Mana

Olá Mana,

Não há festa, celebração, evento nem qualquer outra data assinalável, sendo que, para mim, todos os dias são assinaláveis, que o meu pensamento não voe para ti, não te busque, não nos procure na nossa irmandade e na solidariedade que somos. Eu ouço-te, mesmo quando não falas, e vejo-te os gestos mesmo quando os não fazes, e essa comunhão é singular e irrepetível. Este não é o meu blogue. É o teu blogue. O nosso. Tal como somos um do outro.

Bom Ano!

Feliz Ano Novo


A todos os leitores, amigos e familiares, os votos de um Ano Novo repleto de Saúde, Realizações e muita Felicidade. Desejo a todos que tudo corra sempre pelo melhor, que haja capacidade de superação e resiliência, que haja amizade e fraternidade.

Um Abraço Amigo,

jpv

O Clã do Comboio - Agitação de Fim de Ano


O Clã do Comboio - Agitação de Fim de Ano

Memória Justificativa
Um dia destes, um leitor do Blogue perguntou-me, Então o Clã desapareceu? É que deixaste de escrever as histórias do Clã que é o que eu mais gosto no teu blogue...
Ao mesmo tempo, tenho recebido imensos e-mails a perguntar o que aconteceu ao Clã. Ora, no âmbito desta relação próxima e direta que desenvolvo com os leitores de Mails para a minha Irmã, é importante informar que o Clã do Comboio está fantástico, ao rubro, a destilar companheirismo e amizade todos os dias e é por isso que tenho escrito menos. Parece contraditório, mas não é. A verdade é que passamos tanto tempo na conversa e na brincadeira, as conversas estão de tal forma interessantes e os elementos do Clã de tal forma ativos, que me escapa o tempo para o relato das aventuras. Hoje decidi fazê-lo porque há várias coisas que tenho de vos contar. Uma delas é que há uma personagem nova no Clã do Comboio. Comecemos por aí.

A Senhora das Caralhotas
Tem 25 anos. É alta. Casada com um homem mais baixo, mas, como ela esclareceu, muito cumpridor das suas tarefas e deveres. Todos! Tem o cabelo liso e castanho, por cima dos ombros, uma ossatura larga e sólida, a face oblonga donde sobressaem os olhos vivos e atentos, a não deixar escapar nada, os lábios finos e recortados, o sorriso malandro a antecipar uma intervenção arrojada, a gargalhada sonora e aberta, de encher a carruagem. Mas o seu principal traço não é nenhum desses. É a língua! Tem a resposta mais rápida e incisiva que eu alguma vez vi e é absolutamente contundente, mesmo quando inclui malandrice. Sobretudo se inclui malandrice! É de Almeirim onde há um pão caseiro e tradicional que se chama caralhota. E pronto. Não foi preciso mais para o Rapaz do Fato Cinzento a batizar de Senhora das Caralhotas. Ainda não estava o ato do batismo concluído, já ela contava:
      - Uma vez entrou lá na padaria de Almeirim uma senhora e pediu três pichotas!
Silêncio geral.
      - Perceberam? Caralhotas... Pichotas...
      - Percebemos, percebemos...
E percebemos também que com a Senhora das Caralhotas não se brinca. Ela leva a brincadeira para lá do impensável, mas fá-lo com naturalidade e soltando sempre uma gargalhada cristalina e inaugural. Um dia destes, o Rapaz do Fato Cinzento estava a contar pela enésima vez a anedota do Pica Miolos, pica, pica, que até chegares aos miolos... E ela corrigiu:
      - Isso está ultrapassado, agora diz-se "Era até achar pitrol"
      - Então e não poderia haver problemas de pele? Umas assaduras...
      - Naaa... nem que se gastasse um frasco inteiro de Halibut!
O Rapaz do Fato Cinzento engavetou, calou-se e passou a não se meter muito com ela...
As histórias da Senhora das Caralhotas sucederam-se arrancando-nos gargalhadas e silêncios com a mesma facilidade e frequência até que um dia, num momento mais a sério, ela disse:
      - Sabem, eu sou assim extrovertida, mas só conheci um homem na minha vida.
E eu fiquei a pensar naquele tesouro. Naquela pureza e naquela espontaneidade. De facto, já nem se usa a expressão "conhecer um homem" com o sentido que ela lhe deu, quanto mais usá-la em razão direta de um facto... E foi nesse dia que ela nos caiu definitivamente em graça. Sempre com cuidado porque aquela língua pode disparar mais rápido do que a própria sombra e em qualquer direção! Gosto muito de a ouvir dizer "Arretalhava-te todo!" Ela carrega nos erres de uma forma que a expressão, sendo do universo das azeitonas, fica indubitavelmente libidinosa. É um tesouro, a Senhora das Caralhotas. E, ou me engano muito, ou ainda vai animar bastante este Clã.

Caralhota ao Pequeno-Almoço
Um belo dia, começámos a provocar a Senhora das Caralhotas e a Senhora da Revista de Culinária, que também é de Almeirim, dizendo-lhes que nunca mais provávamos a caralhota delas. No dia seguinte apareceu uma caralhota no comboio. É um pão denso, cozido em forno de lenha, com o tamanho de um papo-seco mas mais alto. Dividiu-se irmãmente, derramou-se a farinha pelos colos dos convivas e não sobrou nada. E agora já podemos dizer que comemos uma caralhota de Almeirim no Interregional das 7:18.

Pequeno-Almoço de Natal
O Rapaz do Fato Cinzento deu a ideia:
      - Olhem lá, não precisamos de um aniversário para fazer um petisco. Estamos no Natal, a Senhora da Provecta Idade vai de férias, e que tal se fizéssemos um pequeno-almoço de Natal?
Não perguntou duas vezes. Ele próprio trouxe pão de cereais e fiambre, o Escritor levou tarte de amêndoas e compota de maçã, a Rapariga do Riso Fácil levou um chá quentinho que até aqueceu a alma, a Senhora da Revista de Culinária levou bolo de chocolate e a Senhora das Caralhotas levou um fantástico vinho abafado. Eram 7:45 da manhã quando o festim começou mesmo sem mala térmica a fazer de mesa. Fizemos rodar os alimentos e fomos comendo e bebendo nos copinhos de plástico que a Senhora da Revista de Culinária levou. O evento estendeu-se quase até Lisboa e quando saímos do comboio, garanto-vos, era sobretudo a alma que ia quente, mas não só. Boa malha!

