O Clã do Comboio - Fugaz

Olá estranha!
Não vens sempre. Talvez até nem apareças nunca mais e é por isso que vou reter-te nas malhas das palavras.
Mais de vinte. Menos de trinta. Alta. Os cabelos lisos e brilhantes, que apanhaste pouco depois, deixaram à vista dois brincos largos e rendilhados como os de uma sevilhana. A face rosada e os lábios carnudos. Tens aquelas mãos que assustam os homens. São finas e longas e amplas. E, sendo grandes, não perdem a elegância. Pelo contrário. Camisola preta de gola alta e manga comprida, colada ao corpo e por cima dela uma camisolinha de lã cinzenta com decote generoso e manguinhas curtas. Fica bonito o preto a emergir do cinza suave. O casaco preto de pele e pelos quentes e fofos que tiraste pouco depois de chegares completa o quadro monocromático de bom gosto. Botas de cabedal e cano alto subindo-te pelas pernas até ao joelho onde fazem uma aba. Dos joelhos até à camisola de lã só as meias. Estas que agora se usam que não são só meias mas também não chegam a calças. O gloss nos lábios dá-te um brilho agradável e sensual. Mas não és, sobretudo, sensual. És uma mulher elegante que vai para o trabalho na juventude da vida.
Leste. Era trabalho o que lias. Mas não estavas lendo, estavas fugindo de todos nós como que demarcando o teu espaço, o teu isolamento no meio da carruagem. Mas contigo isso não é possível. Uma mulher como tu não passa despercebida. E nem é por ser particularmente vistosa. É por ser natural e profundamente elegante.
Vieste fugaz e amanhã já não estarás. Mas isso que importa? Importa bem mais a imagem que nos deixaste colada no cérebro. Presença fugaz marcada fundo no recanto das fotografias que todas as mentes têm.
Há pessoas que dão mesmo sem se aperceberem. Há pessoas cuja presença permanece mesmo depois de terem partido. Tu és uma dessas anónimas que paira na ausência e para quem não temos nome mas gostaríamos de ter. Eu chamo-te deliciosamente Fugaz.

O Tempo de uma Ideia

Quanto tempo tem uma vida?
Da inevitabilidade e da marca que é a morte discorremos com frequência e com abundância.
Mas, e a vida?

Não é igualmente inevitável nascer? E essa marca que valor tem? E o tempo entre elas quanto é?
Vem isto a propósito de me terem dito há dias uma frase intrigante. "Não interessa quanto tempo tens, interessa o que fazes com ele, a qualidade desse tempo."
Não podia estar mais de acordo e, ainda assim, duvido. A qualidade do tempo é fundamental, mas não podemos ignorar que estamos sempre balizados por essas duas inevitabilidades que não controlamos. O nascimento e a morte.

E quando o que queremos viver dura mais tempo do que o tempo que temos? E se quisermos viver duas vidas, ou três, ou mesmo quatro? Esta impossibilidade determina outro factor que, também ele, se revelará determinante ao longo do nosso percurso. Escolhas.
Escolher parece fácil. Mas não é. Reparem, quando vamos a um restaurante, a simples escolha de uma refeição, nada de extraordinário, portanto, gera dúvidas, indecisões e impasses. Ora, escolher um caminho a dar à vida é extraordinariamente complexo e, no entanto, tem de ser feito. Com quem viver. Não viver com ninguém. Como educar um filho. Como gerir uma carreira. Uma família. Que família. Que pessoas admitir no nosso restrito círculo familiar e privado.

Como se percebe pela estratificação da grande questão "Que caminho escolher para a vida?", essa opção não se faz de forma absoluta nem de uma só vez. Não é possível dada a complexidade, a heterogeneidade e a multiplicidade de opções a ponderar. É uma opção que se faz passo a passo, dúvida a dúvida, momento a momento, situação a situação. E no fim, no derradeiro momento, com sorte, saberemos se fizemos as boas ou as más escolhas sendo que o que determina se são boas ou más não é o juízo alheio mas a forma como convivemos com elas. A nossa tranquilidade em relação às escolhas feitas e às consequências delas. Assim, a grande escolha da vida não é uma, nem se faz de uma vez. São milhares de opções que fazemos ao longo da vida, todos os dias dela. E deixemo-nos de de ficções e falsidades, não têm nada de ser coerentes. A minha amiga S.S. costuma dizer que é incoerente por opção. E essa, caros amigos, é a única coerência. E mais, essas opções, tal como nascer e morrer, são solitárias e egotistas. Não há mundo para além de nós, se nós não existirmos para o mundo. Não há gente para além de nós, se nós não existirmos para as pessoas. E essa visão é inexoravelmente pessoal e individual e determina tudo o resto. Não amaremos o próximo, se não nos amarmos primeiro a nós. Não seremos solidários com os outros, se não formos capazes dessa solidariedade, primeiro, para connosco. Não faremos o bem a outrem, se não o fizermos primeiro a nós e não sofreremos pelos outros, se não formos capazes de sofrer, primeiro, por nós mesmos.

Sofrer, de resto, é fundamental. É a melhor escola. Evitar o sofrimento é estagnar a alma e os horizontes, é não crescer, é mergulhar na imbecilidade escura da ignorância. O que nos condena, amigos, fechando o raciocínio, é que andamos a querer fazer escolhas evitando o sofrimento. E o pior é que não só compramos esta ideia como a vendemos aos nossos filhos, às gerações vindouras. Sofram, amigos, sofram. E aprendam com o sofrimento a vida que mais escola nenhuma pode ensinar-vos. E escolham. Optem. Sim, é difícil. Mas não há sensação mais extraordinária do que a completude, a integridade e a realização que sentimos quando assumimos uma escolha.

