Março de 2011

Caros Leitores,
Quando, no final de Fevereiro, quebrámos a barreira das 4000 visualizações, pensei que tínhamos atingido os nossos máximos. Acontece que Março trouxe novas superações. Mais de 4600 visualizações em mais de 2300 visitas.

Efectivamente, não nos resta senão agradecer a vossa dedicação, as leituras diárias e o acompanhamento que fazem de Mails para a minha Irmã. A única coisa que posso fazer para vos recompensar, é continuar a escrever. A escrever tudo aquilo que vos tem atraído. Em Abril, continuarão as histórias do Clã do Comboio, do Autocarro 28, as Curtas do Metro e chegaremos ao fim do Romance "De Negro Vestida".

Além disso, sempre muita música, citações, pensamentos e crónicas diversas. A minha vida é escrever, logo, a minha vida só faz sentido enquanto os meus leitores continuarem a ler. Sois o meu oxigénio e também por isso vos agradeço.

Até ao próximo post.
João Paulo Videira

De Negro Vestida - LXXIII


Abandonar o Negro – X

A chave acabou de rodar na fechadura. Carolina entrou, largou a mala numa cadeira forrada que havia na entrada, foi ao seu quarto, poisou o casaco e voltou à cozinha. Percebeu que, ou havia movimento, ou tinha havido. Franziu o sobrolho, inspeccionou o ambiente em volta e perguntou para o ar levantando a voz mais à procura de uma confirmação para a sua desconfiança do que para saber se Maria de Lurdes estava em casa:

- Mãe?!... Mãe…

Maria de Lurdes havia colocado um dedo na vertical sobre os lábios de Carlos José pedindo-lhe silêncio, vestiu um roupão e foi ao encontro do destino. 


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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Curtas do Metro - Mamadu


Como já repararam, a Curta do Metro de hoje não tem a tradicional imagem da composição mas sim este simpático papelinho que me foi gentilmente oferecido à entrada do Metro do Cais do Sodré, assim como quem me salva a vida.

O nome, só por si, é sugestivo. Os erros ortográficos são poucos quando comparado o papelinho com os da concorrência, mas o que efectivamente atrai no Professor Mamadu é a extensa lista de especialidades. O tipo tem de ser um génio. Ele tem de ser o Cristiano Ronaldo da Astrologia e da Vidência. Mais ou menos o mesmo que termos um médico que seja psiquiatra, otorrino, cardiologista, andrologista, sexólogo, psicólogo, conselheiro matrimonial, economista e padre! Com a vantagem de só se pagar no fim dos resultados. Depois, tem uma excelente ideia para acabar com as filas de espera nos nossos hospitais. Nem sei como é que os sucessivos governos ainda não se lembraram disso: a malta é muita? Consulta-se por carta, onde é que está o problema. Professor Mamadu, por e-mail também serve ou isso das novas tecnologias interfere?

Aqui, no Mails para a minha Irmã, não costumamos fazer publicidade porque não somos uma agência dessa arte, contudo, abrimos umas excepções gratuitas porque quem merece, merece! O nome está mesmo a dizer tudo... ma... ma... du!

Curtas do Metro - Saciado

Saciado
A moça tinha aí uns dezoito ou dezanove anos. Era alta e esguia, o cabelo pintado de loiro, uma camisola de lã preta, botas da tropa enormes e umas meias pretas que lhe subiam pelas pernas acima até à mini-saia. A mini-saia tinha três características. Era verde exército. Tinha bolsos a toda a volta da cintura a imitar os que se vêem nos fatos dos militares. Era curta. Exígua. Tão curta que mais parecia um cinto. Eu fiquei de pé junto às portas. Ela foi-se sentar. Sentou-se de costas para mim, ao pé da janela, logo, eu não conseguia vê-la, mas não era difícil imaginar que, com uma saia tão curta, sentada, o pano não era suficiente para tapar o que quer que fosse. Por isso, fiz uma dupla aposta comigo mesmo. Apostei que, na próxima estação, um homem ia sentar-se de frente para ela e não ia resistir a contemplar o que a saia curta não tapava. Meu dito, meu feito. Entrou um homem com fato de fazenda azul-escuro e gravata. Tinha um casaco comprido e impermeável por cima do fato. A primeira parte da aposta estava ganha. Agora, só faltava que ele olhasse. Eu sabia que ele ia fazê-lo, só não sabia como ia fazê-lo. Sentou-se. Olhou de relance. Nem parou a vista. Volvidos uns segundos, voltou a olhar de relance. Olhou uma terceira vez, mas, desta vez, demorou-se um pouco mais e deve ter gostado porque olhou uma quarta vez. Demorou-se mais. Ficou com o olhar fixo e, no meu conceito de perceber as coisas, estava a exagerar um bocadinho. Cada vez demorava menos a voltar a olhar e cada vez se demorava mais no olhar. Ainda se saciou mais duas ou três longas vezes.

