um dia destes, apanhei o expresso e quando cheguei ao Cais do Sodré apareceu o eléctrico 15. E foi aí que a coisa se deu. Já quase não havia espaço, todos os lugares sentados e em pé estavam ocupados e as pessoas seguiam literalmente enlatadas. Lá encontrei um buraquinho e entrei julgando que era o último. Atrás de mim entrou uma moça que não sei como se conseguiu encaixar, sei, contudo, que entrou, apertou-se entre os que estavam e ficou... sem ter onde se agarrar. Era baixa, cabelo escuro, farto e encaracolado, olho castanho. Tinha um ar simpático e claramente envergonhado. Do pescoço para baixo não sei como era porque não dava para ver além do que estava atrás de mim.

Ora, o eléctrico pára de uma forma um bocadinho mais brusca do que o autocarro e quando o fez, logo na primeira paragem, a moça agarrou-se abraçando-me e como me viu olhar para trás por cima do ombro, disse:
- Ai, desculpe, desculpe, desculpe...
Eu desculpei. É, de resto, uma forma diferente de começar o dia. Um homem acorda, sai à rua e é generosamente abraçado por uma moça bonita. O dia não estava a começar mal, portanto. Ora, importa referir que os eléctricos não só travam, como arrancam. E quando arrancam produzem o mesmo esticão só que no sentido oposto. A moça, de equilíbrio perdido, agarrou-se de novo ao meu tronco, muito agarradinha e lá foi dizendo ruborizada, quase a explodir de vergonha:
- Ai, desculpe, desculpe, desculpe...
A bem dizer, não havia nada a desculpar. Homem que é homem, por vezes faz o serviço público de ajudar uma senhora em dificuldades. E não tem de ser velhinha! Acho que nas contas do Criador as boas acções praticadas com jovens bonitas também qualificam.

No meu caso, o Criador, sendo bom avaliador das humanas acções, deveria ter-me contabilizado na caderneta seis delas e a razão é fácil de perceber. Entre o Cais do Sodré e a Infante Santo há três paragens, Conde Barão, Santos e Cais da Rocha, pelo que a uma travagem e um arranque cada, resultou em seis generosos e intensos abraços sempre seguidos de Ai, desculpe, desculpe, desculpe...

Numa das vezes, ainda tentei pô-la à vontade e de bem com a consciência:
- Deixe lá, não se preocupe, eu vou partir do princípio de que não está a fazer de propósito!
- E não estou. Pode crer que não estou!
Aqui, neste exacto momento, o meu ego desfaleceu um bocadinho, mas logo despertou de novo. É que ela ainda não tinha acabado aquelas palavras e já estava dizendo estas outra vez:
- Ai, desculpe, desculpe, desculpe...
Verifiquei se ainda tinha a carteira e voltei a sorrir.

Citação Não Percam Este Livro


"Descobrir um sentido naquilo que nos acontece faz-nos sentir bem. E maior se torna ainda essa necessidade de amparo quando as ocorrências inexplicáveis não nos oferecem um reencontro mágico ou a felicidade do amor: os acasos também têm o poder de destruir a nossa existência."
Stefan Klein in "COMO O ACASO COMANDA AS NOSSAS VIDAS"

Ouvido de Passagem...

"O quanto eu te amo está escrito nos meus olhos."

O Clã do Comboio - A Face do Sono


A Face do Sono
À medida que vou viajando, os aspectos mais óbvios vão-se tornando comuns e o meu olho observador procura o menos comum. Não quer dizer que encontre aspectos menos interessantes, pelo contrário, só não estão visíveis a olho nu.

Algo que comecei por notar sem consciencializar, mas de que agora tenho a certeza constitui um fenómeno interessante é aquilo que chamei a face do sono.

Não sei se há alguma relação entre a nossa disposição, o nosso carácter, o estado da nossa alma e a forma como deixamos transparecer isso na face enquanto dormimos. Admito que haja. Tenho quase a certeza, empírica, de que há. E vem-me esta certeza de ter começado a "coleccionar" faces de pessoas que dormem no interregional das 7:18 entre Entroncamento e Lisboa.

É verdade, não dormimos todos da mesma maneira. E a diferença começa aí. Há os que se mantêm direitos e recostam a cabeça, há os que recostam o corpo todo, há os que se apoiam no braço do banco e tombam para a esquerda, há os que se encostam à janela e enquanto dormem vão dando pequenas e involuntárias cabeçadas no vidro, há os que encostam o queixo ao peito, tombam a cabeça para a frente e assim é que dormem, há os que dormem com música nos ouvidos e os que o fazem sem ela. E há os que têm o sono leve e vão dormitando e intermitentemente abrindo um olho para ver o ambiente do espaço, assim como há os que dormem a sono solto até ao destino. Tudo isto é interessante, mas nada comparável ao verdadeiro interesse: o da face do sono.

