ErotiKa - Um olhar


AVISO

Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.

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Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.

Obrigado
jpv
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Um Olhar

Ele trabalhava ali há algum tempo, já. Ela chegara de novo.
Ele tinha luz e promessas no olhar, na voz e na forma doce como se movimentava.
Ela era silenciosa e observadora.
Quando começaram a cruzar-se, repararam um no outro, mas nada mais do que um Bom Dia, Boa Tarde, foi alguma vez arriscado. Queriam preservar-se.
Ela tinha um olhar fundo e um andar pequenino. As formas comedidas do corpo eram, no entanto, definidas com clareza e graça feminina.
Os dias passaram e continuaram a trocar palavras de circunstância, por vezes uns documentos, outras vezes algumas opiniões acerca do trabalho.
Um dia, ao passar-lhe uma pasta, ele tocou ao de leve a mão dela que, não se tendo oferecido, também não recuou.
O tempo passou e as pessoas que eram habituaram-se à presença suave e discreta do outro. Notada, sem ser imposta. Sentida, sem ser absolutamente necessária.

Um dia amanheceu de sol e frio. Os casacos e os cachecóis tomaram conta dos corpos. O trabalho desenrolou-se com naturalidade. Ao fim da tarde, quando todos abandonavam o local, ele veio despedir-se deles. Era um ritual. Apertava-lhes a mão e desejava-lhes um bom resto de dia. Chegou a vez dela e todo o seu relacionamento se alterou num par de segundos. Não se aperceberam, então. Só mais tarde. Ele estendeu-lhe a mão, ela aceitou-a e trocaram um olhar demorado. No dela havia um convite quase súplica, Toma-me! No dele havia um vigor quase invasão, Quero-te!

Não sabem as pessoas como percebem o que percebem. Sabem só que percebem. E estes dois perceberam. Poderiam ter continuado as suas vidas, poderiam ter pensado que tudo aquilo fora uma ilusão, um mero olhar trocado com um pouco mais de demora, mas qualquer um deles sabia que aquela troca de olhares fora uma conversa.

Ela saiu. Ele seguiu-a. Ela entrou no seu carro e ele no dele. Desconheciam-se. Não sabiam ao que iam, não sabiam, sequer, um do outro, se seriam comprometidos ou não. Simplesmente fizeram o que fizeram. Ela percorreu algumas ruas da cidade. Ele seguiu-a. Ela estacionou numa zona habitacional tranquila. Ele estacionou ao lado dela. Ela dirigiu-se para um prédio. Ele seguiu-a. Ela entrou e não fechou a porta. Ele entrou e fechou-a. Ela dirigiu-se à aparelhagem para colocar a Dulce Pontes a entoar a Canção do Mar. Ele aproximou-se dela por trás, tomou-lhe o sexo na mão, sentiu-o latejante e húmido e beijou-a com demora.

Não devassemos mais a sua privacidade. O que se seguiu foi a sinfonia das carícias, a troca das emoções, o bailado dos corpos na entrega e na dádiva dos gestos incendiários. Quando terminaram, trocaram poucas palavras. Ela começou:
- Fica dentro de mim!
- Ficarei.
- Como é que soubeste?
- Pelo olhar.

ErotiKa - Contos


Em breve iniciar-se-á em Mails para a minha Irmã a publicação de uma série de contos com a denominação genérica de "ErotiKa".Sim, é exatamente o que o nome parece indicar. São histórias contemporâneas e não só, da nossa cultura, mas também de outras, que pretendem uma abordagem das diversas manifestações do erotismo na vida das pessoas.Serão o que tiverem de ser. Mais explícitas, mais contidas, mais trepidantes  e mais tranquilas. Mas serão sempre eróticas!Não esperem um livro de posições mais ou menos sensuais. Esperem o erotismo das sensações, umas à flor da pele, outras nos cantos recônditos da mente.As histórias serão precedidas de um aviso de conteúdo e só se acederão após um clique voluntário num botão "ENTRAR" que colocaremos por baixo do aviso.Divirtam-se!jpv

"Com Amor," - Como se fez um Romance

"Com Amor," tem uma caraterística original. É um romance sem narração, ou seja, não há ninguém a contar a história. Ela tem de ser inferida pela leitura dos diversos documentos trocados entre personagens. Sempre cartas e e-mails.

O romance teve um total de 102 documentos. 3 cartas e 99 e-mails.
O primeiro foi publicado em 27 de abril de 2011 e o último em 28 de janeiro de 2012.

A história decorre entre 2005 e 2011 e é por isso que nunca foi adotado o novo acordo ortográfico.

O romance tem 9 personagens. 4 homens e 5 mulheres. No início do romance há 4 casais heterossexuais e uma personagem sem relacionamento. No fim há 2 casais heterossexuais, um casal homossexual e 3 personagens sem relacionamento.

TODOS os endereços de e-mail existem e todas as mensagens de correio eletrónico foram efetivamente enviadas de umas personagens para as outras.

Houve 6 leitores que enviaram e-mails às personagens.

