Mails para a minha Irmã vai de Férias!

Caros Leitores e Amigos,

Após mais um ano de grandes desafios e muito trabalho, Mails para a minha Irmã vai ter as suas merecidas férias.

Até 20 de Agosto não haverá postagem. A partir daí algumas coisas residuais.

A partir de Setembro estaremos de regresso em força e com tudo o que vos faz cá voltar: terminaremos o romance em curso - "Com Amor," - contaremos todas as histórias do quotidiano, poesia, citações, música e... claro, o 1º almoço do Clã do Comboio!

Para aqueles que estiverem de férias, fazemos votos para que sejam fantásticas. Para os que estiverem em trabalho, desejamos sucesso.

Até já!
jpv

O Clã do Comboio - O SuperPicas

O SuperPicas

[Texto Removido Pelo Autor]

O Clã do Comboio - A Invasão

A Invasão

Saída tardia do trabalho. Já só foi possível apanhar o regional das 20:48. Em casa, só lá para as 23h. A viagem decorria com normalidade. À minha frente um jovem a ouvir música com headphones. O som ia num volume tal que era quase como se os não tivesse. Não é que não me incomodasse um pouco, mas deixei-o curtir o seu som em paz. Para mim, a paz dos outros também é importante. Mais à esquerda, um senhor nos seus setenta e muitos, fato de fazenda verde-água, camisa branca e gravata em verde seco, um pouco mais escuro que o fato. A contrastar com o seu vetusto aspecto, uns headphones. Não se ouvia nenhum som, mas o velhote cantarolava um fado da Amália a pulmões cheios sem a consciência de que ia a cantar para nós e não para o universo dos seus tímpanos. Comoveu-me a coragem dele para se adaptar às tecnologias. Mp3, música em suporte digital, headphones, botões para dominar... por Amália vale tudo. Decidi não ir ao blogue dele criticá-lo. Em primeiro lugar porque não sei se tem blogue, não tenho essa sorte. Depois e mais importante, porque a felicidade dele, o seu direito à Amália, também são importantes para mim. Mas, como os leitores já vão sabendo, eu sou um tipo esquisito.

Ia entretendo a alma nestes pormenores tardios quando reparei num estranho, sequencial, crescente, pormenor. Pormenor a princípio, com o passar dos minutos ficou bem evidente!

Uma pessoa levantou a mão e deu uma chapada em si mesma. À volta olharam como se ela não batesse bem. Mas, um dos que olhou, passado um pouco, deu uma palmada na perna. Mais ao fundo, um homem deu com o jornal na parede lateral do comboio, depois uma rapariga agarrou num caderno e deu com ele nas costas de um banco, depois, por toda a carruagem, os passageiros tentavam afanosamente e com tudo o que tinham à mão matar... melgas! Uma nuvem delas invadira o comboio.

Quando o picas passou, perguntei:
- Então o que é que foi isto?
- Foi uma invasão de melgas. Nos dias em que não há vento, quando paramos ali em Alverca e abrimos as portas, elas entram num repente. Não há nada a fazer. Só se não abríssemos as portas e se houvesse alguém para entrar, então abriam-se. Mas não se pode. São as regras.
Ao fundo, um homem ainda disse:
- A CP devia fornecer insecticida.
O revisor riu-se e respondeu:
- Só se fosse um extintor de insecticida...
E eu pensei cá para comigo e com o meu cansaço:
- É melhor não, é melhor não...

O Clã do Comboio - Carta à Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia

Carta à Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia,

Venho em missão de paz. Nem podia ser outra a missão, dado que o Clã é um grupo de amigos perfeitamente informal e pacífico. Em Outubro passado, nenhum de nós se conhecia! Ora, com o passar dos dias e dos quilómetros, começámos a conversar e descobrimos que temos coisas simples em comum: olhamos a vida com positivismo e esperança, gostamos de conversar, adoramos uma boa gargalhada e andamos de comboio. Todos os dias! Foram estes ingredientes, e não outros, que nos juntaram e, fique claro, o Clã não tem chefes, nem líderes, nem proprietários. Quem vier e gostar de conversar e de rir-se, é sempre bem-vindo e tem os mesmos direitos e deveres dos outros: o direito e o dever de viajar em regime de partilha, de boa disposição e de conversa animada. Isto inclui, naturalmente, a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia.

Sabe, Titi, o Clã não é, nunca foi, provocatório. Nada se faz que não seja espontâneo, que não nasça naquele momento. Para ser provocatório, teria de ser reflectido e o Clã do Comboio, para reflectir, já tem o trabalho ao longo do dia e o estudo que isso implica. Seria preciso que alguém tivesse um ego muito grande, tão grande que achasse que estava no centro do Universo, para pensar que o Clã do Comboio pensava em provocar esse alguém. Jamais! Somos demasiado espontâneos e bem dispostos para pensar em provocações. Em certa medida, até somos um bocadinho egoístas. É que nos divertimos uns com os outros e isso basta-nos.

A Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia não precisa preocupar-se com as Raves Móveis. Como tudo no Clã, foi um episódio espontâneo e esporádico. Isto não quer dizer que um dia destes não se cante o "Parabéns a Você", mas, mais uma vez, será espontâneo e esporádico e jamais para agredir ou provocar alguém.

O Clã é composto por gente mais expansiva e por gente menos expansiva, alguns primam até pelo silêncio porque gostam e preferem ouvir os outros, mas há uma coisa de que não abdicamos, nunca, do nosso direito a uma boa conversa e a uma boa gargalhada. Sabe, é que todos no Clã já percebemos que um dia destes vamos a enterrar e o breve tempo daqui até lá tem de ser gasto em energias positivas e em caminhos de Luz. Não podemos, nem queremos, obrigar ninguém a ser bem disposto, mas não abdicamos da nossa boa disposição. Raves à parte, claro!

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia, não vá por aí, por esse caminho obscuro das palavras veladas por trás de comentários escondidos no conforto do anonimato. O Clã não deve, logo, não teme. É por isso que anda de cara destapada e cabeça erguida. Por outro lado, vocês sabem quem somos e sabem que nós sabemos que vocês sabem quem somos. E nós sabemos quem vocês são. E sabemos que vocês sabem que nós sabemos quem são.

Para quê e porquê esse caminho? No extremo, esse é o caminho dos litígios e desentendimentos que leva os homens ao espectáculo degradante da guerra. E, como já foi dito, nós somos gente de paz. Não queremos mal a ninguém. Não é essa a nossa forma de estar.

Cara Titi, não direi que seremos todos amiguinhos no futuro, mas, para que fique clara a boa intenção deste texto, está convidada a viajar connosco um dia destes. E traga os seus amigos. Vai ver que se diverte. Mais: não quer vir ao nosso almoço? Sabe, para fazer parte do Clã não é preciso nenhum ritual satânico de iniciação. Basta andar de comboio regularmente, ser bem disposto e gostar de conversar e isso a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia já é e já gosta!

Como é que eu sei? Básico. Já a vimos conversar e já a vimos rir e, Raves à parte, achamos que é capaz de ter umas histórias interessantes para contar... Como é que eu sei? Puro palpite. Mas olhe que o Escritor é bom a palpitar!

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia, o espontâneo, simpático e de quando em vez incomodativo Clã do Comboio deseja-lhe... Boa Viagem!

O Clã do Comboio

The Daffodils

The Daffodils

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o'er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the Milky Way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they
Out-did the sparkling leaves in glee:
A Poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed—and gazed—but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.
William Wordsworth

O Clã do Comboio - Rave Móvel


Rave Móvel

Não fosse dar-se o caso dos elementos do Clã serem muitos e todos pagarem religiosamente as suas assinaturas mensais, vulgo passes, e seríamos todos expulsos do comboio! O que não quer dizer não venha a acontecer por via da força uma vez que a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia anda a pensar que somos incomodativos. Talvez até sejamos, mas, cara Titi, não há forma de exercer livremente o companheirismo, a camaradagem e a boa disposição sem se incomodar um bocadinho... em todo o caso, fica prometido que tentaremos acalmar os ânimos...