Um destes dias, entrei no comboio, sentei-me e sentou-se à minha frente uma pessoa daquelas que dormem sobre o queixo. E não pude deixar de reparar nela porque dormia profundamente mas a sua face estava sisuda, preocupada e, mais do que isso, sofrida. Diversas vezes tive a sensação de que ia chorar. Não aconteceu, mas juraria que esteve quase. Depois reparei que havia mais pessoas assim. Franzem as sobrancelhas enquanto dormem, cerram os dentes e os lábios, fecham os olhos com força e sofrem o sono. Outra categoria é a dos pensativos. Têm um sono sério, uma face fechada e sisuda. Não há ali sofrimento mas seriedade. Estes, normalmente, mantêm o corpo direito e recostam somente a cabeça.
Um dos grupos mais interessantes é o dos desleixados. Tudo é desorganização, até na forma como dormem. Encostam-se à janela, alguns colam-se literalmente a ela, e vão dormindo e cabeceando. Os braços caem desorganizados pelo corpo e transparecem indiferença. Alguns destes sorriem durante o sono. Mas, os mais engraçados, que até nem são a maioria, são os tranquilos. Estes tipos, não sei o que fazem na vida nem à vida, mas sei que poderia vir de lá o comboio que nada os acordaria! Recostam o corpo todo, alguns destes, além do corpo, também recostam a cabeça. Normalmente fecham a boca mas há, nesta categoria, os que vão dormindo como se estivessem para comer a carruagem, de boca escancarada. E o que os une é uma clara expressão de tranquilidade. Também entre estes há os que sorriem enquanto dormem profundamente. Só acordam no destino. Vá-se lá saber como sabem que chegaram, o certo é que sabem. São invejáveis. Até a dormir transparecem tranquilidade, como se nada fosse com eles..

E assim, à medida que a máquina rola e os solavancos se repetem e os sons se propagam, a face do sono viaja no interregional das 7:18 e por ela, vemos o que vai no mundo. A preocupação e o sofrimento, a seriedade, a desorganização e a tranquilidade de quem vai de Entroncamento a Santa Apolónia na mais absoluta paz do senhor. Todos têm algo em comum. Durmam como dormirem, estas pessoas têm de ter o nosso respeito porque ainda a noite banha a Terra já elas estão a trabalhar. A sono solto.

O Clã do Comboio - O Casal que Fez Amor no Interregional das 7:18


O Casal que Fez Amor no Interregional das 7:18

Não estranhem o Título.
Eu próprio não queria acreditar, mas foi o que aconteceu.
No lugar onde costumo ir sentado, ao lado da senhora que lê, da menina que dorme e do homem que sai em Santarém, vê-se o fundo da carruagem onde os bancos estão dispostos lateralmente, ou seja, virados para o centro do comboio. O casal ia sentado nessa zona, lado a lado. Ele era um homem nos seus quarenta e muitos, grisalho, com muito boa figura. Vestia fato e gravata. Camisa azul-claro e gravata encarnada. Ela seria ligeiramente mais nova, tinha um sorriso bonito, em arco, a enfeitar-lhe a cara magra e o cabelo levara um corte a lembrar a Jacqueline Kennedy. Vestia um saia e casaco cinzento com uma ténue risca branca e um casaco comprido de fazenda grossa, castanho-escuro, por cima da roupa.

Estavam conversando. E a conversa começou a animar. Não que falassem alto, mas começaram a sorrir um para o outro cada vez com mais frequência. No caso dela, houve mesmo alturas em que o sorriso deu lugar a uns risinhos agudos. A pouco e pouco a sua familiaridade foi crescendo e trocaram alguns beijinhos na face e depois, por entre a animada conversa, alguns beijinhos nos lábios. Ora, tudo tem um começo e tudo tem um fim. Nesta caso, o começo foi muito claro. Exactamente quando trocavam um desses beijinhos pequeninos, ela complementou-o colocando a sua mão em concha na face dele e acariciou-o. E ele acariciou-a de volta com uma mão grande aberta ocupando-lhe a face toda. E o problema não foram as suas faces acolhidas pelas suas mãos. O problema é que esse toque e o calor dele prolongaram o beijo que era para ser pequenino e ficou longo e terno e dedicado e húmido de lábios e línguas. E ela puxou-lhe pela gravata e sentou-se no colo dele arqueada e empurrando-lhe a cabeça para trás até que batesse no vidro e dobrou-se sobre ele beijando-o. Ele ficou admirado mas não negou. E a saia dela subiu com o gesto de afastar as pernas para se sentar nas dele, mas pouco se viu disso porque o casaco comprido castanho-escuro caindo direito até ao chão tapava tudo.