Nenhuma personagem e nenhum relacionamento do romance existe na vida real, contudo, todos eles são inspirados em pessoas ou factos que podem ter existido ou acontecido mas não com os mesmos contornos.

A planificação do romance durou 6 meses e a escrita durou outros seis.

Todos os textos foram manuscritos em cadernos e só depois passados para o processador de texto. Numa fase seguinte foram escritos no Gmail, enviados e por fim colocados no Blogue.

A capa é também da nossa autoria e execução técnica sendo que a foto foi uma cedência de uma ex-aluna, a Isabel Évora.

Em baixo, uma sequência de imagens com pormenores da planificação e redação do romance.

Esperamos tenha gostado e, caso deseje, agradecemos deixe o seu comentário acerca deste Romance. Obrigado.

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(clique nas imagens para aumentar)

Esquema actancial com todas as personagens e relacionamentos.

Sequência dos acontecimentos e idade das personagens em 2005.

Pormenor de um documento.
Cabeçalho e primeiras linhas.

"Com Amor," - Documento 102


Meu Amor,


A vida partilhada contigo não tem sido boa, nem tem sido como planeáramos. Tem sido fantástica e melhor, muito melhor, do que alguma vez imagináramos.

Adoro os fins de tarde em que te preparo um petisco enquanto acabas qualquer coisa no computador.

Depois, eu chamo-te, tu vens para baixo, comemos juntos, beberricamos um espumoso amabile e vamos dar um passeio a pé enquanto conversamos.


Mais tarde, já em casa, preparamo-nos para dormir e eu interrompo-te o sono pela madrugada para fazermos amor sonolento e apaixonado.

Foi bom teres instalado o wireless cá em casa. Assim, podemos comunicar e posso escrever-te como sempre fizemos, como, afinal, aprendemos a conhecer-nos. O meu portátil cá em baixo e o teu computador aí em cima transformam-se em ferramentas de amar.

Tenho na mesa uma salada de alface e tomate com queijo fresco e pedacinhos de ananás, tenho uma omeleta de espargos e fiambre e um copo de Cabriz branco frio espera por ti.

E é neste ponto das nossas vidas, meu menino Rui, que me  sinto incomensuravelmente feliz por poder escrever-te este e-mail sabendo que dentro de segundos os meus lábios estarão junto aos teus.

Vem para baixo, meu querido Rui! Para sempre, todo o sempre, o único sempre!

Com Amor,

Verónica

-------------------------------- FIM --------------------------------

"Com Amor," - Documento 101


Meu Menino Rui,

Não cresces. O tempo passa por ti e tu continuas a amar e a esbanjar carinho e ternura como se fosses um adolescente.

Não precisas esperar por mim, meu amor. Há já algum tempo que te espero. Em silêncio.

Não sei se as coisas com o Eduardo não correram bem porque não podia ou porque eu deixei de esforçar-me quando pressenti que poderias finalmente caminhar para mim com todas as tuas energias, com toda a tua disponibilidade.

Sou tua, Rui. Sou tua porque nunca fui de outro. Mesmo antes de conhecer-te.

Sim irei. Irei incondicionalmente ao encontro do que tens para dar-me, oferecendo-te tudo o que tenho. É pouco, Rui, mas é tudo o que tenho. É o meu ser. O meu sentir mais profundo e inteiro. A vida despida de tudo o que é acessório, no estado mais límpido, com o amor mais genuíno e juvenil que uma mulher pode encontrar em si, mesmo depois do cinquenta, Pouco depois! :)

Não tenho certezas. Estou cheia de dúvidas e prenhe de entusiasmo. Não imagino como seja viver contigo, mas sinto, no mais profundo de mim, que seja como habitar os meus sonhos, realizar as minhas fantasias.

Sim, Rui, quero o teu vigor e a tua paixão e quero o meu corpo sob o teu na sensualidade das carícias que só nós sabemos.

Irei, Rui, irei e não terás de esperar!

Irei determinada. Irei sem volta. Para todo o sempre. O único sempre.

Carícias mil,
Com Amor,

Verónica

"Com Amor," - Documento 100


Meu Amor,

Tenho-me contrariado vezes sem conta, sempre em nome de pessoas e causas nobres. Nunca essas pessoas e causas fui eu ou foram minhas.

Há um ano, quando me divorciei, disse à Patrícia, Acusa-me do que quiseres, devo tê-lo feito. A frase não é minha, é de Brör, marido de Karen Blixen em "África Minha". Esse despojamento e essa lisura resultaram num divórcio amigável em cada um tem as suas razões, as suas culpas e as suas recriminações, mas não as exercem em nome de um bem maior: a tranquilidade. Ao longo deste tempo tens-me apoiado incondicionalmente e, mesmo sem falarmos ou escrevermos com regularidade, tens sido um farol, uma orientação, e tens-me entregado todo o teu amor e toda a tua dedicação. Nunca ninguém foi tão apaixonado comigo. Nunca ninguém se me entregou tão completamente como o fizeste comigo. Sem qualquer interesse que não o de amar-me.