As ideias e as opções com elas são a única coisa que é genuína e intrinsecamente nosso. Tudo o resto é lixo. São diversões com que a vida nos tenta distrair. Um homem que morre por um império, morre por nada. E pode ter havido nobreza nisso. Um homem que morre por uma ideia, morre pela única coisa por que, efectivamente, vale a pena morrer. Morre por toda a Humanidade. Um homem que morre por uma ideia, não morre!

Qual a ideia?
Cada um tem a sua. De resto, isso é matéria para outra conversa.
Mas, voltemos à questão inicial: quanto tempo tem uma vida? O tempo de uma ideia.
jpv

Pergunta da Vida

"Quanto tempo tem uma Vida?"
João Paulo Videira

Pensamento da Vida

"Não há mundo para além de nós, se nós não existirmos para o mundo."
João Paulo Videira

Funéreo Rito


Já sei como é o fim da vida.
É uma rua desolada,
Uma criança indigente e perdida.
E há nisto que sinto
Algo sincero,
Um fim que pressinto,
Um cenário de desespero.
E foi morrendo a vida
Em mim.
E fui morrendo eu.
Em agonia e fim
Um amor pereceu.
E eis-me morto,
Junto à urna em sentido,
Contemplando no meu peito
A lápide de um amor falecido.
E choro.
Choro o fim.
Choro o desprendimento.
Mas não posso ressuscitar-te
Em ausência de sentimento.
E choro.
E vou adiando o funéreo rito.
Mas nasce-me a manhã da vida
Com a urgência de um grito!

Relance

A tanquilidade do teu sono,
A tua pose
E a tua postura,
Têm um misto de abandono
Ao sossego e à amargura.

Adeus

Adeus,
Minha vida,
Adeus.
Cumprimenta por mim
Os teus.

Adeus,
Meu amor,
Adeus.
Castiga-me os pecados
Que são todos meus.

Adeus,
Minha segurança
Minha matéria.
Adeus,
Que vou viver o risco,
Mergulhar na miséria.

Adeus
Temores
E recriminações.
Adeus
Fervores
E exaltações.

Adeus
Agora,
Que vou ao amanhã.
Adeus
A esta vida que jaz.
Oiço ao longe
O doce e suave canto
Da harmonia e da paz.

Adeus,
Minha vida,
Adeus.

O Clã do Comboio - A Troca

A Troca.
Este brevíssimo apontamento está destinado a constatar e a relatar de forma isenta, logo, sem quaisquer conclusões e muito menos juízos de valor precipitados, um ritual que observei esta semana na viagem de regresso a casa.

Peço-vos, por isso, que também não façam os tais juízos... precipitados.

O trabalho deu para tarde. Tive de apanhar um InterCidades depois das 20h. À minha frente, na outra fila, logo, na diagonal do campo de visão, ia um homem comum, com roupa comum, com um comportamento comum. Nada a registar. Notei, só, como facto a realçar, que nem sequer daria um apontamento, que levava uma enorme aliança de casamento, lisa e larga, brilhante e dourada, no dedo anelar. Até aqui, tudo bem.

Pouco antes de chegarmos ao Entroncamento, onde ele também saiu, tirou a carteira do bolso interior do casaco, abriu aquele compartimentozinho que se fecha com uma mola e onde se guardam as moedas, tirou a aliança do dedo e colocou-a lá dentro. E foi de lá, de junto das moedas, que retirou uma aliança igualzinha mas num tom diferente. Era acobreada. E colocou-a no dedo onde ainda agora estava a outra!

O que é que eu vos pedi?
Demasiado tarde!

O Clã do Comboio - Agradecimento


Agradecimento

Exmo. senhor Presidente do Conselho de Administração da CP.

Excelência, nós, abaixo signatados, vimos, mui humilde e pungentemente, agradecer a prontidão e a eficácia com que respondeu à solicitação feita.

Nem 24 horas, Excelência, nem 24 horas decorreram, nem o tempo do transcurso da orbe sobre si própria e temos de volta a luz às nossas vidas. Os rostos iluminaram-se, os sorrisos desenharam-se amplos, olhares de alegria cúmplice correram os ares e, se não houve vivas, houve pelo menos quem dissesse, no presente caso, o aluno do escritor, "A reclamação resultou!".

Voltou o sentido e a orientação às nossas manhãs, a tela cinzenta que vivemos nos últimos dias é de novo aguarela colorida e a paz invadiu os nossos corações.

Excelência, queira considerar pretéritas as nossas reclamações e aceite nossa fidelidade comercial na continuidade no recurso aos excelsos serviços que a Companhia de V.Exa. presta como única forma de agradecimento ao nosso humilde alcance. A Mulher Vampiro está de volta e, para nós outros, signatários da presente e demais anónimos, a vida também.