Vem isto a propósito de quê? De quase nada. Nos últimos dois dias, alguns elementos do Clã têm feito uma autêntica "Rave Móvel" em pleno comboio. Entenda-se por "Rave Móvel" tocarem a mesma música, em simultâneo, em todos os seus telemóveis. E a música até é bem agradável. É uma coisa chamada SoulStorm de um tal Patrice. Íamos todos tranquilos quando o Rapaz do Fato Cinzento se lembra de pôr o telemóvel dele em altos berros com aquilo a tocar e a acordar a carruagem toda. O VM, que é um invejoso, também quis brincar e, em menos de nada, meia dúzia de adultos todos a rondar os quarenta, ou com mais do que isso, estavam a ver se o Bluetooth funcionava. E, para infelicidade da Titi, funcionou. Depois foi vê-los a curtir a música à brava. Acho que aquilo vai ficar como uma espécie de hino do Clã. O Escritor não conseguiu emparelhar com ninguém e por isso não pôde brincar. Mas só por isso. Está claro que no dia seguinte já não era para se repetir a brincadeira para não se prejudicar o aparelho auditivo da Titi, acontece que a Mamã das Duas Crianças não tinha vindo no dia anterior pelo que foi necessário transferir-lhe os ficheiros por Bluetooth e deixá-la brincar um bocadinho. A Titi deve ter feito queixa ao Picas, mas teve azar porque o Picas ia a curtir o som. Em meio deste processo ouviu-se um pequeno diálogo que, não fosse o contexto, poderia ser muito complicado:

Mamã das Duas Crianças: Atão?
Rapaz do Fato Cinzento: Tens o equipamento ligado?
Mamã das Duas Crianças: É preciso muito tempo para emparelhar contigo!
Rapaz do Fato Cinzento: É boa a música. É melhor que os Santamaria!
Mamã das Duas Crianças: Esta música é fixe mas se eu fosse homem ia mas é ver um concerto do Tony Carreira...
Rapaz do Fato Cinzento: Porquê?
Mamã das Duas Crianças: Então, porque aquilo é só mulheres loucas com os marmelos a abanar!
Rapaz do Fato Cinzento: Eu vou ser vendido, eu vou mesmo ser vendido.

Ai vais, vais! E crucificado em praça pública! E sabes por quem? Por aquelas pessoas daquela etnia de que tão mal disseste no outro dia...

Claro que o momento ia propício a uma das habituais loucuras do Clã e ela não se fez esperar. Em plena "Rave Móvel", a Rapariga do Riso Fácil nunca largou o seu Hamlet de Shakespeare. Não é que fosse a ler, mas dava bom aspecto. Foi então, uma vez que se trata de uma peça de teatro, que decidimos improvisar uma pequena representação. O Rapaz do Fato Cinzento fez de Hamlet e tentou engrossar a sua voz suave, a rapariga do Riso Fácil fez de Espectro e o Escritor fez de Rainha com direito a vozinha de cana rachada que parecia mais um homem com os copos do que uma voz feminina... mas a coisa correu bem, sobretudo porque, de cada vez que um acabava uma fala, tinha de passar o livro ao do lado para ele poder dizer a dele. Tudo muito natural, portanto. A Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia continuou a criticar, mas menos. Temos a sensação que o que a incomoda mais é a música. O resto, se for só parvoíce, não é tão problemático. Ia uma moça ao lado do Rapaz do Fato Cinzento a rir-se muito e o Escritor disse-lhe para ele lhe dar qualquer coisa para ela limpar as lágrimas do riso e ele estendeu-lhe a gravata.

Escritor: A gravata?
Rapaz do Fato Cinzento: Sim, qual é o problema? Também a uso nos restaurantes.
Escritor: E não se suja?
Rapaz do Fato Cinzento: Não. Eu uso esta ponta estreitinha que vai escondida aqui atrás!

Essa moça e uma outra que trabalha em Torres Novas e tem as formas muito generosas ficaram leitoras do blogue. O que quer dizer que as suas vidas nunca mais serão as mesmas! A Senhora da Revista de Culinária entrou em Santarém a rir e saiu no Oriente a rir. Deve ter um problema qualquer nas glândulas. A Rapariga com Brinco de Pérola foi todo o caminho a ler, nem um sorriso esboçou. Tudo normal, portanto. O Clã? O Clã está bem e recomenda-se... mas com pouco barulhinho... shiiiiuuuuu...



Amy

Não sou muito destas homenagens. Nem isto é uma homenagem. Não sou muito de ler e acompanhar as loucuras das estrelas do cinema ou da música. Mas sou duma coisa: sou de gostar de boa música, de reconhecer uma boa voz. Eu não acho que com a morte de Amy Winehouse se perdeu um prodígio, mas acho que se perdeu uma voz poderosa, de encher uma alma e reconfortar um coração. Disso sentirei falta!

Fica aqui um dos momentos mais interessantes de Amy: "You know I'm no good". Yes you were, babe, yes you were!

O Clã do Comboio - Um Mundo à Parte

Um Mundo à Parte

Era um comboio de fim de tarde com o sol a amarelecer os vidros. O comboio circulava ensonado e repetitivo nos ruídos das engrenagens. Estava só. Mais ninguém do Clã.

Ela viajava um pouco mais à frente. Tinha um vestido de pano cor-de-roda escuro com muitas flores que não eram estampadas, mas desenhadas com linhas. Por cima dos ombros um pano de tule aos folhos também cor-de-rosa escuro. O cabelo era loiro, às madeixas, por cima dos ombros e tinha um gancho de lado que lhe dava um ar infantil.

Quando chegámos ao Setil, uma senhora cega agarrou na vareta e deslizou para a porta de saída. Quando passou, ela disse bem alto:
- Eh pá ias aí e não dizias nada. Não te vi.

A cega continuou sem responder. Saiu. O comboio arrancou. Ela virou-se de frente para o vidro do comboio, fixou o seu próprio reflexo e falou para ele:
- Eh pá, nem vi que ela ia ali.
- Pois... eu também não.
- Conhecezia?
- Eu não, e tu?
- Eu também não.

Quando terminou de falar com o seu próprio reflexo no vidro do comboio, virou-se para a frente e não voltou a dizer uma palavra até ao Entroncamento. Um mundo à parte!

O Clã do Comboio - 1º Almoço do Clã do Comboio

1º Almoço do Clã do Comboio.

Pois é. Parece que vai mesmo acontecer. Será um mega-almoço, com muita diversão, um PowerPoint vergonhoso e todas, ou quase todas, as personagens do Clã do Comboio.

As inscrições fazem-se por e-mail para cladocomboio@gmail.com e é obrigatório deixar os seguintes dados:

Nome (obrigatório).
Alcunha do Clã (se tiver).
Nº de telemóvel (obrigatório).
Quantos acompanhantes (máximo de dois além do próprio).
Que contribuição pretende dar para o almoço? (obrigatório. Entradas, bebidas, carne, peixe, sobremesas, etc.)

Após a confirmação da inscrição, cada elemento será informado do que deverá trazer como contribuição para o almoço tendo em conta o que se ofereceu para levar e as necessidades.

Dados do Almoço:

Local: casa do Escritor (será fornecido croqui após inscrição - concelho de Torres Novas).
Data e hora: sábado, 17 de Setembro, 11 horas (hora de chegada).
Prazo limite de inscrição: até ao dia 11 de Setembro inclusive. Publicação de lista de participantes a 12 de Setembro e respectivas contribuições.