Saímos os três. Já nem olhei para a moça. Ele tinha-a visto toda! Achei piada porque mudei de Metro e fiquei à espera, sentado no banco de pedra ao longo da plataforma. O Metro do outro lado da linha chegou primeiro e vi a moça entrar através dos vidros da carruagem. Entrou e sentou-se. E adivinhem quem se sentou de frente para ela? Não queriam mais nada, não?! Foi uma senhora qualquer que ainda não tinha entrado nesta história! Mas lá que o homem do fato e do impermeável seguiu saciado... lá isso seguiu!

Breve História da Humanidade

Desde já informo que o trabalho que aqui se publica não é meu. Encontrei-o aqui e aqui. Desde já se avisa que é violento e explícito do ponto de vista imagético. É contudo, um retrato sintético daquilo que andamos a fazer no Universo desde que a ele viemos. E tem denominadores comuns: Sexo, Violência, Poder. Eis uma Breve História da Humanidade.

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Curtas do Metro - Multiculturalidade de Mãos Dadas

Multiculturalidade de Mãos Dadas
Cada uma das situações que observei hoje, separadamente, não tem nada de extraordinário. O interessante é que todas estas pessoas se cruzaram comigo no mesmo dia e no Metro.

8:55 - Estação do Metro de Baixa/Chiado
Ele já vinha no Metro. Ela entrou comigo. Ele tinha pele preta. De um preto cerrado de onde emergiam as unhas claras que ainda pareciam mais claras por via do contraste com as mãos. Estava agarrado a uma pegadeira do tecto. Ela era muito branca, quase pálida. A carruagem vinha cheia, mas não insuportável, contudo, ela não hesitou, quando chegou a altura de agarrar-se, colocou a sua mão branca em cima da mão preta dele. Quando saíram, separaram-se. Não se conheciam. Tinham dados as mãos por conveniência na segurança.

17:58 - Estação do Metro do Cais do Sodré
Quando cheguei, elas já lá estavam. Uma de fato de treino. A outra com calças de malha e uma camisola de lã às riscas. Estavam lado a lado, de frente para a linha, de mãos dadas. As palmas claras das mãos pretas entregavam-se com generosidade e carinho. Trocaram um beijo discreto nos lábios e desapareceram na composição quando as portas se abriram.

18:12 - Estação do Metro de Baixa/Chiado
Estou sentado no longo banco de pedra de frente para a linha e paralelo a ela. Dois rapazes descem as escadas ao fundo e encaminham-se para aqui. Os dois têm a pele clara. Um deles está com calças de ganga, um casaco de penas e traz botas de montanha. O outro veste um fato-de-treino branco com vivos lilás. O primeiro tem a barba por fazer. O segundo tem a barba feita e o cabelo muito bem penteado. Vêm de mãos dadas. Aproximam-se e sentam-se, encostados e cúmplices, à espera do Metro.

18:18 - Estação do Metro de Santa Apolónia
Vamos em corrida acelerada, galgando degraus da escada que desagua rios de gente junto à linha do comboio e vamos em busca de um interregional que já perdemos mas ainda não sabemos. São os dois brancos. Ele e ela. Os dois têm porte atlético e roupas práticas. E correm ofegantes, subindo os degraus dois a dois, mas nunca se largam. Correm de mãos dadas. Lá em cima vêem, como eu vejo, o interregional a deslizar ao fundo. Nada a fazer. Perdeu-se. Respiram fundo e beijam-se suavemente nos lábios.