De V. Exa.,
Com a mais elevada estima e consideração, subscrevem:
-
O escritor, o aluno dele, os três amigos que andam a combinar como salvar o mundo, o militar que sai em Vila Franca, o ceguinho que vê, a generalidade dos homens e mulheres que viajam na 6ª carruagem do interregional das 7:18.
-
Em 20 e picos de Janeiro mais um
Algures entre Entroncamento e Santa Apolónia

O Clã do Comboio - Reclamação


Reclamação
Exmo. senhor Presidente do Conselho de Administração da CP
-
Nós, abaixo assinados, legítimos signatários da presente e mui nobre missiva, vimos, por este meio, apresentar a nossa reclamação e o nosso mais veemente protesto em relação à qualidade dos serviços prestados pela Companhia que V. Exa. dirige.
-
Não obstante a extraordinária qualidade das composições, não obstante o arzinho condicionado sempre ligado, não obstante a clara e resoluta competência dos "picas", não obstante o serviço estar dotado de uma pontualidade de fazer inveja aos súbditos de Sua Majestade, a Rainha Mãe, carece o mesmo serviço de uma componente fundamental ao seu equilíbrio, à sua harmonia, ao seu bom-gosto e mesmo à composição imagética e odorífera do ambiente em que quotidianamente viajamos.
-
Deste modo, sem mais delongas nem escusas, vimos solicitar seja devolvida à 6ª carruagem do interregional das 7:18, primeiro banco da correnteza lateral, junto à primeira porta do lado direito para quem viaja de costas, a mui sensível e composta figura dessa moldura humana que, nos autos deste humilde escriba, dá pelo nome de Mulher Vampiro.
-
Excelência, os homens andam perdidos e as mulheres também. Eles, porque não têm para onde olhar e olhando colhem somente desilusão e elas porque lhes falta o divinal modelo para seguir e invejar.
-
Excelência, a desolação assola as carruagens e vai aqui uma sensação de perda e vazio que torna as nossas deslocações e os nossos dias de trabalho numa infinita e paupérrima tristeza.
-
Sabendo dos excelsos poderes que lhe assistem enquanto Presidente do Conselho de Administração, vimos rogar-lhe devolva a vida às nossas vidas, a inspiração às nossas musas, e mobilize todos os seus esforços no sentido de colmatar esta grave e insuportável falha.
-
De V. Exa.,
Com a mais elevada estima e consideração, subscrevem:
-
O escritor, o aluno dele, os três amigos que andam a combinar como salvar o mundo, o militar que sai em Vila Franca, o ceguinho que vê, a generalidade dos homens e mulheres que viajam na 6ª carruagem do interregional das 7:18.
-
Em 20 e picos de Janeiro
Algures entre Entroncamento e Santa Apolónia

De Negro Vestida - LVIII


De Negro Vestida – XXII
- Queremos tudo do melhor. Não pode faltar-lhe nada. Ao menos agora que lhe não falte nada. Por favor, o meu filho faz as escolhas consigo mas não se poupe.
António da Purificação Martins parecia efectivamente decidido a compensar Maria da Graça em morte pelas faltas todas de uma vida. Inicialmente quisera tratar de tudo sozinho, mas acabara por aceitar a ajuda de Gabriel não só porque precisava dela, mas, sobretudo, para não afastá-lo da mãe. António estava decidido a não cometer os mesmos erros do passado.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida - LVII


De Negro Vestida – XXI
Uma das batalhas que vimos travando desde que temos esta vida, vivemos neste mundo e esta morte temos, é a batalha de cruzar limiares, de conhecer fronteiras e caminhar sobre elas ou assumir claramente um dos lados. Não é fácil uma opção, como não é fácil a ginástica moral e ética de caminhar em ambos os lados que não é lado nenhum, em cima da linha divisória das ideias, dos conceitos, das práticas, das orientações.

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Não estávamos junto ao, nem à beira do. Estávamos no rio!

Domingo de Manhã

Pai e Filho.
Levantámo-nos. Tomámos o pequeno-almoço. Café com leite, sumo de laranja, pão com queijo fresco e chourição.
Saímos no Bronco e fomos cumprir o nosso dever cívico com cruzes em opções diferentes do boletim de voto. Viva a diferença e o respeito por ela.
E depois fomos enlamear para a Serra D'Aire e Candeeiros. Sorver o brilho matinal do sol, queimar stress num primitivismo lúdico que só o Bronco pode proporcionar.
Depois fizemos umas fotos de telemóvel para testemunhar a loucura.
E, pronto. Já está!




O Captain my Captain!

O Captain my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung for you the bugle trills,
For you bouquets and ribboned wreaths for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
Walt Whitman

Invictus



Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
William Ernest Henley


Outro Agradecimento

Desta vez, a todos os leitores de Mails para a minha Irmã.

Pela vossa dedicação e paciência, pela vossa atenção.

Hoje atingimos 14000 visitas que correspondem a mais de 33000 leituras.

Muito Obrigado.

Histórias do Autocarro 28 - Aconchego

Aconchego
Tal como a anterior, esta história também não é uma história. É um apontamento urbano. Nem indagaremos as razões, nem procuraremos explicações. Limitamo-nos a contar a história e cada leitor fará os seus próprios juízos.

