O Clã do Comboio foi de Carro

O Clã do Comboio foi de Carro
Como foi público e notório, no dia 30 de Maio houve greves na CP. É um direito que os trabalhadores têm e é um mecanismo de protesto que podem accionar quando entendem que os seus direitos estão a ser lesados. Emerge daqui, como quase sempre acontece, um conflito ou, se quiserem, um contra-direito. É que os direitos dos passageiros saem lesados. Não me refiro, claro está, aos direitos de quem compra bilhete no próprio dia ou mesmo momentos antes do comboio partir. Para esses a solução é simples, não há comboios, não compram bilhete. O problema, o efectivo e mais sério problema, são os milhares de passageiros que, por esse país fora, compram um passe no início de cada mês adquirindo o direito a viajar ao longo dos 30 ou 31 dias. Para esses, há o prejuízo directo de perderem esse dia de viagem e um dia de trabalho ou, para não perderem este último, terem de se deslocar de outra forma o que equivale a dizer pagarem a mesma viagem duas vezes.

No dia 30 foi assim. Acontece que nem tudo foi mau. O Clã do Comboio tem destas vantagens. As pessoas conhecem-se, conversam e são capazes de se unir em momentos de adversidade. Fomos de carro. Chegámos à estação, olhámos com desespero as linhas desertas, o trabalho era imperativo, não havia como faltar, como queimar aquele dia. E aí, nesse ponto da situação, o Escritor, o Aluno do Escritor e a Rapariga do Riso Fácil resolveram a questão em poucos segundos e com poucas palavras:
- Vamos de carro?
- Vamos!
- Também queres ir?
- Eu vou!
- Então vamos.
- Vamos. Dividimos a despesa.
- Ok.

E pronto. Mais nada. E o engraçado é que foi engraçado. Havia muita chuva, acidentes vários, filas intermináveis, e tudo pareceu passar-se rapidinho, sem sofrimento. Saímos às 7:30 e foi pouco depois, às 10:30, que chegámos! Todo o espírito do Clã viajou connosco, as conversas, as teorias, a boa disposição.

Contudo, o mais interessante do dia revelou-se à tarde. Combinámos encontrar-nos junto a Santa Apolónia entre as 18 e as 18:30. Quando parei o carro para eles entrarem, olhei para o relógio e não pude deixar de sorrir: 18:18. A hora do nosso comboio mais frequente de regresso. Quando chegámos ao Entroncamento eram 19:33. A hora de chegada do nosso comboio mais frequente de regresso. É evidente que houve um prejuízo financeiro para todos nós, mas isso acabou por esbater-se na companhia e na cumplicidade que vivemos. Como disse a Rapariga do Riso Fácil:
- Foi um dia diferente.
Afinal, o Clã do Comboio também anda de carro.

A noite mais longa


Mails para a minha Irmã
A noite mais longa

Olá mana,
há já muito que te não escrevia. Sabes como é, as coisas urgentes vão-se fazendo primeiro que as importantes. Hoje, no início de uma reunião de trabalho, agarrei no meu caderno, escrevi com quem era a sessão de trabalho e coloquei a data. E, o que de imediato me veio à mente, foi a tua face com o aspecto reguila dos seus três anitos ainda plenos de esperança. Essa mesma esperança que estava prestes a sofrer uma contrariedade. Mas não só, porque a vida, felizmente, não é homogénea.

Faz hoje 36 anos que embarcámos. Sozinhos. Eu com 8 anos e tu com 3. E viajámos um oceano de desespero e solidão. E sobrevivemos. E houve uma desesperança e uma desentrega e uma sensação de estar tudo a desmoronar-se e a fugir por entre a impotência do nosso querer. Era uma espécie de fim. Mas, como disse, a vida não é homogénea. Eu acho, mana, que nós sempre gostámos muito um do outro. Acho mesmo que sempre fomos unidos porque nunca soubemos ser de outra forma, mas a violência daquela noite e dos dias infinitos e infindáveis que se lhe seguiram constituíram para nós um teste, uma provação. E o elo reforçou-se. Tornou-se inquebrantável. E as coisas que viríamos a viver daí para a frente, boas ou más, haveriam de estar para sempre eivadas dessa superação conjunta. Eu acredito, mana, que as pessoas que sofrem juntas, nunca mais se separam. O sofrimento é uma cola da alma.

Faz hoje 36 anos, os homens quiseram-nos fazer mal. Muitos morreram, entretanto. Outros ficaram sozinhos, outros perderam-se nas multidões, a maioria está esquecida e nós, da fragilidade e da vulnerabilidade das nossas vivências, crescemos irmãos, fortalecemo-nos e viemos a viver este dia olhando para trás no vácuo do tempo e sorrindo aos homens esquecidos com a ternura do nosso amor irmão. Nós, mana, estamos aqui. Companheiros de vida, com alegria e com sofrimento. Ainda bem.

Beijo,
Mano.

"Com Amor," - Documento 26


Olá, Minha Menina Verónica,
O amor é uma forma de revolução, de reencontro e de libertação. É uma revolução nos nossos sentimentos comuns e consentidos, é a libertação da verdade e a única verdade é amar.
Sim, mantém-se o desejo e se há momentos em que rememoro as linhas elegantes e sensuais do teu corpo, também os há em que não vejo senão o teu olhar procurando abrigo no meu e nesses instantes prevalece o amor ao desejo. Eu já percebera que eras assertiva, que sabias bem o que querias, mas não imaginava que tudo isso pudesse sentir-se na tua volúpia fogosa, no teu sentir fundo cada respiração. Não me interessa nada se foi sexo ou amor. Interessa-me que ambos quisemos e interessa-me que foi lindo.
Não podia haver pecado, minha menina Verónica, precisamente porque foi em consciência e precisamente porque foi harmonioso. Sabes, às vezes ouso colocar-me no lugar de Deus e pensar como julgaria os actos dos humanos. Neste caso, no nosso caso, nem julgaria. Que fazer perante a realização plena do amor senão assentir e consentir? Era preciso ser um Deus muito deslocado do amor para condenar o que aconteceu entre nós. E sabes que mais? Foi bom... gostoso...gostei em particular daquele momento em que tu... esquece! Tu sabes ao que me refiro. Acho que se notou!
Antes que isto aqueça mais, deixa-me dizer-te, minha querida, que quero mais do que reencontrar-te. Quero reencontrar-nos. O quanto antes!
Teu homem Rui.

Sem Medo das Alturas

Ainda na saga das cantoras menos divulgadas, mas cujo talento merece um pouco da nossa atenção, aqui fica o clip de "No Fear of Heights" da fantástica Katie Melua. A canção faz parte da banda sonora "The Tourist". Um filme com o excelente Jonnhy Depp, a bela Angelina Jolie e a maravilhosa Veneza como pano de fundo. Só faltou mesmo que o filme fosse bom.

Be My Baby

Ando nas cantoras alternativas. Vanessa Paradis canta em inglês mas é francesinha de gema. Este é um tema dos anos 90. Tem energia e uma letra interessante.