Hoje, foi o dia da multiculturalidade ir de mãos dadas nas curtas viagens do Metro de Lisboa.

O Clã do Comboio - Iago

Iago
Um destes dias, os três amigos que querem salvar o mundo iam na conversa com o escritor e a mulher vampiro e, a propósito do facto do RB ir ser pai, começou-se a falar em nomes para crianças. Quando o escritor disse que o filho se chamava Iago, lá veio a sacramental pergunta que oiço há vinte anos:
- Tiago?
- Não, sem T.
Como os sobrolhos se franziram e as caras ficaram com um ar interrogado, lá se explicou a origem do nome. Que vinha de Iachus, Iagus, Iago e que o nome do santo se começou por escrever Sanctus Iagus, Sant'Iago e, finalmente, por corruptela, São Tiago sendo que o T não era do nome mas da palavra santo.

A malta desmobilizou. Foi ao trabalho e, no dia seguinte, quando os três amigos que querem salvar o mundo entraram no comboio, o RB disparou:
- Olha, aquela história do nome... a minha mulher adorou e já deu a sentença: Miguel Iago.

É engraçada a vida, são engraçadas as pessoas. Ainda há uns meses não sabíamos da existência uns dos outros e já andamos trocando destinos. Ora, acontece que há já uns dias que o RB não aparece, por isso impõe-se perguntar:
- Então RB, diz lá à malta se já nasceu o quarto amigo que quer salvar o mundo...

Curvas Formas

Curvas Formas

A redonda curva
Que o teu seio fazia
Acompanhava a linha
Elegante da baía.

A prenhe forma
Que o teu peito traçava
Tinha a linha da areia
E do mar que a banhava.
jpv

São só Poemas

Muda a Hora

Muda a Hora

Muda a hora.
E onde estava o sol
Ainda agora,
Lá se mantém,
Que os relógios mudam
Pela humana mão,
Mas o sol não quer saber
De ninguém.

E mantêm-se os passarinhos
Aconchegados em seus ninhos,
E correm os rios desvairados
Por montes, cabeços e valados,
E ribomba com pujança o mar
Lavando as mágoas da areia,
E tece a aranha
Sua letal teia,
E zumbem no ar silvestre as abelhas
Reencontrando-se na colmeia,
E balem as ovelhas
Pela manhã,
E continua a crescer-lhes a lã.
E o galo anunciou
Orgulhoso e altivo
A aurora de mais um dia,
Enquanto passava furtivo
Um lagarto de figura esguia.
E as formigas fizeram seu carreiro,
E a Natureza reproduziu
Um dia por inteiro.

E meu coração
Continua a bater assim
Como se não soubesse
Que um dia terá fim.
E porquê?
Porque só tem aqui e agora
E não lhe interessa para nada
Se mudou, ou não, a hora!
jpv

O Clã do Comboio - A Rapariga da Voz Doce

A Rapariga da Voz Doce
Já há muito tempo que ando para escrever sobre ela. É quase como se fosse obrigatório porque tem um certo e inegável encanto. Contudo, não tinha muito a dizer. Até que a ouvi falar e a nomeei. Ficará conhecida no Clã do Comboio como a Rapariga da Voz Doce.