Quando o autocarro 28 parou no Cais do Sodré, não ia muito cheio, mas nessa paragem abarrotou. As portas fecharam com custo. Não havia espaço entre as pessoas, excepto aquele mínimo para que não vamos abraçados uns aos outros. Ao meu lado ia um rapaz aí com os seus 35 anos com o braço no ar a segurar-se na pegadeira o que fazia com que o seu casaco, que não ia abotoado, ficasse com as abas a pender. Lá da frente aqui para trás, onde vamos, veio uma senhora com cerca de 50 anos, cabelo ruivo, arranjado e penteado, calças de sarja branca justas e botas de cano alto, abrindo caminho até chegar junto a nós. Passou por mim e anichou-se dentro das abas do casaco do rapaz, encostou muito o seu corpo ao dele e assim seguiram coladinhos um ao outro. E só não pode dizer-se que iam abraçados porque cada um deles tinha um braço no ar para se segurar e outro estendido com uma pasta na mão. O queixo dela ia por cima do ombro dele. Eu pensei, como outros devem ter pensado, que seriam namorados ou um casal de idades desiguais e que ela viera ao seu encontro. Só estranhámos que não se tivessem falado e que não se tivessem olhado. Ele tentou olhar para ela, mas ela ia com a cara de lado. E, à medida que o 28 evoluía no terreno, ela parecia entregar-se mais a ele, aconchegar-se no calor do seu corpo.

Numa paragem, conforme entrara, ela saiu. O rapaz olhou para nós muito corado e fosse porque tínhamos alguma interrogação no olhar, fosse por sentir necessidade de explicar-se, disse:
- Não a conheço de lado nenhum!
Alguém mais habituado a estas andanças advertiu:
- Veja lá se tem a carteira...
Ele abriu muito os olhos, fez um ar preocupadíssimo, como quem se lembra tarde demais que se esqueceu do fogão ligado, levou a mão ao bolso interior do casaco, fez um ar de alívio e disse:
- A carteira está cá.
Nesse momento, o tipo que o lembrara da carteira encerrou o assunto com piada:
- Deixe lá, foi só o aconchego!

Agradecimento

À senhora que hoje me acordou abanando-me o ombro:

- Desculpe, o senhor não sai no Entroncamento?
- Saio sim. Muito Obrigado.

Não fosse ela e o cansaço e o quentinho do comboio teriam espetado comigo em Tomar que era um instante!

Histórias do Autocarro 28 - Saciada

Saciada
Isto que agora se escreve não é bem uma história. É mais um apontamento. A coisa passou-se em fracções de segundo. Quer dizer, também não foram bem fracções de segundo. Foram uns instantes. Instantes curiosos e de tal forma interessantes que dariam um romance. Como não tenho tempo para o romance, fica o apontamento.

Ultimamente faço o percurso do autocarro 28, entre Santa Apolónia e o Cais do Sodré, de metro. Depois, num eléctrico ou num autocarro qualquer sigo até à Infante Santo. Apanho o primeiro que chegar. Torna-se mais rápido e diversificado e sempre obriga a algum exercício físico. O instante que vou contar-vos, passou-se no eléctrico 18 ainda não eram 9 da manhã.

Entrámos e o eléctrico ficou composto mas longe de estar a abarrotar. Isto é importante porque significa que o campo de visão e observação estava desimpedido. Num banco de dois lugares, daqueles que estão colocados lateralmente, ou seja, virados para o corredor do eléctrico, sentou-se uma moça. Era jovem. Muitíssimo atraente. Cabelos escuros, lisos e longos, pelo meio das costas. A tez clara e os olhos muito azuis. Tinha um discreto piercing num sobrolho e os lábios eram bem definidos, em V ao meio. Casaco de camurça e calças de ganga muito justas e coladas às pernas de formas sensuais. Os homens que entraram com ela repararam naquela beleza, mas, após a primeira espreitadela de relance, desviavam o olhar para não parecerem muito vorazes, nem estarem a incomodar a moça com olhares directos. De maneira que ia ali um ambiente de "quero mas não faço" que era absolutamente indisfarçável e um tanto constrangedor. Por motivos que davam uma tese, mas não aprofundaremos, nenhum homem se sentou ao lado dela. Fosse para não parecer atrevido, fosse porque uma beleza assim pode intimidar os mais ousados, ela seguiu sozinha até à primeira paragem depois do Cais do Sodré rodeada de homens que queriam olhar para ela mas não eram capazes de mais do que uns relances disfarçados.

Na paragem, entrou um jovem aí dos seus 30 anos, estatura mediana, cabelo escuro, curto, porte atlético comprovado pelos músculos que lhe moldavam as calças de ganga justas. Tinha um casaco preto de cabedal, cintado. Outros músculos se notavam bem colados às calças, com formas definidas e a prometer solidez. Eram os do rabo. O moço poisou um saco de desporto no chão e rodou sobre si para sentar-se no lugar vago ao lado da moça. Ora, quando rodou, houve ali uns instantes em que o seu atlético e firme rabo esteve de frente para a moça que olhava em frente, para um ponto indeterminado, como fazemos todos nestas situações. E foi aí que ela nos surpreendeu. Abandonou o olhar no vazio, fixou-o no rabo que rodava à sua frente, encheu a vista, tirou-lhe bem as medidas, e quando o rapaz já se sentava, ela fechou os olhos devagarinho e ao abri-los já tinha um sorriso nos lábios.

Os homens que tinham estado ali à volta a fingir que não a viam, a evitar olhar para ela, a lançar-lhe relances despercebidos, ficaram desarmados e a pensar em conjunto:
- Ora toma, a malta com pruridos e ela saciou-se!

O Clã do Comboio - Liga ó tê Manel

Liga ó tê Manel
Os leitores sabem como gosto de transcrever uma boa conversa. Boa no sentido de interessante pelo seu curso, de genuína pela sua espontaneidade ou de rica pelo seu conteúdo. Esta é mais do primeiro tipo com laivos do segundo.
Vamos à circunstância e às personagens.
Dia de trabalho muito cansativo. Alma a precisar de descanso. O Andante do concerto nº 21 de Mozart no mp4 parece convidar para ser ouvido. Estava a desenrolar os auriculares para os colocar nos ouvidos quando elas entraram.