---------------------------------------
Organização: O Escritor e a Rapariga do Riso Fácil.
A organização reserva-se o direito de admitir ou recusar quaisquer inscrições.
À organização cabe a última palavra em relação às contribuições de cada elemento inscrito para o almoço.
Quaisquer situações omissas, a organização resolverá como entender e recorrendo à discricionariedade absoluta.
A lista de inscrições irá sendo adicionada a este post.

O Clã do Comboio - Etnias

Etnias

Na última história do Clã do Comboio, eu escrevi, a certa altura, que, ou me enganava muito, ou o Rapaz do Fato Cinzento ainda ia dar que falar. Pois, já deu. Eu reconheço o potencial das pessoas. Eu sei quando vive num homem de fato cinzento um tipo que gosta de dar barracada! Mas, uma coisa é verdade, quando é para dar barracada, ao menos que seja em grande. E foi. Comecemos pelo princípio.

Segunda-feira. 7:18 no Entroncamento. Assinala-se o regresso de férias da Rapariga com Brinco de Pérola. Assinala-se a chegada atrasada da Mamã das Duas Crianças que tem o marido numa comissão no estrangeiro. Chegou mais tarde do que a Rapariga do Riso Fácil e isso é difícil. Entrou esbaforida, sentou-se sorridente, fez com as mãos um sinal de coelhinha saltitante e disse:
- Ele já cá está, veio no sábado.
- Então e isto são horas?
- Agora é sempre a aproveitar até ao último minuto!

Lá demos os bons-dias uns aos outros, retomámos conversações sobre o trabalho do Rapaz do Fato Cinzento após termos reparado que ele tinha rapado a tentativa de barba que trazia na cara. E foi então que ela se deu. Ele já havia confessado que tinha um trabalho ingrato que não identificaremos por razões óbvias: há que protegê-lo dele mesmo! Enfim, ele lê e analisa uns contratos e depois chama a atenção para as letras miudinhas que ninguém lê e lembra às pessoas que quando elas assinaram as letrinhas que vieram tramar tudo já lá estavam. E foi por isso, por irmos a comentar esta circunstância, que se deu a pequena conversa que se transcreve com pouca corrosão:

Escritor: Então e nunca foi ameaçado?
Rapaz do Fato Cinzento: Já fui já, muitas vezes. Uma vez até me fizeram uma espera. Foram uns ciganos. Os ciganos são tramados. Puseram-se à minha roda, cercaram-me e queriam-me roubar o processo das mãos. Os ciganos são tramados.
Rapariga do Riso Fácil: Pois, eles quando se juntam vem a família toda...
Rapaz do Fato Cinzento: É verdade é... puseram-se ali de volta de mim e já não me queriam deixar ir embora com o processo. Os ciganos... ui... são mesmo tramados!

Por esta altura a Mamã das Duas Crianças parecia que estava com espasmos. Abria muito a boca, arregalava muito os olhos, fazia sinais com as mãos e eu não percebia nada do que ela estava a tentar comunicar e foi por isso que resolvi esclarecer:

Escritor: Mas olha lá, o que é que tu queres?!
Mamã das Duas Crianças: VAI ALI UM!!!

E ia. Era um sujeito de etnia cigana, sentado três lugares mais à frente na mesma correnteza de bancos em que ia o Rapaz do Fato Cinzento. E eu fiz-lhe uns sinais do tipo Olha que te cortam o pescoço e ele olhou para lá, fez-se lívido, olhou para o chão, procurou um buraco e como não havia disse com grande elegância:
- E se mudássemos de conversa?!

A risota não podia ser maior. Ele tinha-se enterrado completamente e ainda só sabia da missa a metade. A outra metade íamos-lhe contar a seguir por sms! Após este episódio, entrou o VM em Santarém. Vinha com a Senhora da Revista de Culinária. Acho que estavam os dois a discutir as vantagens e desvantagens da salada de gambas thai e das vieiras recheadas. Ele percebeu que estávamos na galhofa e antes que cometesse o mesmo erro, resolvi enviar-lhe uma sms a contar o sucedido. E foi essa mesma sms que enviei ao Rapaz do Fato Cinzento para ele ficar a saber a outra metade da missa. É esse singelo textinho que aqui vou transcrever:

Ele começou na brincadeira
por causa do trabalho dele.
Eu perguntei-lhe se nunca
tinha sido ameaçado. Ele disse que sim,
por ciganos, e começou a dizer mal
dos ciganos, até que a Mamã das Duas
Crianças lhe conseguiu dizer que ia aí um.
O que está atrás de ti. Entretanto, o que ele
não sabe é que a Mamã das Duas Crianças
é casada com um!!!

O VM tirou-lhe fotos antes de ele começar a ler a sms, durante e depois. Ele ficou tão atrapalhado que só conseguia dizer Isto hoje correu muito mal... E depois, para desanuviar a coisa, trocámos umas ideias sobre a experiência gastronómica do VM com as vieiras recheadas e a salada de gambas thai. Por entre dentes, lá o fomos avisando que era desta que ele aparecia com as rótulas partidas. Ele ria-se, mas acho que era um riso um pouco amarelo. Ora, quando chegámos a Vila Franca de Xira, o homem de etnia cigana saiu e foi à sua vida e nesse momento a viagem teve a sua pièce de resistence. Foram duas frasesinhas que o Rapaz do Fato Cinzento trocou com o VM:

Rapaz do Fato Cinzento: Ufa, desta já me safei!
VM: Qual quê? Ele saiu para ir avisar os outros e agora fazem-te uma espera no Oriente!

Uma coisa é verdade, quando o Clã do Comboio chegou a Lisboa ninguém se lembrava que era segunda-feira, todos levavam um sorriso nos lábios e um brilhozinho de esperança no olhar. Está bem, todos, todos, talvez seja exagerar. Era capaz de haver um com um ar mais apreensivo. O certo é que se confirmaram as minhas suspeitas. O Rapaz do Fato Cinzento é mesmo um companheirão, tem uma grande capacidade de auto-crítica e sofrimento e foi logo ali convidado para participar no primeiro almoço do Clã. É que quem supera uma prova de fogo como a dele tem mesmo de ser reconhecido... Muitas histórias se esquecerão, mas o dia em que o Rapaz do Fato Cinzento se queixou de ter sido cercado por ciganos no meio de uma família deles... esse dia ficará para sempre na memória colectiva do Clã. Ou isso, ou as vieiras recheadas!

CHEAT

CHEAT

Where is this room? And this Hotel?
I can't remember how I arrived
How many times? I couldn't tell,
So often in this reality I dived!

Lying on this unknown bed,
Two handsome men next to me.
They sleep as if they have had
The most exhausting night there could be!

They know me, trust me : very well!
But yesterday we met for the first time.
Amazed they were, uncovering the veil
I was wearing to hide who I am.

Recognition from the posters spread over town
They have the feeling they know who I am
But they only know the face I own
And certainly not my soul and its harm!

Being here, listening to their breaths
Makes me forget that I have another life
Full of duties, where time too fast leaves :
I am a mother, I am a wife!

Why shouldn't I be allowed as well
To cheat, to betray, to enjoy
Feeling only pleasure, hearing the bells
When I am, if requested treated as a toy.

I pay for it, and get what I want
Never disappointed, for they want to satisfy
Realize my fantasy without them I can't
They never complain, never ask : why?

Too soon I'll be back to my loved ones
I'll feel better, at least for a while
No more pain in my soul, only in my bones
My soul darkened, never again white.

I'm unfaithful, and I pay for it
Judgment would fall on me if discovered
Surely worried about it, but just a bit
After all, only one should be bothered!

I can already hear my son, tomorrow
When I will arrive, tired but happy
His voice will awake the sorrow
And after that I will fell sleepy.

Going back to that public living
Smiling, faking, playing a part
Hoping that very soon again, I'll be leaving
For another night of sexy art.

I love my family, more then you think
Otherwise I would just leave them
And wouldn't spare so much ink
To explain what a cheat I am.