Entra e procura invariavelmente o mesmo lugar ao fundo da carruagem, junto à janela e, em vez de encostar-se a ela, oferece-lhe as costas, senta-se de lado com as pernas a fazerem um triângulo e a ocuparem um segundo banco. É assim uma passageira do tipo dois em um, que é como quem diz dois bancos para uma pessoa. E porque faz isto? Básico e compreensível. Porque assim pode colocar os seus óculos escuros à prova de qualquer luz e encostar a cabeça de lado, nas costas do banco. Dorme profundamente até ao Oriente e chega mesmo a resistir às conversas do escritor com os três amigos que querem salvar o mundo. Tem a pele tisnada pelos trópicos e os olhos redondos e grandes emanam simpatia mesmo antes de falar. Mas é quando fala que a rapariga da voz doce encanta. Não interessa o que diz, pode ser só Bom Dia, Até Amanhã ou uma qualquer banalidade acerca da greve na CP. O que interessa é que, quando diz, somos embalados por uma melodia suave ao jeito de bossa nova de quem fala, um tom tranquilo que encanta e apetece ouvir mais. Traz um sotaque brasileiro acopolado e, por isso mesmo, é invocativo de aventuras e exotismos que todos transportamos na memória herdada das vidas que não vivemos e, quando a ouvimos, é como se as tivéssemos vivido. Quando o interregional das 7:18 enche um pouco mais e ela tem de ir direita ocupando um lugar só, nota-se de imediato a contrariedade. É como se o dia começasse sem uma parte fundamental, o sono iniciático.
Um dia destes estendi-lhe um papel com o endereço de Mails para a minha Irmã para que conhecesse o Clã do Comboio. A resposta foi pronta:
- Já conheço.
E naquelas duas breves palavras bailadas, houve ritmo e embalaram-se ideias para além das que lá estavam. Todas as pessoas, quando falam, deviam poder fazê-lo como a rapariga da voz doce. Antecipavam-se mal-entendidos e desarmavam-se mal-intencionados. Ela é a prova de que o que dizemos não vai só no que dizemos, vai também no como dizemos.

IZ

IZ é a abreviatura do nome de Israel Kamakawiwoʻole, um homem que, não obstante não ser um modelo físico e viver com visíveis problemas de obesidade mórbida, constituiu um exemplo e uma inspiração para os seus irmãos e semelhantes. No final deste clip, a festa que vemos é o seu funeral. Imaginem se cada ser humano, ao morrer, infundisse alegria e esperança naqueles que partilharam a existência consigo... A mim resta-me repetir, em tempo de crises e desgraças que, algures, para lá do arco-íris há esperança. IZ lives!

Futre no seu Melhor: O Projecto!

Embora possa parecer o contrário, quero deixar expresso que o meu interesse no vídeo que aqui se coloca não tem nada a ver com futebol, nem quero intrometer-me na vida do Sporting. Pura e simplesmente não é nada comigo. Acontece que, ou me engano muito, ou esta intervenção vai dar muito que falar e... rir! É, a meu ver, uma pérola da comunicação discursiva e do patamar para que trouxemos a nossa sociedade! Uma coisa é verdade: há muito tempo que não me ria tanto nem com tanta vontade: fantástico!

O Clã do Comboio - A Tigresa Ensonada

A Tigresa Ensonada
Já tem viajado mais vezes, mas não é uma passageira de todos os dias. É jovem, muito jovem, mas essa juventude, hoje, teve contrastes.

Corpo magro e bem feito, com formas harmoniosas e frescas nos seus vinte e picos anos. Tem o cabelo castanho-escuro liso e farto caindo comprido quase pelo meio das costas. Um vestido colado ao corpo estampado de pele de tigre a acabar ligeiramente acima do joelho e botas creme de cano alto, a condizer. Por cima, um casaquinho de malha fina em cinzento desconfia da subida da temperatura. Leva as mãos cruzadas no colo de onde desponta o encarnado das unhas bem tratadas.

E neste quadro há juventude e frescura que hoje foi cortada por um bocejo. Muitas vezes! Interrompia os pensamentos para levar a mão à boca, fazer um ar ensonado e bocejar. E lá seguiu, transportando a sua juventude, a sua pele de tigresa ensonada e bocejante. Era bonita, mesmo com bocejo.

O Clã do Comboio - Em Bebedeiras de Verde

Em Bebedeiras de Verde
Poucos minutos depois de estar em marcha, o interregional das 7:18 parou no meio do nada. Estacou e desligou-se completamente. Dois tipos bem dispostos que não iam a deixar dormir a Stôra exclamaram em sequência:
- Acabou-se o gasoil.
- Ficamos a ver a paisagem!
A segunda frase fez-me levantar os olhos do "Eterno Marido" e olhar em volta. Era um mar imenso de verde. Uma lezíria completa a perder de vista. E ficámos ali, enlevados, a pensar em como tinha sido uma sorte vivermos até hoje para embebedarmos o olhar com o verde da lezíria.