Eram três velhas gaiteiras, daquelas que, de vez em quando, arranjam uma doença suficientemente grave para irem a Lisboa fazer uns exames e deixar os maridos em casa com o comer num tacho para levar ao lume, mas não tão grave que as impeça de sair de casa às cinco da manhã e voltar às oito da noite com os exames feitos, a baixa pombalina toda palmilhada, as montras vistas e revistas, as lojas visitadas, as pastelarias provadas e toda a luz e cor e agitação da grande urbe a passar-lhes pela vista, a entrar-lhes na memória e a ser motivo de conversa para sempre. Cabelos arranjados, todas de óculos, muitas jóias ao pescoço e nos dedos e a pele indelevelmente marcada pelo amanho da terra, pelo agreste tempo passado no campo em cuidados e desvelos agrícolas.
Não vou identificá-las. Só acrescentar que era uma, unicamente uma, a que ia fazer exames. As outras eram acompanhantes na dor e na desgraça! Eu estava numa correnteza de três bancos. Elas chegaram, inspeccionaram-me com os olhos de alto a baixo, devem ter aprovado a companhia e uma delas disse:
- Ficamos aqui.
- Ficamos aqui.
- Pode ser, ficamos aqui.

Coloquei os auriculares sem música para poder ouvi-las sem lhes inibir o diálogo. Não me despertou interesse o conteúdo da conversa. Só a sua espontaneidade e a caótica sequência. Caótica para quem ia a ouvir porque elas entendiam-se bem entre si.

Interregional das 18:18, Santa Apolónia - Tomar.

- Ficamos aqui.
- Ficamos aqui.
- Pode ser, ficamos aqui.
- Fofinho!
- Achas?
- Acho
- Mas são estreitos.
- Cabemos bem.
- Liga ó tê Manel.
- Já ligo.
- Ligas quando?
- No Entroncamento.
- No Entroncamento?
- Sim, e ele vai-nos esperar à Lamarosa.
- Óvistes? Ela vai ligar ó Manel para nos ir buscar à Lamarosa. Olha lá, isto pára aonde?
- Vila Franca, Santarém, Entroncamento e Lamarosa.
- Passou-se bem...
- Muito bem!
- Bem melhor que estar em casa a aturá-los...
- E a fazer o comer.
- Foi bem bonito!
- Bem bonito!
- Olha lá, e os exames?
- Estão feitos. Agora é esperar.
- Mas sentes-te bem...
- Sinto... Gosto tanto de vir à baixa!
- A médica era simpática...
- Era...
- Só me incomoda este tempo...
- Tempo?
- Sim. Às seis horas é de noite.
- Tens razão, é uma confusão.
- Olha até o meu gato anda tonto. Nunca sabe que horas são e se ele é certinho com as horas...
- O teu gato sabe as horas?!
- Sempre soube. Mas neste tempo troca tudo. Às cinco da tarde está-me a querer entrar em casa para dormir.
- Liga ó tê Manel.
- Ainda é cedo.
- Que horas são?
- Ainda é antes de Santarém.
- Olha lá, onde é que isto pára?
- Santarém, Entroncamento e Lamarosa.
- Ah pois, ela disse que ligava ó Manel no Entroncamento.
- Olha lá, e quando é que fazes mais exames?
- Não sei bem, mas tem de ser breve...
- Então? Estás mal?
- Não, mas ela ficou de vir ver aquelas linhas...
- Quais linhas?
- As outras.
- Eh pá, aquela ali atrás não se cala.
- Pois não. Fala pelos cotovelos.
- Vai aqui este senhor a querer escrever a carta...
- Qual carta? Não vês que não é uma carta?
- Porquê?
- Porque vai a escrever num caderno.
- Falem baixo!
- Então?
- Ele pode ouvir...
- Naaa... leva aquela coisa da música nos ouvidos, aquilo não se ouve nada cá para fora.
- Olha lá...
- Sim...
- Já ligaste ó tê Manel?
- Não vês que não. Ela só lhe liga no Entroncamento...
- (...)
- Tô? Manel? Vai lá ter à estação, já vamos aqui quase no Entroncamento.
- (...)
- Sei lá eu. Tenho de esperar pelos resultados.
- (...)
- Vamos derreadinhas, aquilo é filas sem fim.
- Então? Ele vai lá?
- Vai. Que remédio tem ele!

Muralha


Cerca-te o ser
Uma muralha
De impedimentos.
Uma vedação de normalidade.
Esquecem-se os homens
Que és de um clã sem idade.
O dos loucos e artistas
A quem devemos o mundo,
O seu entendimento fundo.
Roubas a serenidade
Do comodismo.
Vives nessa ténue fronteira
Entre a total sanidade
E a vertigem da bebedeira
Dos sentidos.
-
E és um dos perdidos
Enquanto nos salvas
Das nossas próprias visões,
Da limitação das nossas curtas vistas.
És daqueles que abrem o peito
Aos juízos vagabundos
E em assomo de ingenuidade
Clamam que querem ser artistas.
-
Temo por ti.
Não por ti, ti.
Por ti, nós.
Temo que não saibamos
Receber-te,
Perceber-te,
Acolher-te
Senão quando chegar
O tempo das homenagens póstumas.
-
Neste universo de normalidade
Absurda e inquieta
Quiseste a prostituição
De ser poeta
Das imagens.
Entregaste a alma e o coração
Vendeste-os ao desbarato
E disseste que eras artista.
Oh ousadia, oh desacato!
Porque incomodas tu?
Porque não sossegas no teu canto
E vais ser maluco para outro lado qualquer?
-
E, contudo,
Quem te olhe e queira ver
Encontrará a centelha
Que marca a diferença
Entre a superficialidade
E a essência.
-
Cerca-te o ser
Uma muralha
E a muralha somos nós.