(Be my Baby - Vanessa Paradis)

O Tempo das Flores


Nasce o dia perfumado
Por um doce aroma a flores,
Como uma tela pintado
De muitas e diversas cores.
Andam lilases esvoaçando
E tons quentes também,
Andam os deuses brincando
Com o tempo que a gente tem.
Jorram doces líquidos no sabor
E erguem-se taças em comunhão,
Há corpos afogados em suor
Rolando sensuais pelo chão.
E há trocas e oferendas
A marcar o compasso da vida,
Invocam-se teorias e lendas
Para encontrar a fé perdida.
E fica no ar o prazer
De um amor cego e louco,
Para tanto que há a fazer
Todo o tempo de uma vida é pouco!
jpv

Fidelity

Regina Spektor é uma jovem cantora de voz doce e límpida que nos merece alguma atenção. Esta canção, "Fidelity", faz parte da banda sonora de um interessante filme de 2010, "Love and Other Drugs". Para que não vos falte nada:

"Com Amor," - Documento 25


Meu Homem Rui,
Escrevo-te em papel, para o trabalho como combinámos, para que me sintas mais próxima de ti, para que toques o papel que eu toquei, para que admires o selo que eu colei, para que sintas o perfume do papel que eu perfumei.
Agora percebo o que dizes sobre tomar decisões em consciência. O que aconteceu entre nós roçou a perfeição, pelo menos, a perfeição de amar. E não houve pecado naquilo que fizemos. Não pode haver pecado numa entrega assim, num amor e numa harmonia tão divinais. Sabes, Rui, os mails são mais rápidos e mais eficazes, mas hoje quis escrever-te em papel para cristalizar e materializar o que aconteceu entre nós e o que aconteceu entre nós foi como a nossa escrita, mas com o requinte do papel que tem um toque particular e um odor próprio.
Andei-me revelando nos teus braços, andei-me entregando e andei recolhendo-te no meu corpo. Conversámos olhos nos olhos, Rui, e esse foi outro milagre. E depois despimos roupas e preconceitos e todo o universo cristalizou à nossa volta. Ninguém viveu, nem morreu, nem correu, nem andou, nem sonhou, nem trabalhou, enquanto nos amámos. O mundo suspendeu-se da sua vida e da sua existência.
Não resisti porque não quis. E não quis porque quis. E tinhas razão, meu homem Rui, nada mais havia naquele momento que valesse a pena ser vivido, nada mais havia que valesse a nossa respiração, o nosso tacto, o nosso olfacto, a nossa visão, nada nos nossos sentidos e nas nossas capacidades, nada nos nossos gestos tinha outra intenção que não as carícias a incendiarem o desejo e o bailado dos corpos na entrega. E vem-me de novo à mente aquela tua teoria do sexo e do amor. Não sei exactamente o que foi, mas nenhum deles ali esteve sozinho.
Neste momento, Rui, não vejo nem sinto mais nada que não seja o desejo de reencontrar-te.
Tua menina Verónica.

Que bem que eles se entendem!

JJ - Fica ali ao pé das Finanças.
VM - Não! Fica ali... ao pé das Finanças!






Palavras para quê?
JJ e VM sobre a localização da
Taberna do Quinzena em Santarém.
Como não estavam de acordo
quanto à localização,
disseram o que se transcreveu!!!

Curtas do Metro - Não Mexas Nisso, Pá!


Não Mexas Nisso, Pá!
Estação de Baixa/Chiado, sentido Santa Apolónia.
Mais uma vez saí tarde do trabalho. São mais ou menos 20:30h. Venho a chegar à plataforma. Acabei agora mesmo de descer as escadas que lhe dão acesso. Do outro lado da linha, no sentido Amadora-Este, vinda do cimo das escadas, oiço uma voz feminina que grita de forma bem audível e em tom zangado, muito zangado:
- Não mexas nisso, pá!

Olho para trás no sentido do som e vejo um corpo de homem bem constituído, a rondar os quarenta anos, a voar e a rebolar escada abaixo até se estatelar no patamar intermédio com um estrondo surdo. Com ele rebolou uma mochila e um saco de papel que acabaram junto ao corpo. O homem ficou caído, imóvel. Uma rapariga de mini-saia azul-escura e uma blusa às riscas desce a escada. Ao lado dela vem um rapaz musculado com calças de ganga e uma t-shirt cinzenta. Apressa o passo. Quando passa junto do homem estatelado, o rapaz coloca o dedo em riste, baixa-se e grita-lhe:
- Nunca mais mexes no que não é teu!

Os dois acabaram de descer as escadas tranquilamente. Algumas pessoas rodearam o homem caído. Uma levantou-lhe um braço, mas ele não reagiu. O meu Metro chegou. Entrei, espreitei pelo vidro e vi o homem levantar-se amparado à parede. Parecia apontar no sentido do casal. O meu Metro arrancou. Troquei umas palavras de circunstância com uma senhora, mas nenhum de nós sabia mais do que isto. Gritos, um corpo caindo escada abaixo, mais gritos.

Da Mudança

O que é fantástico, entre os humanos, é que todas as raparigas tatuadas, com piercings e um hamster no ombro, foram, um dia, a menina linda da sua mãe.
jpv

Sons

Se esta música não te fizer sentir nada, tens um problema para resolver.

"Com Amor," - Documento 24


Minha Menina Verónica,
A mudança mais importante é a que se faz por dentro. São as decisões que tomamos de nós para connosco. Foi um gesto de coragem, Verónica, foi um gesto de coragem. Sabes, é precisa muita coragem para amar.

Se desse para fingir, não era amor, minha menina Verónica, era outra coisa, uma coisa espúria e secundária. Isto que sentimos e vivemos em comum, ainda que separados, não pode ser fingido porque tema força da evidência e da verdade que lateja no peito. Não nos vejo no futuro, se era sobre o futuro que me interrogavas, mas vejo-nos hoje. E vejo-nos lindos, apaixonados, teimosos, ternurentos e inseguros como os miúdos aos 18 anos. E vejo-nos juntos conversando, brincando, cozinhando, comendo, amando... não me é difícil imaginar-nos, Verónica, porque é como se sempre nos tivéssemos conhecido.

Não há Céu nem Inferno. Há vida e há opções. Em relação a isso discordamos, mas acho que te referias mais a como nos sentimos relativamente a uma decisão que tomamos do que em relação a uma situação de vida. Toma as tuas decisões em consciência e estarás no Céu mesmo que seja um Inferno! Houve algo que gostei na tua formulação: a ideia de não resistires :)

Sim, irei até ti. Quero ser recebido pelos teus braços, quero entregar-me neles e quero receber-te nos meus. Quando nos abraçarmos, minha menina Verónica, mais nada existirá no universo que valha a pena ser vivido e isso é inestimável.

Amanhã ligo-te.

Teu homem Rui.

Galope

Ei, miúda da face luminosa,
Tu que passas amiúde
Pela minha prosa,
Vem adoçar-me os dias
Das fogosas correrias
De um tempo não vencido.
Vem dizer-me ao ouvido
Que tudo ficará bem.
Vem dizer-me também,
Sem qualquer sentido perverso,
Que saltas da prosa
Ao verso
E navegas nas ondas da minha poesia,
Enfrentas esse difuso tempo de maresia
Só por quereres sussurrar-me
Os mistérios de amar.
Essas cavalgadas do coração,
Em trote compassado,
Em galope de emoção.
E eu fico ouvindo a tua narrativa,
Invoco sabedoria primitiva
De ouvir com o bater do peito
E o mundo não precisa de mais nada.
Fica perfeito.