Quando me divorciei, não foi por ti, não foi por mais ninguém senão por mim mesmo. Por isso reivindiquei para mim um tempo de estar só, um tempo de reflexão, um tempo de pensar-me e pensar as minhas opções.

Não há opções porque há um só sentido para mim e para o tempo que me falta viver e esse sentido és tu. Tu és a força silenciosa que nunca me abandonou, o amor fundo que nunca deixou de orientar-me mesmo quando o não consciencializei. Amo-te, Verónica, amo-te como à vida, amo-te mais do que a mim próprio porque não há Eu verdadeiro e com sentido sem que Tu estejas nele.

Tu és o meu sentido. Tu és o meu caminho. Tu és a minha opção e a minha vida. Para que todas as minhas errâncias e todos os meus erros possam um dia fazer sentido, é preciso que sejam entendidos porque buscava nas outras mulheres aquilo que só em ti residia: a essência do amor, o sentido da vida!

Sou teu, Verónica, como nunca o meu ser pertenceu a outra pessoa e esperarei por ti o tempo que for necessário, nem que seja o tempo da minha vida. Afinal, o que representa esse tempo perante a eternidade de estarmos unidos?

Contaste-me que o teu relacionamento com o Eduardo vivia dias de hesitação. Incertezas. Alguns problemas que precisavam ser superados. Nunca fui tão parcial como serei agora. Deixa tudo isso para trás, meu amor, abandona todas essas tentativas de amar, todas essas ameaças de vida. O único amor e a única vida para ti sou eu, tal como tu para mim. Tudo e resto são minudências, são apêndices de vida, mas não a própria vida.

Sejamos felizes, Verónica, como mais ninguém pode sê-lo em conjunto, no sentir do coração, na promessa da alma e na ânsia do corpo.

Sim, sou teu, Verónica, e, mais do que isso, quero que sejas minha. Para sempre. Para todo o sempre. Para o único sempre.

Tu não queres essa tranquilidade que dizes darem-te. Tu queres o palpitar forte de um amor desmedido e isso é o que tenho para dar-te, é o que tens para dar-me.

Vem, meu amor, vem amar-me, vem ser amada, vem dar-me sentido. O do amor que anima a vida dos homens!

Com Amor,
Rui.

AVISO!


"O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa, aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E vós sabereis que sou o Senhor quando minha vingança cair sobre vós".

Ezequiel 25:17
Adaptado para "Pulp Fiction"

Obrigado, Zé!


Há muito tempo que conheço o José Matias. E ele a mim. Simpatizámos naturalmente desde o início do nosso conhecimento e sempre mantivemos um trato afável e amistoso. Tudo gente boa, portanto. Mas, hoje, o Zé Matias surpreendeu-me pela generosidade. 

Eu estava na margem sul e precisava apanhar um comboio em St.ª Apolónia. Pedi-lhe boleia para Lisboa e combinámos que ele me deixaria ao pé de uma estação de Metro qualquer e eu depois ia à minha vida. Ora, como já era tarde, o Zé perguntou a que horas eu tinha comboio. Às 19:48, respondi. Eram 19:35 e estávamos em cima da ponte sobre o Tejo. O Zé diz que ainda é possível e eu digo-lhe que não e ele remata, contundente, Se eu te puser no Oriente ainda o apanhas. E vai daí, não só me deu boleia, como fez uma gincana célere até ao Oriente onde chegou 1 minuto antes do comboio. Subi as escadas a correr e quando cheguei estava o o regional das 19:48 - 19:56 no Oriente - a entrar na estação. Claro que o apanhei. Mas só porque a generosidade do Zé Matias e a sua solidariedade mo possibilitaram. No meio disto tudo, a Ana Rosa, que ia connosco, ainda foi trocando um palmo de conversa comigo. Foi assim uma viagem alucinogénica com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, mas em que tudo correu bem.

Resta concluir: Obrigado, Zé!

jpv

"Com Amor," - Documento 99

Minha Doce Laura,

Hoje resolvi escrever-te em papel perfumado e letras grafadas pela minha mão para celebrar a vida. Celebrar a tua vida, já que, quando receberes esta carta, deves estar a fazer anos. E celebrar a vida da nossa vida em conjunto nestes últimos anos.

Quando me aconteceste, a vida trouxe-me surpresas e milagres. Surpreendeu em mim formas de amar de que me não sabia capaz simplesmente porque estavam adormecidas. Surpreendeu em mim o prazer e a alegria de ser amada por ti e trouxe-me o milagre do nosso entendimento e da forma descomplexada como encaramos a vida. Temos enfrentado os preconceitos todos e todas as dificuldades com alguma facilidade porque há em nós, antes de mais, a alegria de pertencermos uma à outra, de nos entregarmos e de nos recebermos. E temos lidado com o estranhamento e a admiração dos outros como lidamos com a nossa própria admiração: com naturalidade e até algum descaramento.