O Rossio Tem Mais Encanto
A PL, que agora vive em Lisboa, queria ver-nos. E nós a ela. E fazia falta um evento, uma aventura que marcasse a época natalícia. Combinámos uma ginginha no Rossio ao fim da tarde. Foi épico. O Rossio ficou com mais encanto. A coisa seria depois do trabalho. Apanharíamos um comboio uma hora mais tarde que o habitual e, nesse espaço de tempo, daríamos uma escapadinha ao Rossio para beber uma com elas! O problema é que não foi uma! Apareceu a PL e a sua amiga Vê. A Vê é uma jovem elegante e bonita, com uma voz deliciosamente rouca a fazer lembrar a Patrícia do Altino do Tojal, e cujo principal desafio foi conhecer, adaptar-se e aturar o Clã no mesmo dia. Na mesma hora! E conseguiu. Integrou-se perfeitamente, fez a festa connosco e acho que nunca se vai esquecer de nós, nem nós dela. Além delas apareceu a Rapariga do Riso Fácil, a Rapariga com Brinco de Pérola, a Senhora da Revista de Culinária, o Rapaz do Fato Cinzento e o Escritor. Ora, contas feitas à vida, éramos 7. Cada um pagou uma rodada. Sempre com elas e sempre a pedir ao senhor, Ponha lá aí mais uma bolinha fachavôr!
Soprámos o bafo no frio da noite, fizemos uma roda em volta de nada e desse tudo que é a nossa comunhão, conversámos, rimos, contámos histórias, houve quem desse a ginginha à boca de outrem e, às tantas, o Rapaz do Fato Cinzento começou a dizer que tinha uns excelentes abdominais e duas covinhas que levavam ao paraíso. A Vê, que não o conhecia, provocou-o, Não és capaz de mostrar isso... Ele não esteve com meias medidas, desapertou o casaco e a camisa e exibiu os seus abdominais em pleno Rossio. Os olhos da Vê brilhavam de surpresa e encanto. A rapariga do Riso Fácil abraçou-se à PL assim como quem quer matar as saudades todas de uma vez. Corremos para o Metro abraçados e a falar alto, na plataforma do Metro, sem música (!!!), o Escritor começou a dançar com a PL e o Rapaz do Fato Cinzento com a Rapariga do Brinco de Pérola. Terminámos com um agradecimento em vénia aos presentes que, pelo menos nas nossas cabeças, aplaudiam entusiasticamente. Foi um final de dia absolutamente épico. Entrámos no Metro e sentámo-nos ao colo uns dos outros, seguimos a correr para o comboio onde nos despedimos efusivamente da PL e fomos a conversar animadamente até ao destino. Saiu a Vê em Alverca, a Senhora da Revista de Culinária em Santarém e, no Entroncamento, a Rapariga com Brinco de Pérola apanhou a sua boleia. O Rapaz do Fato Cinzento, a Rapariga do Riso Fácil e o Escritor ficaram a fazer o balanço. Sim, foi uma loucura. Mas uma loucura sã que dá sentido à nossa efémera existência. Foi mais um fantástico momento do Clã do Comboio.

Nota Final
A chegada da Quadra Natalícia e o Final do Ano costumam trazer consigo o enfatizar do sentimento de solidariedade entre os homens. Neste caso, e mais uma vez, o Clã do Comboio enfatizou-o sem precisar de "ajuda externa". Está em agitação de fim de ano, o Clã, que é a mesma agitação que tem ao longo do ano inteiro. Esta será a última história deste grupo de amigos no ano de 2011. Por isso, aproveito para lhes agradecer todas as partilhas, toda a generosidade, todos os momentos inolvidáveis e aproveito, também, para lhes desejar um novo ano repleto de emoções fortes, de alegrias, de felicidade, de... viagens de comboio!

"Com Amor," - Documento 76


Olá Tânia,

espero que abras o correio electrónico ao fim-de-semana. Ontem, apesar da tua evidente má disposição na reunião, o momento seguinte foi muito interessante. Aquele grupinho informal que se juntou ali a falar das coisas da vida funcionou muito bem. Acho que, sem entrarmos em muitos pormenores, todos conseguimos dizer coisas e expor assuntos que normalmente o trabalho não permite abordar.

Foi pena teres de sair mais cedo, ainda ficámos um bom bocado mais e a conversa esteve sempre interessante. É impressão minha, ou aquele momento acalmou-te. Estavas muito tensa. Achei-te piada, ontem estavas contra todo o tipo de capitalismo e propriedade. Advogaste a teoria do "small is beautiful" umas poucas de vezes. Que se passa, miúda, andas numa onda mais espiritual?

Olha, combinámos jantar todos juntos em casa da Micaela na modalidade "cada um leva uma coisa". Fiquei de enviar-te um e-mail a avisar. Esperamos que apareças. Eu gostava muito que fosses.

Beijinho,
Rui Sousa

"Com Amor," - Documento 75


Meu Amor,

... amanhã tenho uma reunião de trabalho ao final da tarde e posso atrasar-me um bocadinho. Não fiques preocupado. Assim que estiver despachada envio-te uma sms.

Há algo mais por que valha a pena lutar senão aquilo que está na nossa essência? Eu espero que os nossos jovens, mais do que comida, tenham fome de sonhos e realizações.

Vou pensar com muito carinho na tua proposta, mas acho que a temos de trabalhar os dois...

Adoro-te.
Tua.
Tânia


Citação dos Miúdos que Sabem

Os graúdos, envoltos nos problemas da vida, por vezes subestimam os miúdos. Julgam-se sabedores e pensam que as crianças não sabem nada de nada e têm de ser protegidas... e tudo as surpreende na sua ingenuidade. Pois enganam-se os graúdos que assim pensam.

Ontem, uma criança de 9 anos entregou-me com os olhos a brilhar de felicidade e ternura os votos de ano novo que ela própria tinha redigido. E vai-se a ver, está ali a sabedoria toda da Vida e do Universo.

Obrigado I !

Da autoria  da I

Motorcycle Chronicles - The Promise In Her Eyes

The Promise In Her Eyes

Esta história tem poucos ingredientes. Uma estrada sombria, um homem de meia-idade, uma mulher de aspeto oriental e uma moto ronronante chamada Lucy, a única personagem que terá nome nesta narrativa. E também tem pouco que contar esta história. Acontece que é privilégio dos contadores de histórias contarem-nas grandes e pequenas, como aconteceram ou inventadas. Contá-la-emos breve e tal como aconteceu.