SOL

Bom dia, amigos!
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Glória ao sol
E aos horizontes que abre,
Às mentes que acaricia,
Aos corpos que aquece.
Gloria ao Sol
Por mais um dia
De esplendor
Que a Vida acontece!

Olhar D'Água


Entre o tudo e o nada,
Entre a noite e a alvorada,
Entre a morte escura
E a vida esperançada,
Entre a imobilidade
E o perpétuo movimento,
Entre a companhia
E o isolamento,
Há uma fronteira de água.
Só!
E é nessa linha
Difusa
Que se desenha
O perfil da musa
Que me veio resgatar.

É a indefinível
Fronteira
Do seu olhar.

O Clã do Comboio - Facebook

Facebook
Na passada sexta-feira só consegui sair do trabalho às 21:15h. O comboio a apanhar era o regional das 21:48h. O problemas dos regionais é o tempo que demoram. Apanhando esse, só mesmo junto à meia noite conseguiria estar em casa.

O trabalho correu bem, mas foi muito intenso e exigente, daí a demora. Ora, o cansaço era tanto que nem conseguia dormir. Ao meu lado, uma moça alta e bonita, igualmente exausta, de tal forma que estendeu as pernas e colocou os pés em cima do banco da frente. Eu imitei-a. Foi o nosso pequeno pecado de descansar. Não deu para conversarmos, não havia disposição nem energia para tanto. À nossa frente, uma moça muito atlética, com um fato-de-treino preto de licra colado ao corpo magro e musculado, umas sapatilhas de corrida, o cabelo comprido, castanho, apanhado num rabo de cavalo. A criar uma nota de diferença tinha umas longas unhas pintadas de encarnado.

Foi então que me lembrei que o meu telemóvel tinha acesso à net. Lembrei-me de aceder ao Facebook e usá-lo para o que, efectivamente, foi criado. Escrevi "Estou aqui. Está aí alguém?" Normalmente só uso o Facebook para divulgar o blogue. Nunca tinha participado em jogos, nem nunca tinha usado o meu "estado" ou o meu "mural" para dizer onde estava ou que estava a fazer. Foi a primeira vez. E foi fantástico.

De imediato, uma série de amigos e a minha mana, que estavam online, começaram a conversar comigo, a fazer-me negaças com o que estavam a comer, a dizer umas quantas piadas e a terrível hora e quarenta que tinha pela frente passou-se quase sem dar por isso. Não sei se foi para isso que criaram o Facebook. Já li algures que sim. O certo é que ontem foi fantástico ter essa companhia. E foi igualmente fantástico perceber e sentir a solidariedade e a humanidade dos meus amigos. Foi uma espécie de "O Outro Clã do Comboio", aquele que não vai na carruagem, mas nos ajuda a suportar esse tempo, para além do cansaço e da fome e do sono...

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"Com Amor," - Documento 23


Tenho medo, Rui. Meu homem Rui.Tenho medo e quero. Desejo.
Sim, é amor. É verdadeiro e é nosso. Pronto. Já to disse. E agora, Rui? Assumi. Lutei comigo, contra mim, venci as minhas próprias forças e assumi. E agora, Rui? O que muda? Dizias que as palavras são gestos também... Que gesto foi este? O que mudou com ele?
Há algo que nos aproxima, meu homem Rui, não sabemos fingir, não queremos expurgar o amor que nos invade porque não queremos fingir a vida. Mas há outras pessoas, Rui.
Sim, isto é um tudo, muito mais do que um nada! Mas sabemos nós lidar com este tudo? Como nos vês, Rui? Como nos vês? Não és uma mão cheia de coisa nenhuma, Rui, és uma plenitude. Consigo conversar contigo, perceber-te, perceber-me através de ti, sentir-me compreendida. Mas não me sinto segura, Rui! Nem é este medo por mim. Eu tomo conta de mim. É pelos outros, Rui. Mostras-me o Céu e o Inferno e não lhes resisto, nem a um, nem a outro. Uma mulher é um instrumento do Amor se é de Amor que falamos.
Vem até mim, Rui.Vem até mim e receber-te-ei em mim!
Com Amor,Verónica.

"Com Amor," - Documento 22


Minha Querida Verónica,
o sofrimento está em todo o lado, não só junto ao amor. É evidente que o sofrimento é um dos matizes do amor, mas é por isso mesmo que o amor é tão precioso. Se estivesse facilmente ao alcance de qualquer um, sem esforço, sem provação, sem a perspectiva da desilusão, não seria tão extraordinariamente valioso. Não basta amar. Há que superar as exigências que o amor nos faz para conhecermos a sua plenitude e é essa plenitude tem o preço do que é preciso sofrer para alcançá-la.
O que sofrerias tu por mim, Verónica? Pelo nosso amor? Posso admitir que não contes com nada. Que eu seja para ti uma mão cheia de coisa nenhuma, mas há entre nós este inegável tudo, esta força de atracção, este poder magnético que me faz querer tomar-te nos braços e acariciar-te e amar-te e fazer-te sentir o centro do universo do meu amor, desnudar-te o corpo e a alma e possuir-te ambos. E isto, Verónica, seja o que for, não é um nada. Está mais próximo de um tudo absoluto do que de um nada. Se pudesse, minha querida, esvaziava o meu coração e não pensava mais em ti, mas é ao contrário. A mais ténue lembrança de ti, da tua voz, do teu olhar, enche-me de esperança e vida e isto não pode ser nada, Verónica.
Sabes, minha querida, nós podemos expurgar isto de nós, podemos decidir não percorrer este caminho, mas o que não podemos é negá-lo. Não podemos negar esta força e esta corrente. Não podemos fingir que esta atracção, misto de querer o corpo e querer a alma, esta admiração vertida também na química do sexo possível, não existe.
Existe. É verdadeira e é nossa!
Com Amor,
Rui.

Curtas do Metro - Incógnita

Incógnita
Entre o Cais do Sodré e a Baixa/Chiado pouco depois das 18h.
Um casal em pé, lado a lado, encostado às costas de um banco do Metro. São ambos altos. Ele é um pouco obeso, calças de ganga, pólo encarnado, casaco de ganga, sapatos de vela castanhos. Ar abatido, barba por fazer, óculos redondos daqueles sem aro à volta da lente. Ela é um pouco obesa, chinelos de enfiar no dedo, calças leves, de linho verde, blusa preta colada às curvas cheiinhas da barriga e por cima um casaquinho do mesmo linho verde das calças.

O presente texto foi escrito por via das poucas, mas perturbantes palavras que trocaram um com o outro. Começou ela:
- Vais para casa?
- Não.
- Então?
- Oh, o que é que eu vou fazer para casa? Não está lá ninguém à minha espera! E tu?
- Também não.
- Então?
- A mesma coisa!
Fez-se um silêncio longo até que ela o quebrou:
- Olha lá...
- Sim...
- Porque é que a gente se divorciou?
- Sei lá!

O Metro parou. Tive de sair e não pude ouvir mais. Nem era preciso, a incógnita estava lançada.

O Clã do Comboio - O Picas Veio ao Blogue


O Picas Veio ao Blogue
Caros amigos, esta não é uma história do Clã do Comboio. Trata-se de um mero apontamento.