Não sei quantas vezes fizemos amor até hoje, mas sei duas coisas. Foi mais de uma vez! Cada vez foi um milagre de carícias e sedução, um caminho de prazer e de ternura, um reacender do sentido da nossa existência. E sim, a pele das mulheres é mais suave!

Doce Laura, sempre que estou contigo fazes-me querer ser uma pessoa melhor, fazes-me querer realizar inolvidáveis feitos de ternura e solidariedade e fazes-me querer levar amor onde o não há.

Preenches-me os minutos, as horas e os dias, mesmo aqueles que não estou contigo e trazes luz ao caminho da minha existência, trazes bom senso às minhas decisões. E por isso te estou grata. E por isso te amo ainda mais.

É irónico, minha Laura, que Deus, o Destino, a Ordem Cósmica ou o que quer que seja que traça e orienta os nossos passos, tenha juntado uma mulher que não se guardou para homem algum com uma mulher que viveu casada mais de vinte anos. É irónico que tenhamos vivido experiências tão díspares para virmos a partilhar o Outono das nossas vidas em comunhão e harmonia. Não sei a quem agradecer por este encontro, sei só que estou infinitamente grata.

Amo-te muito, Doce Laura, amo-te tudo o que uma pessoa pode amar outra e é desta incomensurabilidade de amar que nasce em mim um desejo que verto em voto de vida para nós: desejo-te, minha amada Laura, que vivas muitos e felizes anos e que possam todos esses anos ser intensa e langorosamente partilhados comigo.

E tenho também, meu amor, um voto de morte. Pode parecer-te macabro, mas não é. É um feliz voto de morte: desejo que numa manhã de sol cristalino nos levantemos, já muito velhinhas, bebamos o nosso chá de tília na varanda, sentadas em torno da nossa mesinha redonda com um paninho bordado. Que o chá nos saiba bem e que nos encontrem mais tarde sentadas, lado a lado, de mão dada e adormecidas para sempre.

Quero viver contigo, Laura, e é contigo que quero atravessar a derradeira fronteira.

Não se pode amar mais, nem melhor, nem com mais entrega que isto tudo que trago no peito.

Com Amor,

Madalena

Friso

Friso

Vi no friso à contraluz

Uma ideia que germina
Uma imagem que produz
Sofrimento.
Eras tu partindo
Livre e liberta
Era eu sentindo
A porta fechada,
A janela aberta.
Houve em mim
E no friso,
O raciocínio
E o juízo
De querer prender-te livre,
Libertar-te presa.
E nessa ideia que tive,
Vivia a chama acesa
Deste paradoxo amado,
Deste desejo infiltrado
Desta vontade indomável.
E tu pacificaste-me a alma.
Entregaste-me com calma
A tua vida
Como se fosse coisa pouca.
E eu fiquei suspenso
De gesto tão intenso
E tão abandonado à fortuna.
Senti-me um friso de vida
Sustentado por grácil coluna
Firmemente erguida.
jpv

"Com Amor," - Documento 98


Boa noite, Alberto,

Só hoje reparei que tinha a sua mensagem no G-Mail. Pela data, ter-me-á escrito há uma semana atrás. Peço desculpa por só agora responder, acontece que sou bastante avessa a esta coisa das comunicações digitais. Só uso o e-mail por razões profissionais e, mesmo assim, sempre que posso, evito-o. Detesto a banalização dos conceitos de conhecimento, amigo, amizade, etc... da mesma forma que não me agrada a exposição a que ficamos sujeitos. Os meus filhos bem me incitam ao uso, mas eu reservo-me. A sua mensagem, por exemplo, esteve prestes a ser apagada. Valeu-lhe o título. É interessante.

Eu percebo porque foi para si uma ousadia. Para mim, esta resposta constitui um gesto inusitado. Há, contudo, dois aspectos que me levam a responder-lhe:  o facto de, efectivamente, já o conhecer, como referiu, e por ter pressentido em si uma pessoa muitíssimo prudente e educada. O respeito com que fez a sua abordagem, perdão, o seu contacto, foi determinante.

Sim, já havia notado em si o que notara em mim. A timidez ou, pelo menos, a reserva. Nunca me senti confortável naqueles encontros e percebi o mesmo desconforto em si. 

Do seu divórcio e do meu falaremos em presença se isso alguma vez vier a constituir assunto. Não penso em nada, neste momento, que não seja em mim e nos meus filhos, logo, está de parte a hipótese de qualquer relacionamento, mas gosto de conversar com as pessoas em que confio. São poucas.

Talvez venha a confiar em si. Acho que vou confiar em si.

Tomaremos um café e conversaremos. O assunto há-de surgir. 

Cumprimentos,
Patrícia Sousa

"Com Amor," - Documento 97


Bom dia Patrícia.

Não sei se está recordada de mim, provavelmente não. Chamo-me Alberto Honorato e fui casado com uma colega do seu ex-marido, a Laura Duarte. Foi a própria Laura quem, em tempos, me deu o seu endereço de e-mail. Não sei, sequer, se é o mesmo pelo que esta mensagem pode simplesmente perder-se. Se a receber, peço-lhe o favor de, ao menos, me informar que a recebeu. Responder-lhe dependerá de si.