Sei que continuaram beijando-se ofegantes e as mãos dele navegaram para baixo do casaco dela e libertaram o que tinham de libertar e juntamente com os beijos começou um inequívoco balancear ritmado. Por esta altura, havia um burburinho no comboio de pessoas que reprovavam baixinho o que não tinham coragem para dizer alto e outras que não reprovavam, É lá com eles, mas o certo é que ninguém ficou indiferente. Ou melhor, quase ninguém. Eles iam de frente para a mulher vampiro que abriu os olhos, encolheu nos ombros e voltou a fechá-los. O ceguinho tirou os óculos escuros e nesse dia não dormiu. A maioria das pessoas, quer aprovasse, quer reprovasse, não tirava os olhos do casal que fazia amor no interregional das 7:18.

E o ritmo deles cresceu e cresceu também a ofegância e pareceu-me mesmo que estavam a chegar a um ponto de não regresso, onde seria impossível parar a jactância do amor a bordo quando aconteceu o inesperado.
O revisor aproximou-se de mim, tocou-me no ombro e disse:
- Desculpe lá, bilhete...
Saquei do passe, mostrei-lho e respondi:
- Desculpe, ia a...
- Não há problema. A esta hora muita gente vai. Mas você ia bem ferrado.
- Pois ia. Sabe, ando cansado.
Guardei o passe, tentei adormecer e recuperar a acção no momento onde a deixara, mas não consegui. Há coisas que só nos acontecem uma vez na vida!

O Clã do Comboio - Morning Breakfast


Morning Breakfast
Tem as mãos largas. As unhas transparentes acabam num risco branco. Não sendo magra, não é gorda. É aquele tipo de mulher a que chamamos bem constituída. A cara larga e ampla, o cabelo louro, pelos ombros, as pernas largas e roliças. Traz sempre um ar sério. E tudo isto, sendo a sua especificidade, é comum e não suscita um texto. Mas há um ritual. Alguns de nós tomam café em casa, outros no bar da estação, outros vão a esse mesmo bar tomar todo o pequeno-almoço matinal. Ela não. Posiciona-se na plataforma de frente para mim, do outro lado da linha. Entra pela porta oposta à que eu uso e sentamo-nos na mesma zona. E depois surge o ritual. O pessoal acomoda-se, assenta o pó do ruído e ela, sempre, religiosamente sempre, toma o seu pequeno-almoço a bordo. Pode ser uma sandes, uma fatia de bolo ou outra coisa qualquer. O que quer que seja, é sempre generoso. Foi cortado por generosas mãos e é degustado com o interregional das 7:18 em andamento. Com a mesma calma e ligeireza de gestos com que abre a merenda, também se desfaz do que sobra e do guardanapo ou do papel de alumínio onde vinha embrulhada.
Depois, de forma invariável, encosta a cabeça à lateral do comboio e dorme até ao Oriente. É como dizia a minha mãe, de barriguinha cheia…

O Clã do Comboio – O Ceguinho


O Ceguinho
Esta história terá poucas palavras porque nem sequer é uma história. É mais uma constatação de um ritual como qualquer outro, estranho como qualquer outro. Um homem nos seus quarenta entra todos os dias no interregional das 7:18, procura o mesmo banco, o que consegue porque não é uma zona muito procurada e dorme. A forma como encontra o seu equilíbrio é um pouco diferente da maioria de nós. Em vez de colocar a pasta na prateleira ou debaixo do banco onde segue sentado, coloca-a no colo, agarra-se a ela, dobra-se sobre ela e dorme assim.
O que suscita este texto, contudo, é o mecanismo que ele encontrou para isolar-se de todos nós. Não foi tapando os ouvidos com as suas escolhas musicais, foi colocando uns óculos escuros. Ora, isto torna-se engraçado porque, quando entramos para o comboio é noite, ou melhor, o dia anuncia-se lá ao fundo mas não há, ainda, qualquer notícia do sol, logo, não é dele que se está protegendo. E lá vai, dobrado sobre a pasta, dormindo atrás do seu escudo de estar isolado e protegido… mas não do sol!

A Ligeirinha

A ligeirinha
Vagueia pela casa,
Saltita pela cozinha,
Esvoaça borboleteante
Pelo seu quarto de princesinha.

A ligeirinha
Dá beijinhos de borboletinha
E, por mais que se lhe peça,
Não sabe ficar quietinha.
Tem muitas coisas para preparar,
O mundo inteiro para viver.
O seu coração gosta de amar
Cada coisa que precisa de fazer.

E, lá vai vivendo,
Suave e leve,
Por entre as coisas que tem e teve.
E desliza no mundo agreste
Com sua pose elegante e campestre.

Gastronomia

Nunca pensei que pudessem fazer parte do carinho
Um prato de peixe e um copo de vinho.
Nunca pensei que pudesse excitar a pele
Uma finíssima tosta banhada em mel.
Nunca pensei amar em ritmos campestres
Embalado no suave ácido dos frutos silvestres.
Nunca pensei que pudesse ser minha
Uma bailarina saltitando pela cozinha.
Nunca pensei ouvir com êxtase e emoção
O entoar caseiro e melódico de uma canção.
Nunca pensei que nos gestos pequenos e cuidados
Estivesse o profundo segredo dos amantes apaixonados.