É um homem de meia-idade. Tem o cabelo encaracolado e grisalho, a barba semeada de negro por todo o rosto, uma serpente tatuada no pescoço e veste sempre de preto. Vive num barracão exíguo que outrora serviu para guardar dois cavalos e agora lhe emprestaram a troco de uns biscates de manutenção na herdade. É amplo. São 16m2 sem divisões, exceto um retângulo ao fundo separado do resto do espaço por um cortinado onde se alivia das inevitáveis e fisiológicas urgências. Um lava-loiças que faz de lavatório também, uma cama, Lucy aos pés dela, uma pequena mesa redonda e as quatro paredes quase integralmente cobertas por estantes com livros. Tem duas paixões, o homem de meia-idade. Os livros e Lucy.

Trabalha de noite. Todas as noites. Em quinze anos, nunca falhou uma noite. Feriados e fins-de-semana incluídos. Pega à uma da manhã. Despega às oito. Sem intervalo. Vem para casa, dorme, lê, come pouco e passeia com Lucy. Depois volta a pegar.

A mulher de aspeto oriental chegou com promessas de vidas faustosas e luxos inimagináveis numa casa espaçosa e confortável e a única coisa que encontrou foi um engano para o estômago, um quarto de 3m2 com casa-de-banho partilhada por trinta e dois inquilinos, uma estrada sombria onde espera todas as noites, uma carrinha que a vem buscar para ir com mais oito pessoas e uma noite de trabalho. Todas as noites. Há três anos que espera, que vai, que vem, que adia tudo por que veio. É baixa, a cintura larga e as pernas roliças. Tem os olhos rasgados e o cabelo liso por cima dos ombros. Sapatos rasos, saia preta pelo joelho, uma camisola e um casaco de lã. E espera.

A estrada que o homem de meia-idade percorre todas as noites tem a sua própria vida e as suas próprias marcas. Curvas mais largas e outras mais apertadas. Os mesmos buracos de sempre, sempre nos mesmos locais, de que ele se desvia sempre da mesma forma. Um dia destes surpreendeu-se a pensar que os buracos lhe faziam companhia. São trinta e sete quilómetros e quarenta minutos de um bailado a três, a estrada, ele e Lucy.

Um pouco depois de meio do percurso, a estrada estreita e sombria estende-se numa reta noturna de dois quilómetros. A meio dela há uma velha paragem de autocarro, em chapa, onde já não param autocarros. A seu lado, um candeeiro de iluminação pública que passa as noites a iluminar a estrada deserta e a paragem abandonada.

Quando o homem de meia-idade entra na reta, tem na sua frente uma estrada ladeada de árvores antigas, o breu da noite cortado pela luz amarelecida projetando sombras na paragem. Ao aproximar-se dela, abranda  para passar os restos daquilo que em tempos foi uma lomba de desaceleração. O ritual repetia-se sempre igual até que há três anos surgiu, sob a paragem, abrigando-se do tempo, uma mulher de aspeto oriental. Ele passa, olha-a. Ela olha-o de volta. E nunca, nada mais do que isto aconteceu. Um olhar breve trocado na noite amarelecida.

As noites foram frescas e floridas de dia e depois tornaram-se quentes e trigueiras e depois ventosas e folhadas e por fim peladas e frias. As roupas acompanharam estes ciclos que se repetiram por três vezes. Nada. Nunca nada mais do que aquele olhar. De promessas. Diversas foram as vezes em que o homem de meia-idade se imaginou a parar e a dizer qualquer coisa à mulher de aspeto oriental. Um aceno, primeiro. Um cumprimento, depois. Um convite, por fim. Nunca atreveu. Ficou-se sempre pela suspensão perante a promessa no olhar dela.

É dia 24 de Dezembro. Paira no ar um aroma de esperança e um ritmo tilintado de sinos e chocalhos com canções prometendo harmonia. Há perú e bacalhau nas mesas, rabanadas e sonhos, crianças abrindo sorrisos no aconchego de lumes crepitantes. O homem de meia-idade sai de casa. Inicia o seu percurso, chega à reta que se abre no seu horizonte, o frio intenso envolve a paisagem. Abranda junto à lomba que foi. Conduz a moto para junto dela, para, olha-a nos olhos, ela olha-o de volta. Ficam assim longos instantes até que ele olha em frente. Ela dá dois passos, aproxima-se, senta-se na moto e abraça-se à cintura dele. Ele retoma o ronronar de Lucy e desaparecem no breu da noite. A vida mudara!

Foram as Mãos

Foram as Mãos

Não foi o rosto redondo
E pequenino.
Não foram os olhos grandes
E pensativos,
Nem as pestanas longas
E sensuais.
Não foram os lábios desenhados
E quentes.
Foram as mãos longilíneas e definidas
Folheando com graça
Páginas desconhecidas.
Foi o sorriso que atiraste
Às palavras atrevidas
Enquanto abandonavas
A elegância das tuas mãos
Às frases estendidas!

jpv

Leveza

Leveza

Há nessa graça
Com que sorris ao mundo
Um poço sem fundo
De emoções.
Há nos teus olhos ávidos
A palpitação de quem quer viver
A vida toda num segundo.
E há, nessa forma como quase me tocas,
Um ensaio rumorejado
De vidas futuras,
De paixões e loucuras
A desafiar a certeza dos homens.
E fico assim, a olhar-te
No anonimato de mim,
Como se o mar dos teus olhos não tivesse fim.

jpv

Herança

Ultimamente, ouve-se muito falar em genética e em código genético, mais em particular. E depois aparecem sempre uns senhores com uns gráficos muito complicados a mostrar como é o código genético e há outros, de bata branca, que colocam um cotonete na boca das pessoas para analisarem o dito. E tudo isto é muito científico, tudo isto é muito exato e tudo isto falha com uma facilidade confrangedora.

O meu pai, que é o meu herói e o meu ídolo e o homem cujas passadas tendo seguir com o insucesso simples, básico e admitido de não ser eu tanto homem quanto ele foi, tinha um código genético, como todos nós. Acontece, e esta é a particularidade deste texto, que o código genético do meu pai está vivo e a comprovação deste facto não carece de microscópio, nem tubo de ensaio, nem raio laser. Pode ser feita à vista desarmada.