Nós cruzámo-nos em alguns almoços da empresa em que eles trabalham. Na altura íamos ambos a esses almoços na qualidade de esposos. O que sempre reparei em si é que ficava à parte das conversas em voz alta que nada tinham que ver connosco. Teve sempre uma atitude absolutamente reservada. Eu sou exactamente assim. De resto, esta mensagem constitui uma ousadia sem precedentes. Não condiz com a minha forma de estar nem de agir. Acontece que, em boa verdade, já fomos apresentados diversas vezes (eles esquecem sempre que já o fizeram) e não pode dizer-se que somos propriamente desconhecidos.

Não sei se sabe, mas eu estou divorciado há cerca de três anos e soube recentemente que a Patrícia e o Rui se haviam divorciado também.

Não se ofenda com a ousadia deste contacto. Ele não tem outro intuito que não seja o de propor-lhe que conversemos. Porquê? Pelos jantares em que participámos como "apêndices" pressenti que poderíamos ter alguns traços de carácter semelhantes, compatíveis, se quiser. A reserva, o recato, talvez certa insegurança...

Enfim, nunca entrei em contacto consigo por razões óbvias. Agora, contudo, nada encontro que impeça possamos conversar um pouco. Honestamente, nem sei bem sobre o quê, mas admito que consigamos encontrar assunto à volta de um café..

Por favor, não se sinta pressionada a rigorosamente nada.

Até Breve,

Alberto Honorato

Citações do Sheldon




"I'm quite aware of the way humans usually reproduce, which is messy, unsanitary and involves loud and unnecessary appeals to a deity."

Sheldon Cooper
in The Big Bang Theory

Reflexão Vadia

Um dia destes, mostraram-me uma foto da Dr.ª Gabriela Ventura numa sessão de esclarecimento do Ministério da Agricultura onde exerce as funções de coordenadora do PRODER. Chamaram-me a atenção para o facto de a foto estar em vários blogues e sempre com muitas críticas à postura da Dr.ª

Fiz um breve zapping blogueiro e não concordo nada com o que por lá se diz.

1º - Indecente não é vestir saias curtas, é receber vencimentos e aposentações acima do que o país pode pagar.

2º - A roupa, curta ou comprida, formal ou informal, não define as competências de quem a usa. Este país está na desgraça e na miséria em que está e foi sempre governado por tipos com fato e gravata e senhoras de saia travada abaixo do joelho e casaquinho a condizer por cima de gola alta.

3º A Dr.ª mostra que, para além de poupar no tecido em tempo de crise, tem muita fibra e uma inquestionável coragem. Só pode ser uma mulher muito segura de si com fortes e sólidos alicerces psico-comportamentais donde se infere que está no lugar correto, porque detém responsabilidades à altura da sua envergadura. Eu diria mesmo que Gabriela Ventura, pelo exuberante halo de confiança que emana, está subaproveitada e deveriam ser-lhe atribuídas mais e maiores responsabilidades. A meu ver poderíamos criar o PRODURA - Programa de Reconstrução Ordenada para o Desenvolvimento Unitário e Racionalização Adequada. Este projeto teria como função recuperar o país da crise em que se encontra através de alicerces económicos sólidos e de uma postura de confiança junto dos mercados. E, para não dizerem que não penso em tudo, proponho o slogan: Para o Programa PRODURA, queremos a Gabriela Ventura.

Vá lá portugueses, deixem-se de críticas balofas e inúteis. Qual dos que criticou não quereria ser assessor de Ventura? Ah pois é... criticar é fácil...

Dr.ª, estou consigo, tiremos este país do marasmo!

Citações do Sheldon




"If outside is so good, why has mankind spent thousands of years trying to perfect inside?"

Sheldon Cooper
in The Big Bang Theory

"Com Amor," - Documento 96


Minha Querida,

Uma das virtudes dos homens e das mulheres é saber esperar. As tuas razões são as minhas. As mágoas que agora vives, provavelmente, vivi-as antes e daí estar preparado  para o nosso projecto há mais tempo. Vivemos um desencontro no tempo e quem se apercebesse disso teria de saber esperar para acertar a passada. Foi o que fiz. Mais nada.

Não és devedora de nada, minha querida. Eu sim, não posso esquecer como me amparaste e ajudaste a reerguer no período após o meu divórcio. Não esqueço essa dádiva voluntária, esse amor verdadeiro que me dedicaste. Foi ele que me deu forças para esperar. Ainda bem que o fiz.

As portas do meu coração nunca estiveram fechadas para ti e será uma alegria e um prazer construir contigo o edifício do amor. E esse será o nosso primeiro e mais sólido património. Tudo o resto decidiremos em comunhão, na alegria de estarmos juntos.