Not Sex

Quando eu te preencho e tu me ganhas
Não há nessa entrega
Qualquer centelha de invasão,
É um dar que preenche
É um receber em explosão.
E tudo o que se passa está
Para além das palavras que há,
Vive no teu corpo,
Habita meu coração,
E sai de mim
Porque vai para ti,
E há nisto um caminho
E um rosário
Como se o sentido da vida
Andasse ao contrário.
Recebes tu, dou eu.
Recebo eu, dás tu.
E há nesses gestos fantasia,
E atravessa o ar um sorriso de harmonia
Quando eu te preencho e tu me ganhas.

Lady Von Trapp

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
Os teus dedos no meu corpo.
Os teus lábios sabendo a mel.
O teu calor na minha pele.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
A tua voz ecoando uma canção.
As tuas mãos navegando pela comida.
O calor da tua voz entoando uma canção em francês.
As tuas mãos fechando um frasco de cada vez.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu olhar sorrindo a vida.
O teu cabelo desalinhado como um sol.
Os teus seios espetados.
As tuas tangerinas pequeninas.
A tua manteiga e o teu pão mole.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu andar miudinho.
O teu vaguear inquieto pela casa.
A tua dispersão no dar e no receber.
O teu querer fazer-me feliz.
O teu movimento gracioso e sem nexo.
A forma como me ofereces o teu sexo.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.

De Negro Vestida - LII


De Negro Vestida – XVI

As mulheres gostam de ser mulheres.

Os homens gostam de ser homens.
A vida lá terá as suas variações, contradições e naturais excepções, mas o facto é que costumamos vestir bem a pele que o Senhor nos deu. E há aspectos que admiramos mutuamente no sexo complementar que oposto não é. E há até algumas circunstâncias que são particularmente cativantes de acordo com os tempos usos e costumes. São modas. Hoje em dia, por exemplo, as mulheres, que apreciam um físico masculino em boa forma, deixam-se cativar mais facilmente por um homem que passeie um cão pelas ruas ou que se faça acompanhar de uma criança prestando-lhe cuidados e atenção. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Sete Pecados

Deixai-nos, Senhor, pecar com inocência,
Que faz falta à vida
O risco do pecado
Em consciência.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Gula constante do Amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Avareza constante da paixão.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela constante Inveja de quem ama em paz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Ira desse amor não ser capaz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Soberba deste soberbo amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Luxúria de acarinhar os necessitados.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Preguiça de não cometer todos os dias estes sete pecados.

O Clã do Comboio - Trim, triiim, triiiiiiiiiim...


Trim, triiim, triiiiiiiiiim...
Há dias que nascem agitados até mesmo no seio de um clã semi-adormecido e com os rituais muito incorporados.

Um dia destes, parecia que andava o diabo à solta no interregional das 7:18h. Mas não um diabo qualquer. Era o diabo dos ruídos incomodativos.
Já na estação me pareceu que havia certo alvoroço no ar, pouco costumeiro. Pensei, Assim que o comboio arrancar, começa tudo a dormir e é um descanso. É o começas. Vamos por partes.

Primeiro sentou-se um moço à minha frente com música nos ouvidos. Acontece que tinha um daqueles auriculares que, além de empurrarem a música para dentro, também a explodem para fora em forma de ruído impreciso. Acresce ainda que se tratava de um moço generoso que não queria a sua frenética batida só para si. Vai daí, coloca a coisa no máximo do volume e, que eu reparasse, nove pessoas deitaram-lhe olhares acusadores. E o moço nada! Até que alguém lhe tocou no ombro e disse:
- Olha, importas-te de baixar o som?
O tipo não ouviu. O outro falou mais alto e alterou ligeiramente a frase:
- Baixa o som!
Pensámos que a coisa ia tranquilizar. Não tranquilizou.
Duas filas mais atrás, toca um telefone. Triim, triiiim... Que eu contasse, tocou aí umas cinco vezes. A dona dele atendeu e falou baixinho. Nisto, o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro começou a emitir um ruído polifónico do bolso do casaco:
- Estou?!
Falou baixinho mas não se livrou da vergonhaça. Ainda agora tinha mandado calar o outro e já não deixava ninguém dormir. Depois, tocaram mais três telemóveis e quando chegámos a Vila Franca de Xira, o ambiente acalmou e o pessoal pensou que embora só faltasse um terço da viagem, poderíamos finalmente descansar um pouco. E foi aí que se deu o episódio que acabou por motivar este texto. Ao fundo da carruagem viajava uma alma que dormia profundamente com música nos ouvidos e por essas duas razões não ouvia nada. Ora, por cima dela, tinha colocado uma mochila que, entre outras coisas, levava um telemóvel estridente no máximo do volume. O desgraçado tocou, tocou, tocou... E a senhora adormecida com a música nos ouvidos nem pestanejava. Quando alguém conseguiu perceber o esquema, ou seja, de onde vinha o som, de quem seria mochila, acordou a mulher que atendeu o telefone. Guardou-o no bolso do casaco e recolocou a mochila na prateleira por cima da cabeça. A malta das 7:18 pensou que ia descansar uns minutinhos. Enganou-se. Um som igualmente estridente mas diferente do anterior ecoou na carruagem e ninguém parecia querer atender aquele também. O pessoal olhava, olhava, o som parecia vir do mesmo sítio mas a senhora já tinha de lá tirado o telemóvel e ainda por cima aquele não era o toque dela. Quando já ninguém conseguia disfarçar a má disposição, ela olhou em volta, viu as caras zangadas dos companheiros de viagem, tirou a música dos ouvidos, apercebeu-se do som, foi à mochila, tirou de lá outro telemóvel, atendeu e foi a conversar até Lisboa numa voz audível em toda a carruagem. Deu instruções para o almoço, para o jantar, disse o que ia fazer a Lisboa, combinou quem ia buscar as crianças e falou muito do seu trabalho e do seu marido. Se bem me lembro, comentários pouco simpáticos.