Aforismo

Sonhava o cego que via.

As coisas que se encontram na net...

L'amour
Même si je voulais t'oublier, je ne le pourrais pas car je t'ai dans la peau, je pense à toi à tout instant et tu habites mon coeur depuis longtemps, même quand je ne te connaissais pas. Je t'ai attendu, très longtemps seule, et enfin tu es venu. Je n'ai pas l'intention de te quitter. Je t'aime!

Provérbio



Do trabalho e da experiência, aprendeu o homem a ciência.

Acordar

Primeiro, o breu.
Depois uma suave
E tímida luminosidade.
E por fim,
A glória do teu olhar
Iluminando a cidade.

Salmo 23


O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
nada temerei, porque Vós estais comigo:
O Vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários;
Com óleo me perfumais a cabeça, e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida,
E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.

De Negro Vestida - LVI


De Negro Vestida – XX
A todos nos dá o Criador características diversas e próprias. E a José dos Santos Silva lhe deu aquela voz arroucada de encher uma sala mesmo quando repleta de gente em burburinho. E, por isso mesmo, o que disse foi audível em toda a sacristia onde não estavam mais do que aqueles dois que ainda agora se beijaram e, claro, em toda a igreja. O que disse e como o disse teve dois efeitos. Primeiro, um silêncio geral e profundo na expectativa suspensa de uma resposta. O segundo efeito foi como se uma pedra tivesse sido atirada a um lago calmo e se estivessem agora multiplicando os círculos. 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Saudade

Hoje é um dia de Académica-Benfica.
Quem me conhece, sabe que sou adepto de ambos. Do primeiro porque vivi muitos anos em Coimbra, porque o meu pai é de lá, porque me formei lá... Do segundo porque o meu avô me ensinou a dizer Benfica, antes de qualquer outra palavra...

E nesta divisão moram outras emoções como a de comemorar um golo do Benfica. É sempre um momento fantástico. Ou, outra ainda, que me preenche a alma. O sorriso do meu pai quando a Académica ganhava, fosse a quem fosse, mesmo ao Benfica. E penso nesse sorriso e numa frase que o meu pai costumava dizer quando a Académica ganhava ao Benfica. Olhava para mim, sorria, esperava para ver como é que eu me aguentava à provocação e dizia no tempo em que os jogos eram a 2 pontos:
- Deixa lá, são só dois pontos e fazem mais falta à Briosa!

Não sei bem porque é que estou a escrever este texto. Acho que não tem nada a ver com o jogo, nem com a Académica, nem com o Benfica. Acho que é só saudade de telefonar-lhe no fim para comentarmos as peripécias do jogo.
- Paizinho, aí onde estás, há telefones? Precisava tanto falar contigo!

À Flor da Pele


Olhar e ver
Grandes ou pequenas coisas
que nos cruzam o caminho…
Olhar…olhos nos olhos!

Ouvir, escutar e compreender
Palavras, sons ou o próprio
silêncio.

Saborear
O doce, o acre, o sal…

Cheirar, inalar o perfume
O odor
Das flores, do mar, da terra
molhada
Roupa lavada, suor…

Tocar, sentir

Um objecto, o frio, o calor

As mãos de uma criança,

Um corpo,

Um beijo…

Os cinco sentidos
Sentidos…à flor da pele.
Fernanda

De Negro Vestida - LV


De Negro Vestida – XIX
A sacristia é um espaço exíguo nesta igreja que o Senhor arruma-se com facilidade em qualquer cantinho. Há um móvel em madeira escura, alto, onde está uma cruz com o Cristo pregado nela desde que o lá deixaram. Ao fundo, um pequeno rasgo na parede espessa com um vidro baço permite entrar luz mas não os olhares indesejados. Dir-se-ia que o que está para acontecer aqui não é apropriado a uma igreja, menos ainda ao seu recanto mais esconso, a sacristia... 

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O Romance "De Negro Vestida" foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio - Luz

Luz.
Não me venham com teorias, a luz é a luz.
Os dias estão muito maiores. Já não é preciso chegarem as 7:30 para haver luz. A essa hora o dia já é claro. Quer isto dizer que toda a viagem no interregional das 7:18 é iluminada pelas cores e pelos matizes que a luz empresta à paisagem. Como a lezíria é bonita! Há espelhos de água e há nessa água o reflexo alaranjado e suave da aurora e há o limite das nuvens avivado em riscos definidos de luz e há vegetação a traçar recortes no horizonte.
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A primeira consequência da chegada da luz é essa. É a paisagem que emerge do breu adormecido da noite e ganha cor e vida.
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A outra consequência vê-se nas pessoas. Dormem. Claro que dormem. Andam cansados das rotinas, do trabalho, das mulheres, dos maridos, dos filhos, das contas, das obrigações, dos impostos, e dormem. Mas não é o mesmo dormir que era em Novembro ou Dezembro. Há mais olhos despertos. Mais pessoas olhando pela vidraça à procura de vida ou pasmando com ela. E há gestos. A carruagem já não é uma amálgama inerte de cabeças cambaleadas e adormecidas. Agora que veio a luz, há um mexer pequenino, gestos por si só insignificantes, mas que em conjunto fazem uma serena sinfonia de não querer ou não conseguir dormir.
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É engraçado como as pessoas dormem com a luz artificial e estridente do comboio a dar-lhes na cara sem que esta as incomode, mas se inquietam com o despontar distante de uma aurora rosada.
E hoje veio o astro-rei despontando em bola de fogo.
Ave!