Tentarei estar contigo ainda esta semana. Preciso abraçar-te. Tenho fome de ti, de beijar-te, de fazer amor contigo.

Teu, sempre teu.

José Pedro.

"Com Amor," - Documento 95


Olá Zé Pedro,

Uma vez ouvi na televisão alguém dizer que as pessoas não procuram relações, procuram outras pessoas. Não podia estar mais de acordo.

Este mail pode ser considerado, por ti, como um atrevimento ou, simplesmente, como o próximo passo das nossas vidas. Desta vez, um passo cuja iniciativa é minha, tem de ser minha.

Tu és a minha pessoa, Zé Pedro. e essa é a minha verdadeira e primeira razão para escrever-te esta mensagem, para dar este passo na tua direcção.

Há pouco mais de um ano fizeste-me uma proposta de vida e eu assustei-me. Hoje, sei que esse susto se deveu a eu estar muito habituada a viver comigo mesma, a ser responsável pela minha vida e pela do meu filho e, de repente, fui confrontada com o facto de ter de abdicar dessa liberdade e nem me apercebi que isso poderia significar somente a vida em partilha.

Entretanto, por circunstâncias que não vou explorar, pude conhecer outras pessoas, outras formas de estar, e percebi que, por mais extraordinárias que as pessoas sejam, por mais sensíveis e apaixonadas que pareçam ou, efectivamente, sejam, elas só poderão entrar na nossa vida se nos deixarem entrar na delas e isso implica fazer concessões e cedências. Estarem disponíveis para nós e aceitarem a nossa disponibilidade. Tu estás, Zé Pedro, mais ninguém. E acho que a isso pode chamar-se amor. Eu venho dizer-te que estou disponível para ti também, se ainda me quiseres.

Quando te sugeri que fizéssemos uma pausa no nosso relacionamento, foi para percebê-lo à distância e "por fora". Foi para ver como nos imaginava juntos, como um casal, sem estar envolvida no projecto.

Já não preciso de mais tempo, Zé Pedro, e só espero ainda ir a tempo de encontrar as portas do teu coração abertas para mim.

O que eu vi "à distância" foi um homem disposto a construir o seu quotidiano comigo. Conquistas, partilhas, problemas e tudo, tudo incluído. E a vida a dois não pode ser senão dessa forma. Hoje, até me pergunto como pude hesitar... acontece que os homens e as mulheres duvidam. E só porque duvidam, conquistam certezas. Hoje tenho a certeza de que é contigo que quero viver a vida, partilhar os dias, educar os nossos filhos, o meu rapaz e a tua menina.

Não sei se isto é uma declaração de amor, mas sei que é uma honesta e profunda declaração de intenções. Claro que há aspectos que teremos de debater porque não estamos de acordo, mas façamos dessa discussão clara e sincera o nosso principal património.

Estou magoada com a vida. Mas não me importo. Talvez precisasse viver a experiência da mágoa para te valorizar, para nos valorizar o suficiente e nos assumir.

Um beijo terno, pleno de saudade.

Com Amor,

Tânia.

"Com Amor," - Documento 94

Meu Amor, meu pacato e suave Rui,

Ninguém te conhece como eu. Não me refiro aos teus hábitos quotidianos, mas antes à tua essência, a quem tu és de facto para além da capa do profissional competente e determinado. Tu és uma alma boa e sensível, meu amor, que quer muito amar e precisa muito ser amada. Não te dilaceres, meu querido, toma a tua decisão em paz e em tranquilidade contigo próprio. Foste tu quem me ensinou este princípio e ele é tão acertado, meu querido! Assume-o para ti. Não te sintas pressionado por nada, meu suave Rui, nem por aquilo a que chamas de "acontecimentos recentes". Eu não terminei a minha relação com o Zé Pedro. Fiz uma pausa, com o acordo dele, para que pudéssemos repensar-nos enquanto casal e para que pudéssemos ter algum distanciamento em relação a nós próprios. Tu não és responsável por isso, meu querido. Tudo o que temos feito em sido em harmonia e na mais absoluta clareza um com o outro. Continuemos assim! Claro que não vou dizer-te que esperarei para sempre, mas eu sei que tu próprio também não podes esperar para sempre. Faz-te falta a paz da tua decisão.

Faz 1 ano, meu amor, e é um ano que guardarei para sempre comigo como um ano de milagres, seja qual for a tua decisão e o nosso destino.

Com Amor,

Tânita

"Com Amor," - Documento 93


Meu Amor,

Resolvi escrever-te hoje porque faz exactamente 1 ano desde o dia em que demos um beijo apaixonado na salinha da fotocopiadora.

Foi o primeiro de muitos e apaixonados beijos, de milhares de carícias voluptuosas e estonteantes, de muito, intenso e maravilhoso sexo. Uma infindável conversa de corpos, de jogos de prazer todos feitos de dádiva, de entrega, de pura e natural sedução. Uma harmonia nos gestos que nasce na forma como encaramos o mundo, a vida e o amor. Uma sintonia que começou nas palavras e nas ideias, se materializou nos corpos e voltou às palavras com que sempre partilhámos tudo.