Rose Harris

"Com Amor," - Documento 38


Cara Verónica,
Ainda agora nos conhecemos e já me está fazendo feliz. Lá estarei. Sem falta. Provavelmente, antes da hora!

Sim. Estarei. E levarei comigo a felicidade que me vai no peito.

Eduardo.

"Com Amor," - Documento 37


Olá Eduardo!
Sim. Pode visitar-me.

Sim. Quero perceber na sua voz e na sua presença as coisas que tem para dizer-me. Não sei o que é um homem com a sua idade. Nem sequer sei como se mede a idade. Sei só que é um homem e foi gentil comigo e o seu olhar brilhou quando me abordou. Quero ver se o seu olhar brilha de novo. Pensei em tomarmos um café amanhã ao final da tarde, digamos 18h, no mesmo local em que nos encontrámos. Pode?

Sim, Eduardo. Sim.

Um abraço,
Verónica.

"Com Amor," - Documento 36


Vai, minha menina Verónica, vai...
Sim, vai. Sim, é dilacerante. Mas que raio de homem seria eu? Que raio de hipocrisia seria a minha? Que egoísmo tamanho e desumano seria o meu se te retivesse agora? Eu sou casado, Verónica! Não há um "Nós"! O "Nós" que existe está acima de todas as coisas dos homens e é por isso que não é aceite por eles. É um amor divino e abençoado e esse amor nunca deixará de existir. Há um cantinho do meu coração que será sempre teu. Há um cantinho do teu coração que será sempre meu. Há um estilhaço de vida que será sempre e exclusivamente nosso. Preciosamente nosso. É nesse patamar que existe um "Nós", amado, divino, reservado.. Mas temos de existir para a Vida e vivê-la. Vai viver a vida, Verónica, vai reconciliar-te com ela e com os homens. Digo-o com uma pontinha de tristeza, como se algo se desprendesse, mas digo-o, também, com uma alegria imensa.

Só um cuidado: certifica-te de que ele te merece!

Com Amor,
Rui

"Com Amor," - Documento 35


Meu Homem Rui,
Como gosto de ti! Como te quero! E como posso perder-te!

Tens insistido, Rui, para que me reconcilie com a vida. Tens dito que depende só de mim e da minha predisposição, da minha atitude. E das nossas conversas nasceu este amor bonito. Esta verdade. Estas almas em sintonia, este afago de corpos em desejo.

Conheci um homem, Rui.É mais velho do que eu. Do que nós. É a gentileza em pessoa. Limitei-me a aceitar um café, mas percebi-lhe as intenções. É educado. Parece dedicado. Quer ver-me. Quer estar comigo. Não sei se quero. Bem sei que me estou reconciliando com a vida e com os homens. Devo-te isso, Rui. Foste tu que me mostraste o caminho. Mas não quero que sofras. Agora que estávamos crescendo um para o outro. Agora que havia um "Nós"...

Ajuda-me, Rui.
Que faço?Mostra-me um caminho...
Com Amor,
Verónica.

"Com Amor," - Documento 34


Cara Verónica,
Um homem na minha idade já viu muitas coisas acontecerem, já percebeu o curso da vida, onde pode deter-se e onde precisa ser determinado e avançar.

Não tenho tempo a perder. Não temos tempo a perder. Vi em si elegância. Viu em mim gentileza. Pois é com elegância que lhe peço juntemos as nossas vontades, conversemos, estejamos um com o outro.

Posso visitá-la?

Por favor, não me diga que não. Se tiver de o fazer, faça-o olhos nos olhos. Peço-lhe que saltemos as tecnologias e nos encontremos frente a frente, sintamos a presença um do outro, ouçamos a conversa das palavras, mas também a dos olhares... das presenças.

Posso visitá-la?

Com respeito,
Eduardo Luís.

Harry Potter - O Fim da Ilusão

O Fim da Ilusão

Nunca esquecerei. Ocupei o lugar nº1 da fila B. As luzes da sala de cinema escureceram, as pessoas silenciaram-se, em letras brilhantes surgiu um aviso que nos dizia para colocarmos os óculos 3D, as pipocas da Vodafone saltaram e logo a seguir as bolhinhas de gás da Água das Pedras invadiram a sala. Algumas pessoas levantaram as mãos numa tentativa vã de as agarrar. O símbolo monocromático e sombrio da Warner Brothers avançou para nós, seguiu-se-lhe o título do filme, “Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 2”, e só depois chegou o princípio do fim. Os Devoradores da Morte suspensos rodeando Hogwarts. E, suspensa com eles, ficou uma geração inteira de jovens que viram na metáfora do feiticeiro Gryffindor a sua única ilusão. O momento era perfeito e muitos desejaram que a película não avançasse, queriam ficar ali suspensos olhando Hogwarts imaginando que algo lá dentro continuaria a fervilhar. Avançar agora seria o princípio do fim. Qual fim? O da Ilusão!

Mas a vida é um contínuo temporal que nem Rowlings conseguiu evitar e sob a batuta experiente e genial de David Yates a acção avança e, perante os olhos de uma geração inteira, desenrola-se a fase final daquela que foi, ao longo de uma década, uma profunda e perturbante viagem introspectiva. Harry Potter não foi mais uma saga de feiticeiros, nem sequer foi somente uma extraordinária saga de feiticeiros. Para isso, teria de ter-se resumido a um conjunto de aventuras e, no entanto, o mundo criado por Rowlings é muito mais do que isso. É a criação quase perfeita do imaginário que faltou aos nossos jovens, a resposta para as suas frustrações e desilusões, lamentavelmente, a única forma que tiveram de conhecer e enfrentar o Mal. E, deixemo-nos de rodeios, a culpa é nossa. Nós, os pais e educadores desta geração, com certeza invocando as mais plausíveis razões, entre elas a absurda “Não quero que passem pelo que eu passei”, demos-lhes tudo, fornecemos-lhes todas as condições, criámos-lhes todos os caminhos, abrimos-lhes todas as portas, inventámos-lhes todos os sonhos e as possibilidades todas e, em muitos casos, vivemos e sonhámos com eles e por eles. Não foi por mal, mas demos-lhes tanto que acabámos deixando-os sem nada, sem uma dificuldade para superar, sem um Mal para enfrentar, sem uma dor para sofrer. E restou um pungente e dilacerante vazio. Harry Potter, com os seus amigos e inimigos, veio desenhar um universo paralelo onde a vida se repetia e onde tudo era permitido, até sonhar por si, até sofrer. Tal como a de Voldemort, a alma dos nossos filhos andou dividida e escondida em Horcruxes inimagináveis e escondidos sabe-se lá onde. Por felicidade, Rowlings encontrou um imenso e colectivo Horcrux e deu-o a conhecer a estes jovens e mostrou-lhes um pedaço da sua alma perdida. Foram precisos dez anos para o destruir, mas agora que o feito está consumado, é tempo de se reencontrarem e reunirem forças. Para quê? É simples. Eles sabem, como Rowlings sabia, que nenhuma alma é tão pequena que se esconda num só Horcrux, seria demasiado perigoso, de resto. E por isso, sabem também que é tempo de procurar os outros e destruí-los um a um na reconstrução das suas forças, dos seus sonhos, das suas almas, das suas vidas. E é nesse processo que conquistam a felicidade de sofrer os sofrimentos, de sonhar os sonhos, de amar os amores, de destruir, de reinventar, de viver e reviver. Chegou o fim da ilusão, mas houve um processo de aprendizagem. Aprendeu-se o valor do sofrimento, da amizade, do companheirismo, aprendeu-se a força de sonhar e acreditar e aprendeu-se que o mais fechado de todos os becos, o da incompreensão e da solidão, também tem uma saída. Tudo o que é preciso é acreditar o suficiente para encontrar a plataforma 9 e ¾ e partir para a aventura da vida. Essa mesma vida que é sempre uma escola encantada.