Bola de Fogo

A bola laranja
Com o fogo a rebentar
Nasceu para me acordar
A esperança e o desejo.
Está prenhe e gorda,
Está farta e enchida,
E traz mais coisas do que calor,
Vê-se bem que vai parir a vida.

E aquece o corpo,
Que é o menos,
E traz luz a esta alma que temos,
E fecunda a terra e o chão,
Emprenha o engenho do Homem.
Enche de luz cada coração.

Estás aí, bola de fogo,
A provocar-me a consciência.
Começas e terminas o jogo
De fecundar e adormecer a existência.

Estavas rasteirinha, ainda agora
E teus laranjas floresceram em amarelo vivo
E em segundos foi-se a aurora
E vivemos, já, um dia de luz festivo.

Palavras

Não sei como se alivia a dor
Com palavras.
Não sei como se fortalece a alma
Com palavras.
Não sei como se ama um corpo
Com palavras.
Sei só que me resta
Esta vontade de curar-te,
Este impulso de fortalecer-te,
Este desejo de amar-te,
E palavras são só o que tenho.

Não sei.
E esta ignorância
É meu abismo
E minha ponte
E as palavras são meu fim
E minha fonte.
Não sei como faça
Sei só como diga,
Mas dizer-te não basta.

Tenho só estas palavras
Que me não chegam para tocar-te
E é com a impotência das palavras
Que cumprirei o Destino
E o Destino é amar-te.

O Clã do Comboio - O "Picas"

O "Picas"
Carinhosamente apelidado de "Picas", o senhor revisor não é um homem como outro qualquer. É uma instituição.
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Como todas as instituições, também o picas sofreu as consequências da evolução dos tempos e das tecnologias. A primeira grande diferença tem a ver com o aspecto. Antigamente, o picas vestia de cinzento e tinha um boné. E era uma entidade anónima. Hoje, continua a vestir de cinzento, mas o fato tem uns vivos verdes que combinam com a gravata e com a chapinha que traz ao peito com o seu nome. O picas deixou de ser anónimo. Agora tem nome ao peito. Para nós, isso interessa pouco porque, quando ele surge ao fundo da carruagem, a frase que se ouve é "Já lá vem o picas".
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Os picas agora têm atitude. Dão os bons-dias, as boas-tardes, as boas-noites e quando alguém vai a dormir, em vez de darem dois berros como antigamente, dão um toque suave no ombro e dizem, "Faz favor...". Alguns fazem isto com naturalidade. Outros sorriem e vê-se que estão a gozar o momento ao jeito de "Já acordei mais um!" Há os picas altos, baixos, magros, gordos, novos, velhos e embora se esteja a promover a imagem do picas novo e elegante, com ar enxuto e competente, ainda persistem alguns, poucos, dos meus especimens preferidos. Eu gosto do picas baixinho, atarracado, gorducho, sem a gente perceber muito bem onde acaba a barriga e começam as pernas, coradinho e com o olhar desafiante como quem está à espera de um prevaricador para lhe assentar duas mãos abertas à moda antiga. Não sei como é que ele consegue, mas este tipo de picas tem sempre os colarinhos da camisa por cima da gola do casaco e, embora a gravata dele seja igual à dos outros, parece sempre que teve de sobreviver a um processo de maus-tratos para ali chegar.
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Antigamente, o picas tinha duas ferramentas. Uma bolsa de cabedal à cintura para as moedas e um furador para picar os bilhetes. Ferramenta esta que, de resto, é a responsável pelo carinhoso apodo de "Picas". Acontece que agora deram-lhes umas maquinetas cinzentas com um ecrã que parecem um multibanco portátil. Servem as ditas para verificar a validação dos bilhetes comprados em cartão com chip. Modernices. Embora haja cada vez menos bilhetes em papel, o certo é que ainda os há e por isso é vê-los passar nos corredores todos janotas, de fatinho de fazenda, chapinha na lapela, maquineta electrónica na mão e, a identificá-los, o picador enganchado no mindinho. É uma ternura!

Presidenciais 2011 - Escolha aqui o seu Candidato

É aqui, amigos. Aqui neste blogue e em mais lado nenhum se vai escolher o candidato ideal para vencer as Presidenciais 2011.

Como hoje em dia se faz por tudo e por nada, traçaremos metas e delinearemos perfis. Ora, quanto às metas é fácil porque é só uma: ser Presidente da República Portuguesa. O perfil é que é o diabo! Coisinha difícil. Tenho muita compreensão e até certo dó por quem tem o ousado e corajoso cometimento de ser candidato presidencial. Diz-se para aí que hoje em dia os empregadores são muito exigentes, querem saber tudo, esquadrinhar a vida das pessoas, antes de as contratarem. Comparado com o escrutínio que se faz a um candidato, isso não é nada.

Este blogue facilitará a tarefa a todos os portugueses e portuguesas ou, pelo menos, aos que nos lêem que sempre são cento e picos em dias de vento favorável.