A determinada altura dedicámos uma história ao "Picas", o senhor revisor.

Foi a história número 24 e chamou-se mesmo "O Picas".

Acontece que um dia destes, o "Picas" veio ao blogue e deixou um cometário. Como está muito interessante e o post foi há tanto tempo que já não está facilmente visível, resolvi fazer este apontamento para que soubéssemos todos o que o "Picas" pensa do que nós pensamos dele!

Ou seja, os níveis de interacção do Clã do Comboio transbordam para outras e interessantes esferas. Agora também os nossos amigos "Picas" interagem connosco. Há coisas fantásticas não há?

Aqui fica o testemunho:

"E não é que somos tão bem retratados!?!
Bem... Não pertenço ao "especimens preferido" mas é bom saber que reparam em nós.
Pena é não ouvirmos resposta aos nossos "Bom dia!".
Também nos sabe bem ouvir um cumprimento de vez em quando.
Descobri este blogue hoje e deliciei-me com o que li.
Um bem haja para vós "Clã do comboio".
Nós, os profissionais do mesmo, agradecemos a vossa boa disposição (mesmo que não pareça).
Não suportamos é pés nos bancos nem música aos berros.
Boas viagens de comboio.
;-) "

O Clã do Comboio - A Playlist da Rapariga do Riso Fácil

A Playlist da Rapariga do Riso Fácil

Esta é a terceira playlist de elementos do Clã que se publica.

Há, efectivamente, um contraste. Ela é, como já se viu, uma personagem leve, tem um movimentar ligeirinho, uma inegável boa disposição. Ora, o seu gosto para as roupas, por exemplo, acompanha estes traços de carácter. Veste elegante e ágil sem grandes complicações. O mesmo já não se pode dizer do seu gosto para a música! Batidas genuínas, outras pesadas, muitas metálicas e muito poucas ligeiras. Os Dire Straits são o prato mais soft do seu menu musical. Depois, é sempre a pesar. Já se percebeu que não só gosta de música, como gosta de dançar. Altas noitadas em discotecas da região! Eu não sei é como se dançam estas coisas. Algumas nem sei como se pronunciam, Manowar, Sratovarius, Hammerfall...

Normalmente, quando me dão uma playlist para divulgar, eu faço uma selecção, mas com ela não pode ser. Foi muito explícita na ORDEM que me deu:

------ Põe lá tudo! Não te esqueças de nada! Sobretudo dos Megadeth!

E pronto, sem mais demora, aqui ficam os sons que poluem e divertem a mente da Rapariga do Riso Fácil:

Iron Maiden
Megadeth
Metallica
Manowar
Sratovarius
Hammerfall
Ozzy Osboune
Fait No More
Judas Priest
Led Zeppling
Van Halen
Deep Purple
DAD
Scorpions
Pink Floyd
Dire Straits
Queen
Supertramp
Marillion
Simple Minds
Cure
Cult
Sisters of Mercy
Peter Murphy
Police
Genesis
Pearl Jam
Linkin Park
Smashing Pumpkins
Pat Metheny
Gary Moore
Nightwish

Stratovarius - Black Diamond


Megadeth - Simphony of Destruction


Van Hallen - Jump

O Clã do Comboio - Memórias de Infância


Memórias de Infância

Pois é, a vida tem destas coisas. Anda uma pessoa, o VM, descansadinha no comboio, pacatamente para lá e para cá, conhece uns quantos colegas de viagem, dá-lhes confiança, eles desencantam uma prima esquecida e, de repente, a nossa mais profunda e longínqua intimidade, os nossos mais obscuros segredos, aqueles que nos formaram o carácter, são publicamente expostos!


Ora vejamos. Já aqui se disse e aqui se repete que a Rapariga do Riso Fácil é prima do VM. Facto confirmado pelo próprio nos comentários ao post intitulado "As Teorias da ZC". O que não esperávamos, mas acolhemos com agrado, é que a prima revelasse interessantes pormenores da infância do VM.


Reza a prima que, ainda em tenra idade, há séculos portanto (!), certo dia, o VM roubou uns bolos à sua própria mãe que os acabara de cozinhar, esgueirou-se rua abaixo e foi oferecê-los a umas senhoras, uma delas viria a ser a mãe da Rapariga do Riso Fácil, que estavam a trabalhar fazendo capachos para a azeitona. Por aqui se percebe muito do estranho comportamento do VM que é aquele misto de irreverência com bonomia. Efectivamente, vistas as coisas a frio, ele roubou a própria mãe! Traço negro de carácter, portanto. Mas comeu-os? Não! Dotado de uma generosidade à Robin dos Bosques, foi oferecê-los às pobres trabalhadoras. Ora, estes dois traços têm-se revelado no Clã do Comboio. Todos os dias o VM nos rouba o nosso matinal direito ao descanso e todas as manhãs nos presenteia com o seu sentido de humor espalhando à sua volta uma aura de bem-estar e boa disposição.


É evidente que nós podíamos viajar sem o VM, mas lá que não era a mesma coisa, não era mesmo! É um companheiro indispensável à regulação da nossa disposição e o único que voluntariamente se oferece para fechar a porta automática(!!!) da casa-de-banho, e tanto nos tortura com piadas que o não são, como nos presenteia com tiradas do mais fino recorte humorístico.


Evidentemente que, de hoje em diante, ninguém traz bolos na lancheira, mas todos trazemos uma sã e sincera vontade de reencontrar o VM e somos contagiados pela generosidade do seu humor e da sua disposição.

O Clã do Comboio - A Rapariga das Palavras Claras

A Rapariga das Palavras Claras
Não pensei escrever este texto tão cedo. Tão depressa. Mas hoje recebi um mail que mudou tudo. Esse mail foi-me enviado pela Rapariga das Palavras Claras e é de uma sensibilidade tal que vim falar-vos dela quase como pretexto para o transcrever. Por isso, o coloco no fim deste texto. Porque é uma pérola cintilante da escrita. Posso enganar-me, mas esta miúda vai longe. Uma coisa de cada vez. Primeiro, vejamos como a conhecemos.

Era um fim de tarde. Era um interregional das 18:18 de Santa Apolónia para Tomar. Do Clã do Comboio juntaram-se a Mulher Vampiro, a Rapariga do Riso Fácil, o RB e o Escritor. A viagem foi animada. Conversas múltiplas e entusiasmadas, vozes plenas de amizade e partilha. Algo havia entre nós que nos levava absolutamente divertidos e envolvidos. O normal!