Quando chegámos a Lisboa, as olheiras eram mais que muitas e os passageiros regulares do interregional das 7:18h. não sabiam bem se haviam de rir ou chorar. Para catarse colectiva, houve um que, ao sair, ainda exclamou:
- Este pessoal deixa os telemóveis ligados e não os atende. É uma falta de respeito.
Era o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro quando julgávamos que esse era o maior dos nossos problemas.

O Clã do Comboio - A Mulher Vampiro Ataca de Novo

A Mulher Vampiro Ataca de Novo.
A mulher vampiro hoje sorriu-me! Tem um sorriso bonito.

Mas, antes de sabermos como e porquê, vamos lá a perceber porque é que este texto tem no título a expressão "Ataca de Novo". Ela não ataca nada. Só quer que a deixem dormir a viagem. Mas como quem faz os títulos das crónicas sou eu e como ia escrever de novo sobre ela, escolhi este porque me apeteceu.
A verdade é que tenho mais pormenores dela. Faltou à minha descrição anterior dizer que também as suas mãos são alvíssimas e que tem as unhas impecavelmente pintadas de negro. Faltou dizer que ouve música toda a viagem com uns phones brancos que contrastam com o negro da indumentária. E faltou dizer que dorme toda a viagem, que viaja sempre no mesmo banco. Não me perguntem como é que consegue apanhá-lo vago, mas o certo é que consegue. Acorda sempre no mesmo local, levanta-se, compõe-se e vai à sua vida.

Esta semana, contudo, foi semana de mudanças profundas. Abandonou o negro. Veste toda de cinzento. Quer dizer, quase toda. Calças de fazenda cinzentas e um enorme casaco de fazenda num xadrez miudinho castanho-escuro e branco. Um lenço farto a sair-lhe do casaco num tom castanho-clarinho seco muito suave e o calçado, botas, no mesmo tom. Esta roupa não é tão monocromática como a anterior mas cria a sensação de estar toda de cinza. E depois, claro, emerge aquela labareda laranja que é o seu cabelo. Continua a qualificar para vampiro do século XXI.

Hoje, três tipos simpáticos que costumam ir a meio da carruagem a discutir como é que lavam os carros ao fim-de-semana e despejam o lixo à noite, foram lá para trás. Ficaram ao pé dela. E conversavam abundantemente com o seu usual entusiasmo de tipos que passeiam o cão. E é precisamente essa conversa que não a deixa dormir. Ela forçou. Fechou os olhos e tentou, mas eles agora iam a falar de marcas de pneus e não dava mesmo para ela dormir. Eu estava a olhar para ela, tirava-lhe a pinta à nova roupa para escrever este texto, quando ela abriu os olhos com cara de poucos amigos, olhou para eles, encolheu os ombros como quem diz, Nada a fazer, e depois olhou na minha direcção e sorriu. Um sorriso "Já me topaste". Eu sorri de volta encolhendo os ombros a dizer-lhe sem palavras, Hoje não se dorme. Ela confirmou com o olhar, sacou de uma revista e foi ler. Eu vim escrever. E os três amigos continuaram a salvar o mundo. Alto e bom som.

O Clã do Comboio - Curta e Grossa

Curta e Grossa
Nunca me tinha acontecido. Foi desta. Alguma havia de ser a primeira.
Dia intenso e cansativo. Comboio de regresso tardio. Frio na rua. O ar condicionado lá dentro aqueceu o corpo e a alma. Adormeci.
-
Quando acordei, o painel do comboio anunciava "Próxima estação: Lamarosa".
Como a Lamarosa é depois do Entroncamento onde é suposto eu sair, pensei, "Esta treta destes comboios andam todos desregulados."
Reparei entretanto que o comboio tinha muito pouca gente. Perguntei a uma senhora, "Já passámos o Entroncamento?". Ela não gostou de ser interrompida no seu meio sono e respondeu curta e grossa:
------- Já!