O código genético do meu pai vive no meu Tio Toneca, seu irmão mais novo, o mais novo de três, de resto. O meu Tio Toneca é desses raros seres humanos cujo traço mais evidente do caráter é a afabilidade. Como diziam do meu pai, dizem dele: "O senhor Videira é muito simpático." E é! É um homem predisposto ao entendimento, ao acordo, a agir sempre pelo bem e pelo caminho da luz. É um homem que nos abre um sorriso, estende um aperto de mão e nos estreita entre os braços e diz como se a vida toda dependesse da resposta a essa pergunta, Então rapaz, está tudo bem contigo?

Gosta de nos receber e recebe sempre com entusiasmo e um enternecedor sentido de partilha. Há muito tempo, já, que tenho por este tio, do lado paterno da família, um carinho muito grande. Mas foi depois do falecimento do meu pai que eu me apercebi com maior intensidade da herança do código genético. Na altura pensei que era eu o seu herdeiro. Mas não sou. Talvez venha a ser um dia. Por enquanto, o Tio Toneca é o seu fiel depositário. É com ele que está o sentido de justiça e preservação, o espírito de família, a generosidade  do ser. Por vezes, brincamos com ele por ser baixinho, sobretudo ao lado da Tia Hilda, sua improvável, mas consistente e intrépida companheira de mais de 50 anos e ele remata sempre com o aforismo popular "Os homens não se medem aos palmos!". E não! A sua estatura humana é inexcedível e à vista desarmada, sem outros instrumentos de medição, se percebe que habita no Tio Toneca o código genético do meu pai. E, de tudo o que podia dizer-lhe para felicitá-lo, hoje, porque faz anos, esta constatação é a mais preciosa das felicitações, o mais valioso dos tesouros.

jpv

"Com Amor," - Documento 74


Eu compreendo-te, fofinha. O teu pensamento é, por assim dizer, um pensamento mais feminino. Quero com isto dizer que está mais centrado na essência do ser. Legítimo e natural. O meu pensamento é mais predador, mais pragmático. Não há filosofia de vida que valha aos nossos filhos quando não houver comida em cima da mesa. O património dá-lhes, e a nós, essa segurança.

Tu já me conheces, meu amor, sabes que não deixaria que nada lhes faltasse, daí esta minha preocupação com o património e com o futuro. Não me leves a mal, é só uma preocupação.

Estou ansioso para ter-te nos meus braços. É já amanhã!

Beijos mil,

Com Amor,

José Pedro.

"Com Amor," - Documento 73



Meu Querido José Pedro,

Nunca, por um momento só que fosse, duvidei das tuas intenções. Percebi, desde logo, a tua dádiva, a tua intenção de todos ficarmos melhor. Entendi a tua estratégia de unir-nos e isso eu amo em ti. O que me assustou foi o detalhe e o acabamento da proposta. Ela é linda, mas contém opções que hão-de determinar a forma como educamos os nossos filhos e essas necessitam ser ponderadas e debatidas e as decisões que daí advierem precisam ser partilhadas.

Sobre património nem sei que hei-de dizer-te. Que te compreendo. Que até certo ponto concordo contigo. Mas também que o maior património que podemos deixar aos nossos filhos é amá-los e ensiná-los a amar, é proporcionar-lhes ferramentas com que possam defender-se quando já cá não estivermos, é o respeito, o trabalho, a paixão, o amor colocado em cada pensamento e em cada gesto. Casas e carros e terrenos não são património, José Pedro, são uma amálgama de coisa nenhuma, perecível e efémera. O verdadeiro património, meu querido, é o carácter que conseguirmos construir neles, a força que lhes incutirmos e a capacidade de resistirem às adversidades. 

Eu amo-te muito, meu amor, mas é a ti que eu amo. Não àquilo que possuis. E quero que o meu filho seja capaz deste amor puro e genuíno antes e depois de todas as outras coisas...

Tua, sempre tua,

Tânia. 



Não foi a beleza dos teus passos.
Não foi a liquidez dos teus traços.
Nem tão pouco foi a generosidade das tuas formas.
Não foi a coloração do teu vestido
Leve,
Desafiando o equilíbrio do Universo.
Foi só uma imagem,
Um momento,
Um estilhaço
Guardado em verso.

Não foi a paixão.
Não foi a minha mão na tua mão.
Não foi o teu corpo curvilíneo de prazer.
Não foi a entrega em jogos de entreter.
Não foi a dádiva da tua alma libertina e esguia,
Foi só a vontade de guardar-te numa poesia.

Não foram as palavras ditas,
Não foram as palavras que se escreveram,
Não foram os gestos que se fizeram.
E nem sequer foram os que ficaram por inventar.
Foi só esta vontade absurda e louca de te cantar!

Menina dos passos leves,
Por que razão me invades
E te atreves
A incomodar-me
O mar calmo das coisas previstas?
Porquê este desassossego?
Porquê este emaranhado de palavras desnecessárias
Havendo entre nós tantas e tão várias
Razões para que tudo aconteça a seu tempo...
Em harmonia
E ponderado silêncio?

Não digas mais nada!
E sorri, se fores capaz.
Guarda a tua explicação
Que tudo explicado está.
E vem deitar a tua cabeça no meu ombro,
E olhar as estrelas.
Não as interpretes.
Contenta-te só com vê-las!

jpv


"Com Amor," - Documento 72


Fofinha,

Em primeiro lugar deixa-me dizer-te que me considero um privilegiado por ter-te conhecido e, sim, é-me muito difícil terminar uma conversa contigo sem pensar em fazer amor, em devorar-te, em encher-te de carícias, em entrar em ti e fazer-te minha.

A minha proposta que, admito, foi um tanto teatral, tal como eu, estava plena de boas intenções e não passava disso mesmo, uma proposta. Não quis impor-te nada. Seria incapaz de trilhar esse caminho sem partilhar cada pormenor ctgo. Simplesmente quis que percebesses que sei muito bem para onde quero ir. E, claro, mais do que tudo, quero ir ctgo. Construí para nós um cenário geral de bem-estar, de soluções que, a meu ver, nos poderiam proporcionar uma boa vida juntos, mas é evidente que estarei disposto a discutir cada aspecto e cada solução ctgo. Só assim poderá chamar-se vida a dois, certo?

Minha querida, eu, como tu, já vivi com outra pessoa uma vez e falhei. E sei que, entre outras razões, um dos principais motivos por que falhámos enquanto casal foi por andarmos um pouco à deriva, foi por não sabermos o que cada um queria da vida ao pormenor.