Boa viagem, miúdos!

[Ao Iago, à Ana e à geração que cresceu com Harry Potter]

Blue Valentine

Blue Valentine não é uma comédia romântica apesar do nome poder sugerir isso. Nem sei se é um romance. Talvez sim, talvez não. É dos filmes mais interessantes e mais conseguidos que vi nos últimos anos. É um filme difícil de ver. Duro. Mas é também o cinema no seu melhor.

Ryan Gosling e Michelle Williams têm interpretações soberbas e no fim... apetece ver outra vez. Sem máscaras, nem facilidades, com alegrias e esperanças, tristezas e desilusões, este filme é um retrato da vida tal como ela nos pode suceder. Não dá mesmo para perder!

Mais informação clicando AQUI.

-------------------------
Um cheirinho:

O Clã do Comboio - Mudanças

Mudanças

Como já aqui foi relatado, a época balnear da CP obrigou-nos a mudanças. E as mudanças trouxeram-nos vizinhança nova. A adaptabilidade do ser humano é fantástica. A do Clã do Comboio, além de fantástica, foi célere. Efectivamente, ao cabo de dois dias, dois simples dias, o Clã estava ganhando um novo espaço, construindo novas relações.

Mudámo-nos para o fundo da última carruagem que é agora a sexta e não a nona. E as razões foram simples. É a que pára mais ou menos onde parava a outra e é a que tem uma configuração interior semelhante, o que permite ter um cantinho similar ao anterior. Ora, como a nossa mudança não foi a única, encontrámos uns figurões e umas figuras simpáticas. Entre outros episódios mais ou menos vergonhosos, darei conta, hoje, de duas dessas simpáticas aquisições do Clã. Fá-lo-ei como quem resume esta mudança e homenageia a simpatia de quem resistiu estoicamente à nossa ruidosa companhia.

O Rapaz do Fato Cinzento foi assim nomeado porque em três dos quatro dias que viajou connosco levou um fato cinzento. Sempre o mesmo fato cinzento. Foi por isso que nos metemos com ele. É que o Escritor tem um fato igual que comprou certa vez à pressa e com pouco critério. Fez notar o Rapaz do Fato Cinzento, contudo, que a sua gravata, da mesma cor da do Escritor, cor de cereja, era de seda... aceitámos o reparo com galhardia porque ele merecia. Chamamos-lhe rapaz e não homem por via da sua evidente juventude. Andará pelos finais dos vinte, princípios dos trinta. É magro, tem um porte elegante, a face alongada, uma barba que tenta ser distinta e cerrada, mas que ainda precisa de algum tempo mais para isso. As mãos finas, o porte direito, um ar e uma atitude civilizados e duas interessantes características. Tem um olhar que ri e um fantástico sentido de humor. Nem todos o terão topado, já. Mas eu reparei que é aquele tipo de pessoa que está a brincar com uma situação, mas continua a falar com um ar muito sério e composto o que coloca o interlocutor menos preparado numa intrigante posição de não saber se ele está a sério ou a brincar. Também tem a sua pancada. Por exemplo, não gosta que se fale para ele começando as frases por... ouça... Ora, como já foi dito, começámos por nos meter com o fato dele, mas a Mamã das Duas Crianças fez pior, muito pior. Durante três dias, esfregou as sandálias ou os sapatos, conforme o dia, abundantemente pelas calças e pelos sapatos do Rapaz do Fato Cinzento. Depois, em vez de lhe pedir desculpa, virava-se de lado, mas ao virar-se de novo de frente voltava a roçar com o pó dos sapatos na roupa dele. Ele não só aguentou isto, como entrou com facilidade no registo jocoso do Clã e até já fez panelinha com o VM a tentar denegrir a imagem do Escritor. Não fosse isto e este texto teria sido bem mais simpático para com ele. Enfim, no último dia não trouxe o fato. Era Casual friday. Mas trouxe o sentido de humor e a capacidade de rir-se. Pode ser que me engane, mas este Rapaz do Fato Cinzento ainda vai dar que falar. Ele e o fato dele.

A outra interessante personagem que se vem juntando a nós, é a Senhora da Revista de Culinária a quem, desde já, agradecemos a simpatia e a paciência com que tratou o VM. Entra em Santarém. No primeiro dia que, por casualidade, se sentou ao pé de nós, acto de que pode vir a arrepender-se amargamente, trazia consigo uma revista de culinária. Ora, o VM que é um rapaz muito envergonhado começou a ler a revista da senhora sem lhe pedir licença nem nada. Limitou-se a esticar o pescoço e a estender o olhar por cima do ombro da senhora. A princípio ainda pensei que estivesse a olhar para o decote dela, mas não, nada disso, ele estava genuinamente interessado na salada de gambas thai e nas vieiras recheadas. O mais fantástico é que passados meia dúzia de minutos a Senhora da Revista de Culinária já não tinha a revista com ela e o VM ia todo refastelado a deliciar-se e a babar-se com as vieiras recheadas. Para cúmulo, no dia seguinte, a Senhora da Revista de Culinária trouxe, em fotocópia, as receitas preferidas do VM o que deu direito a uma repenicada troca de dois beijinhos por insistência do Escritor. Tratava-se de um caso da mais elementar educação e agradecimento. É uma mulher de estatura um pouco acima da média, tem um olhar receoso e um sorriso luminoso que se revela com facilidade. Toda a sua postura indica um confortável à vontade e uma certa bonomia. Intui-se facilmente que é uma pessoa de bem. E paciente! Sim, que isto de aturar o VM, só eu é que sei...

Foi já na presença destas duas personagens que aconteceram dois episódios interessantes do Clã do Comboio. Um, foi termos sabido que a Rapariga do Riso Fácil ia na noite de sexta-feira para o seu curso de inglês quizenal: o Speak Easy. Para quem não sabe, é uma discoteca afamada de Lisboa. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que ela levava uma roupa alternativa, para vestir depois do trabalho e levar ao Speak Easy. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que o saco da roupa era minúsculo, um daqueles em que se transporta um frasquinho de perfume. Ora, como calculam, isto foi motivo de conversa. Como é possível colocar toda uma roupa num saquinho daquele tamanho. Aventou-se a possibilidade de ser daquelas coisas minúsculas de cabedal... ela, como é costume, riu-se com simpatia e... não negou! Entretanto, a Mamã das Duas Crianças, despenteada como sempre, e cheia de sono como sempre, vinha a contar peripécias com as duas crianças na últimas noites. Uma, foi que terá adormecido, levantado tarde, a arriscar perder o comboio, embrulhou as crianças no lençol de cama atado pelas quatro pontas e largou-as como quem larga um embrulho em casa da paciente sogra. Outra, ainda mais interessante, foi termos sabido que uma das crianças acorda religiosamente às três manhã para beber um biberão de leite aquecido no micro-ondas e não dispensa certo ritual que é dirigirem-se os dois para o micro-ondas fazendo gestos circulares com as mãos, dando às ancas, também em movimentos circulares e cantando:

Roda, roda, roda,
Gira, gira, gira,
Roda, roda o meu leitinho...

É claro que, à medida que nos contava isto, cantava a cantiguinha e fazia os gestinhos sentada no banco do interregional das 7:18 o que levou o VM a perguntar:

- Olha lá, e tu quando amamentavas também fazias isso?

Risota geral. Sim, a CP obrigou-nos a mudar de carruagem de lugar e até alguns hábitos, mas a boa disposição matinal do Clã é inquebrantável. À prova de qualquer mudança. Porquê? Porque fazemos questão de enfrentar a vida armados de companheirismo, de boa disposição e... com um sorriso nos lábios. E há mais: não tarda, temos aí o primeiro almoço do Clã do Comboio. O anúncio oficial está para breve...