Tu não és uma alma gémea. Uma alma gémea será uníssona, mas outra, e tu és, para mim, uma parte do meu sentir, do meu ser e do meu agir. Nós somos fragmentos da mesma alma. O nosso mundo, aquele em que conversamos, debatemos as nossas ideias e trocamos os nossos corpos no bailado do amor, é um mundo perfeito. Assim ele fosse o único. Mas não é, meu amor, minha livre e doce Tânia. É o mesmo mundo onde temos de encontrar-nos furtivamente, o mesmo mundo onde é preciso calar e esconder o nosso amor para que possa ser vivido, o mesmo mundo onde temos compromissos e obrigações que existiam antes de nós. Temos sentido a pressão e o desgaste desta situação e não fora a nossa paixão tão forte, não fora o nosso amor tão sólido e teríamos sucumbido já. Mas eu sei, meu amor, que não podemos protelar mais esta situação. Há opções que têm de ser feitas e decisões que precisam ser tomadas. Entregámos um ao outro um ano das nossas vidas, mas não é sustentável continuarmos assim e eu sei, minha querida, que, dados os acontecimentos recentes e a actual situação, me cabe a mim dar o próximo passo.

Hoje venho dizer-te que te amo muito e te quero muito e venho pedir-te que nunca duvides desse amor nem dessa entrega, seja qual for a minha decisão. Hoje, venho entregar-te o meu amor.

Com Amor,

Rui

"Com Amor," - Documento 92


Olá Rui,

Tu és um safadão. Com que então a querer tratar o nosso beijo, o segundo em dois dias(!!!), como se não fosse nada. Foi e foi muito! Não vês que significa que não estamos a ser disciplinados, rigorosos?
Bem, tirando isso, o beijo foi bom... foi envolvente!

Quanto à nossa sintonia, acho que é mais do que sintonia. É uma certa harmonia na forma de ver a vida e no que queremos dela. Ultimamente, sinto-me bem ao pé de ti, é como se as coisas no Universo estivessem naturalmente organizadas. Não há esforços nem fingimentos. Mas tudo isto é precipitado.

PRECISAMOS TER JUÍZO!

Beijo Bom,
Tânia

"Com Amor," - Documento 91


Olá Tânia,

Hoje, penso, portámo-nos muito melhor. É evidente que aquele beijo apaixonado e estonteante que me deixou com um desejo louco de fazer-te minha poderia não ter acontecido, mas até aí estivemos muito bem. Conversámos coisas muito importantes. Talvez fosse melhor não sermos sempre os últimos a sair. Os outros vão acabar por reparar.

Sim, estou em sintonia ctgo. A vida é o que fizermos dela, é construída pelas nossas decisões. Não há passado nem futuro que não estejam ligados ao que os homens decidiram fazer ou decidirão fazer.
Sim, estou em sintonia ctgo. As coisas existem para nos servir e não para nos sacrificar e as mais fantásticas desta vida são de graça...
Sim estou em sintonia ctgo. Por vezes apetece-me desligar de tudo o que é material e recomeçar do zero, às vezes apetece-me ter uma casinha pequenina em que eu entre sem tropeçar em objectos inúteis. Os objectos não são vida. Vida é o que fazemos com o tempo que temos.

Pensei que ninguém entenderia isto. Tu entendes e isso é maravilhoso. O nosso caso, que ainda não é nada, pode tornar-se sério por aí...

Até amanhã.

Com Amizade,
Rui

"Com Amor," - Documento 90


Olá Rui!

Esperei por ler-te.
Ainda bem que escreveste. Fiquei mais tranquila.

Não pode mesmo repetir-se!

Beijo

Tânia

"Com Amor," - Documento 89


Calma miúda!

Não te martirizes. Foi só um beijo. Sim, eu sei, mesmo assim é grave. Quando te digo para teres calma e para não te martirizares é pelo seguinte: eu estava agitado, também. E estava a rezar para que ficasses, e se tu não tivesses atrasado a tua saída hoje, eu teria atrasado a minha noutro dia qualquer. Isto não é culpa tua, é responsabilidade nossa.

Acho que quebrámos as regras todas da empresa, embora eu ache que não somos os primeiros a trocar beijos apaixonados na salinha da fotocopiadora... fofocas! Depois falamos.

É claro que é melhor que não se repita. Há demasiada gente envolvida. Seremos fortes!

Beijinho.
Rui

"Com Amor," - Documento 88


Querido Rui,

Desculpa, desculpa, desculpa...
É já muito tarde, mas resolvi escrever-te na mesma. É demasiado importante!

Eu não percebi que pudesse acontecer aquilo que aconteceu hoje, mas o facto é que aconteceu e eu assumo... Tu tinhas de trabalhar até tarde e precisavas ficar no escritório. Eu não, Rui. Eu estive a empatar e a fazer horas para poder falar contigo. O meu coração pulava de agitação e só quando acabei de beijar-te percebi que fora um impulso e que não devia ter acontecido.