Eu valorizo os bens, Tânia, mas não no sentido de ser escravo deles. O que penso é que tudo desvaloriza e desaparece, nada deixas ao teu filho senão a educação que lhe deres e o património que construíres. E não falo de dinheiro, meu amor, o dinheiro não tem valor. Mas se deixarmos os nossos filhos ancorados num património sólido, mesmo que a vida lhes corra menos bem, eles têm algo a que agarrar-se. Trata-se só de segurança, minha querida, mais nada.

Anseio por estar ctgo.
Mil beijos.
Com Amor,

José Pedro.

"Com Amor," - Documento 71


Olá Fofinho,

Desde que me fizeste A proposta há dois dias atrás que não consigo pensar noutra coisa e nem sequer se trata de nenhuma ânsia de racionalização. Somente não quero dar esse passo em falso de novo. Por um lado, penso que não nos falta maturidade. Eu tenho 44, tu tens 42, ou seja, já somos crescidinhos. Por outro lado, já os dois vivemos uma numa situação conjugal falhada que em ambos os casos deixou marcas, creio que até mais profundas em ti. Eu tenho um filho ao meu cuidado e tu tens uma menina ao teu. Embora já sejam crescidos, vivem aquele momento complicado de passarem do 2º ciclo para o unificado o que quer dizer que quer tu, quer eu, poderíamos precisar de uma ajuda extra nesta fase, um apoio mútuo. Por fim, e não menos importante, eu amo-te muito e confio muito no teu amor por amor por mim.

Parecendo tudo tão óbvio e tão simples, perguntei-me séria e profundamente porque não te disse logo que sim anteontem. Ainda para mais naquele contexto romântico de jantar à luz das velas que o menino preparou. Por duas razões. Primeiro, porque a meio da conversa, o menino começou a deixar as suas mãos viajarem por onde não deveriam e a conversa teve de ser interrompida por motivos de força maior - és um malandreco, depois porque, meu amor, com verdade te digo, tenho reservas e não queria tomar esta decisão com reservas.

A tua proposta para vivermos juntos, sob o mesmo tecto, e formarmos um casal apaixonado em partilha plena da vida é a tentação é a tentação do céu e, além do mais, seria a consequência natural do nosso namoro, já tão assumido, já tão longo. Meu Deus, parece que foi ontem que te conheci e já faz dois anos que namoramos.

Mas, meu amor, sem querer julgar-te mal, e por isso resolvi escrever-te, para usar o meio que nos aproximou e para medir bem as palavras, eu penso que a tua proposta é demasiado elaborada, demasiado acabada. José Pedro, eu preciso de um homem que me dê segurança, mas também quero ter um papel activo nas nossas escolhas. Meu amor, tu decidiste que venderíamos os nossos apartamentos para comprar um em comum, decidiste onde seria, como seria. Até os electrodomésticos e as cores das paredes tu definiste. Tu decidiste que carro compraríamos, qual dos nossos dávamos à troca. Tu decidiste em que escola colocar os miúdos e quem ia buscá-los e a que dias e, pior do que tudo, tu decidiste como dividiríamos os bens se nos separássemos! Meu amor, se eu for viver contigo, não vou querer estar a pensar que me vou separar e muito menos vou querer estar a pensar nos bens. Por outro lado, meu amor, temos de deixar algum espaço à espontaneidade, ao improviso, à vida que acontece de uma determinada maneira porque foi esse o seu curso, sem pré-determinações.

Meu amor, como tantas vezes te disse, eu quero essas coisas todas contigo, mas quero que aconteçam e as façamos acontecer no quotidiano. Não quero viver a vida como quem descarrega itens numa lista de supermercado. Por favor, não me interpretes mal. Esta semana estaremos juntos e conversaremos sobre isto. Entende este mail só como uma contribuição para a nossa reflexão. Nada mais.

Beijo Imenso.
Tânia.

Café da Manhã



- Bom Dia!

- Bom Dia! São três cafés e uma sauna com massagem, por favor!

Motorcycle Chronicles - Awakening

Awakening

Ninguém sabia ao certo há quanto tempo estava ele enfiado naquele pardieiro. Ninguém sabia ao certo há quantos anos vivia naquela penumbra, naquelas condições sub-humanas. Por vontade própria.

Bryan Pots entrou no hospital com o filho, Jamie Pots, de doze anos, pela mão. Vieram esperar pelo momento de ver a sua mulher e mãe e o maninho que estava para nascer. O parto complicara-se. Ordenaram a Bryan que saísse e se reencontrasse na enfermaria com a equipa médica e com a sua mulher após o parto que teria de ser de cesariana. Bryan nunca mais viu Julie. Morrera. E a criança também. Quando lhe deram a notícia, lembra-se de ter largado a mão do filho que alguém levou dali e lembra-se de ter desfalecido e voltado a si e desfalecido e voltado a si em ondas de choque e semiconsciência até que, finalmente, olhando um ponto indefinido na parede verde-água do hospital, conseguiu pensar. Recordou. Nada no presente lhe interessava. Mergulhou no passado da paixão, do amor, da entrega, da partilha, do carinho, do sexo, do filho em comum, dos passeios sem fim na moto percorrendo a costa com o mar azul a estrondear a paisagem. E ficou lá. Ficou lá nesse dia e nunca mais voltou.

Lembrou-se de como se haviam conhecido, de como ela o fascinara com o seu entusiasmo pela moto, de como o ajudava a cuidar dela, do casamento em que, contra tudo e contra todos, apareceram juntos na igreja, em cima da moto, vestidos de cabedais e com lenços encarnados no pescoço. Lembrou-se dos passeios a desafiar o destino na auto-estrada com a vertigem da velocidade, serra acima, pelos campos fora e, sobretudo, pela praia, com o mar a salpicar a face e as roupas. Bryan não aceita que tudo isso tenha acabado, não sabe a vida sem ela, não tem Norte, está perdido. À sua maneira, morreu também.

No regresso a casa, passou pela mãe e deixou lá o pequeno Jamie, estacionou o carro ao lado da casa sob o alpendre que construíra para o efeito. A moto também lá estava. Lá ficou.