Curtas do Metro - Pequeno-Almoço


Um dia destes, de manhã, duas amigas iam sentadas de frente uma para a outra. Uma estaria a meio dos quarenta e a outra caminhava, grisalha, para os cinquenta. Esta, tirou da mala uma bisnaga de creme para amaciar as mãos, espalhou um bocadinho numa mão e depois começou a esfregá-las. Antes de colocar a tampa na bisnaga, disse:
- Mesmo quando ponho isto, tenho sempre as mãos tão ásperas. Queres um bocadinho?
- Não, obrigada. Já tomei o pequeno-almoço!

O Clã do Comboio - Importa-se de Cair Outra Vez para Cima de Mim?

Importa-se de Cair Outra Vez para Cima de Mim?
A história, breve e simples, que a seguir se conta tem como personagem principal a Stôra. A Stôra é uma simpática figura do Clã do Comboio que retratámos em "Morning Breakfast".

Ultimamente, tem-se metido comigo, mas hoje o destino castigou-a. Normalmente vou sossegado, até que chegam os três amigos que querem salvar o mundo e começam a falar e obrigam-me a falar e depois já ninguém consegue dormir descansado. A culpa é, sobretudo, do VM e do RB que são os mais traquinas. Ora, quando chegamos ao Oriente, a Stôra, em vez de os repreender a eles, olha para mim e diz:
- Então já não se pode dormir?
Eu lá tento dizer-lhe que a culpa é dos três amigos que querem salvar o mundo, que salvar o mundo dá muito trabalho e gera muito ruído, mas ela limita-se a rematar:
- Pois, mas foi a si que eu ouvi rir!
É verdade, mas também é verdade que é quase impossível não rir quando o VM vai a falar a sério!

E foi assim que ela se deu. O maquinista de hoje deve ter bebido uma amarguinha ao pequeno-almoço ou ia com pouca sensibilidade nos pés ou nas mãos, enfim, não sei como se trava um comboio, mas ele ia com pouca sensibilidade no membro que usa para travar porque ia só aos solavancos violentos.

A Stôra levantou-se, olhou-me com aquele ar de quem me ia puxar as orelhas, o maquinista travou, o solavanco foi brusco, a Stôra projectou-se para cima de um simpático passageiro enfiado no seu fatinho de fazenda e gravata cor de cereja. Ora, a Stôra tem boa constituição e esmagou o senhor contra as costas do banco. Depois lá se desculpou:
- Desculpe, desculpe, desequilibrei-me...

E pronto, saiu.
Ele ficou.
Quando chegámos a Santa Apolónia, ele, que é homem de bom gosto e, como tal, lê este blogue, disse-me:
- Então, já tem mais uma história para o blogue?
- Pela certa, não falha nada.

E foi aí que ele me surpreendeu. Eu a pensar que ele ainda ia a contar as costelas partidas e vai daí, sai-se com esta:
- Olhe, eu não me importava nada que ela caísse para cima de mim outra vez!

Portanto, Stôra, já sabe, para a próxima, é esmagá-lo à força toda!

O Clã do Comboio - Private Jokes

Private Jokes
Por vezes, quando os três amigos que querem salvar o mundo se põem a conversar com o escritor, produzem-se autênticas pérolas do rasgo verbalizante que exprime essa interessante tecitura cultural a que eu normalmente chamo de... parvoíce. Acontece que a parvoíce, só por sê-lo, não quer dizer que não tenha a sua graça e até o seu interesse. Portanto, o leitor está avisado. De seguida, entrará no interessante universo da parvoíce.

Private Joke - 1
A - Um dia destes vais parar ao Ministério da Cultura.
B - Ele não quer isso, isso seria um downgrade!
A - Pergunta-lhe isso a ele...
B - Então?
C - Era sempre a subir!!!

Private Joke - 2
A - Eu diria que ele é o catalisador.
B - Olha lá, mas eu agora sou alguma peça de automóvel ou quê?
C - Sabes, como dizia um colega meu, eu sou um repositório de conhecimento inútil!

Nota triste e singela homenagem

Qualquer morte é uma tristeza. A morte de Artur Agostinho não só é uma tristeza, como significa a perda de um exemplo público de capacidade de trabalho, de dignidade e a perda de um símbolo cultural e transgeracional de perseverança, competência e profissionalismo.