O Clã do Comboio - O Eterno Conflito

O Eterno Conflito

É difícil escrever sobre quase nada. Mas quase nada pode ser muito. Perdoem-me se esta história do Clã parecer difusa e confusa. Não pretende sê-lo. Será só a vida que às vezes é confusa e difusa. Nem sei se isto é uma história. Talvez não. É só o relato de um conflito antigo com gente nova.

Regional das 20:48, de regresso a casa. Entra um casal jovem. Eram namorados. Ele de calça de ganga azul, pólo verde seco, cabelo muito curto, sapatos práticos. Ela de sandálias abertas, unhas dos pés pintadas de encarnado, calças de ganga preta, muito justas, uma blusa encarnada com folhos e o cabelo liso sobre os ombros.

Sentaram-se de frente um para o outro e algo não estava bem. Ora trocavam palavras atenciosas e envoltas em carinho, ora resmungavam desentendidos acerca duma opção dele que a prejudicara a ela. O problema é que pareciam não concordar em relação ao facto de ele a ter consultado ou não. Ele dizia que sim. Ela dizia que não... que talvez... mas em todo o caso achava que ele devia ter decidido de forma oposta.

Não me interessou o conteúdo. Interessou-me o jogo. O desentendimento em si naquilo que foram os comportamentos de um e de outro. Ele era claramente acusado de ser pouco compreensivo, pouco atencioso para com os problemas dela, muito focado em si e nada preocupado com eles enquanto casal. Um insensível. Ela foi acusada de ser hiper-sensível, de estar a exagerar a propósito de quase nada, de o recriminar. Ele queria que continuassem bem, que passassem ao lado daquilo. Ela queria que assumissem que não estava tudo bem, que analisassem o problema. E neste jogo de medição de muitas coisas, entre elas, forças, algo fez a diferença e não teve nada a ver com as palavras, argumentos ou sentimentos. Foi a postura física!

Ela ia sentada, encostada às costas do banco e nunca se desencostou. Levava as pernas encolhidas para trás e nunca as desencolheu. Ele ia de pernas abertas e esticadas para a frente por fora das dela e mexia-se muito. Ora se chegava para trás, ora se projectava para ela e punha-lhe as mãos nas pernas e na face e puxava-lhe a cabeça para lhe beijar os lábios quando ela falava. Ela foi passiva. Ele foi proactivo. Invasivo. Ela nunca usou a força, nem para marcar o espaço. Ele usou-a para o marcar e para a puxar para si.

As razões que os moviam não me interessaram. Interessou-me o jogo. E o resultado. Quando saíram do comboio iam abraçados e aos beijos e tudo estava bem. Uma falácia imposta, mas não conquistada. Um problema adiado. Um homem. Uma mulher. Um conflito eterno.

O Clã do Comboio - Época Balnear

Época Balnear

Um dia destes a CP iniciou a Época Balnear. Eu nem sabia que havia época balnear nos comboios, mas há. Há e tem consequências.

Um pouco antes das 7:18 já estava na plataforma o grupinho do costume. Parte dele. alguns estão de férias e outros entrariam em Santarém. Esperávamos pela sétima carruagem para ocupar o nosso canto habitual e predilecto. E foi às 7:18 que colidimos frontalmente com a época balnear da CP. Nós e os nossos hábitos. Em vez de trazer as habituais nove carruagens, o interregional das 7:18 trazia... seis! Isso mesmo, menos uma composição, também conhecida por tripla. A nossa porta não parou à nossa frente. Entrámos confundidos, sentámo-nos baralhados e ficámos desgarrados uns dos outros. A redução revelou-se excessiva. Muitas pessoas tiveram de seguir de pé até Lisboa. Quando o VM e o JJ entraram em Santarém, também ficaram de pé e... longe de nós. Houve reclamações diversas. A Rapariga do Riso Fácil disse que isto assim não tem piada. O VM dizia graçolas do meio da carruagem para nós. Eu levantei-me, juntei-me a eles e fui de pé por solidariedade. A Mamã das Duas Crianças aturou a antipatia de quem não queria. Chegámos a Lisboa perdidos... desconjuntados. No dia seguinte ensaiámos uma estratégia de ocupação. Já ficámos melhor, mas, mesmo assim, ainda precisaremos de fazer uns ajustes.

Compreendemos que é preciso poupar, mas obrigar pessoas que pagam antecipadamente uma assinatura mensal a fazer uma viagem de uma hora e meia em pé, não é poupar, é uma falta de respeito e configura o incumprimento de um contrato.

Alguém nos explicou que, de Julho a Setembro, era assim. A malta foi-se à Net e escreveu umas reclamações. É que o interregional das 7:18 ficou parecido com aquelas praias onde é suposto ir gozar-se do ar puro e do espaço livre e amplo e afinal não há onde estender uma toalha. Há uma visível falta de lugares o que nos rouba o conforto e esse foi um dos argumentos das reclamações, mas, aqui para nós, o Clã do Comboio tinha outra razão. Um desnecessário atentado à sua coesão e companheirismo matinais. A CP pode ter Época Balnear, mas o Clã continua a precisar de ir para o trabalho todos os dias. Ainda assim, ou me engano muito, ou a malta do Clã vai dar a volta a esta contrariedade...

Curtas do Metro - Um Certo Odor


Um Certo Odor

Eu tenho um olfacto apurado. E sou muito sensível aos odores. Não esquisito. Só sensível.

Todos os dias faço o trajecto de Metro entre o Cais do Sodré e Baixa/Chiado ao final da tarde ou ao princípio da noite. Nunca tinha pensado em Lisboa como uma cidade balnear, mas há muito quem pense. São muitos, muitíssimos, os passageiros que entram àquela hora no Metro do Cais do Sodré e que, claramente, vêm da praia. Vai um homem encarcerado no fato e enforcado na gravata e eles passam de chinelos, areia nos pés e nas pernas, calções, toalhas ao ombro, t-shirts... algumas raparigas ainda com o top do biquini e uma saia, sacos de praia, chapéus-de-sol, pranchas, peles encarnadas e peladas do sol e conversas de...mar! É de fazer inveja. É curioso observar o Metro atravessado pelo folclore da praia à mistura com saltos altos, fatos e gravatas, pastas de trabalho penduradas das mãos.

Ainda não tinha decidido escrever sobre isto porque, sendo interessante, não me marcara. Hoje, contudo, senti um odor familiar, adocicado e inconfundível. Pairava, suave, na carruagem onde eu ia e, de repente, foi como se a praia fosse ali comigo, a envolver-me o espírito e o corpo. Quis perceber o que me transportava para a tranquilidade nostálgica das férias, que mar era aquele a entrar-me pelas narinas e a provocar-me os sentidos.

Concentrei-me e rapidamente o identifiquei. Viajávamos envoltos pelo odor espesso e suave de... protector solar!

Curtas do Metro - Reminiscências do Padre Borga

Reminiscências do Padre Borga

Hoje, quando cheguei ao trabalho por volta das 9h da manhã e fui cumprimentar a minha equipa de sala em sala como sempre faço, ia cantarolando, sem me aperceber, uma cantiga do Padre Borga. Sim, aquele padre do Entroncamento que grava discos e aparece na televisão. Era uma coisa de que não conheço bem a letra, mas cuja melodia fica facilmente no ouvido: Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia...

E, de repente, parei e perguntei a mim mesmo: Mas porque carga de água é que eu estou a cantarolar uma cantiga do Borga? Em pensamento nunca digo Padre.Tentei consciencializar. E consegui.