Bryan e Julie Pots viviam num antigo moinho abandonado. Reconstruíram-no com amor e soluções engenhosas de aproveitar o espaço. Estavam perto da cidade, mas suficientemente distantes para não terem vizinhos. Bastavam-se um ao outro. Viviam um para o outro. O moinho tinha três pisos. Um piso superior onde ficava a zona de dormir. Em baixo a zona de cozinha, a sala e a casa-de-banho e, à entrada, à esquerda, um pequeno alçapão que dava para um piso inferior. A este piso tinha-se acesso também por uma portinha lateral que ficava sob o alpendre que ele construíra para o carro e a moto. Nesse piso havia ferramentas, uma televisão antiga, uma pequena arca frigorífica, um sofá e toda a tralha que se não tinha deitado fora e aí viera morrer de velhice e desuso. Bryan entrou para essa divisão pela porta lateral há cinco anos e nunca mais saiu. Começaram a contar-se histórias incertas. Que saía nas noites de luar para gritar, injuriar o Criador. Que trepava às árvores e aí ficava noites inteiras contemplando o céu. Nunca ninguém o viu. Vive na mais absoluta indigência. A sua mãe, uma vez por semana, ao sábado, pega no neto, num saco com mantimentos e outro com roupas e vai pôr-lhos à porta, sob o alpendre. Chama sempre, Bryan, meu filho! Nunca obteve qualquer resposta. Os sacos de comida desapareceram sempre. Os de roupa foram-se amontoando à porta da cave até que ela resolveu trazê-los de volta. Bryan enterra-se no sofá e sonha. Come pouco. Sai à noite, urina e defeca, quase não abre os olhos e nunca mais se lavou. Por opção própria não voltou a subir aos outros pisos do moinho. Come só o essencial. Bebe água. Pouca. Os cabelos cresceram-lhe pelos ombros e pelas costas, as barbas espalharam-se pelo rosto e penduraram-se até ao peito e desabituou-se da luz. De dia, não sai do seu buraco. À noite, quando sai, quase não abre os olhos. Bryan não conseguiu suicidar-se, mas morreu para o mundo. Ao longo desses cinco anos, toda a casa se foi degradando, cortaram-lhe a luz e a água sem que tivesse reparado, a roupa que traz no corpo é a mesma com que estava no dia em que perdeu Julie e o bebé. O seu cheiro e o cheiro do seu cubículo de vegetar é nauseabundo, quase insuportável. Tem parasitas nas roupas, nos cabelos e nos corpo e não quer saber disso para nada. Está à espera de juntar-se a Julie. Cresceram ervas em torno do carro cujas borrachas se danificaram, os pneus sucumbiram ao tempo e estão vazios e, no mesmo alpendre, a moto reluz como se tivesse acabado de sair do stand. É um pormenor de discordância a destoar da degradação que a rodeia. E há uma razão para isso. Jamie tem cuidado dela. Aos sábados, quando a avó vai levar o saco com os mantimentos, Jamie fica por ali e vai limpando os cromados, a pele dos bancos e com o passar do tempo aprendeu a retirar algumas peças, limpá-las, mantê-las e a recolocá-las no lugar. No dia em que a sua mãe faleceu de parto, a avó veio ao moinho tentar falar com o pai e levou Jamie consigo. O jovem viu a chave da moto na ignição e um porta-chaves pendendo dela, tirou-a, guardou-a no bolso e sentiu-se um homem, o dono do Universo. Desde esse dia que a passeia no bolso como se guardasse a chave de um tesouro com a própria vida. E guarda. O tempo, como sempre, foi passando inexorável e indiferente ao sofrimento de Jamie. A partir de certa altura, começou a vir junto à casa também aos fins de tarde. Por vezes, chamava pelo pai, com o tempo foi chamando-o de forma diferente.

- Papá!

- Pai!

- Hei, tu!

- Egoísta de merda!

- Cabrão, filho da puta!

- Hei tu!

- Pai!

- Papá!

Desistiu.

Poucos dias antes de fazer dezoito anos, Jamie decidiu dar-se um presente. Iria ligar a moto. Passear com ela. Seria sua. O presente da sua maioridade. Afinal de contas, tinha cuidado dela durante quase seis anos, contara-lhe histórias, imaginara aventuras com ela e por causa dela aprendera a andar de moto.

Para Bryan Pots, o dia não amanheceu. Está enterrado no seu sofá que faz uma cova, coberto por uma manta imunda e à sua volta uma multidão de papéis e plásticos e recipientes abandonados marcam a escuridão do espaço. Apenas ouve mais ruídos e adivinha o dia. Mais um. Infelizmente.

Para Jamie Pots é um dia diferente. A avó mimou-o com um pequeno-almoço especial, combinaram que não iria à escola nesse dia, vestiu-se de cabedais, calçou umas botas pretas, colocou um lenço encarnado no pescoço, esfregou as chaves da moto entre os dedos, como que a puxar-lhes o lustro e colocou-as num bolso do blusão. Apanhou os transportes, fez uma caminhada a pé e quando chegou ao velho moinho, ela lá estava. Retirou-lhe a capa com que sempre a cobria, abriu o cadeado da corrente que prendia a moto a uma argola na parede, junto ao chão, trouxe-a para a estrada estreita frente ao moinho, sentou-se nela, colocou a chave, fez um compasso de espera com os olhos fechados e a cabeça inclinada para trás a absorver o calor do astro-rei. Finalmente deu meia volta à chave.

Mesmo com a manutenção que Jamie lhe vinha fazendo, muita coisa poderia ter corrido mal, mas este dia era o dia do despertar. A moto trabalhou na perfeição. Ouviu-se o ronco grave do arranque, Jamie acelerou-a repetidas vezes, o fumo negro dissipou-se e agora está ao ralenti, gorgitando aquele bater de coração forte e sonoroso próprio de uma moto potente. Jamie dá-lhe um tempo antes de arrancar, como que à espera que ela se reencontre consigo mesma, à espera que o seu coração volte à vida e normalize após longo sono. Está sentado na moto com os braços caídos olhando o horizonte, a vida toda para viver. Ouviu o ranger da velha porta do alpendre abrindo-se mas não reagiu. Tal como fizera com a moto, deu tempo. Pequenos passos no estrado do alpendre. Um homem envelhecido pelo sofrimento, sujo e mal cheiroso, sentou-se no banco por trás de Jamie, agarrou-se à cintura dele, tinha os olhos fechados quando disse:

- Vamos ver que vida ainda lhe resta. Cuidado, ela tem uma mania ao passar da 3ª para a 4ª.

Jamie não disse nada, mas pensou, Obrigado, meu Deus, permitiste que ele acordasse.