Não se repetirá!
Mais uma vez, peço desculpa.

Tânia.

"Com Amor," - Documento 87


Ainda te li!

Até segunda! :)

Tânia

"Com Amor," - Documento 86


Olá Tânia,

Ainda bem, também. A tudo! Não podia estar + de acordo ctgo. Claro que houve ali uma atracção, mas acho que foi mais prudente assim.

Respondendo ao teu PS: acho que poderia ter acontecido. Nós somos muito compatíveis. Também acho que nunca aconteceu porque tu andaste tão envolvida e absorvida pela tua vida e pelos teus problemas quanto eu pelos meus.

Talvez agora que encontrámos um problema comum e isso nos levou a partilhar ideias e descobrimos algumas sintonias, talvez agora houvesse essa oportunidade. Mas agora, Tânia, a vida de ambos já está muito complicada.

Beijocas e... até segunda.

Rui

"Com Amor," - Documento 85


Olá Rui,

A expressão que coloquei no título resume bem o que sinto em relação a ontem: Ainda Bem.

Ainda bem que fomos jantar. Foi fantástico ver as pessoas que conhecemos em ambiente de trabalho numa onda descomplexada. Ainda bem porque todos conversámos e descomprimimos. Eu, pelo menos, descomprimi à brava. Ainda bem porque nos divertimos muito e a noite terminou com todos a sentirem-se bem e relaxados. E, ainda bem, Rui, que nos contivemos no regresso, eu e tu. Houve um momento em que paraste o carro para terminarmos a conversa que tínhamos começado nos nossos mails sobre estes conflitos que andamos vivendo entre materialidade e espiritualidade, e pensei que algo poderia acontecer. Não é que não goste de ti, mas acho que já temos problemas suficientes, os dois.

Eu percebi que se criou ali um clima, uma sintonia, houve ali um momento em que quase cedemos à tentação da promessa de um beijo. Ainda bem que não cedemos. Quanto ao resto, ainda bem tudo. Noite maravilha, companhia maravilha.

Beijito
Tânia

PS: Pergunta parva: Rui, porque é que nestes anos todos nunca namorámos, tivemos um romance, whatever?...

"Com Amor," - Documento 84



Querida Verónica,

Quando te conheci fiquei a gostar mais do mundo por tu estares nele, mas eu já era o homem que sou hoje e já tinha os meus filhos. Para mim, nada que diga respeito aos meus filhos é "paralelo", como tu lhe chamaste, porque eles são o centro da minha vida, a minha razão de viver.

Achei interessante que em relação ao nosso problema com a minha filha tenhas referido "a forma como ela encarou o nosso relacionamento" e no que diz respeito ao nosso problema com o teu filho te tenhas referido a ele como "a forma como lidaste com o meu mais velho". Tu não podes estar sempre fora dos problemas, nem os teus filhos, por mais que os ames. Eu posso conversar com a minha filha, mas tenho de respeitar a sua maneira de ver a situação. Ela é uma mulher, Verónica, também já tem filhos, não pode ser tratada como uma gaiata que está com ciúmes da namorada do pai. Já o "teu mais velho" está a ser um bocadinho infantil, certo?

Sim, doce Verónica, temos de harmonizar, mas isso não pode significar adoptar sempre a tua perspectiva só porque é... a tua!

Com Saudade,
Eduardo Luís

"Com Amor," - Documento 83



Meu Amor Querido, Meu Doce Eduardo, Meu Porto Seguro,

Achei quase um milagre ter-te encontrado e achei, isso sim, um perfeito milagre que nos entendêssemos tão bem. Uma tão preciosa harmonia parecia-me frágil, no início, mas depois fortaleceu-se e à medida que o tempo foi passando, eu fui acreditando cada vez mais nesse nosso cantinho de estar bem a que carinhosamente chamas de arrolhar de pombos.

Por vezes temia pela durabilidade deste nosso entendimento e tentava imaginar por onde poderia nascer um conflito. Fazia isto para nos defender, para poder antecipá-lo e evitá-lo.

Tenho conseguido. Temos conseguido. Mas fui surpreendida. Fomos surpreendidos.

Estes dias em que estivemos um pouco mais ausentes um do outro, criaram um certo distanciamento que me permitiu ver com mais clareza. E fiquei tranquila. Já reparaste que as razões do nosso desentendimento não nascem em nós, não provêm dos nossos actos directos? O motivo mais recente tem a ver com a forma como lidaste com o meu mais velho e esse problema, sejamos honestos, está relacionado com a forma como a tua filha encarou o nosso relacionamento desde o início. Com certo cepticismo e até alguma desaprovação. Acho que precisamos de dar-lhes espaço e tempo e acho que precisamos de ser serenos e crescidos e encarar com naturalidade as atitudes dos nossos filhos.

Resolvi escrever-te porque te quero muito e não gostaria que um problema paralelo tivesse o poder de inquinar a nossa relação.

Tua.
Sempre tua.

Verónica

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