Esclarecimento

Antes de mais, muito obrigado a todos os leitores pela atenção que dispensam a este cantinho. A nossa família continua a crescer.

Uma avaria no meu portátil, impediu que mantivesse o ritmo de publicações nos últimos dois dias. Mas fiquem descansados. Há muitas histórias do "Clã do Comboio" e já há mais 20 capítulos de "De Negro Vestida".

Continuarão as citações, tão apreciadas que estão a ser e, claro, uma musiquinha para distrair...

Abraço Grande,
JP

Citação


"Ser autor é trazer-nos inédito aquilo que ainda era do conhecimento geral."
Estação do Metro do Saldanha

Histórias do Autocarro 28 - Elegância Enlatada

Sabem aquelas imagens onde está tudo certinho mas há qualquer coisa de errado e não sabemos bem o que é? Pois bem, vinha-me acontecendo um fenómeno semelhante no autocarro 28. Em meio de toda aquela normalidade laboral de pessoas vestidas para o trabalho com as faces da manhã que começa e do ponto que espera ser picado, no meio de todo este cinzento comum na vida da grande urbe, havia uma nota de cor.
-
É magra. Alta. Tem a face fina e alongada. Os olhos brilham cor de amêndoa. O cabelo é loiro e liso. Normalmente trá-lo sobre os ombros. Por vezes apanha-o e fica com um ar mais "executivo". Coloca sempre batôm e uma base na cara que lhe dá um aspecto cuidado e distinto. Passa uma sombra discreta nos olhos e arranja as sobrancelhas. Pinta as unhas. Veste calças vincadas e sapatos de verniz e um casaco comprido, preto, de onde emerge uma écharpe que traz ao pescoço. E coloca-se na fila do 28, entra com os outros todos e procura um assento nos primeiros bancos. Quando não o encontra vago, a sua elegância segue de pé, enlatada como todas as outras, presa ao varão com uma mão e do braço esticado pende uma mala a dar com os sapatos. E nada disto parece perturbá-la. Incorporou este ritual na sua elegância ou, se quiserem ver ao contrário, trouxe a sua elegância para os rituais de todos nós.
-
É fresco vê-la. É agradável. Normalmente fica-se com a sensação de que a normalidade também pode ser colorida com a paleta da elegância e do bom gosto. E assim, o 28 fica mais completo, mais universal na sua passerelle de trabalhadores matinais em trânsito.

Histórias do Autocarro 28 - Pois Parece!

Pois parece!
Quem me conhece, sabe que eu sou uma pessoa razoável, multicultural e aberta, logo, nada sectária ou segregadora de realidades alienas à minha. Sou mais do tipo inclusivo do que discriminatório.
-
Feito o aviso, deixem-me lá reagir com naturalidade ao que vi um dia destes no 28.
O tipo não batia bem. Pronto, podem chamar-lhe outra coisa mas esta é a universal expressão que melhor se lhe aplica. Tinha mesmo qualquer coisa solta na caixa dos parafusos.
-
Quando entrou no 28 vinha a falar alto. Tossia. Era sobre política. Já não sei o que disse, mas esgalhou ali umas teorias financeiras para salvar o universo. Sentou-se. Tossia. Depois, sem aviso, e num tom de voz que se fazia ouvir em todo o autocarro, mudou de assunto. Começou a falar de fado. Quem era bom, quem era mau, quais os melhores fados. Tossia. E fazia perguntas a quem ia ao lado dele. Como não obtinha resposta, tossia e continuava a teorizar. De repente, sem que nada o fizesse prever, levantou-se e começou a cantar um fado. Arranhava-o bem alto e todo o 28 0 ouvia. "Que estranha forma de vida". Irónico, pensei. Ele é que tinha uma estranha forma de vida. Mas não me incomodava. Excepto quando fazia de propósito para tossir para cima das pessoas. Só que, enquanto cantava, não havia tosse, só cantoria. E lá foi cantando e deslocando-se para o fundo do autocarro e quando lá chegou virou-se para a porta como quem vai sair e continuou cantando. Quando o autocarro começou a travagem de aproximação à paragem, o fadista parou subitamente de cantar, bateu com uma mão na testa e disse:
------- Eh pá, parece que estou maluco. Não é aqui que eu quero sair!
E sentou-se de novo no banco.

Ítaca ao Longe

Nasce desta distância
Um desejo
E uma ânsia
De querer-te e ter-te só para mim.
E cada dia que passa
Parece que é o fim,
Que é a desgraça.
E não é nada.
É só a insuportável dor
De não poder saciar este amor
No teu ventre,
No teu olhar de água...
-
Não teças mais, Penélope de mim.
Abandona teus instrumentos e tuas linhas
E vem saciar de amor eterno este Ulisses de ti!