Rolam rápido junto ao mar, o vento fustiga-lhes as faces e as roupas, o homem andrajoso encostou a cabeça nas costas do rapaz vestido de cabedal e ouve-lhe o bater forte do coração. O rapaz conduz com perícia a moto que vai ronronando poder e deixa escapar lágrimas de felicidade ao vento.


jpv

Cores de Inverno

As cores enchem-se de força. Estão preparando os matizes da Primavera. Entregam à Terra o seu sangue e a sua pujança e sabem que vão renascer. Os ramos despem-se e por dentro a seiva os está revestindo de novas cores, e os frutos salpicam a paisagem seca com o calor dos seus tons. O Inverno não é triste, nem pobre, nem morte. É uma força contida, uma exuberância interior, uma pujança de outra cor, uma estrada a abrir-se para o que há-de florir-se.


Ameixeeira


Ameixeeira

Laranjeira

Romanzeira


Amendoeira ao fundo

O Clã do Comboio - Scalabis Impromptu

Scalabis Impromptu

A manhã estava perfeita. suficientemente fria para sugerir a necessidade de nos acolhermos estando juntos, esfregando as mãos à frente do bafo soprado e, ao mesmo tempo, de um sol cristalino a iluminar a paisagem ampla da lezíria.

No último jantar do Clã, a Rapariga com Brinco de Pérola mostrou vontade de conhecer Santarém e isso foi o que bastou para se combinar o passeio. Incluiria almoço, claro está e está claro seria organizado pelos escalabitanos do Clã.

Encontrámo-nos no Mirador do Liceu com a esplendorosa lezíria atravessada pela prata do Tejo serpenteando a paisagem. Aí se juntaram o VM que fora buscar à estação de caminho-de-ferro a Rapariga do Riso Fácil, O Rapaz do Fato Cinzento e a Rapariga com Brinco de Pérola que trouxe seu gentil e meigo filhote. A Senhora da Revista de Culinária e sua belíssima filhota, o Escritor e sua mulher. Olhares esperançosos num dia feliz, palavras a acordar a manhã, as primeiras fotos, folhas secas jogadas ao ar a arriscar uma fotografia diferente, algumas graçolas, sobretudo o VM contando suas aventuras da juventude, tempos saudosos de quando as traquinices e a irreverência faziam parte do nosso quotidiano.

Visitámos depois a Igreja de Santa Clara onde o VM chamou poço a uma cisterna com correcção imediata e limpa da Mulher do Escritor e onde o nosso anfitrião queria, por força, que a rosácea estivesse do lado oposto àquele em que efetivamente estava. Risos e mais fotos, algumas de fino recorte artístico... E marchámos para o Convento de São Francisco e seus claustros onde discutimos doutamente a proveniência da pedra... muita ciência! E rumámos ao Mercado Municipal onde apreciámos os azulejos e cujo característico interior visitámos. Seguiu-se a Igreja da Piedade e depois a Igreja do Seminário onde a Senhora da Revista de Culinária tirou fotos a uma senhora pequenina e rechonchuda, de saia curta, que andava empoleirada no altar! Para o limpar, bem entendido! As conversas sucediam-se e o clima começava a animar até que chegou o momento de visitar o monumento escalabitano preferido do nosso amigo VM: a Pastelaria Bijou. Cafés, chás, águas, sumos e os famosos pampilhos. De facto, dos melhores que já provei, macios e fresquíssimos. Quisemos partilhar a despesa mas o VM insistiu pelo menos UMA vez que fazia questão e nós agradecemos o gesto. Pequeno-almoço à pato, portanto.

Pudemos ainda visitar a Igreja da São João do Alporão e subir à Torre das Cabaças onde, para além do esplêndido mecanismo do relógio, se pode observar toda a cidade e uma ampla paisagem ribatejana.

Nas Portas do Sol, as crianças correram, o sol voltou a banhar-nos a vista e a alma e a provocar-nos a imaginação. A Rapariga do Riso Fácil subiu às ameias onde a fotografei com a Senhora da Revista de Culinária numa pose cúmplice e feliz e, finalmente, juntou-se a nós o JJ que nos surpreendeu com todo o conhecimento que tem da cidade. Ele conhece cada recanto, sabe a sua história e conta-a com raro entusiasmo. A cidade de Santarém fica mais bonita pela mão do JJ. Foi ele que nos levou à Porta da Cidade, a única que pode observar-se nos dias de hoje.

As almas estavam entusiasmadas e os corpos cansados quando chegámos à Taberna do Quinzena para almoçar. Começámos por volta das 13h e estivemos almoçando durante quase quatro horas. O importante não foi o que se comeu, foi o clima divertido e jocoso de quem aprecia estar à volta de uma mesa partilhando uma refeição e, mais do que isso, a companhia e a conversa. Juntaram-se a nós a Mulher do VM, o RB e a Mulher do RB e também a Mulher do JJ. Espetada de lulas, naco de novilho, lombinhos de porco e outras iguarias regadas com vinho da pipa num fantástico e típico ambiente no coração do Ribatejo. O senhor que nos serviu percebeu o clima e também ele contribuiu para o bom ambiente que ali se viveu. A determinada altura, ele o Rapaz do Fato Cinzento deram uma palmada na mão um do outro, um five, para comemorar uma qualquer sintonia. O Escritor atacou, Ó chefe, isso é um bocado abichanado. E ele respondeu sem papas na língua, Sim, irmão! Gargalhada geral. Um dos momentos altos da tarde foi quando o Rapaz do Fato Cinzento nos falou de certos sabonetes com odor a amêndoa, a chocolate, a morango, que têm a particularidade de se derreterem em contacto com a pele por efeito do calor desta. Estava ele a dizer que também os havia com odor a chocolate de leite quando o VM o interrompeu, Para que é preciso o lei... e já não disse mais nada porque a Mulher do VM virou-se para ele e com o olhar muito vivo disse, Cala-te que isto interessa-me! E eu acrescento, Já sabes VM, estamos a chegar ao Natal... É então que a Rapariga do Riso Fácil saca de uma latinha de vaselina com cheiro a baunilha e diz, Não sei para que é preciso tanta coisa, a vaselina também serve. O VM quis tirar o assunto a limpo e besuntou os lábios com a vaselina da Rapariga do Riso Fácil. Ficou escorregadio. Depois queria comer as lulas e elas escapavam-lhe... Não sei a que propósito (!!!), ouvimos aqui uma bizarra narrativa que envolvia preservativos fluorescentes em forma de Asterix! Delicioso! Iniciou-se, por fim, uma épica sessão de brindes. Trouxeram um cesto com garrafinhas de bebidas espirituosas, aguardente, licor de poejo, licor de café e ginginha. Que eu tivesse reparado, mas não é de fiar, esgotou-se o poejo e o licor de café sendo que as outras ficaram muito arrombadas. Juntamente com as garrafas vieram uns copinhos pequeninos que se bebiam de uma vez só. Brindámos ao Clã e a cada um dos elementos do Clã e aos familiares dos elementos do Clã e à Taberna do Quinzena e quando já não havia mais ninguém, começámos a brindar às pessoas das outras mesas que se levantavam e vinham brindar connosco. Ainda me lembro do VM ter perguntado à sua mulher, De qual é que queres? E ela respondeu prontamente, Tanto faz, já me sabem todos ao mesmo! Vi a Rapariga com Brinco de Pérola rir desalmadamente e vi a Senhora da Revista de Culinária ir às lágrimas. O JJ tentou manter a compostura, mas foi do lado dele que morreu a primeira garrafinha. Paz à sua alma!