Ela entrou no Oriente. Magrinha, alta, cabelo curto e arredondado por cima dos ombros, a cabeça pequenina e redondinha onde gravitavam dois enormes e ansiosos olhos verdes a sorver a vida toda a volta. É daquelas pessoas que sorri com o corpo todo um sorriso que começa nos lábios finos, se estende ao franzir dos olhos e termina no encolher do peito para projectar os ombros como quem diz, "Que mais fazer senão sorrir à vida?". Trazia roupas claras e umas meias de cor creme todas rendadas a fazerem lembrar uma rede de pescador muito mal tratada. Ela era fantástica, mas o gosto para as meias estava a precisar de revisão como veio a confirmar-se. Nunca vi ninguém que tão rapida e avidamente se tivesse juntado ao Clã. E não foi só curiosidade, foi avidez de vida! Quis saber se éramos amigos antes de viajarmos juntos ou se tínhamos ficado amigos no comboio e deixou-se fascinar por esta segunda hipótese ser a verdadeira. Via-se que queria pertencer:
- É pena só vos conhecer agora. É que estou a acabar o curso e vou deixar de viajar!
E conversou. E assumiu com alegria que era inútil tentar trabalhar ao pé de nós. Não porque a incomodássemos, mas porque em nós havia essa preciosidade chamada amizade, afabilidade, vida! Percebi de imediato que era uma pessoa de luz!
Hoje voltou a encontrar-nos. Ia só o Escritor e a Rapariga do Riso Fácil. Mesmo assim, partilhou connosco pormenores do curso, sorveu-nos as piadas e tentou contribuir. E contribuiu. Trazia um top preto e um casaquinho de malha, uma saia florida e umas meias pretas rendadas a fazerem lembrar uma rede de pescador muito mal tratadas. Gozámos com o mau gosto para as meias, mas percebeu que a tínhamos acolhido no nosso círculo de simpatia. Não se importou de dar uma ajuda para "A Teoria do Bom Homem" que a Rapariga do Riso Fácil e a Mulher Vampiro estão a tentar escrever. Não vou revelar mais nada, mas há um aspecto que ela considera requisito nos homens que não resisto a revelar: "Bom homem para quem tem mau gosto". Está segura de si o suficiente para brincar com a sua própria imagem.

No primeiro encontro, assim que falou foi fácil baptizá-la. Todos concordámos que seria a Rapariga das Palavras Claras. E a razão era simples. Falava de forma assertiva e convicta e escolhia as palavras com acerto e propriedade.

Olá Rapariga das Palavras Claras, o Clã do Comboio sabe que te faltam dois exames e vem desejar-te boa sorte e bom trabalho. E o Clã vem dizer-te, pela mão do Escritor, que tens todas as razões para estares confiante, que o mundo fica em boas mãos quando, entre a sua juventude se encontram meninas-mulheres determinadas e seguras e com as palavras a reflectirem a clareza das ideias e a assertividade das atitudes. Volta sempre. Sabemos que voltarás pouco, mas sabemos também que em pouco tempo conquistaste um lugar no Clã. Um lugar e um nome!

Esta noite cheguei a casa, jantei, descansei um pouco e quando cheguei ao mail, tinha uma mensagem da Rapariga das Palavras Claras. Aqui fica como testemunho para que todos a conheçamos melhor:

"Não há como evitar que alguns dias pareçam não ter salvação possível, ou pelo menos que se afigurem absolutamente desencantados. Demasiadas tarefas por cumprir, tropeções em público, silêncios desconfortáveis, dúvidas há muito tempo pendentes ou apenas um alongado aborrecimento. Mas existem surpresas, existem sempre surpresas, que num instante ultrapassam qualquer sensação de tempo perdido e recordam a facilidade com que a maré se transforma e deixa aos pés do incauto viajante um presente para desembrulhar.
Se para nada mais do que isso, então cruzar-me convosco serviu para que me apercebesse do quanto estou a precisar de encontrar novas pessoas, pois confesso não me recordar da última casualidade em que tão rapidamente me senti ligada a perfeitos desconhecidos. A Mulher Vampiro, com certeza, não morde, o olhar é cúmplice como poucos, como se pouco existisse a distanciá-la ou distingui-la de cada um; o RB, na sua postura mais descontraída, não consegue disfarçar o traço da franqueza absoluta que lhe assenta sem qualquer esforço; a Rapariga do Sorriso Fácil num instante transparece o mais harmonioso optimismo, metade fé, metade confiança; e tu, o Escritor, que abates qualquer invólucro formal à primeira deixa, mostras que uma vida não chega, são precisas muitas, e que nada de bom se pode esgotar a não ser que o permitamos.

Encontramo-nos num desses interregionais do mundo?

A Rapariga das Palavras Claras"

"Com Amor," - Documento 21


Rui, meu homem Rui,
Não sei que te diga. Apetece-me ter a tua coragem e o teu desplante perante a vida. Pela primeira vez desde que nos escrevemos, vi ternura no teu atrevimento. Apetece-me pensar que o amor é um valor em si mesmo e que as outras coordenadas são geríveis separadamente, isoladamente. Mas, Rui, onde há amor, há sofrimento e uma mulher sabe isso. Toda a mulher sabe que, para amar, terá de sofrer. Toda a mulher sabe que, quando ama plenamente, pode contar com tudo, com toda a plenitude e todo o esplendor do amor, mas sabe também que não pode contar com nada. Nenhuma mulher vive segura do que representa para um homem ou do amor que ele lhe tem. São elementos, são sentimentos, são vectores incontroláveis e voláteis.
Não estavas a falar de sexo, Rui, eu sei, e foi isso que mais me assustou.
Verónica

"Com Amor," - Documento 20


Verónica,
Eu acho que, por vezes, as pessoas em geral e as mulheres em particular, têm medo de usar as palavras. E também acho que, por vezes, têm medo de as ver usadas. A linearidade com que os homens encaram a vida, dá-lhes a vantagem de saberem com mais facilidade o que querem dela e, como tal, de se posicionarem e usarem as palavras com menos cautelas. As mulheres, por sua vez, não sendo mais complicadas, discordo dessa teoria, são mais profundas, mais complexas e isso leva-as a medir com prudência todos os gestos e todas as palavras que são gestos também. Repara, tu escreveste-me e leste-me e nunca tiveste problemas com isso, mas assim que o assunto é o amor e sabes que implica outras pessoas porque tens filhos e sabes que sou casado e tenho filhos, retraíste-te imediatamente e enclausuraste o amor dentro de um jogo de prudências, medições e mediações que o matam completamente. Enfim, quase completamente. Vamos às palavras-chave do teu mail. "Implicações". São as que são. Tenho plena consciência delas à luz do que te disse e tenho também plena consciência de que só a mim cabe geri-las. Esse não é um problema teu, nem uma responsabilidade tua. As tuas implicações, isto é, as implicações na tua vida, cabe a ti gerir e não interfiro. "Lançar de escada". Que expressão tão infeliz, Verónica, que expressão tão infeliz. Perante uma afirmação tão profunda e tão séria, perante o colocar das pedras do amor no tabuleiro da vida, tu falas-me em lançar de escada. Expressão marialva e prosaica. Não sei se reparaste, acredito que sim, eu não falei de sexo, nem nada que se pareça. Eu disse que tu precisavas de amar e eu estava no teu caminho. Quantas formas tem o amor? Até o escrito é válido, Verónica. Afinal, não precisei mais do que escrever para ter para ti um significado maior do que o próprio Deus. "Perdida". Admito que sim, mas isso não invalida estares no meu caminho e esse ser um caminho de amor. O processo é simples. Precisas reencontrar-te, pacificar-te, e poderás, depois, perceber o que fazer com este caminho, mas não há dúvida de que estás nele tal como eu. Caso contrário o que significaria esta troca de mails? Não interessa que nos tenhamos zangado no início, Verónica, se vires bem, o que temos feito desde que nos escrevemos tem um nome: Chama-se NAMORAR!
Rui