O Clã do Comboio - O Casal Desigual

Ele é velho. Ela é nova. Ele é alto. Ela é baixa. Ele é grisalho. Ela tem o cabelo escuro. Ele tem pouco cabelo. Ela tem muito. Ele é mais para o magro. Ela é mais para o cheiinho. Ele é reservado. Ela é conversadeira. Ele tem o olhar cansado. Ela tem o olhar vivo. Ele dorme sempre. Ela nunca dorme.
-
Entram sempre na mesma estação, à mesma hora, para o mesmo comboio, no regresso a casa findo mais um dia de trabalho. Sentam-se rigorosamente sempre nos mesmos bancos da mesma carruagem, de frente um para o outro. Dão um beijo nos lábios para celebrar mais um dia vencido e o início do regresso a casa e depois cada um faz o seu próprio regresso.
-
É um casal que juntou aos rituais lá de casa a rotina do comboio. Incorporaram-na no seu quotidiano. Não são diferentes. São harmoniosamente desiguais.

Diz-me como falas...



Há povos com pendor para a síntese. E há povos com pendor para a análise. Da mesma forma, há povos palavrosos e há povos mais reservados. E estas tendências cristalizam-se nas grandes obras e cometimentos, mas, sobretudo, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos do quotidiano.
-
Hoje lembrei-me disto porque andei de metro.
-
Há uns tempos estive em Londres e a frase mais frequente no Metro londrino é "Mind the Gap". Com três palavrinhas apenas, a empresa do Metro de Londres diz, de forma sintética e incisiva, aos seus utilizadores, para terem cuidado com o desnível entre a máquina e a plataforma ao entrar e sair do Metro. Este anúncio é muito repetido porque há, efectivamente, muitos acidentes por ano com pessoas que tropeçam e caem.
-
Não há povos nem culturas melhores. Todos são diferentes e preciosos e, hoje, enquanto andava no Metro de Lisboa, ouvi a versão portuguesa daquele aviso e não consegui conter a escrita. Tal é a diferença. De tal forma me deixou a pensar. Enquanto as pessoas entram e saem, uma simpática voz feminina menos incisiva que a congénere inglesa, mas bem mais elaborada sintacticamente avisa os incautos: "Senhores passageiros, atenção ao desnível entre o cais e o comboio!". Com onze palavrinhas apenas...

O Clã do Comboio - A Tia da Beatriz


A Tia da BeatrizCaros amigos e leitores, esta é a primeira história do Clã do Comboio em que há interacção, mais especificamente, conversa entre mim e um passageiro. Tinha de ser especial pessoa, pois então!
Sexta-feira. Quase 19h. O frio aperta. Quando entro no comboio não está quase ninguém e o ar condicionado devolve-me à vida e ao conforto. Coloco a música nos ouvidos, caderno e caneta nas mãos, escrevo e espero que o fim-de-semana venha até mim.
Quando ela chegou, não soube bem como aconteceria, mas pressenti que conversaríamos. Tinha um ar bem disposto e comunicativo. Parecia daquelas pessoas que não quer perder nada da vida e o olhar transparecia uma simpatia natural. Não me enganei.
Mas não foi por isso que escrevi sobre ela. Foi pela naturalidade e pela dedicação. tinha a face redonda e o sorriso aberto e bonito, a tez clara e o cabelo escuro e ondulado por cima dos ombros. Vestia a juventude dos seus vinte anos, mais coisa, menos coisa. Era, de certeza, uma jovem estudante que vinha de fim-de-semana a casa. Tinha todas as características de uma pessoa na flor da juventude e contudo surpreendeu-me. Comecei por estranhar que o seu telemóvel fosse de um modelo menos recente. Ia apostar que aqueles já não se fazem. Depois, tirou uma tira de pano com cerca de 10cm de largura e bastante comprida onde estava a bordar a ponto cruz flores com sorrisos e o nome Beatriz. Era baixa e por isso com muita arrumação e só assim conseguiu contorcer-se e encontrar posição para bordar quase indiferente aos solavancos do comboio como se não perturbassem o que estava fazendo. E fiquei vendo um quadro antigo com uma menina jovem que não lia romances com vampiros, não tinha um computador, não lia uma revista cor-de-rosa, não se esvaía em sms a partir de um telemóvel última geração. Entretinha o tempo bordando Beatriz a ponto cruz. Reparei que aproveitava a linha mesmo até ao finzinho. Quando era tão curta que a agulha não conseguia dar a volta, ela desenfiava a linha, espetava a agulha, voltava a enfiar a linha e dava o ponto.
Num movimento mais brusco da grande lagarta metálica, a folha onde tinha impresso o que estava a bordar caiu ao chão e eu apanhei-lha.
------- Muito Obrigada!
------- Não tem de quê. Não é por si que estamos em crise. Aproveita a linha mesmo até ao fim...
------- Não é por isso. Tento cortá-la o menor número de vezes porque os remates dão muito trabalho.
E isto bastou para que nem eu ouvisse mais música, nem escrevesse mais uma linha, nem ela desse mais um ponto. Fomos conversando o caminho todo. Percebi que Beatriz era a sobrinha e percebi que a Tia da Beatriz bordava com gosto e dedicação e fazia-o porque a mãe lhe ensinara. E disse-o com naturalidade e assumiu isso na sua juventude. O seu código de estar não implicava que se identificasse com os outros jovens fazendo o que eles fazem. Podia ser só a Tia da Beatriz que borda com carinho para a sobrinha porque a mãe lhe ensinou e isso a faz feliz. E quando lhe disse que escreveria sobre ela mas não queria saber o seu nome porque para mim bastava que fosse a Tia da Beatriz, ela não reclamou nenhuma espécie de protagonismo e voltou a surpreender-me com a sua naturalidade:
------- Eu reparei que não quis perguntar e por isso não lho disse.
Eu sei que a Beatriz vai ter um saquinho da escola todo bonito com o nome bordado mas sei algo mais importante. A famíla da Tia da Beatriz deve estar orgulhosa dela porque não só assume a herança de simplicidade e dedicação que lhe deixaram, como já a está transmitindo à sobrinha. Não sei se virá aqui um dia ler o que escrevi sobre ela, mas se vier, o melhor que posso dizer da Tia da Beatriz é que todas as sobrinhas deviam ter uma tia assim.