O RB estava muito sossegado. E nós a estranhar. Vai daí, a Mulher do RB teve de sair. Acho que foi para um workshop. Foi então que, vá-se lá saber porquê, ele se libertou e nos explicou tudo acerca da biga dominicana e do cialis. Em espanhol da Argentina! Ele até sabe a posologia!

Enfim, quando Clã saiu da Taberna do Quinzena, o ar frio da tarde foi bem recebido, as almas iam lavadas pelo riso, a companhia fora fantástica e haviam-se vivido momentos de memorável partilha e boa disposição. Como sempre.

Ainda houve tempo para se visitar a Igreja de São Nicolau, a Igreja do Milagre e a fantástica Igreja da Graça onde conhecemos a dona Antónia Lança que recitou um poema que ela própria escreveu entre as paredes da igreja e nos contou histórias do seu avô alentejano. O Rapaz do Fato Cinzento arriscou, Nós temos um blogue, mas se calhar não tem Internet. E a dona Antónia Lança arrumou a questão do alto da sua juventude de sessenta e muitos, Não tenho? Claro que tenho. E eu podia lá viver sem o e-mail e o Facebook?! Fui verificar e tem mesmo página no FB. Bem interessante, de resto. Mora aqui:

Fizemos várias fotos de grupo e uma delas, em homenagem ao JJ, foi tirada à porta da loja da Bimby!

Todos ficámos a conhecer melhor Santarém, a Capital do Gótico, que tem pouca coisa de estilo Manuelino. É só rua sim, rua sim!

O Clã é assim como um impromptu: improvisado, mas harmonioso. Construímos a nossa própria sinfonia de estar. Cada um dá só aquilo que é e assim é aceite pelos outros. Sempre em inclusão, sempre em acréscimo ao todo que somos, improvisado e harmonioso. E a amizade vicia. Provoca habituação. Nos dias que se seguiram à nossa aventura, claro que a recordámos com prazer, mas começámos de imediato a planear a próxima...



E agora...

... uma cantiguinha de Natal!

Com a onda de crise, a malta até esquece que se pode ouvir uma musiquinha de Natal a preços módicos... tipo, ir ao YouTube e ouvir!

Informação Meteorológica

A manhã acordou com uma neblina espessa a envolver a alma e a criar um estranho pano de fundo para os ramos desnudados das árvores, como se pedissem socorro. Caiu uma orvalhada abundante que deixou as laranjas lacrimejando o novo dia. Os cães resfolegavam a terra húmida e fresca e uma linha de rolas veio estender-se num cabo telefónico a enfeitar o nevoeiro espesso. Mais perto daqui, desponta a vegetação verdejante e o cantar trinado de um galo. A lenha arde no fogo crepitante da lareira que emana um halo de calor e, ao longe, ouvem-se os guizos das cabras à procura da primeira erva despontante. O café fumega ao lado do pão alvo e fresco. Quanto ao resto, não sei nada de correntes de ar nem de anticiclones, só deste frio que envolve o dia e o aconchega.

jpv





Filosofia de Rua

Da Net

Uma Esperança Nicola

Uma Noite...

Não aconteceu nada!

Ou seja, os pacotinhos de açúcar podem induzir em erro!

"Com Amor," - Documento 70


Ok, miúda!
Vejamos onde é que isto vai dar... com uma condição: para já, fica estritamente entre nós! Somos amigas e mais nada. O resto virá com o tempo.
Precisamos MUITO falar.
Beijo suave, com amor.Laura.
PS1: Tentarei não ser preconceituosa... comigo!PS2: Já despachaste o sonso?

"Com Amor," - Documento 69


Sim, tonta, 2 vezes é mais do que uma!E agora?Que tal sermos felizes para sempre?
Acho que o que combinámos foi para nos tranquilizarmos, mas depois não resistimos à nossa presença mútua.
Eu gosto muito de ti e de conversar ctgo e de estar ctgo e não me incomoda nada que sejas mulher, pelo contrário, dá-me alguma segurança. Acho que as mulheres são mais fiáveis. Eu não me importo de ver onde é que isto vai dar. E tu?
Beijo Meigo,Madalena.
PS1: Não sejas preconceituosa. Os teus filhos não usariam essas palavras. Talvez dissessem só que a mãe é muito feliz com a sua companheira.
PS2: Acho que preciso de dar um chuto no rabo àquela tentativa mal conseguida de homem a que chamo namorado.

Divulgar



Não obstante tratar-se de uma pequena editora, a OVNI parece ter grandes livros na sua carteira. Chegou-me ao conhecimento quase por acaso e, depois de vasculhado o site inteirinho, resolvi divulgar porque alguns dos títulos são mesmo imperdíveis. Quais? Deixo aí uns quantos em jeito de exemplo, mas há por lá mais, muito mais...

Henrique Manuel Bento Fialho

Fernando Sorrentino

Machado de Assis

João Camilo

O Clã do Comboio - Nota Triste

Nota Triste

Faleceu ontem um familiar chegado e querido de um membro do Clã do Comboio.

Querida PL,
em nome do Clã venho trazer-te uma palavra de conforto e solidariedade para que enfrentes com coragem estes momentos difíceis.

São perdas irreparáveis com que nos conformamos sem nunca nos habituarmos ou estarmos preparados. A amizade pode ajudar a mitigar a dor e é por isso que vimos oferecer-te a nossa.

Uma saudação amiga de todos nós.

O Clã do Comboio

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