O Clã do Comboio - As Teorias da ZC

As Teorias da ZC
Inicialmente, quando conheci a ZC, não tinha em mente escrever um texto. A ideia era só fazer duas ou três citações dela e juntar uma imagem a cada uma como é costume aqui do blogue. Acontece que as frases, as ideias e as teorias da ZC foram tantas e tão interessantes que decidi dedicar-lhe um pouco mais de atenção e escrever um texto.
Apanhou o interregional das 7:18 e sentou-se quase de frente para mim. Ficou junto às pessoas do Clã do Comboio. Tinha cerca de trinta anos, trazia um vestido curto de fundo branco e motivos florais, sapato alto, bem maquilhada, óculos de sol redondos e grandes, o cabelo em tom de amêndoa arredondado por cima do ombro e meias de vidro a evidenciar a linha das pernas. Era, definitivamente, uma mulher atraente e elegante. Eu ia a escrever e seguíamos todos em silêncio. Quando chegámos a Santarém entrou o VM, um dos três amigos que querem salvar o mundo. Começámos a conversar os três, eu, o VM e a Rapariga do Riso Fácil, sobre um projecto comum que consiste na escrita de dois textos para eu publicar aqui no blogue. A Rapariga do Riso Fácil e a Mulher Vampiro vão escrever "A Teoria do Bom Homem" e o VM, o RB e o JJ, vão escrever "A Teoria da Boa Mulher".
Ora, foi quando a Rapariga do Riso Fácil nos contou alguns tópicos do texto delas que a ZC interveio:
- Mas isso está perfeito. Os homens são mesmo assim.
Nós sorrimos e recebemos bem a intervenção dela porque somos pessoas receptivas e inclusivas. Não sabíamos é que ela era um manancial inesgotável de teorias:
- Outra coisa perfeita é o meu nome.
Olhámos para ela e ela não se conteve:
- Chamo-me ZC.
- De facto, pouco comum. Adiantou o VM.
E foi então que ela se lembrou de contribuir para a teoria do bom homem. Olhou para a Rapariga do Riso Fácil e disse:
- Sabe o que falta aí?
Silêncio. E ela acrescentou:
- Homem que é homem tem de ser trabalhador e tem de nos dar dinheiro a nós!
Novo silêncio. E ela voltou a acrescentar:
- E ajudar! Aspirar a casa, arrumar a cozinha...
Aí, eu tentei sintetizar a teoria dela:
- Bem, segundo a sua teoria, as mulheres não querem um homem. Querem uma mulher a dias e um cartão de crédito.
Como se fez um silêncio, pensei que a ZC tinha encaixado a síntese, mas enganei-me. Ela tinha algo a acrescentar à sua própria teoria:
- Sabe, isso do homem a dias não chega.
Novo silêncio. E ela acrescenta:
- Também tem de ser bom na cama!
A malta não se conteve e largou uma gargalhada. A Rapariga do Riso Fácil disse que aquilo era importante mas não era tudo. Eu esclareci que com a última característica ainda era capaz de arranjar um homem, o pior eram as outras duas. Até a avisei de que se ficasse à espera de encontrar um homem com aquelas características todas, era capaz de vir a sofrer de solidão. E foi então que eu fiz um comentário cujo objectivo era só pô-la a pensar. E pôs, só que não foi da maneira que eu estava à espera:
- Então a senhora não acha que o bom homem também deve ser arguto, perspicaz...
E a resposta veio redonda e contundente:
- Palavras bonitas, essas. O senhor usa palavras bonitas. Eu gosto de palavras bonitas. Por exemplo, gosto de "casa a arder".
Aí, olhámos uns para os outros, fizemos um ar interrogativo, o silêncio acumulou-se, até que a senhora percebeu que nós não tínhamos percebido a história da "casa a arder" e explicou:
- Por exemplo, a gente em vez de dizer "foda-se", pode dizer "a casa a arder"!
Silêncio generalizado. Estupefacção total. A malta a imaginar frases e nada. O VM cometeu o erro de tentar salvar a situação desviando o assunto e vai daí, sai-se com esta:
- Pois, as mulheres são inteligentes e os homens uns analfabetos...
Pelo andar da carruagem, eu desconfiei que aquilo não ficava sem resposta. E não ficou. A ZC apressou-se a esclarecer:
- Exactamente. Eles têm de ser trabalhadores, ganhar dinheiro para a gente e ser bons na cama. Não interessa nada que sejam analfabetos porque a gente educa-os. Se não der, ala!
E bateu com uma mão na outra a fazer o gesto de "põe-te a andar!"
Por esta altura, o cantinho do Clã do Comboio ia ao rubro e um senhor que viajava ali ao pé e se apresentou como FN quis dar uma ajuda porque ainda havia poucas teorias no ar(!!!):
- Pois claro, o homem faz a mulher e a mulher faz o homem.
A ZC apressou-se a concordar, a Rapariga do Riso Fácil ora se ria, ora ficava muito admirada, o VM e eu olhámos um para o outro, encolhemos os ombros e eu rematei:
- E eu a pensar que Deus é que os tinha feito aos dois!

Isto já dava matéria para uma tese. Não era preciso que a ZC acrescentasse mais nada, mas há dias em que o Clã é assim: uma fonte infindável de informação. Por isso, aqui fica o remate da viagem.
Para percebermos se íamos poder contar com a presença assídua da ZC, perguntámos-lhe se ela era passageira frequente. É que podia ser mas viajar noutra carruagem:
- Não. Quase nunca venho. Hoje vim ao médico. É que fui operada à mão.
E mostrou uma das mãos com um dedo todo cosido num zigue-zague infindável de pontos que mais parecia o pesponto duma bainha. Mais uma vez, o VM, que já devia ter aprendido quando é que se fica calado, perguntou:
- Um problema nos tendões?
- Não. Cortei-me com uma faca. Um dia, o meu marido estava a falar para mim, a chatear-me a cabeça, e eu estava a descascar batatas. Comecei às facadas às batatas, a faca partiu-se e eu cortei-me.
Aí, o VM arrependeu-se, encolheu-se na cadeira e tentou rematar a conversa:
- Pois, são coisas entre as mulheres e os maridos.
- Sabe quando é que eu ficava feliz? Quando o visse estendido numa cama em coma profundo!

Oriente.
O comboio pára. Saímos. Eu incluído que nesse dia precisava sair no Oriente. Eu, o VM e o Aluno do Escritor, seguimos uns momentos lado a lado sem dizer palavra. A ZC, com a sua elegância, a crueza das suas palavras e a contundência das suas teorias, tinha chegado para nós. Em diversão e em apreensão.

É assim, o Clã do Comboio, uma caixinha de surpresas. E agora vou trabalhar para ganhar dinheiro para dar à minha mulher e a seguir vou lavar a loiça e depois vou para a cama... dormir! Nisso, sou bom. Muuuiiiito bom!

De Volta!

Caros leitores,

a ausência de posts neste blogue durante os dois últimos dias deveu-se a uma quebra de serviço por parte do Blogger por motivos de ordem técnica.


"Mails para a minha Irmã" está bem vivo e haverá novos textos muito em breve!