Artur Agostinho tocou-nos a quase todos. E o que mais me impressionou sempre foi a sua humildade. A forma como sempre abraçou a vida com paixão e dedicação e a forma como constituiu um exemplo para todos nós.

Fica a saudade e homenagem singela de Mails para a minha Irmã ao homem que até a gritar goooooolo tinha elegância!



Histórias do Autocarro 28 - Amigas Conversadeiras



Amigas Conversadeiras.
Voltei ao autocarro. Não foi bem no 28, mas foi num percurso partilhado com o 28.
Entrei e entraram atrás de mim duas amigas conversadeiras, bem simpáticas, que tiveram excertos de diálogo interessantes. Daqueles que nos acordam o espírito pela manhã.
Como estava de costas nem me apercebi bem do seu aspecto. Sei só que uma era loira e a outra morena. Uma delas agarrou-se ao varão e a sua mão ficou mesmo à frente dos meus olhos. E aí começou o espectáculo. No espaço minúsculo de uma unha, a senhora tinha um malmequer branco com o centro negro e, ao lado, também em negro, uma ramagem a fazer lembrar o acanto. Não sei como, mas ainda houve espaço para uma tira diagonal em brilhantes minúsculos. E quando entraram, vinham a falar de unhas.
------- Eu mostrava-te a minha unha, mas não consigo.
------- Isto está apertado.
------- Ao menos vamos quentinhas. Olha lá, como é que vai a tua ansiedade?
------- Vai boa. Durmo pouco. Eh pá, tenho de fazer umas merdas... e tu amiga, tens conseguido dormir?
------- Muito Bem. Eu durmo sempre bem. Às vezes, depois do meu namorado sair de casa ainda vou dormir mais um bocado!
Pois é, caros leitores, se eu podia viver sem transportes públicos pela manhã? Poder, podia, mas não era a mesma coisa!

Curtas do Metro - Está Cá?

Está Cá?
Os tempos são o que são. Os costumes mudam com eles. E estes são tempos de tecnologias. Um dia destes, chegou-me por e-mail um daqueles PowerPoints que ninguém abre mas todos conhecem e trazia a história do pai que chama o filho para jantar via e-mail, estando ele no andar de cima da mesma casa. Achei aquilo exagerado, mas depois do que assisti hoje no Metro, resolvi reconsiderar.

Uma estava sentada. Teria aí uns dezassete anos e vestia as roupas e as cores da sua idade. A outra ia de pé com roupas e cores para a mesma idade. A que ia sentada viu a que ia de pé junto à porta. A que ia de pé não viu a que ia sentada. É importante que se esclareça que não distavam uma da outra mais do que dois metros. Estavam a um passo uma da outra!

A que ia sentada sacou do telemóvel, marcou um número e esperou. Tocou uma música metálica e a que ia de pé tirou o seu telemóvel da mala e atendeu:
- Está lá?
- Olá!
- Olá!
- Olha, senta-te aqui ao pé de mim.
A que ia de pé olhou em volta, detectou a outra, olharam-se mutuamente e ela disse num tom de voz que tanto se ouvia dentro como fora da maquineta:
- Ah, estás aí!
- Estou.
- Bom dia.
- Bom dia.
Trocaram um beijinho e depois desligaram os telemóveis.

Divulgar a Primavera...

Com responsabilidade. São mensagens de interesse e responsabilização que, cada vez mais, temos de associar à comemoração da explosão do sol, do verde, dos passarinhos e das paixões arrebatadas. Sim, a Primavera é inigualável e é por isso que os nossos filhos e netos também devem ter direito a uma:
-

Brisa Marinha

Corre a suave brisa
Pela face admirada,
Veio em pesquisa
Da vontade libertada.
E sinto o fresco
E a vida
E vejo no mar o pulmão
Que trará a esta alma
Perdida
Um rumor de regeneração.