Entrei no Metro pouco depois das 8:40. Era o trajecto Baixa/Chiado - Cais do Sodré. A carruagem estava muito cheia junto às portas. Dirigi-me para o meio do corredor. Segurei-me ao varão horizontal de um banco. Ela tinha uma idade respeitosa. Os cinquenta já lá iam, por certo. Talvez até os sessenta. Nunca olhei para ela, mas pelo reflexo do vidro pude reparar que era uma mulher muito bem posta, com poucas rugas. O cabelo um pouco ralo. Ia de pé ao meu lado e segurou-se ao mesmo varão que eu. A sua mão, que não ficou a mais de um dedo de distância da minha, rápido deslizou e se encostou. Senti-lhe o calor. Pelo reflexo do vidro vi que olhava muito para mim. Tive o cuidado de não olhar de volta e fui fugindo com a mão, mas a dela foi-se sempre encostando. Até que cheguei ao fim do varão. A mão dela encostou-se e depois, sabendo que a minha estava encurralada, agarrou-ma completamente. E ficou ali, com a sua mão aberta envolvendo a minha. Eu estava indeciso entre o direito de não querer ser agarrado por uma estranha e o facto de não querer parecer rude ou discriminatório por tirar a minha mão daquele aperto forçado. Olhei de novo pelo reflexo do vidro. Ela continuava a olhar-me. Quando chegámos ao Cais do Sodré, eu saí, ela também. Nunca mais a vi. Era cedo. Estava bem disposto e não me apetecia interpretar aquilo. Veio-me à cabeça a cantiga do Borga em reminiscência longínqua, mas presente e, agora que penso nisso, acho que a cantei desde o Cais do Sodré até à 24 de Julho, elevador acima e depois no corredor onde me surpreendi cantarolando Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia...

Histórias do Autocarro 28 - É a Vida!

É a Vida!

Eram cerca de 18h da tarde. O 28 ia muito composto mas não estava completamente cheio. Ao aproximar-se de uma paragem, uns dois ou três metros para lá dela, estava um homem nos seus sessenta anos. Fez sinal para o autocarro parar. O motorista parou, mas advertiu:
- Oiça lá, a paragem não é aí. Era ali atrás...

O homem lá entrou com algum custo e o 28 seguiu caminho. Um pouco mais à frente, nem era uma paragem nem nada, era só um semáforo, a luz estava amarela, prestes a passar a encarnado, ainda assim, se o motorista passasse no amarelo, não seria o primeiro em Lisboa a fazê-lo. Acontece que, nesse preciso momento, uma mulher jovem de aspecto muito saudável e atraente, com um vestido de alças, em motivos florais e tons de rosa escuro, decote bem pronunciado, esticou o bracinho, fez um sorriso e foi assim que pediu ao motorista do 28 que parasse. E ele, todo simpático, parou a viatura e deixou a beldade entrar em pleno... semáforo! Nem paragem por perto.

Lá dentro ia um velhote ao meu lado, agarrado ao varão, com um bigode branco e farfalhudo e as rugas a sulcarem-lhe a pele. E falou num tom conformado e encolhendo os ombros naquele gesto de não há nada a fazer:
- O que é que você quer? É a vida!

Frutaria Original

O que está na imagem parece uma enorme árvore. E é. Mas não só. É uma frutaria sazonal que existe em Torres Novas e desde o final da Primavera até ao princípio do Outono nos oferece frutas e legumes caseiros, produzidos pelo próprio. A árvore foi plantada em 1982 e oferece uma sombra soberba. É lá que compro as melancias enormes que fazem a delícia de toda a família. Como dizia Manuel Laranjeira, "Portugal tem coisas dignas de muita simpatia."

Inquilinos

Eu tenho uns portões de garagem com automatismo de abertura. Nunca deixo os portões completamente fechados, ou seja, descidos até abaixo, para os cães poderem entrar e sair de noite. Pelos vistos não são só os cães a entrar. Há umas semanas reparei que um passarito se refugiava na garagem. Achei piada, mas não suspeitei que ele estivesse a fazer... família! Ontem ouvi um piar famélico, procurei o som e dei com um ninho cheio de passarinhos em cima, precisamente, do motor do portão!

Não sei como é que não caem porque, sempre que se abre ou fecha o portão e o motor trabalha, há uma trepidação forte no mesmo. Enfim, lá deixarei os inquilinos na sua paz sempre à espreita de os ver sair e tentar fazer uma foto... Por enquanto, decidi não cobrar renda!

"Com Amor," - Documento 33


Caro Eduardo,
Há pouco tempo atrás, há meses, talvez até há semanas, tê-lo-ia repelido. Teria sido seca, amarga, ou pior do que tudo isso: indiferente. Acontece que ando a reconciliar-me com a vida, ou ela comigo, e ando mais desperta para as surpresas e imprevistos que possam suceder-me. Por vezes basta cruzarmo-nos com alguém que nos altere a perspectiva, que nos faça, com poucas e sensíveis palavras, olhar as pessoas e as situações de outra forma e todo o curso da nossa existência se altera. O Eduardo encontrou-me exactamente na fase em que estou reolhando a vida e os homens nela.

Viu elegância em mim, confessa. E sabe que vi em si? Delicadeza. Uma intensa e genuína delicadeza que já não é deste tempo. Nas palavras. Nos gestos. E no olhar. Havia delicadeza até na forma como se movimentava. Agradeço-lhe por isso. Quanto ao seu inusitado gesto, à sua ousadia, até o facto de o considerar inusitado é pouco comum. Muitos homens não medem as distâncias e fazem abordagens incorrectas e indelicadas. O Eduardo foi ousado, sim, mas nunca desrespeitoso. E isso marcou a diferença. Gostei de o conhecer, sabia?

Claro que nos escreveremos. Não o estamos fazendo já?

Até já!
Verónica.
Ps: pagou o café!

Publicidade - Mais Old Spice

Caros leitores,
ainda ontem fiz um post sobre a campanha publicitária da Old Spice, "Homem que é Homem", e hoje, assim que entro no Metro, deparo-me com o jornal "metro" e uma nova e interessante frase daquela marca. Aqui fica a dita e o respectivo comentário.

Ora bem, em primeiro lugar não se diz cueca. Diz-se cuecas. Cueca é exactamente um termo do universo feminino muito usado na versão cuequinha. Em segundo lugar, os boxers são uma coisa de homem e não estão abrangidos. Em terceiro lugar foram lamentavelmente obliteradas as formas trusses e mesmo ceroulas que, sendo uma outra peça de roupa, é bem máscula. Ainda me lembro do meu avô...
Por fim, meus amigos, aquilo que está errado nesta publicidade... é que Homem que é Homem não usa roupa interior. Usa nada! Percebem? A verdadeira masculinidade está na coragem de enfrentar o universo em contacto directo com a fazenda, bombazina, sarja, ganga da calça!
Enfim, tragam lá de volta o Old Spice das ondas a rebentar, dos veleiros, do windsurf e do som inconfundível dos Carmina Burana... isso é que é de homem!

Publicidade - Homem que é Homem

Os frequentadores deste blogue sabem do gosto que tenho por publicidade. Sobretudo quando é engenhosa, espirituosa, simples, interessante, eficaz... Nessas alturas, chamo a atenção para alguns anúncios, cartazes, o que quer que seja que tenha espírito criativo.



Pois, amigos, esta não tem nada disso. É só preconceituosa e sexista, mas, verdade, verdadinha, captou a minha atenção. Trata-se da campanha que a Old Spice colocou estes dias no jornal "metro" intitulada "HOMEM QUE É HOMEM"



Seguem uns comentariozinhos junto às fotos...



Primeira regra: sempre que quiseres vender um produto, conota-o com o consumo de bebidas alcoólicas! De resto, em termos de saúde e qualidade de vida, todos sabemos que vale mais uma cervejinha do que um sumo... digamos, natural!



Claro que apanhar fruta é para fraquinhos e mulheres frágeis e indefesas. Por exemplo, qualquer um consegue fazer nas calmas doze horas ao sol a apanhar fruta. Depois, sejamos honestos, é muito melhor fazer a linda figura de abanar uma árvore a ver se a fruta cai... Quem escreve isto já esteve no campo?