Primeiro requisito. A regra de ouro é que o político que quiser ser Presidente da República não pode ser... político! Que é lá isso agora os políticos acharem que podem fazer política? É uma arrogância, é o que é! Requisito imprescindível para exercer um cargo eminente e exclusivamente político: não ser político.

Segundo requisito. Ser pobre, ter sido pobre, ter amigos pobres, ter conhecido pobres ou, em última análise, independentemente do mais fausto e anafado aspecto, ter um dia passado fome nem que fosse uma laricazinha na fila para pagar o IRS. O nível de importância varia, mas é absolutamente imprescindível ter tido uma qualquer ligação com a pobreza.

Terceiro requisito. Ora, como não pode ser político, o que deve ser o político ideal para candidato à Presidência da República? Exactamente, não sei, mas deve ter uma profissão considerada digna. Tipo, médico, economista, professor universitário... Se a profissão puder estar relacionada com o segundo requisito, tanto melhor.

Quarto requisito. Este é um requisito coerente com o primeiro. O candidato ideal deve manter uma prudente distância em relação ao dinheiro. Acções, então, é fugir delas. Nunca ter tido, ter comprado ou ter vendido acções. E percebe-se. Sabendo nós que a crise é culpa dos bancos, quem tiver dinheiro nos bancos, sob que forma for, é também culpado. Assim, não é desaconselhável ter uma mesada, um dinheirito de bolso, mas acções é que não.

Quinto requisito. Não ter orientação política definida. Não ser de esquerda que é bandalho, não ser de direita que é elitista, não ser neoliberal que é amigo dos banqueiros que fizeram a crise, não ser nada. Ser neutro. E, simultaneamente, perceber muito bem o que são todos os que são alguma coisa.

Sexto requisito. Ser suficientemente inteligente para ser ignorante. Eu explico. O candidato deve ser inteligente e perceber do país e das pessoas e dos mercados e das necessidades e do que é preciso fazer para melhorar isto tudo, mas, ao mesmo tempo, tem de ser um ignorante político. Um tipo que percebe de tudo menos daquilo para que se candidata.

Sétimo requisito. Ter comprovadamente, leia-se, com testemunhas, desempenhado tarefas domésticas. Se não conseguir qualificar para este requisito, pode substituir por trabalho na lavoura ou numa indústria onde tivesse sido explorado. Em todo o caso, as tarefas domésticas pontuam mais na medida em que a maioria do eleitorado é feminino e aprecia uma ajuda na cozinha.

Oitavo requisito. Não ter amigos nem bem nem mal colocados. Sobretudo se derem nas vistas. O candidato ideal deve ter amigos e os amigos devem gostar dele e aparecer nas entrevistas rápidas no jornal da noite mas é fundamental que sejam sempre amigos anónimos.

Nono requisito. Nem ser tão velho que se identifique com o regime salazarista, nem tão novo que não tenha vivido nele!

Décimo requisito. Ter um nome próprio ou um apelido que reflicta a digna humildade do candidato, ou seja, funcione também como adjectivo. Se não tão humilde que sirva para adjectivo, ao menos que dê para nome comum. Não pontua tanto mas também qualifica. Exemplos válidos: alegre, nobre, defensor, cavaco...

Décimo primeiro requisito. Estar muito preocupado com a situação financeira a que os políticos profissionais deixaram chegar a nação e, ao mesmo tempo, defender o abaixamento dos impostos, a subida dos salários e o investimento público.

Décimo segundo requisito. Nunca ter roubado nada a ninguém e saber muito bem quem são e onde estão os que roubam!

Por fim, não como requisito, mas como opção metodológica, o não-político que quiser ser Presidente da República deve dar-se ares de independente e ter um forte apoio político, deve ser educado e acusar os outros candidatos de tudo quanto é coisa e, claro, deve ser sereno e colocar o dedo em riste enquanto fala com a veia jugular prestes a rebentar.

Fácil, não?
Juntando todos os ingredientes, fica-se com uma lusa versão do Tiririca, p'ra melhor não vai, pior não fica!

Red Nails

As tuas unhas, hoje,
Querem arranhar-me.
Não, não é para aleijar-me.
É só para me marcar a carne
E a alma.
Para me roubar o sossego
E a calma.
Sim, hoje trazes mensagens
Nas unhas de carmim.
Unhas impecáveis
Que devoram a carne de mim.
E os teus lábios têm hoje
Um fino recorte
Onde apetece abandonar à sorte
Esta vida inteira.
Quero passear-me nessa curva suave e fina
Que são teus lábios de mulher e menina.

Personagens

Não há medida
Para a dimensão da alegria
De andar um homem vagueando
Pela noite escura
E fria.
Andou à tua procura
E queria
Só amar-te.
E estavas sentada,
Recostada na espera e no conforto,
E sorriste à chegada
De seu corpo de desejo,
De seu coração absorto.
E disseste Vem
E o homem na noite
Fez-se teu.
Renasceu.
E houve vida e luz
E músicas no ar
E orações a Jesus
E fez-se uma sinfonia de amar.
E correram
Encarnados sensuais pelo quarto.
E pediste tudo.
E o homem quis dar-to.
Paira um sussurro suspirado,
Um adeus furtivo,
Um beijo atirado.
Ainda agora estava em ti, o homem,
Já agora se anuncia a distância.
Um último olhar,
Um último adeus,
Um último desejar
Morrer nos braços teus.
É isto tão intenso
O que o teu amor produz,
Fica o amor suspenso,
E o homem mergulha na noite sem luz.

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