E nasce no poeta a ideia
De levantar-se e semear,
Mas é estéril a areia
Sempre lavada pelo mar.
jpv

Mar Vespertino

Uma prata ondulante
Em água marinha espelhada
Acorda-me o tempo distante
Da vida em alvorada.
E sinto-te a força
Que seduz,
A pujança do bramir
E o intenso brilho da luz.
E quero voltar,
Ir à procura do meu mar,
Errante e perdido,
Ecoando meu próprio bramido.
Só ir. Sem voltar.
E sinto neste mar
O prenúncio das minhas passadas
Nas suas ondas brutais.
Não sendo todas diferentes
Nenhumas são iguais.
jpv

Pescador

Anda um pescador atarefado
Atirando e estendendo a linha,
Parece um homem condenado
A ter a alma sozinha.
E há nos seus gestos banais
Um sentido global,
Como os grãos pequeninos nos areais
A comporem o quadro universal.
Interessa-lhe que tudo seja feito
E desde que o Universo o deixe,
Há-de chegar o dia
Em que até lhe interessa o peixe!

Já te percebi, ó pescador.
Pertences a uma casta de audazes,
Em cada gesto tens a dedicação e o amor
E não importa tanto o que pescas como o que fazes.
jpv

Escultor de Sonhos



Era o mar que observavas
Ou era ele que te esculpia
Os sonhos?
Era a brisa que saboreavas
Ou era ela que te embalava
A imaginação?
Entregavas-lhe o que és
E pedias de volta
O que querias ser,
Olhaste-o sem temer
E enviaste-lhe uma mensagem
Perfeita e concisa
Envolta no sussurro da brisa:
Realiza-me os sonhos!
E por cada desejo,
E por cada pedido,
Recebias a força e o ensejo
De um sonho apetecido.
E ali estiveste ondulando o pensamento
No mar brilhante e encapelado
E quando chegou o momento
Julgaste ter vivido
O que havias sonhado.
jpv

Ao Sol

Que mais ingredientes serão precisos,
Que os teus lábios nos meus?
O Mar em estrondosa exaltação,
O teu corpo no meu corpo,
O sol brilhante queimando a paixão?
Que mais primavera,
Que outro Universo?
Que gloriosos dias mais
Que perder-me em ti
No calor alvo dos areais?
jpv

De Negro Vestida - LXXII


Abandonar o Negro – IX
Há quem tenha dito, quem tenha escrito e quem tenha defendido que há tantas realidades quantas as pessoas. Parece-nos restrito, o critério e são muitas mais as realidades porquanto cada pessoa vê e interpreta cada realidade como sendo outra consoante o seu estado de espírito. Ora, um dos que mais frequentemente e com maior intensidade altera o mundo que nos rodeia é o enamoramento.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio - Felicitações!

Felicitações!
Um dos três amigos que querem salvar o mundo, o RB, vai ser pai por estes dias!
Ao escritor cabem-lhe duas tarefas. Uma é desejar que tudo corra bem, que todas as coisas resultem numa criança saudável, numa mãe sem complicações de saúde e num pai que, apesar de feio (ora toma que é para não me chamares retrógrado!!! hahaha), seja muito babado!
A outra é desejar as maiores felicidades para os pais e para a criança, um percurso de vida longo e bonito para todos!
-
Por fim, dizer que estes votos não são só em nome do escritor mas de todo o Clã do Comboio com particular ênfase para algumas personagens mais próximas do RB, os outros dois amigos que querem salvar o mundo, a mulher vampiro, o aluno do escritor, o músico, o ceguinho, a stôra, e todos os outros que tu não deixas dormir quando te pões a dizer que o MV é um tipo muito atraente e jovem!!! Hahahaha...
-
Amigo, com ou sem comboio, que a vida te sorria, a ti e à tua família!
O Escritor

Curtas do Metro - Desculpe?


Desculpe?
9 horas. Estação do Metro de Baixa-Chiado à espera de composição para o Cais do Sodré.
Entro numa carruagem razoavelmente composta sem estar atulhada. Atrás de mim entram seis japoneses. Três casais em idade de reforma. Estranhei o facto de estar a acontecer uma desgraça com uma dimensão tremenda no Japão e andarem ali aquelas pessoas alegremente em férias. Claro que, depois, racionalizei: a vida continua.
Os três homens tinham casacos de penas e calçavam sapatilhas com meias brancas. As três mulheres tinham chapéus redondos enterrados na cabeça com uma aba que, à frente, estava dobrada para cima. Os seis tinham máquinas fotográficas ao pescoço. A mim, calhou-me a Nikon. O Metro arrancou, uma das senhoras não se tinha agarrado, caiu para cima de mim mas não chegou a tocar-me porque me enfiou com a longa objectiva da Nikon no bucho.
Olhou para mim com um ar de japonesa comprometida e disse qualquer coisa que soou assim:
- Shin-shoé.
Sorri um sorriso amarelo de quem acabou de levar com uma objectiva no estômago. A senhora encolheu os ombros. Eu também. E pronto, lá aprendi como se diz "desculpe" em japonês. Ou foi isso, ou foi outra coisa qualquer!