Histórias do Autocarro 28 - A Mulher que dizia Palavrões

Não era preciso dirigir-lhe a palavra. Bastava olhar para ela ou, simplesmente, sorrir. Qualquer coisa constitui para si uma provocação como se todo o universo se tivesse reunido para conspirar contra si. A razão por que conto a sua história, narrativa breve e simples, tem a ver com um pormenor de linguagem. Ou melhor, dois. O primeiro é que tem o hábito de dizer que não vai dizer palavrões:
------- Não me puxem pela língua... O que vale é que eu fui bem educada e não digo palavrões, senão...
O segundo é que depois de dizer que não vai dizer palavrões, solta-os de enfiada como se não houvesse amanhã ou fosse morrer engasgada com eles:
------- Não me puxem pela língua... O que vale é que eu fui bem educada e não digo palavrões, senão mandava o estrangeirinho à merda ó o caralho. O cabrão deve julgar que é dono desta merda toda e a gente está aqui de cu para o ar p'ró servir.
Ora bem, não vos zangueis comigo, caros leitores, nem fiqueis mal impressionados. A verdade é que vos dei a versão suave e audível. A seguir ao estrangeiro zangou-se com um homem que lhe disse para não dizer palavrões, depois com uma senhora que se riu quando ouviu a segunda rodada e quando saiu do autocarro ainda ia a vociferar contra o mundo no mais agressivo vernáculo que se possa imaginar.
Uma coisa eu garanto, aquilo foi em crescendo, ou seja, sempre que se sentia provocada, a fiada vernácula era maior e menos audível...
Outra coisa eu garanto, a viagem foi diferente. Menos sisuda!

Sim

Sim, és tu!
É a tua presença
Que dita a feliz sentença
Da minha escravidão.
Vive em mim
Um suspiro
Que busca em teu colo
Seu suave retiro.
Lembro-me do toque
Das tuas mãos navegantes,
Desse abismo e desse perigo
Que é sermos amantes
De todos os dias!

Informação com Agradecimento


O mês de Novembro foi aquele em que "Mails para a minha Irmã" teve mais leituras no último ano e em toda a sua existência. As nossas páginas foram lidas 3692 vezes. Grato a todos pela dedicação. Continuaremos nossa linha de publicação.
João Paulo

Conjugação

Quiseste tu,
Quis eu
E o que foi teu
Ficou meu.
E é por isso
Que sinto que posso
Dizer que isto
Já é nosso.

Carnaval

Foste tu,
Na rua, sobretudo,
Que deste ao meu carnaval
Seu catártico entrudo.

Sexo

Não é o sexo que é bom.
É a ideia de ti
Sob o meu amor.
E isso não é sexo!

Metade da Metade

Cobre-me a face
Com o teu olhar,
Inunda-me o corpo
Com o teu toque.
Preenche-me de sensações
Sendo tu.
Sê minha música
Nas palavras que trocamos
E minha Bíblia
Naquelas que escrevemos.
Sê a metade
Da metade incompleta de ti,
Traz-me a minha vida
Com a tua.
Ilumina com teu sol
Minha lua.
E sê meu tempo,
Minha noite
E meu dia,
Meu sono,
Minha alegria.
E percebe que vives em mim.
-
Cessarei quando cessares.
Amarei enquanto amares.

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