Obrigado


JPV

O Clã do Comboio - A Rapariga do Riso Fácil

A Rapariga do Riso Fácil
É a mais recente aquisição do Clã do Comboio.
Por uma qualquer razão, eventualmente masoquismo recalcado, esta simpática moça engraçou connosco e, imagine-se, até parece gostar da nossa companhia.
Conhecemo-la no Metro, mas sabíamos que viajava no interregional das 7:18 porque a víamos entrar e sair da grande lagarta metálica. Ora, numa dessas manhãs cheias de entusiasmo, atrevi-me a meter conversa com ela e, alguns dias depois, o RB convidou-a para a nossa carruagem. E ela aceitou. É a Rapariga do Riso Fácil.

Traz no olhar a alegria natural de quem crê nas pessoas e nas coisas e de quem espera sempre o melhor de tudo e de todos. E nesse mesmo olhar transporta um sorriso que lhe nasce nos lábios e brilha através dos olhos castanhos. Tem o cabelo castanho-escuro comprido, uma face alva e feliz, uns óculos de vidro de design arrojado e é baixinha. Baixinha, mas harmoniosa. Marca-a uma boa disposição constante, a vontade, diria mesmo o impulso de comunicar com as pessoas e fá-lo sempre rindo. Ri porque gosta e ri porque à sua volta, à volta do brilho do seu olhar e do sorriso desenhado pelos lábios finos, há sempre uma aura de alegria e boa disposição. E foi com este espírito que veio até ao nosso pequeno universo de passar as manhãs e os fins de tarde em trânsito num comboio. Depressa se mostrou resistente às graçolas do RB e do Escritor e mesmo capaz de responder-lhes com pertinência. Gosta da música da Mulher Vampiro e tal como ela prefere livros técnicos a romances e lê quando a deixamos! A sua chegada e a sua integração aconteceram enquanto o VM foi ao estrangeiro trabalhar, disse ele. Tanto quanto sei, pode ter estado fechado no quarto a ver televisão! Quando voltou e lhe quisemos apresentar a Rapariga do Riso Fácil, descobrimos que o mundo é pequeno, mesmo para a imensidão que é o universo do Clã do Comboio. Já se conheciam, são da mesma terra, tratam-se por primos, ou melhor, o VM trata-a por prima e ela... ri-se! Enfim, parece que ele é padrinho da melhor amiga dela.

Em todo o caso, o que me surpreende na Rapariga do Riso Fácil é a facilidade com que se ri de si, de nós, do universo que a rodeia, das nossas piadas, as mais e as menos conseguidas. É uma companheira activa que trouxe a este clã uma centelha de luz e um sonoro e entusiasmado riso matinal.

Este clã, outrora povoado por presenças esporádicas e anónimas, está a ficar mais consistente dentro dos limites da sua vulnerabilidade. A teia de relações cresce com duas balizas. A de não termos nada a ver uns com os outros e a de termos algo em comum: muitas horas do dia partilhadas no mesmo espaço. E cada um de nós acrescenta um laço, configura uma presença. A Rapariga do Riso Fácil chegou e marcou a sua presença. Uma presença de simpatia sempre pronta a uma gargalhada cristalina.

Bem-vinda ao Clã do Comboio, Rapariga do Riso Fácil. Sabes, o mundo é pequeno, mas é nosso.

O Clã do Comboio - Para Mais Tarde Recordar

Para Mais Tarde Recordar
O Clã do Comboio está a tornar-se um caso sério de camaradagem em viagem. Camaradagem e boa disposição. E, mais do que tudo o resto, comporta-se, cada vez mais, como um clã. Um clã de atenuar o tempo das nossas vidas que decorre em transportes públicos e, muito em particular, no comboio.

Uma destas tardes, no interregional das 18:18 deu-se uma sucessão de sucedidos absolutamente invulgares e que nos ajudam a conhecer melhor as personagens e o espírito do Clã.

Quando entrei na carruagem em Santa Apolónia, só lá estava a Mulher Vampiro e, como acontece de tarde, ao contrário do que acontece de manhã, ia muito bem disposta. Não estava no seu banco. Estava de frente para ele. E porquê? Porque o seu banco estava ocupado por um simpático moço. Eu não sabia que ele era simpático, mas vim a saber mais tarde. Pensei que a viagem ia ser tranquila. Enganei-me. Ainda não me tinha sentado, entrou um dos três amigos que querem salvar o mundo, o RB, que, além de muito bem disposto, vinha perfeitamente irrequieto. Trazia com ele o JA. O JA é um simpático e pacato amigo dos três amigos que querem salvar o mundo que, de vez em quando, é vítima da companhia deles. O RB trazia a cabeça cheia de teorias para salvar o mundo de pessoas como ele e o VM! Enfim, lá foi dizendo o que é que o FMI devia fazer, quais as melhores medidas e, em menos de nada, informou o rapaz que ia sentado no lugar da Mulher Vampiro que ele era um usurpador de um lugar cativo. O moço riu-se e, imagine-se, ofereceu-se para ceder o lugar! Eu não disse que ele era simpático? Até sair, em Santarém, lembrámo-lo para aí uma cinquenta vezes que ia num lugar que não lhe pertencia. Acho que ficou convencido porque, quando saiu, praticamente obrigou a Mulher Vampiro a voltar para lá. Ela voltou e o mundo ficou um lugar melhor para se viver.

Toda a viagem teve uma outra novidade: a Rapariga do Riso Fácil. A ela dedicaremos um texto exclusivo, no entanto, era impossível não referi-la nesta viagem por algumas razões. Primeiro, porque tem, de facto, o riso fácil. Até se ri das piadas do RB! Depois porque gostou daqueles ferros a bater que a Mulher Vampiro leva nos ouvidos e a que chama música e, por fim, porque é uma figura que promete ser inspiração fértil para o Escritor. Senão vejamos, logo na sua primeira viagem enquanto elemento cooptado para o Clã, insultou o Escritor com comentários depreciativos a fingir que eram graçolas.

Ora, o ponto alto da tarde foi quando deu um ataque de mímica à Mulher Vampiro. Primeiro, confrontada com o facto inegável de que já tinha sido vista a babar-se enquanto dormia no interregional das 7:18, imitou uma pessoa a dormir e a babar-se. Depois, para mostrar que babar-se não era o mais ridículo que lhe podia acontecer, demonstrou como era uma pessoa, ela, a limpar os dentes com a língua. E fez o gesto! Ou isso, ou estava mesmo a precisar de limpar os dentes. E, por fim, cúmulo dos cúmulos, fez aquilo a que nós chamámos bambolear-se. Enfim, enterrou-se pelo banco a dentro num ritmo sambado de abanar-se para a direita e para a esquerda. Acho que a ideia era provar que os bancos são confortáveis. Nós achámos que a viagem tinha atingido o extremo do ridículo mas o rapaz que ia ao lado da Mulher Vampiro, vá-se lá saber porquê, fez o mesmo gesto e disse:

- Bambolear é bom!

A Rapariga do Riso Fácil, em vez de ficar envergonhada com tudo isto, gostou! E prometeu voltar no dia seguinte. E voltou! Enfim, há pessoas que sofrem por gosto.