Retoma

Andar por Lisboa, nos dias de hoje, e, em particular, pelo Metro, significa cruzarmo-nos com publicidade a cada instante. Acontece que, por vezes, por entre a amálgama de lugares comuns e anúncios sem imaginação, aparecem algumas pérolas de imaginação e criatividade. É o que acontece com este programa de "retomas" da Triumph.

Daybreak

Se esta música não te fizer sentir nada, o problema é teu, não do resto do Universo.

Procura-se!

Esgueira-se um rumor
Sussurrado
Por entre as gentes
Que passam.
Dizem
Que há um homem culpado
De gestos que enlaçam.

E carrega na culpa
Esse traço impreciso
Que é viver a loucura
Em seu perfeito juízo.

E há cartazes
E procuras insanas.
Contratam-se os audazes
Para tarefas mundanas.
Procurem-no!
E encontrem-no!
Tragam-no à presença dos responsáveis.
Façam dele um exemplo
Um caso de estudo
Das loucuras saudáveis.

Não sabes,
Homem que passas,
Que não interessa
Nada do que faças
Enquanto não fores louco,
Não ousares
Quebrar a barreira do pouco
E viver a plenitude
Do que sentes e pensas.

Essa ousadia tamanha
Que encerra a coragem
E a vida
Num olhar,
Numa mão perdida,
Num corpo abandonado
Ao amor,
Só está ao alcance
De quem ousar a loucura e for.

Ficar.
Ficamos todos!

Pão com Queijo


Ela tinha um desejo
Adequado e muito são.
Colocar duas fatias de queijo
Dentro de um pão.

Mas a vida dá voltas
À volta com o Destino
E colocou no pãozinho
Fatias de fiambre fino.

E foi essa a merenda
Do carinho e do amor.
Ela deu-lhe uma prenda
Ele arfou com folgor.

E acaba aqui a história
Com final como convém.
E assim se fará memória
Entre quem se quer bem.

Ode por um Atraso


Escorrem os minutos
Pela minha impaciência
E procuro do Universo a ciência
De voar para ti.
Entrego as passadas
À sorte e ao acaso
E procuro convencer-me
De que é só um atraso.
E anseio ter-te
Nos braços
Em ritual
De estreitar laços
E ternuras.
Mas tu estás atrasada
Para as nossas loucuras.
E o dia fica
Com um tom sombrio,
Corre-me o dorso
Um pressentimento frio.
Virás?
E iluminas-me a alma
Irradias a luz da tua presença,
Inundas a paisagem com a sentença
De um sorriso.

E recomeça a vida
Em tempo conciso.
E há palavras
E beijos
E há um festim de sensualidade
Que se estende
Por um tempo
E um espaço
Sem idade.
E há cavalos à solta
E cavaleiros entusiasmados
Há receios a cair
E lábios inchados.

Fenece o dia
Começa a aventura
Em tons de harmonia
E pinceladas de ternura.
E caiu mais um muro
Em poucos instantes,
Foi num ermo escuro
A poesia dos amantes.
E o que lá ficou
Marcando o local,
É um rio
Que inundou
As terras de Portugal.

Uma palavra final
Para este estranho caso
Foi uma alegria total
Receber-te em mim
Com ilusório atraso.

Estranha

Ias ali,
Mas não sei onde estavas.
Sei só
O peso que carregavas
No olhar.
Não há
Neste mundo de mortais
Nada que valha
A morte
De um sorriso, jamais.
Sorri,
Estranha,
A esta vida
Que engana.
E traz a este mundo
A luz
Da Beleza
Que o teu sorriso produz.
jpv

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