E, por fim, a cereja no topo do bolo. Toda a gente sabe que os gatos são TODOS uns fofinhos, nem arranham, nem se defendem, nem nada. São só FELINOS! E, claro, o Pit Bull é mesmo um malvado que não lambe as mãos do dono... De resto, cães para gajos e gatinhos para as meninas!!




Amigos leitores, não levem nada disto a peito... eu achei muita piada às frases, a sério, e percebo que são metáforas que apelam ao espírito do Old Spice, blá, blá, blá... mas, aqui para nós, dá que pensar tanta testosterona embrutecida num anúncio só... quer dizer, em três anúncios! Eu cá acho que homem que é homem bebe o que quer, vai à fruta como lhe apetece e tem os animais de estimação de que gosta... sem rótulos. E, já agora, perfuma-se com o que lhe dá na gana, nem que seja Old Spice!

"Com Amor," - Documento 32


Cara Senhora,
Permita-me que a trate pelo seu nome próprio. Gesto invulgar, por certo, não mais invulgar do que a forma como nos conhecemos.

Perdoe-me o atrevimento. Sou um homem respeitador. O gesto que tive para consigo é, a todos os títulos, inusitado. Há uma verdade, um reduto último de defesa pessoal, de justificação para a minha ousadia: não resisti à sua elegância. E perdoe-me, de novo, se lhe não falo de beleza. Não questiono. Contudo, a beleza insere-se na esfera da arbitrariedade do gosto. A elegância não. Ou se tem, ou não se tem. E a Verónica tem elegância, uma fina elegância no porte, uma presença distinta.

Quando a vi no café, julguei estar enganado, julguei não ser possível, uma mulher com o seu porte e a sua presença estar desacompanhada e veio-me aquele impulso de sorrir-lhe, de cumprimentá-la de conversar consigo... já não sei se lhe paguei o café... espero que sim... Verónica... penso que podemos conversar... gostaria imenso de corresponder-me consigo e agora com estas tecnologias fica tudo mais acessível e rápido.

Com deferência,

Eduardo Luís dos Santos

A Quarta Folha do Trevo

A Quarta Folha do Trevo

Joguei a minha vida
Às sortes,
Entreguei-a ao capricho
Da Fortuna.
E por entre vivas de esperança
E traços de morte,
Descobri a miraculosa lacuna.
Tem o trevo
Três folhas
Que representam
As acertadas escolhas.
E tem aquele que me deste
Uma folha mais,
Uma falha da Natureza
Que sendo espúria e indesejada,
Pela brisa da Fortuna
Veio a ser bafejada.
É o quebrar da linha
E o infinito para além do horizonte.
É o sol nascendo
Por trás do elevado monte.
É a chuva regando
Em tempo e medida certa,
É a água jorrando na fonte
Quando o calor aperta.
E é o amor.
O encontrar-te na turba,
O desenhar da tua figura
Na multidão.
Em manhã clara
E em noite escura.
E é o sorriso de uma mulher que ama,
De um homem que é amado.
E é o canto do pássaro
Na frescura da tarde,
A criança que nasce,
O fogo que arde.

É o que faltava
E o que vem trazer sentido à ordem.
É o amanhecer da vida
Na neblina púrpura da alvorada.
É a perfeição contida
Na quarta folha do trevo,
Enjeitada.

O Clã do Comboio - Jesus Esteve no Interregional das 18:18h

Jesus Esteve no Interregional das 18:18h

Já há algum tempo que não havia uma história do Clã do Comboio externa aos passageiros habituais do Clã. E não é por falta de atenção ou disponibilidade para a escrita deste vosso humilde escrevinhador. É só porque não se tem presenciado nenhum episódio digno de registo. Esta semana aconteceu.

Entrei com dois dos Três Amigos que Querem Salvar o Mundo, o RB e o JJ, no interregional das 18:18. O JA também vinha connosco. Nessa tarde, reparámos, as mulheres do Clã abandonaram-nos. O que até nem foi mau porque houve oportunidade para ter conversas mais... como é que hei-de dizer... mais técnicas!

Ora, em Santarém, saíram o RB e o JJ. E foi em Santarém que ele entrou. Nada o fazia prever, mas aquele jovem ia proporcionar-nos vinte interessantes minutos. Não tinha trinta anos. Era moreno. Muito moreno. Olhos castanhos, cabelo penteado a fazer uma espinha ao longo da cabeça, calças de ganga, uma t-shirt castanha e um pormenor inconfundível: uns óculos de lentes castanhas espelhadas que ele punha e tirava e colocava na cabeça e recolocava na vista como se não quisesse dar-lhes descanso. Tão inconfundível como os óculos, só mesmo o sotaque. Era um timbre brasileiro com aquele arrastar enrolado dos nordestinos. O revisor reparou que ele não tinha bilhete porque o rapaz não se apressou a mostrar-lho e perguntou-lhe o que a seguir se transcreve tendo obtido a resposta que também se relata:
- Então o senhor vai para onde?
- Santarém.
- Santarém?! Oh homem, em Santarém entrou você...
- Sim, mas eu quero ir para Santarém centro.
- Oh homem, isso não existe!
- Não ixisti? Como assim não ixisti? Tem trem prá lá?
- Não. Tem de ir de autocarro.
- Autocarro? Mas eu istou no comboio!
- Pois está, mas agora vai para o Entroncamento.
- E sê mi diz como é qui eu faço pá voltá?
- Sai no Entroncamento e apanha um de regresso.
- E si paga?

A conversa desenrolou-se em torno do paga e não paga. O rapaz pagou nas calmas e quando o revisor voltou as costas, ele disse:
- Esse daqui é cobardi. Isso é qui é são funcionários? Vamo acabar qui nem a Grécia!
Uma senhora de respeitosa idade tentou defender o revisor:
- O senhor entrou em Santarém, não podia sair em Santarém, e o senhor revisor não lhe pode vender um bilhete para um sítio que não existe.
Eu acho que a senhora se vai arrepender desta intervenção para todo o sempre. É que ela deu origem a um monólogo de mais de quinze minutos de que se relatam alguns momentos:
- Sê lê a Bíblia? Todo o mundo divia lê a Bíblia. Sê tem di lê o Apocalipissi. Está lá tudo. É a palavra di Deus. Está lá qui vai havê fomi, há fomi. Está lá qui vai havê guerra, há guerra. Está lá qui vai havê terremoto, há terremoto. E também vai vir as pragas. Deus é bom!

Houve uma pausa, alguma estupefacção, uns sorrisos, e eu pensei que também vai vir charters da China, mas não acrescentei para não interromper o rapaz e ele continuou:

- Eu falo a palavra di Deus em todo o lado. Jesuiz istá com a gentchi em todo o lado, Jesuiz istá comigo, Jesuiz vai aqui com a gentchi e eu cumpro a minha missão qui é falá a Sua palavra e não me fauta nada. Tenho uma cama, tenho roupa, tenho o qui comê e sou feliz porqui cumpri a minha missão. Si sê mi acha chato, sê mi chama di chato. Não faz mau não. Deus mi recompensa. Eu sou uma pissoa espirituau, não sou materiau. No Apocalipissi está escrito prá sê pagá dez por cento.

Aqui, eu indignei-me com a desvalorização de Deus. Dez por cento... isso não é nada. O Passos Coelho que não é Deus acabou de me levar cinquenta por cento do subsídio de Natal.

No fim, lá voltou a dizer à velhinha para ela ler a Bíblia e reforçou que Jesus ia ali connosco. A velhinha ficou lívida e viajou sempre em silêncio. O revisor não voltou à carruagem e eu... eu resolvi escrever esta história do Clã do Comboio. Afinal, não é todos os dias que se viaja no interregional das 18:18 com Jesus. Jesus e o seu porta-voz.

NetWorkedBlogs