O certo é que foi um fim de tarde diferente, muito marcado por alguma excitação antecipatória de fim-de-semana, com as teorias absurdas do RB e as suas piadas sem piada, as loucuras da Mulher Vampiro, o riso da Rapariga do Riso Fácil e a estupefacção de algumas pessoas decentes que não nos conheciam. No final, contudo, o dia de cada um pareceu ficar mais leve, mais harmonioso, como se os deuses nos tivessem sorrido.



Nota: Ouvi falar pela primeira vez num almoço do Clã do Comboio. Provavelmente nunca vem a acontecer, mas não será pior referi-lo para memória futura!

"Com Amor," - Documento 19


Rui,fiquei preocupada com o teu mail anterior. Não quanto a Deus e ao entendimento que temos da Sua presença nas nossas vidas. Esse assunto fica encerrado por agora.
Mas o teu PS. Não sei se escreveste o que escreveste consciente das implicações do que lá está escrito. Não sei se aquilo era um lançar de escada, como se costuma dizer, se era uma forma amistosa de terminar um texto, ou se há, por trás do que lá está escrito, um universo de sentimentos sérios e significativos. As mulheres, Rui, esta mulher, Rui, não brinca com certas palavras ou, pelo menos, não as usa levianamente.
Surpreendeste-me.Há ali um atrevimento que vindo de ti não me espanta. Só não sei o exacto teor dele. Fiquei preocupada, Rui. Preocupada e perdida.
Beijo, Verónica.
PS: Se estiveres no meu caminho, não sei em que caminho estou.

"Com Amor," - Documento 18


E quem me pôs no teu caminho para te ouvir?Eu posso ser o instrumento de Deus na tua resiliência com Ele. Já te disse, não sou nenhum beato puritano, mas não viemos do nada nem estamos sós.
Rui
PS: Tu precisas de amar, Verónica. precisas muito de amar. O teu caminho é o amor e eu estou no teu caminho.

"Com Amor," - Documento 17



Já te disse uma vez, Rui, que a minha religião é o amor. Vou tentar pacificar o meu coração numa convivência tácita com Deus, uma espécie de pacto de não agressão. Mas não Lhe concedo mais do que isso. Até tu, Rui, até mesmo tu que me enervas e me irritas com o teu atrevimento e despudor, já fizeste mais por mim do que Deus.
Tu OUVISTE-ME, Rui!
Verónica

"Com Amor," - Documento 16


Pensa o que quiseres.Esse mesmo Deus que queres expurgar da tua vida está em ti pelos teus filhos!

Feira Medieval da Torres Novas

(Pormenor do Castelo durante a feira. Foto de Ana Ludovino.)

Pelo segundo ano consecutivo, Torres Novas tem a brilhante iniciativa de realizar uma feira medieval. A feira estende-se por toda a zona da cidade velha e incorpora o castelo. A feira tem actividades, gastronomia, demonstrações, exposições, apresentação de animais, uma colónia de pessoas que vive ao jeito da época medieval, procissões e este ano teve a representação da chegada do Rei Menor.
-
A iniciativa tem mobilizado toda a cidade e é um misto de evocação histórica e cultural com uma festa popular. É, sem dúvida, um evento a visitar.

Lição de Humanidade!

Por favor, não deixem de ver o final!
A não perder!

Nota de Agradecimento Público

No final de um dia preenchido, intenso, complexo e um bocadinho complicado, a máquina de café decidiu ficar fora de serviço. Lamentei-me sem pedir nada e, precisamente do nada, nasceu um lanchinho de retemperar forças e dar ânimo para o resto da jornada.
-
A amizade e o companheirismo não se manifestam só nem sobretudo nos grandes gestos, mas sim nas pequenas atitudes que confortam e ajudam a superar as dificuldades.
-
Pelo cafezinho com bolachinhas na hora exacta, o meu agradecimento público à IP, SC e à TL. Se eu podia viver sem elas? Poder, podia, mas não era a mesma coisa!

O Clã do Comboio - Rapariga com Brinco de Pérola

Rapariga com Brinco de Pérola
Nunca chega tarde à estação. Ainda na plataforma, acende um cigarro, fuma-o tranquilamente e fica com um meio sorriso à espera do Interregional das 7:18.
Normalmente usa calças de ganga, uma blusa ou uma camisa e um casaco de cabedal preto por cima. Também pode trazer uma saia larga em ganga ou sarja. O que ela nunca deixa em casa é o sorriso simpático, o olhar redondo e azul e o seu ritual de abrir um livro e lê-lo avidamente. Lê em francês, em inglês ou em português e lê sempre. De todo o clã é a que mais rapidamente devora as suas leituras. Todas as semanas muda de livro e há semanas em que lê mais do que um. Digamos que, enquanto um dos amigos que quer salvar o mundo, o VM, lê um livro, ela devora meia biblioteca municipal. Tem um marcador de página curioso. É um objecto em prata em forma de ponto de interrogação mas todo trabalhado em ramagens e peixinhos e um golfinho mergulhando, na ponta.

Aguenta estoicamente as piadas do escritor e dos três amigos que querem salvar o mundo. Tem a face clara e redonda como o olhar, os cabelos castanhos compridos caem-lhe pelos ombros. Junta ao seu hábito poliglota de ler um cumprimento matinal sonoro e sorridente o que denota uma boa disposição que já lhe fez conquistar um lugar no Clã.

Um dia destes, contudo, algo a tornou particularmente interessante. Apanhou o cabelo e a face arredondada ficou mais clara, o olho azul brilhou mais forte e enfeitou o quadro com uma pérola singela em cada orelha. Assim, de repente, parecia mesmo a pintura do Vermeer, com as devidas distâncias, claro está.

Bem-vinda ao Clã, rapariga com o brinco de pérola!

"Com Amor," - Documento 15


Desculpa, Rui, se te magoei ou ofendi. Em todo o caso temos aqui um problema. Tu disseste que eu era tua amiga. Ora, os amigos dizem o que pensam uns aos outros. Eu sinto que Deus é uma fraude porque fui sempre abandonada por ele. Nunca me sobreveio. Até pelos filhos, Rui, até por eles tive de lutar. Lamento que possa magoar-te, mas se eu não posso escrever-te o que sinto e penso, então que sentido faz continuarmos a conversar?
Vivi dificuldades em pequena, Rui. Talvez todos as tenhamos vivido. As minhas foram agravadas pelo temor a Deus. Pelo medo constante do castigo, por decorar orações cujo significado desconhecia, por praticar rituais de obrigação, por ser tocada, ainda menina, pelas mãos do padre sabujo e ter de calar porque ele era Deus e eu seria uma mentirosa se pensasse revelar o que quer que fosse. E, mesmo assim, Rui, procurei-o. Fui ao seu encontro, refugiei-me na Sua palavra. Rezei. Casei-me segundo as Suas regras e depois, Rui, foi em Seu nome que tive de calar a violência de que era vítima. Era eu ou Deus e durante muito tempo foi Deus. Até que a mulher em mim, a dignidade que restava, resolveu erguer-se. E quando me ergui, Rui, foi em nome de Deus que deixaram de falar-me, que a minha própria família me virou as costas e me negou apoio. Eu tinha crianças para alimentar, Rui.
Esse Deus que tu vês só existe nos desenhos animados da Walt Disney!
Fui eu que venci, Rui. E tive de vencer Deus na terra. E sofrer.
Verónica

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